Falamos sobre o processo de seleção de policiais para o Reservado. Mencionei a Ulisses o fato de a ficha individual de avaliação do PM ser usada como um critério de escolha. Segundo ele, a decisão depende bastante da vontade dos comandantes dos batalhões e companhias, e atende a critérios bastante personalistas. “Essa escolha não ocorre de forma transparente. Só há mais transparência quando a seleção se destina à Coordenadoria de Inteligência (Coin) ou à 2ª Seção do Estado Maior”, comenta. Um dos critérios apontados por ele para que o militar seja indicado ao Serviço Reservado é que ele deve ser um policial que prenda muitos bandidos. O problema, ressalta, é que policiais que mantêm relações com criminosos podem se beneficiar desse fato. “Se eu tenho uma ligação estreita com os bandidos, fica mais fácil saber onde eles estão e o que fazem”, explica. Talvez na tentativa de amenizar o que disse, o militar alegou que isso era uma prática mais
comum há alguns anos, e que hoje tal fato não mais ocorreria, pelo menos não como antes (informação verbal)157.
Um ex-agente da Coin, durante uma conversa sobre o tema, confirma a existência de policiais com esse perfil em posições-chave na corporação. Ele conta a história de um PM conhecido por desfrutar de relações promíscuas com o mundo do crime, e que atuava como informante para sua equipe. “Ele era uma fonte de informações riquíssimas”, afirma. Qual não foi a surpresa do agente ao receber a ligação do PM e descobrir que ele passara a fazer parte do setor de inteligência (informação verbal)158. Na tentativa de se diferenciar dos policiais que mantêm relações estreitas com criminosos, Ulisses elabora sua “carta pessoal de princípios” (expressão minha):
Eu não invado casa sem mandado; Eu não pago informante;
Eu não faço promessa à informante;
Eu não faço acordo com bandido (informação verbal)159.
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Insisto no que se refere às características pessoais que tornariam um policial mais capacitado que outro para o serviço, e ele me disse que a pessoa tem de ser idônea. A resposta só saiu depois que insisti um pouco mais no assunto. Não sei se ele não havia entendido, ou se o grau de subjetividade empregado na seleção dos agentes tornaria, a seu ver, a pergunta desnecessária. Há uma grande queixa sobre o fato de o processo ficar muito dependente da vontade dos oficiais, que podem destituí-los do cargo e indicar nomes para ser seus substitutos (informação verbal)160.
Para quem deseja entrar no mundo da inteligência, a “decência” possui um valor fundamental como critério de seleção. Esse foi o primeiro atributo apontado por Paulo e Guilherme: “Ser uma pessoa decente”. Procuro saber mais sobre qual a concepção deles de uma conduta decente. Guilherme comenta que se fossem cumprir todas as normas não iriam conseguir fazer o serviço. “Vez ou outra eu arrombo uma porta”, alega Paulo, como que exemplificando o que o colega dissera. Embora a violação do domicílio sem mandado judicial seja ilegal, parece haver uma tolerância para determinadas práticas, desde que elas possam resultar em um suposto benefício
157 Entrevista realizada com Ulisses em 27 de março de 2013. 158 Entrevista realizada com ex-agente da Coin.
159 Entrevista realizada com Ulisses em 27 de março de 2013. 160 Entrevista realizada com Ulisses em 27 de março de 2013.
à sociedade. Uma coisa, no entanto, os PMs asseguram: não aceitam dinheiro de traficante, embora reconheçam que o tráfico domine a área de abrangência do Batalhão. “Não acho direito um policial fazer isso”, argumenta (informação verbal)161.
Volto a perguntar sobre as outras características, e Paulo deixa bem claro que o policial tem de ter, em primeiro lugar, honestidade. Em seguida, vêm a dedicação e o profissionalismo. Para o policial, haveria uma espécie de inatismo nesses traços que serviriam para a escolha do PM que irá trabalhar no Reservado. “O comandante escolhe a partir desse perfil. Ele tem de ter compromisso e ficha boa para ser selecionado”, explica (informação verbal)162.
O coronel Ximenes sabe muito bem o que é selecionar um profissional para o Reservado. A equipe de que dispõe foi escolhida diretamente por ele, assim como os integrantes da Força Tática de Apoio (FTA). O primeiro critério usado pelo militar é a confiança.
É preciso que eu tenha uma relação de confiança com o comandado. Há patrulhas da FTA que são comandadas por soldados. Isso se deve à minha confiança em tais policiais. Imagine o caso de uma apreensão de quase 200 mil reais em uma favela? O policial recebendo o salário que recebe... Tenho de ter muita confiança. É preciso separar o joio do trigo (informação verbal)163.
