No trabalho de levantamento de informações são obtidos dados não só dos acusados, mas das pessoas que convivem com ele. Todo detalhe é importante: traços corporais, moradia, rotina e as filiações parentais são itens imprescindíveis para a atividade inteligência, a fim de que possa estabelecer a análise dos vínculos sociais do acusado. Segundo Martins, as informações são cruzadas e verificadas. Quando os
135 Entrevista realizada com Alfredo em 11 de julho de 2013. 136 Entrevista realizada com Ulisses em 27 de março de 2013.
informes são obtidos, o policial diz que os dados podem ser repassados para a Polícia Civil ou para o policiamento ostensivo (informação verbal)137.
De posse dessa informação, a PM faz o que se costuma denominar de “estouro”, ou seja, desbaratar quadrilhas ou pontos de venda de entorpecentes. O “estouro” também pode ser chamado de “bote”, pois trata-se da culminância de todo um esforço de coleta de informações realizado pelos PMs. Segundo os policiais ouvidos, o nome “estouro” se deve ao emprego, em certas ocasiões, de bombas de gás lacrimogêneo ou de efeito moral por parte dos PMs da Força Tática de Apoio (FTA), que contam com armamento reforçado e preparo técnico para intervenções do gênero. Pergunto se os estouros sempre contam com subsídios do setor de inteligência, e ele me diz que sim: “Geralmente acontece” (informação verbal)138. Em relação à parceria na hora do bote, Ulisses afirma que é preciso conhecer a viatura e contar com pessoas selecionadas. Há, assim como em Caucaia, uma parceria com a FTA: “Eles sempre chegam junto”. No momento da abordagem, não é preciso ser flagrado com uma grande quantidade de drogas para ser preso. Felipe cita o exemplo de uma campana realizada na casa de uma senhora que vendia drogas. Os policiais passaram muito tempo local, esperando a melhor oportunidade para agir. A mulher foi para a cadeia por causa de quatro pedras de crack que acabara de vender a um usuário. “Às vezes a pessoa perde a caça por um bote errado. Deixou de pegar o grande porque quis pegar o pequeno logo”, comenta. Ranulfo acrescenta que por diversas vezes eles passam o dia sem almoçar e sem beber água, quando estão em campana. “Se sair do local se queima. É preciso esperar que o alvo saia ou chegue e paciência para entrar em ação”, adverte (informação verbal)139.
Segundo Martins, “o PM moderno anota tudo. Já fazia isso antes mesmo de ser da inteligência”. O policial mantém um arquivo pessoal com todas essas informações, além de fazer rabiscos com setas que funcionam como uma representação do organograma criminoso. “Embora não tenha a dimensão dos grupos criminosos do Rio, os traficantes daqui não ficam muito atrás em organização”, comenta (informação verbal)140.
137 Entrevista realizada com Martins em 18 de abril de 2015. 138 Entrevista realizada com Martins em 18 de abril de 2015. 139 Entrevista realizada com Ranulfo em 11 de junho de 2015. 140 Entrevista realizada com Martins em 18 de abril de 2015.
Antes de Martins ir ao local em que deve ocorrer o “estouro”, é feito um levantamento prévio da localização do suspeito, das possíveis rotas de fuga, de onde ele estava no momento do crime e com que se relaciona. Pergunto se isso não se trata de investigação, mas o policial rebate e diz que é apenas levantamento de informações. Nesse processo de desenrolar o fio da meada, o PM afirma que descobre, às vezes, “[...] coisas que a gente nem queria descobrir, como novos crimes, participação de pessoas importantes da sociedade e de policiais neles...” (informação verbal)141. Depois de todo levantamento feito, Martins afirma ainda haver uma grande precaução em se aproximar dos alvos:
Não se pode ficar abordando o suspeito porque ele pode desconfiar de que está sendo investigado. Precisamos obter elementos concretos para chegar nele. Estamos no encalço do maior traficante da área. Estamos armando o bote. Sabemos quem ele é, mas nada de prova material foi encontrado com ele. Nem revólver, nem droga (informação verbal)142.
Ximenes ressalta o trabalho dos policiais sob seu comando e afirma que, no momento do “estouro”, o procedimento mais usual é pedir apoio às viaturas, para que possam realizar o cerco e adentrar no local:
Se eles fizerem a abordagem em um carro descaracterizado, o traficante pode pensar que se trata de um ataque do rival e revidar. Por isso, o cerco é feito e a viatura caracterizada vai para o bote. Isso faz com que o confronto seja evitado já que o traficante reconhece que está sendo detido pela polícia e não ameaçado por um rival. Sem o Serviço Reservado, o nosso trabalho fica prejudicado. É mais fácil se esconder quando só há viaturas caracterizadas realizando a patrulha. Com o resultado, o criminoso não se inibe e podemos forçar o flagrante. Temos 21 viaturas e apenas um carro do Reservado. Com o trabalho deles, podemos fazer uma intervenção mais cirúrgica (informação verbal)143.
Como se pode observar, o Serviço Reservado atua como os “olhos e os braços” do comando, empregando aqui uma expressão nativa. Por causa disso, a relação no interior do quartel nem sempre é pacífica. Muitas vezes os agentes são vistos como dedos-duros a serviço do comandante. Há uma concepção da inteligência relacionada ao uso racional dos recursos, tanto materiais quanto humanos. Nesse sentido, ao empregar o termo “intervenção mais cirúrgica”, o oficial faz menção
141 Entrevista realizada com Martins em 18 de abril de 2015. 142 Entrevista realizada com Martins em 18 de abril de 2015. 143 Entrevista realizada com Ximenes em 10 de junho de 2015.
justamente a esse significado que, de certa forma, é corrente entre as pessoas não familiarizadas com a conceituação específica da inteligência policial. Foi bastante comum ouvir, ao longo da pesquisa, que a polícia não atuava de forma “inteligente”. Havia nessa afirmação uma referência clara a essa compreensão da inteligência.