Ao chegarmos a este ponto dentro do jardim YouTube, várias flores e frutos já foram colhidos ao longo desta empreitada, resultando em muitos cestos de informações coletados nos últimos trinta meses. Todavia, apesar da variedade de cestos, o labirinto YouTube não pode ser engessado por ela. A cada dia, os corredores e reentrâncias dessa plataforma virtual se expandem: novos vídeos florescem, a espera da colheita dos pesquisadores desbravadores desse dédalo virtual. Novas bifurcações se apresentam, gerando novas possibilidades e mudanças nas cores, texturas e sabores presentes nesse dédalo de vídeos, que floresce a cada instante.
Nossa jornada por esse labirinto começou pela vereda que trouxe alguns dados sobre funcionamento, fundadores e corredores numéricos – metadados – dessa plataforma midiática. Entretanto, essa caminhada não foi solitária. Usufruímos da companhia dos estudos de desbravadores, que versaram primeiramente sobre essas trilhas. Foram eles quem apontaram algumas das bifurcações teóricas do site. Pelle Snickars e Patrick Vonderau (2009), que percorreram os corredores desse labirinto, reunindo impressões e estudos de pesquisadores de todo o mundo, dedicaram tempo de suas vidas se perdendo e se encontrando nas veredas do YouTube. Eles trouxeram grande contribuição ao compilarem vários artigos científicos que tratam das metáforas do YouTube. Para eles, o site estrategicamente combina conteúdo em vídeo com dados numéricos, sendo diferente de sites de relacionamento e redes sociais, pois os vídeos aparecem em conjunção com visualizadores de estatísticas, e não com perfis detalhados de seus usuários.
Lévy trouxe grande ajuda com os norteadores da cibercultura, que enriqueceram essa jornada, principalmente com os conceitos sobre inteligência coletiva e mídias pós-massivas, que tornaram mais firmes nossas pisadas na caminhada por esse labirinto.
Por sua vez, Jenkins (2009) apontou o site como o marco zero da ruptura nas operações das mídias de massa comerciais, o que causou o surgimento de novas formas de cultura participativa, com amplo estímulo às novas atividades de expressão. Ele descreveu o labirinto YouTube como sendo uma mídia espalhável, com participação de grandes empresas e “amadores” nas três frentes: produção, seleção e distribuição de conteúdo midiático, além de transformar os contextos de circulação e recepção, promovendo as mais diversas formas de interação, como um espaço compartilhado por várias vertentes culturais que se intersectam.
Para Burgees e Green (2009), o YouTube é um site potencial para a cidadania cultural cosmopolita, um espaço em que as pessoas podem representar suas identidades e perspectivas, além de se envolverem com as representações pessoais de outros e encontrar diferenças culturais. Na vereda subsequente, para melhor compreender o funcionamento do YouTube, decidimos escolher um corredor – um dos mais polêmicos – para estudar quais bifurcações poderiam surgir a partir dele. Elegemos a barreira que separa territórios israelenses e palestinos como case para melhor observar as reentrâncias desse jardim. Para andar pelas trilhas tortuosas e deslizantes da barreira, desfrutamos da companhia do internacionalista Alan Dowty, que bem retratou a história e aspectos sociais do conflito israelo-palestino, do pesquisador Helion Póvoa Neto, que ressaltou nuances da questão entre os dois povos, dos escritos da correspondente internacional Guila Flint, que por anos realizou a cobertura do conflito in loco, e do sociólogo e cientista social Henrique Rattner que muito acrescentou com suas análises sobre o Oriente Médio.
Para tal empreitada, recorremos aos apontamentos de Gil a respeito do estudo de caso como parte da nossa metodologia de trabalho para desbravar as recâmaras desse labirinto. Também buscamos os caminhos trilhados por Bardin e Orlandi, que bem assessoraram nossa pesquisa com as ferramentas da análise de conteúdo e de discursos, para dissecar os 70 vídeos apontados na pesquisa com tags em inglês e português no dia 31 de dezembro de 2010. Com essas ferramentas, nos lançamos nos corredores repletos de metadados, traçando gráficos e cruzando informações para melhor discernir as pistas dentro do conteúdo presente nesse labirinto de vídeos.