O PM prossegue com a descrição dos critérios. O segundo item é ser uma pessoa ativa. É preciso ter sangue policial para lidar com situações extremas. Ele explica:
No jargão policial é ter sangue no olho. Se não, não vai para cima, vai se esquivar. Nem todo policial é assim. Enfrentamos um sujeito chamado que ameaçou de morte todo mundo que o prendeu. Ele possuía um fuzil .556, de uso das forças armadas. Em outro caso, fizemos a apreensão de 200 quilos de dinamite (informação verbal)164.
Ranulfo, agente do Reservado subordinado ao oficial, endossa a afirmação. Ele conta que é preciso ser uma pessoa de confiança, ativo e operacional para poder atuar no Serviço Reservado (informação verbal)165. Felipe, colega de equipe, intervém, e diz que é preciso conhecer a área em que atua e os bandidos que nela
161 Entrevista realizada com Paulo e Guilherme em 20 de maio de 2015. 162 Entrevista realizada com Paulo em 20 de maio de 2015.
163 Entrevista realizada com coronel Ximenes em 10 de junho de 2015. 164 Entrevista realizada com coronel Ximenes em 10 de junho de 2015. 165 Entrevista realizada com Ranulfo em 11 de junho de 2015.
residem. “É preciso dar o sangue, pois os riscos são diferentes se comparado aos que atuam fardados”, complementa (informação verbal)166. O processo de escolha dos próximos membros, depois de formada a equipe, conta com a participação dos próprios integrantes do Reservado. Vem deles a sugestão de novos nomes, levando em consideração os critérios citados anteriormente.
Haroldo esteve no Serviço Reservado por cinco anos, mas saiu por causa de problemas psicológicos. A visão dele sobre a organização policial é bastante crítica, embora ainda conserve em sua gestualidade e no discurso elementos do militarismo. Pergunto quais seriam os critérios para entrar no Serviço Reservado. Ele enumerou alguns:
1. Confiança do seu comandante. 2. Indicação de outros oficiais.
3. Alguns são chamados por serem “bons de dedo”, ou seja, são matadores167. Alguns policiais que se encaixam nessa definição teriam seus
serviços requisitados por coronéis e comandantes de companhias e batalhões, o que os dispensaria de cumprir expediente nos quartéis. A contrapartida seria atender ao chamado. De acordo com o meu interlocutor, muitos desses policiais não se enquadram no estereótipo do integrante das forças especiais da polícia (atlético e altivo).
4. Ficha individual idônea.
5. Quantidade de elogios por serviços prestados na ficha individual. 6. Ser uma pessoa tranquila e velada, que sabe guardar segredos. 7. Há uma categoria especial aqui. Os que o meu interlocutor chama de “à parte”. São PMs com características físicas que facilitam sua infiltração nas camadas mais pobres da população, como falta de alguns dentes e estatura baixa. Possuem “cara de povo”. Tais elementos permitiriam a esses policiais atuarem como garis ou profissões similares durante as investigações, garantindo assim que o Reservado atue sem maior alarde (Diário de Campo).
Os critérios apresentados por Haroldo condensam boa parte dos atributos descritos pelos demais PMs. Em casos especiais, no qual exige-se um perfil específico, policiais que não atuam na inteligência podem ser selecionados. A expressão “cara de povo” irá se repetir ao longo da tese. Haveria, no entender dos policiais, agentes com essa característica que lhe permitiria transitar sem chamar atenção em meio a informantes e criminosos. Ser a “cara do povo” representaria, portanto, uma espécie de anonimato social, mais um disfarce a ser mobilizado no cumprimento de uma determinada missão. Por óbvio que há um elemento forte de discriminação social e racial nessa afirmação. Pardos e negros constituem essa
166 Entrevista realizada com Felipe em 11 de junho de 2015.
167 Certamente este foi o momento mais tenso da conversa, haja vista o teor da informação. A
identidade que já é suspeita de antemão. Tal associação é reforçada pelo imaginário do jornalismo policial em um processo retroalimentação: os criminosos expostos na TV e nas redes sociais têm “cara de povo”, mas somente as faces de quem tem “cara de povo” são mostradas na mídia. Um comentário bastante comum nesse sentido é a do incriminado “bem aparentado”, como se o fato de possuir características físicas distintas das “populares” o isentasse de cometer crimes.