Ao percorrermos as veredas do labirinto do jardim YouTube apresentadas até aqui, é notória a percepção de que há uma teoria em formação a respeito do YouTube, site que tem pouco mais de seis anos de história. Essa teoria, mesmo em construção, dialoga com algumas das correntes da Cibercultura. Suas grandes discussões, como vimos, giram em torno da classificação do site, de seu funcionamento sob o prisma de algumas metáforas e da contribuição midiática que ele oferece à sociedade, seja na possibilidade de ampliar o acesso ou na visibilidade de conteúdos, com destaque para os corredores polêmicos como o do estudo de caso eleito por essa pesquisa. Por apresentar um histórico muito recente, o volume de pesquisas acadêmicas a respeito do YouTube ainda está em fase de formação. Tal fato foi percebido ao buscarmos referenciais bibliográficos para nortear nossa caminhada pelas reentrâncias desse jardim de vídeos.
Entretanto, o site cresce e se desenvolve com velocidade, como vimos os números e metadados estratosféricos que atestam a forte expansão desse labirinto. Os ciberteóricos, André Lemos e Pierre Lévy, comentaram um nível de crescimento semelhante a esse, destacando que a porcentagem de conectados à internet superaria os 50% na maior parte dos países desenvolvidos, destacando que, em 1990, ela era inferior a 1% em todos os países. De acordo com dados de 2007, o número de conectados está em torno de 20% da população mundial (LEMOS; LÉVY, 2010). Sob a luz dos estudos desses dois teóricos, “[...] o ciberespaço é provavelmente o sistema de comunicação que se expandiu com mais rapidez em escala planetária em toda a história da humanidade” (LEMOS; LÉVY, 2010, p. 43).
Essa expansão da comunicação implica em mais liberdade, o que fomenta a criação de um ambiente de possibilidade para produzir, consumir e distribuir informação sem os controles estatal e/ou policial. Como revelam algumas das palavras presentes no Histórico da Empresa do YouTube: “[...] cada vez mais pessoas estão capturando momentos especiais em vídeo” e o “YouTube está cuidando de transformá-las nos criadores da televisão do futuro”. Cada vez mais as pessoas têm ideias originais e cooperam para comunicá-las, avaliá-las, testá-las e realizá-las, sendo que o tempo real é a nova velocidade da aprendizagem coletiva (LEMOS; LÉVY, 2010). Essa necessidade de expor ideias originais ou momentos especiais em vídeo está intimamente
ligada ao caráter e à personalidade da sociedade que viu surgir o YouTube. Nas palavras de Lemos e Lévy,
[...] essa aprendizagem coletiva se dá pelo princípio que rege a cibercultura em seu conjunto de práticas sociais e comunicacionais. As novas tecnologias de informação e comunicação alteram os processos de comunicação, de produção, de criação e de circulação de bens e serviços nesse início de século XXI, trazendo uma nova configuração social, cultural, comunicacional e, consequentemente, política (LEMOS; LÉVY, 2010, p. 45).
Vamos destacar os tópicos que os dois pensadores apontaram emergir dessa nova configuração social/cultural/comunicacional, que são três dos princípios básicos da cibercultura:
liberação da emissão – ligado à emergência de “vozes e discursos anteriormente reprimidos na edição da informação pelos meios de comunicação de massa;
conexão generalizada – diz respeito a tudo estar em rede, o que seria definido como uma conectividade transversal e planetária, sendo que tudo comunica e tudo está em rede: pessoas, máquinas, objetos, cidades; e
reconfiguração social, cultural, econômica e política – que trata de reconfigurar práticas, modalidades midiáticas, espaços, sem a substituição de seus antecedentes.
