5. LÆRERYRKET I NORGE
6.1 F UNN FRA INTERVJUENE MED LÆRERSTUDENTENE
6.1.3 Differensiert lønn basert på prestasjoner
O primeiro capítulo permitiu-nos mapear os desdobramentos da crítica sobre Macunaíma, no período de 1928 a 1954. Nossa proposta, neste momento, é de retomar estas imagens buscando ressaltar os momentos em que os críticos deixam transparecer suas opiniões, sugestões e impressões que possibilitem a identificação de um viés impressionista em suas produções.
Excluindo o período de lançamento da obra – 1928 e 1929 – rico em produções sobre Macunaíma, os anos de 1945 e 1946, um pela morte de Mário de Andrade e outro pela lembrança de um ano de sua morte, foram os períodos de produção mais representativos sobre Macunaíma, o ano de 1946 traz também a nova edição da obra publicada pela Martins.
O ensaio Macunaíma (1928), de Tristão de Ataíde, praticamente abriu a série de artigos sobre Macunaíma e com certeza serviu de ponto-de-partida para que outros críticos pudessem explorar os tópicos enumerados por Ataíde, uma vez que os comentários foram baseados nos prefácios do próprio Mário de Andrade, conferindo credibilidade aos assuntos tratados, os quais envolveram, em especial, a caracterização do personagem Macunaíma, o gênero literário, o caráter pornográfico, a disposição geográfica e temporal da obra. Assuntos esses que, como pudemos constatar, foram reiterados por muitos críticos e permitiram-nos organizar a recepção de Macunaíma de 1928 a 1954 a partir dos referidos temas.
Nos primeiros textos, as sinestesias, metáforas, personificações revelaram o quão complicado parecia ser para os autores analisar
Macunaíma. As características atribuídas à obra por meio dessas figuras se mantinham subjetivas e superficiais, indicando uma possível insegurança diante do desconhecido. Desde essa época já se requisitava um glossário que facilitasse a leitura para os iniciantes (FERNANDES, A., 1929). Essa preocupação em disponibilizar o acesso à leitura de Macunaíma aos
estudantes (“moços”) embora reiterada nas décadas de 30-40 (BRAGA, 1937; PEREIRA, [1937?]; CARDOZO, 1945), se concretizaria, efetivamente, apenas em 1955, com o Roteiro de Macunaíma, de Cavalcanti Proença, ou seja, os subsídios para a compreensão de uma obra mais complexa tardam a aparecer limitando-a a um círculo restrito de literatos e, por conseguinte, excluindo-a da classe menos privilegiada culturalmente.
Sabemos que a falta de teorias e de material sobre a obra dificultaram as primeiras leituras, porém estas foram extremamente necessárias para a divulgação de Macunaíma, já que a imprensa jornalística praticamente monopolizava o mercado na década de 30, como um dos únicos veículos de acesso às novidades tanto da área econômica, como social e cultural. Especificamente no setor cultural, conforme comentamos anteriormente, o espaço reservado à crítica das obras literárias era restrito no jornal, daí a configuração dos artigos em curtos e diretos. Mesmo assim, foi possível mapear o comportamento da crítica a partir destes documentos, que apesar de concisos no tamanho, não o são em idéias. Idéias estas que muitas vezes foram transmitidas por meio de impressões e sugestões, configurando-se, portanto, como crítica impressionista.
Esse sentimento de “impotência” diante da obra inovadora levou muitos autores a sustentarem seus comentários a partir de outros preexistentes. E para Tristão de Ataíde não foi diferente, uma vez que fora um dos primeiros a se manifestar sobre Macunaíma, mostrou-se inseguro e até mesmo “em cima do muro” em seus escritos (1928-1929), limitando-se praticamente a transcrever os dados que retirara dos prefácios inéditos de Macunaíma, trazidos ao público por Ataíde sem a autorização de Mário de Andrade. Em seu ensaio “Macunaíma” (1928), não foi possível determinar com precisão qual “modelo” de crítica foi utilizado – o impressionista ou o expressionista –, este último criado pelo próprio crítico, conforme comentamos na Introdução desta tese. Contudo, a partir das poucas inserções do crítico, apontadas no capítulo anterior (item 2.1), tais como o comentário “o livro é longo demais. Cacete muitas vezes como na imensa carta, em estilo médico-purista, que o
nosso herói escreve às suas súditas do Uraricoera, bancando a ‘lettre persane’”; é possível asseverar que a crítica de Ataíde neste ensaio pende de um lado para o impressionismo ao considerar o livro muito extenso e cansativo, emitindo uma opinião pessoal e subjetiva; de outro lado inclina-se para o expressionismo, quando o crítico recorre às “Cartas Persas”, de Montesquieu, na tentativa de definir o estilo do capítulo “Carta pras Icamiabas”; neste caso Ataíde constrói sua crítica de maneira mais objetiva e abrangente, pois confronta uma passagem de Macunaíma em relação à outra obra, assim, ele se aproxima mais de sua proposta expressionista, desviando-se da “pura impressão subjetiva”. Entretanto, como este primeiro artigo é uma colcha de retalhos construída a partir dos documentos de Mário de Andrade, não podemos considerá-lo de todo impressionista ou expressionista, uma vez que são poucas as inserções de Ataíde neste texto.
