Inspirados pela pergunta do que é notícia, algumas correntes teóricas analisam o papel do jornalismo na sociedade e seus desdobramentos. A primeira corrente teórica especificamente do campo jornalístico diz respeito ao que se chama de Teoria do Espelho. Desenvolvida nos 1950, essa linha conceitua que o jornalismo reflete a realidade como ela é. Trata de coisas que acontecem sem empregar juízo de valor, com isenção e objetividade. O jornalista é um mero observador, que reporta o acontecimento de modo desinteressado. Sob essa égide altruísta, constituir-se-iam várias empresas de comunicação. É essa a linha defendida pelo jornalista Ricardo Noblat, que foi o editor-chefe do jornal Correio Braziliense (veículo selecionado para desenvolver as análises) até outubro de 2002.
Um jornal não se limita a ser a soma de registros úteis destinados a orientar a vida das pessoas a curto prazo. Um jornal não é simplesmente uma espécie de ata do cotidiano de um lugar ou de um ajuntamento de lugares. [...] um jornal é ou deveria ser um espelho da consciência crítica de uma comunidade em determinado espaço
de tempo. Um espelho que reflita com nitidez a dimensão aproximada ou real dessa consciência. E que não tema jamais ampliá-la. Pois se não lhes faltarem talento e coragem, refletirá tão-somente uma consciência que de todo ainda não amanheceu. Mas que acabará amanhecendo.(NOBLAT, 2003, p. 21).
Traquina observa que há coerência nessa premissa de espelho da realidade:
Existe um acordo tácito entre os que escolhem esta profissão de jornalista e o leitor/ouvinte/telespectador que torna possível dar credibilidade ao jornalismo: o principal produto do jornalismo contemporâneo, a notícia, não é ficção, isto é os acontecimentos ou personagens das notícias não são invenção dos jornalistas. A transgressão da fronteira entre realidade e ficção é um dos maiores pecados da profissão de jornalista, merece a violenta condenação da comunidade e quase o fim de qualquer promissora carreira de jornalista. (2005, p. 19-20).
A um editorial, publicado em 19 de julho de 1999, Noblat deu o título: “Para que serve um jornal”. O texto foi impresso em um banner e, durante muitos anos, esteve exposto na sala da Redação do Correio Braziliense (CB), como uma espécie de guia para os profissionais. “Para que serve um jornal” foi publicado numa época em que o Correio Braziliense sofreu sansões e tentativas de censura por questões de disputas políticas entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) no Distrito Federal. Após expor outros propósitos, o texto finaliza que um jornal:
Serve também para o indivíduo que não adquiriu voz partidária, sindical ou até mesmo de classe tal a sua exclusão no convívio social. Um jornal serve também para emocionar, dar prazer, informar por inúmeros suportes do fato além do texto, deleitar, entreter, indignar, comover e demonstrar que vive intensamente o seu tempo e a sua região. Um jornal não é só um amontoado de linhas, textos, fotos e traços, um jornal serve quando se torna fundamental, preciso, precioso, indispensável para o quê na verdade o mantém vivo: sua credibilidade.
Um jornal serve para reconhecer seus talentos e sua vocação maior de comprometimento com o seu serviço primordial: um jornal serve para servir! (NOBLAT, 1999) 16.
A argumentação de Noblat (1999) indica outra linha em que se sustenta o jornalismo: o da teoria democrática. Por meio dessa corrente teórica, acredita-se que não há democracia sem uma imprensa livre e vice-versa. O jornalismo seria, portanto, um canal entre a população, os poderes e quem os exerce. Faria papel de fiscal, de detetive.
Os pais fundadores da teoria democrática têm insistido, desde o filósofo Milton, na liberdade como sendo essencial para a troca de idéias e opiniões, e reservaram ao jornalismo não apenas o papel de informar aos cidadãos, mas também, num quadro de cheks and balances (a divisão do poder entre poderes), a responsabilidade de ser o guardião (watchdog) do governo. (TRAQUINA, 2005, p. 23).
Noblat (2003, p. 72) se filia a essa corrente teórica:
16 NOBLAT, Ricardo. Para que serve um jornal. 1999. Disponível em: <
Os jornalistas fazem a intermediação da sociedade com os que a representam. Este é um dos seus papéis. O outro é o de fiscalizar atos e comportamentos dos que exercem o poder – o poder público ou o privado que influencia a vida das pessoas. Mas, para além desse papel (quase messiânico) do jornalismo, o jornal também é uma empresa. Isso faz do jornalismo um campo complexo que surfa em entre dois polos, muitas vezes com interesses antagônicos: o ideológico e o empresarial. Aliás, foi apenas com a separação dos interesses políticos individuais, por meio de um modelo negocial mais autônomo, que o jornalismo começou a se desenhar assim como o conhecemos hoje.
Até meados do século XIX, a prática jornalística era partidária e ideológica, dependia de financiadores, que em geral, tinham interesses políticos. A partir de 1880, começou a se estruturar nos Estados Unidos o penny press. Acompanhado de uma alfabetização crescente das populações e do fortalecimento da Publicidade, esse modelo de gestão deu mais autonomia aos jornais e rapidamente se espalhou por países da Europa e, no começo do século XX, chegou timidamente ao Brasil. O penny press começou a viabilizar o surgimento de um jornalismo separado do viés ideológico de partidos e associações. Nessa época, fato e opinião foram separados.
A prática jornalística inspira-se no positivismo do século XIX, marcada, como sublinha Traquina (2001) pela precisão da máquina fotográfica. O que era captado pela máquina fotográfica era incontestável. O invento também – assim como posteriormente o desenvolvimento de outras tecnologias – influenciou no novo desenho do jornalismo. O estilo de redação carregado de impressões perde força, fica com um espaço específico: em artigos e editoriais. O fato, o acontecimento torna-se, então (e ainda o é) o grande guia do jornalismo.
A obsessão pelos fatos acompanhou uma crescente obsessão com o tempo e uma maior orientação por parte da imprensa para os acontecimentos. O impacto tecnológico marcou o jornalismo do século XIX como iria marcar toda a história do jornalismo ao longo do século XX até o presente, apertando cada vez mais a pressão das horas-de-fechamento, permitindo a realização de um valor central na cultura jornalística – o imediatismo. (TRAQUINA, 2005, p. 53).
Outro momento crucial foi nos anos 20 e 30 do século XX em que se desenvolveu o ideal de objetividade no jornalismo. O modelo de como atingir o ideal nasceu nos Estados Unidos, no período pós-guerra (Primeira Guerra Mundial). Aqui a objetividade aparece não como o oposto à subjetividade, mas à parcialidade. Num olhar sociológico, a objetividade é a descrição de métodos, ainda que outro pesquisador faça a pesquisa, tenha condições de chegar aos mesmos resultados. Essa perspectiva é mais abrangente do que em outros campos do conhecimento onde os métodos objetivos, são palpáveis e quantificáveis. No jornalismo a objetividade segue, como denomina Tuchman (1972/1999), rituais estratégicos.