Nas veredas seguintes, dissecamos os metadados, em confluência com os mapas teóricos deixados pelos desbravadores que percorreram trechos desse dédalo virtual. E percebemos que as 1.506.234 exibições em 2010 sobre o tema desta dissertação, dentro do YouTube, revelam certa curiosidade a respeito do assunto estudado. O site disponibiliza um espaço para a participação, enquanto os autores de contas carregam esse ambiente com o conteúdo em áudio e vídeo, deixando-o à disposição para que outros autores e/ou apenas espectadores assistam aos vídeos e os classifiquem e/ou teçam seus comentários a respeito. Inferimos que o YouTube é um espaço no qual o tema desta dissertação pode ser encontrado; alguns autores de contas publicaram conteúdos relacionados ao assunto desta pesquisa. Por meio das análises de conteúdo, de discurso e dos protocolos contendo o estudo de caso de cada um dos 70 vídeos, grande parte dos autores
de conta no YouTube classificou seus vídeos enviados na categoria Notícias e Política. Todavia, a categoria que apresentou maior número de exibições foi Filmes e Desenhos. A apresentação dos vídeos, no formato de filme, pode ser uma forma eficaz de atrair a atenção de públicos variados para assistirem aos vídeos. A língua inglesa está em 74,28% da amostragem. A maioria deles pode ser classificada como tendo um discurso do tipo Turístico: 17,14%, no qual as pessoas revelam suas impressões sobre determinadas localidades, ou vídeos que mostram cidades e locais em Israel muito visitados por turistas.
Na sequência, surgem os vídeos que trazem debates sobre a questão israelo-palestina ou árabe-israelense: 15,71%. Eles são divididos em várias partes – por isso aparecem em grande quantidade – e trazem as opiniões dos preletores a favor de árabes, israelenses e palestinos. No que diz respeito ao perfil dos autores de contas, a maioria dos participantes que publicou vídeos sobre o tema deste estudo criou suas contas no ano de 2007 quando o YouTube completou dois anos de existência.
Entretanto, é possível encontrar casos como o do vídeo “YYCCC 2010-12-06 Calgary City Council – December 6, 2010”, o mais longo da amostragem, que surgiu no meio da pesquisa apesar de não ter uma única relação com o tema deste estudo. Quanto à relação do material com o muro, a grande maioria dos 70 vídeos não cita nem mostra o muro que divide territórios israelenses e palestinos em áreas de conflito: 52 vídeos, o equivalente a 74,28% da amostragem. Os vídeos restantes são 18, que trazem a temática e a exploram, a sua maneira. São os vídeos que citam e mostram o muro: 8 vídeos, o equivalente a 11,44%; seguidos pelos vídeos que citam, mas não mostram o muro (5 vídeos, 7,14%), empatados com os vídeos que não citam, mas mostram o muro (5 vídeos, 7,14%). Ou seja, enquanto 74,28% da amostragem não fazem referência alguma à barreira, 25,72% dos 70 vídeos estão relacionados à temática do muro.
O presente resultado nos fez refletir que a questão árabe-israelense ainda tem maior destaque que a barreira que divide territórios israelenses e palestinos em áreas de conflito. O número de vídeos sobre o tema ainda é muito pequeno quando comparado ao universo YouTube. Como a temática do muro é recente, estando em voga desde junho de 2002, ela ainda alcança pequena reverberação dentro dos corredores desse labirinto, que também apresenta apenas 6 anos de existência.
Percebemos que o YouTube é uma plataforma de expressão, em que diferentes pessoas podem manifestar e defender o próprio ponto de vista, tendo um espaço de exibição e liberdade
para escolher a forma de se expor, de transmitir sua própria mensagem. Tais manifestações seriam mais difíceis de conquistar, se a exibição ocorresse em mídias eletrônicas tradicionais, como o rádio ou a televisão. Todavia, para a nossa surpresa, a maioria dos vídeos que traz a problemática do muro não tem posição política explícita, com 55,55% da amostragem. Em seguida, o segundo lugar foi ocupado pelos vídeos que apresentaram tendência pró-palestina, 33,33%. E por último estão os vídeos com tendência pró-israelense, com 11,12%. Grande parte dos vídeos – mais da metade – não se posiciona a favor ou contra Israel ou a Palestina. O YouTube oferece o espaço, que pode ser mais e mais aproveitado, principalmente no que diz respeito à temática da barreira. A ferramenta existe, mas precisa ser mais bem manuseada. Ressaltamos a importância de várias pessoas se lançarem nesse jardim, na livre tentativa de simplesmente percorrer suas recâmaras, produzindo alguns frutos, a seu modo. Essas contribuições, quanto mais frequentes, mais validam os cestos de flores e frutos a serem colhidos por desbravadores, ávidos por novas pesquisas.
Chegamos ao fim da nossa jornada. Entretanto, neste labirinto, não há espaço para caminhos estáticos, apenas para corredores em franca expansão. Estamos falando de um site, de uma plataforma de mídia, de um laboratório de experimentos em áudio e vídeo, de um arquivo cultural, de uma biblioteca de vídeos, de uma caixa de surpresas, de um labirinto, de um jardim que cresce velozmente. A cada dia, novidades em áudio e vídeo brotam em seus corredores, e novos participantes caminham por essas recâmaras. Os limites são desfeitos e estendidos, e novas conclusões podem ser tiradas. Temos plena consciência que essa jornada não termina aqui porque o dédalo YouTube não se finda aqui. Nosso objetivo é contribuir para que essas reentrâncias sejam, cada vez mais, percorridas pela curiosidade de desbravadores de pesquisas.