Esta atitude de Ataíde deve-se, também, ao fato do mesmo estar passando por uma fase de extremas mudanças devido à sua conversão ao catolicismo, que ocorrera por volta de 1928, influenciando diretamente a sua produção intelectual, levando-o a abandonar a postura imparcial e a assumir mais critérios éticos no julgamento das obras estéticas.
Lafetá (1974, p. 67-68) destaca que mesmo Ataíde ocupando a maior parte de seus estudos com a militância católica, e apesar das afirmações em contrário, “sente-se com facilidade, através da leitura de seus artigos, que o Brasil e os problemas nacionais permanecem como alvo importante de suas inquietações”. Talvez seja por isso que Ataíde tenha optado por apresentar
Macunaíma a partir dos prefácios inéditos de Mário de Andrade, afinal, por trás da exposição dos documentos está a escolha do crítico que teve a opção de selecionar este material, e esta escolha sim é pessoal, e pode variar dependendo do ponto de vista e das visões do crítico.
Ao caráter subjetivo de interpretação da obra somamos o que acreditamos se tratar dos primeiros indícios de um suporte teórico advindos não exatamente da literatura ou da lingüística, mas sim da psicanálise. Como vimos em Nestor Vítor (1928), que buscou em Freud explicações para o
processo onírico utilizado por Mário de Andrade na composição dos personagens de Macunaíma e na constituição da obra como um todo, conforme se expressa Vítor (1928): “Além disso, tudo até certo ponto, escrito com legítimo bom humor. Uma vez que nos adaptemos à atmosfera fedorenta, bem freudiana do livro, lardeado de fescenismos a cada passo”.
João Pacheco também demonstra afinidades com a psicologia, em seu primeiro comentário, datado de 1928, alerta para o comportamento de Macunaíma: “às vezes se pensa no “eu” completamente abstrato (apesar de uns psicólogos dizerem que é impossível) então sim Macunaíma cai fora e fica um bamba, de modo que... O bicho está bem retratado [...]”. Mais adiante, no mesmo artigo, cita Freud como um dos sábios que estudam e aprendem com a linguagem do povo.
No artigo “Macunaíma e a esfinge”, de 1945, João Pacheco retoma esta questão e destaca a tentativa de Mário de Andrade colocar na ficção – com as devidas limitações que o gênero oferece – a “psicanálise da nossa cultura”. Para explicar o trajeto do autor na construção de Macunaíma, Pacheco coloca que Mário de Andrade recolheu as lendas primitivas da Amazônia e “entregando-se ao processo de rememoração inconsciente, partiu para a reconstituição de toda a subconsciência nacional: tudo nos vem aí de cambulhada, aflora à consciência e imerge de novo no inconsciente, [...]” (PACHECO, 1945 – grifos nossos).
Como pudemos observar, a análise psicológica, baseada nos estudos freudianos e nas contribuições de Sainte-Beuve, foi recorrente no material analisado, ora utilizada para buscar correlações entre o autor – Mário de Andrade – e a construção de seu personagem – Macunaíma (ATAÍDE, 1928; VÍTOR, 1928; PACHECO, 1928; SCHMIDT, 1928; LIMA, 1929; NEME, 1946 e outros); ora para caracterizar os personagens da obra e até confrontá-los com outras obras (MEYER, 1929; PEREIRA, 1937; PACHECO, 1945; MOTA FILHO, 1946).