Lemos e Lévy classificaram esses três princípios como base do que eles definiram como progresso da cultura como um todo. Os três princípios, juntos, serviriam para:
[...] recombinar e criar processos de inteligência, de aprendizagem e de produção coletivos e participativos. A novidade não é tanto a recombinação em si, mas seu alcance [...] Vemos como com a internet entramos em uma civilização da cooperação em rede, do espaço desterritorializado e do tempo real [...] Essa mutação na comunicação está atrelada a processos midiáticos que não se enquadram mais na denominação de “mídias de massa”. Alguns autores chamam de mídias digitais, outros de mídias interativas, novas mídias e etc. Independente do termo utilizado, parece ser uma evidência que diferentes formas de consumo, de produção e de distribuição da informação aparecem hoje com os dispositivos e as redes digitais (LEMOS; LÉVY, 2010, p. 46).
Segundo o enfoque dos dois autores, o que era fluxo massivo nas mídias, como a TV, o rádio e o impresso, antes das mudanças nos processos midiáticos, agora, passaria a desempenhar o que os autores sugeriram chamar de “função pós-massiva”, que teria um teor personalizável, interativo, estimulando não apenas o consumo, mas também a produção e distribuição de informação (LEMOS; LÉVY, 2010). O cerne da função pós-massiva, segundo os teóricos, estaria no fato de que as chamadas novas mídias, definidas pelos autores como internet, telefones celulares, microcomputadores, softwares, agentes e ferramentas de comunicação, podem desempenhar funções não centralizadoras ou simplesmente massivas, mas elas seriam mais abertas, colaborativas, interativas e distributivas.
Há e persistirá o modelo “informativo” “um-todos” das mídias de massa, mas crescerá o modelo “conversacional” “todos-todos” das mídias digitais e redes telemáticas. Teremos cada vez mais liberdade de escolha no consumo da informação e de estabelecimento de comunicação bidirecional, cooperativa e planetária (LEMOS; LÉVY, 2010, p. 48).
As definições de função massiva e funções pós-massivas, segundo Lemos e Lévy, são:
Função Massiva: fluxo centralizado de informação com o controle editorial do polo da emissão por grandes empresas em processo de competição, financiadas pela publicidade. Busca-se, para manter as verbas publicitárias, o hit, o sucesso de “massa” que resultará em mais verbas publicitárias e maior lucro. As mídias de função massivas são centradas na maioria dos casos em um território geográfico nacional (ou local), desempenhando o papel político de formação do público e da opinião pública. As funções massivas são aquelas dirigidas ao “receptor massivo”, homogêneo, não diferenciado, pessoas que não se conhecem, que não estão juntas espacialmente e que têm pouca possibilidade de interagir (LEMOS; LÉVY, 2010, p. 48).
Funções Pós-Massivas: caracterizam-se por abertura do fluxo informacional, pela liberação da emissão e pela transversalidade e personalização do consumo da informação. Elas permitem não só a produção livre, mas também a circulação aberta e cooperativa dos produtos informacionais (sons, textos, imagens, programas). Não há necessidade de
grandes recursos financeiros nem de concessão do Estado, e os instrumentos de funções pós-massivas não competem necessariamente por verbas publicitárias e não estão centrados em um único território específico. O luxo comunicacional é mais próximo da conversação (todos-todos) do que da informação (um-todos). Sendo assim, as funções pós-massivas não se preocupam necessariamente em atingir grandes “audiências”, o hit, mas estariam mais preocupadas em suprir “nichos”, criando o que Chris Anderson (2006) chamou de “cauda longa”, ou seja, a possibilidade de oferta de inúmeros produtos para poucos. A diferença não está só no consumo, mas na forma de produzir e distribuir livremente (em redes planetárias) diversos conteúdos (LEMOS; LÉVY, 2010, p. 48-49).
De acordo com o que foi escrito no Histórico da empresa, o “YouTube está cuidando de transformá-las nos criadores da televisão do futuro”, poderia apontar o que seria uma função pós- massiva do site, cujo lema se traduz em transmitir-se a si mesmo. De acordo com Lévy, “a inteligência coletiva só tem início com a cultura e cresce com ela” (LÉVY, 2003, p. 31). O YouTube pode ser encaixado nas definições de mídias pós-massivas apontadas e defendidas por Lévy e Lemos. O site traz essa abertura do fluxo informacional, causada pela liberação da emissão – broadcast yourself – e pela transversalidade e personalização do consumo da informação. O YouTube também contribui para esse contexto, permitindo a discussão de temas tão áridos e controversos como os impasses árabe-israelenses e mesmo o conflito israelo- palestino, oferecendo o local para a exposição de ideias e pontos de vista diferenciados sobre o assunto, de forma gratuita e com acesso facilitado.