Uma das dificuldades apontadas pelos críticos para a compreensão da obra, inclusive comentadas pelo próprio Mário de Andrade no prefácio
utilizado por Tristão de Ataíde (1928), consiste do caráter atemporal e “desgeográfico” pelo qual o personagem Macunaíma perpassa suas andanças, deixando o leitor entregue a toda sorte de aventuras, as mais inusitadas e por vezes as mais previsíveis. Esta questão chegou a ser discutida por Nestor Vítor (1928) como um recurso pelo qual se atingiu a
[...] quarta dimensão suspeitada pelos einsteinianos. Aquela em que pode ser que vivam os espíritos. Para essa fauna supostamente humana e o espaço e o tempo a que vivemos sujeitos não existem. De um instante para o outro eles [personagens] se transportam a distâncias enormes.
O deslocamento dos personagens é um dos indícios utilizados por alguns articulistas para confirmar o caráter fictício da obra. Contudo, os mesmos também não deixam de apontar passagens que a retratam como símbolo do nacionalismo brasileiro. Nesse sentido, a contribuição de João Pacheco – em “Macunaíma e a Esfinge” (1945) – ratifica o quanto esta obra continua viva, como uma questão de consciência nacional.
Pacheco (1945) retoma passagens que até hoje também nos incomodam, quem não presenciou ainda este ano, uma situação assim: “– Mas você dispõe de recursos, Macunaíma, porque não vai [à Europa] com dinheiro próprio? [...] – Poder ele podia, mas seguir com dinheiro do governo não era muito melhor”; ou então esta, na qual Macunaíma sugere fazer justiça com as próprias mãos: “[...] já que o Governo cerra os olhos e delapida os cofres da Nação, sejamos nós mesmos os justiçadores [...]”.
Apesar da recusa de Mário de Andrade em admitir Macunaíma como símbolo nacional, as críticas apontaram fortemente para esta identificação. Houve poucos casos de recusa e muitas divergências entre os motivos que levaram cada um a classificar o herói como símbolo nacional. Pacheco (1928; 1945), por exemplo, em seu primeiro comentário (1928) reconhece Macunaíma nas atitudes das pessoas com quem convive; no segundo (1945) recorre às ações do próprio personagem em comparação a situação atual do país. Ronald de Carvalho (1928) concorda em parte com esta representação,
mas não explica por que. Mota Filho (1928) também faz uma identificação “parcial” de Macunaíma com o Brasil, afirma que o lado emocional do herói representa o país, mas o lado racional, o da “inteligência”, este não. Alcântara Machado (1928) coloca Macunaíma como representante de todo o povo brasileiro, nele tem um pedacinho de cada um de nós, até de Mário de Andrade. Ronald de Carvalho (1928) aceita como representante de “uma parte” do Brasil, mas não explica claramente como é esta parte. Ascenso Ferreira (1928) é um dos únicos que descarta totalmente esta representação. Jorge de Lima (1929) também não concorda totalmente com esta classificação e recorre a reflexões psicológicas para explicar sua recusa. Augusto Meyer (1930) concorda com a representação e busca comprovar sua hipótese por meio das ações do herói. João Pacheco (1945) revela que Macunaíma é definitivamente uma representação e reforça sua posição citando ações do herói. E, finalmente, Florestan Fernandes (1946) o último a se pronunciar sobre este aspecto, também aponta Macunaíma como símbolo e toma como exemplo a constituição do herói – culturalmente híbrido.
Uma característica que observamos ser recorrente entre os artigos analisados é o uso de metáforas, personificações, metonímias e demais figuras de linguagem, na tentativa de expressar determinadas características do autor, da obra e de seus personagens.
Consideramos esta recorrência às figuras de linguagem, em especial à metáfora, como uma característica da crítica impressionista por analogia às características da linguagem utilizada pelos escritores impressionistas, apontadas por Afrânio Coutinho (1976/1990) ao tratar do Impressionismo na literatura. Em sua obra Introdução à Literatura no Brasil, no capítulo “Simbolismo, Impressionismo e Modernismo”, Coutinho indica um conjunto de traços preferenciais de estilo, sintaxe e figuras que caracterizam o Impressionismo literário, a saber: a) impassibilidade e impersonalidade; b) sintaxe esquemática, em oposição à sintaxe estruturada, clássica; c) a ordem inversa da frase, o anacoluto; d) supressão da conjunção, que liberta e anima a frase; e) o modo imperfeito, que visa a dar ao leitor a impressão de que assiste ou testemunha os fatos descritos; f) uso largo da metáfora e do
símile; g) linguagem expressiva, colorida e sonora; h) linguagem da fantasia e imaginação, liberdade de expressão, animação, riqueza de imagens (cf. COUTINHO, 1976/1990, p. 226).
A personificação, figura responsável por conferir características e comportamentos humanos a animais e seres inanimados, é freqüentemente utilizada pelos críticos. José de Araújo Vieira (1928) personifica a língua portuguesa ao comentar sobre as diferenças da língua falada e da escrita no Brasil:
A língua portuguesa empobreceu, passando-se para o Brasil; já veio com roupa de faina, e, cá, deixou-se em mangas de camisa, sem o colete, e de “pés no chão”. Mas teve que arrumar-se no mesmo mocambo com o tupi-guarani, com o africano, como a onça com o bode, havendo que inventar nomes para modos de viver diversos, sentimentos outros, ideais novos: deu noutra língua, como era fatal. (VIEIRA, 1928).
Esta mesma figura também é utilizada por Alcântara Machado (1929) para descrever a disposição dos períodos: “Os períodos dançam, sapateiam, rebolam”.
Mário Neme (1946, p. 110), por sua vez, recorre a personificações, comparações metafóricas e sinestesias para expressar o estilo de Mário de Andrade: “É um estilo morno, de uma mornidão que acalenta, que descansa, que desafoba. Enternece como a calmaria de um rio largo e profundo. Rio pachorrento num fim de tarde sem ruídos abrutalhados. Sem baticum de bicharia besta”.
Quanto à metáfora, diversos autores exploraram essa figura em seus escritos, dentre eles percebemos ser freqüente o apelo ao vocabulário da culinária (iguarias e frutas), da construção, dos costumes da época, entre outros para representar aspectos de Macunaíma. Sobre o livro em si, João Ribeiro (1928, p. 10), por exemplo, se expressa da seguinte forma: “Só uma cousa transpira desse montão de palha incendiada, é o fumo que revela um fogo interior, oculto e ardente” (grifos nossos).
Para explicar a língua utilizada por Mário de Andrade em Macunaíma, Rubem Braga (1937) afirma que o autor
faz parte de um pequeno clube fechado de gastrônomos que há em São Paulo. E faz gastronomia na linguagem também – o paladar do povo é simples. Se Mário de Andrade fosse preparar um vatapá, ele faria um vatapá tão bem feito, tão em regra, tão profundamente baiano, seguindo tantas recomendações de regras especialistas, que nenhum baiano gostaria do vatapá dele. (grifos nossos).
Utilizando-se do mesmo recurso semântico, José de Araújo Vieira (1928) afirma que, para produzir Macunaíma, Mário de Andrade, “preparou a língua brasileira com café, mel de pau, castanha, cupuaçu, dendê, resinas, pimenta, muita pimenta, sem receita”. Em outro momento, Vieira continua: “O brasileiro será um português em salada. Maçã no meio de banana, caju, jenipapo, manga-rosa, sapoti, ariticum27, etc.”. E também se utiliza de outros referentes para descrever a chegada de Macunaíma:
Mário de Andrade pretendeu atordoar o ouvido habituado às melodias enternecedoras, que quis desmanchar a casa branca da serra, feita de pinheiro europeu, para levantar outra mais forte e mais nossa, com madeiras do Pará. Mas botou só o material no terreno, evitando um trabalho arquitetônico, certo que transitório, porém necessário, porque a gente tem que morar debaixo de um teto, [...] (VIEIRA, 1928).
Ao final do ensaio conclui seu comentário a respeito da língua de
Macunaíma, carregado de comparações figuradas:
A língua de Macunaíma, em última análise, é uma língua verdejante, com cheiro de flor silvestre, rebentada de fresco, mas é uma mata intrincada, de acesso difícil, quando aquilo tudo poderia ser preparado como esses bosques municipais (Mário de Andrade há de ter visto o de Belém), onde as árvores nativas subsistem, porém onde se pode andar sabendo o lugar em que se pisa, porque a terra está limpa e os troncos desembaraçados. (VIEIRA, 1928 – grifos nossos).
27 “Ariticum”: mesmo que araticum, vocábulo que designa árvores e arbustos frutíferos do Brasil; designação comum à graviola e à fruta-do-conde entre outras subespécies.
Vale lembrar que essas imagens são representações dependentes diretamente do imaginário do autor e, ao mesmo tempo, para serem compreendidas também devem pertencer ao repertório do leitor. Consideramos, ainda, que estas imagens expressas pelos críticos nada mais são do que sugestões e impressões sobre a obra, e aludem diretamente à crítica impressionista que nos propomos a identificar.
Notamos que a presença de elementos impressionistas nas produções não é uma marca específica dos primeiros escritos – 1928 e 1929 – tempos depois, ainda encontramos nos críticos traços de subjetividade em sua escritura. Como é o caso de Sérgio Milliet, de sua nota “Trechos de Diário” (1940/1942), destacamos: “Macunaíma não é, porém subversivo; seu sarcasmo é saudável como o de Rabelais. O que há de puro, ingênuo, construtivo no caráter nacional, inclusive a imaginação poética é, ao contrário, gostosamente ressaltado”. Apesar do curto espaço trabalhado, é possível perceber o tom impressionista por meio dos termos utilizados pelo crítico como, por exemplo, a explicação que faz da obra utilizando-se de elementos que a personificam – saudável, puro, ingênuo.
Os traços da crítica de Milliet aqui apontados corroboram para a visão que os críticos de hoje construíram dele: “Desfrutava de grande prestígio como crítico, graças ao equilíbrio e firmeza de suas posições. Era dotado de qualidades singulares de estilo, tendo sido exercida com muita originalidade a sua crítica impressionista” (ENCICLOPÉDIA..., 2001, p. 1071).
José Geraldo Vieira (1945), também constrói todo seu discurso enumerando as características de Macunaíma a partir de elementos figurados. Quanto à forma, ao léxico e às demais estruturas da obra, por exemplo, Vieira coloca:
[...] sua forma é tão brasileira, mas tão brasileira, o seu formal feito em forma tão voluptuosa, livre, de protoplasma moldado com varetas de bambu, remexido com espinhos, rodado e jogado como escarro de mil cores da boca de répteis hilariantes, sua significação léxica é tão revolucionária [...] suas descobertas de expressão tão molemente bocejadas como bocejos que criam flores e ritmos, seu essencial tão
diferente, sua forma de poema tão específico, sua natureza selvática, erradia, tão molhada em atmosferas de enchentes e de cachoeiras, [...], e seu itinerário tão de sonho, de preguiça gostosa, de lenda dita com saliva de risada por entre sucos de ervas nos dentes, seu corpo híbrido tão nu na água, e seus gestos tão coreográficos na modulação da fala e no ritmo da locomoção, [...]. (VIEIRA, 1945 - grifos nossos).
O crítico continua seu discurso neste mesmo formato, valendo-se cada vez mais de sensações e impressões para transmitir ao leitor a sua visão sobre esta obra que considera “universal”,
[...] independente, singular, sem sentido de conexão ou de analogia, é coisa nascida na areia, no pântano, no meio da bicharada, pipocando como seio de vulcão ainda tenro, e está para nós, para o mapa de criações da nossa ficção rapsódica como um tipo sem ligações analógicas com qualquer tema homólogo seja donde for. (grifos nossos).
João Pacheco (1945) em “Macunaíma e a esfinge” recorre, também, logo no início de sua exposição, à metáfora para mostrar ao leitor que a influência estrangeira estava perdendo espaço no cenário da literatura brasileira, a qual se encontrava na fase da adolescência (referindo-se ao modernismo). Nesse sentido, o crítico comenta:
Se não se operou de todo a absorção, o fato é que não somos mais europeus. Adolescentes, não adquirimos ainda qualidades próprias, mas não nos é possível viver mais sob a influência paterna. Emergimos da diluição e da permeabilidade infantil, mas ainda não atingimos a integração da mocidade; estamos no limiar confuso e inquieto da adolescência, em que, sentindo-nos solicitados por todas as possibilidades, não sabemos optar por nenhuma e acabamos, por derradeiro, na dúvida e na hesitação. Às vezes temos a impressão de que atingimos a definição e tentamos enveredar por uma direção. Aos primeiros passos, porém, verificamos que a direção é apenas européia e segui-la não passa, de nossa parte, de simples imitação. Com isso[,] procuramos retroceder ao ponto de partida, o que não dá jeito, porque o nosso ponto de partida é europeu e o que queremos é a