O YouTube não é o único site que possibilita a exibição de vídeos na internet, mas os corredores desse dédalo virtual estão na lista dos mais difundidos e conhecidos do mundo. Para os autores Burgess e Green, duas questões ganham destaque, em alto relevo, nesse ambiente em que o YouTube conquista públicos da internet: o futuro da cultura participativa e a complexidade que emerge da intersecção de várias ideias mutáveis e divergentes sobre o que serve a mídia digital, ou para que poderia servir. Para eles, pesquisadores, profissionais especializados e críticos têm um papel importante a interpretar na definição “[...] das implicações desse período atual de turbulência para o futuro de nossa mídia e de nossa cultura, e na sugestão de alternativas possíveis” (BURGESS; GREEN, 2009, p. 142). O estudo de caso escolhido para esta pesquisa é árido e talvez não seja de interesse de grande parte dos participantes ou espectadores do
YouTube, porém os 70 vídeos, com formatos e discursos variados, têm no site um ambiente para serem expostos, discutidos e conhecidos. Passaremos, agora, à análise de alguns apontamentos feitos por estudiosos que têm percorrido as reentrâncias do labirinto YouTube, para saber a que esse jardim de vídeos é comparado.
YouTube é muitas vezes comparado a uma biblioteca, a um arquivo, a um laboratório ou a um meio como a televisão, com a respectiva metáfora convidando à exploração hipotética de quais futuros possíveis, prováveis e preferenciais do YouTube (tradução livre). 35
De acordo com o ponto de vista do chefe de pesquisas da Biblioteca Nacional da Suécia em Estocolmo e do professor-assistente do Departamento de Estudos de Mídia da Universidade alemã Ruhr – que compilaram uma obra que reúne artigos científicos variados a respeito do YouTube – o site pode ser explicado a partir de algumas metáforas específicas: a da biblioteca de vídeos, a do arquivo visual, a do laboratório e a do meio que lembra a televisão. Citando a definição encontrada no próprio site, o YouTube “[...] age como uma plataforma de distribuição para criadores e anunciantes de conteúdo original, pequenos e grandes”36
No entendimento de Snickars e Vonderau, o site funciona não apenas como um arquivo de vídeos, ou como um meio de transmissão de conteúdos em áudio e imagem, porém como um laboratório que registra o comportamento de seus usuários. Na opinião deles, do ponto de vista das ciências computacionais, o YouTube agiria como um banco de dados – database – que abriga vídeos e informações estatísticas sobre esse material. Todavia, para os dois autores, em um contexto cultural, o site representaria muito mais:
A partir dessa perspectiva, o YouTube parece ser não tanto uma plataforma para qualquer indivíduo apresentar-se à comunidade (como em um sistema de redes sociais como o MySpace ou o Facebook), mas sim como uma forma de estrategicamente combinar conteúdo em vídeo com dados numéricos. Dificilmente pode ter escapado a alguém que o YouTube apresente vídeos, em conjugação com as estatísticas e não com perfis detalhados de usuários. Por uma questão de fato, "usuários" são, por definição, redutíveis a serem quantificados como vestígios de uso real. Com visitas, cliques, comentários e avaliações contabilizados, o comportamento do usuário se torna um subproduto de todas as operações informativas que ocorrem no local, e os dados brutos começam constantemente a realimentar a máquina YouTube (tradução livre). 37
35
YouTube is often spoken about as if it were a library, an archive, a laboratory or a medium like television, with the respective metaphor inviting hypothetical exploration of what YouTube’s possible, probable and preferred futures might be (SNICKARS; VONDERAU, 2009, p. 13).
36
Sobre o YouTube. Disponível em: <http://www.youtube.com/t/about_youtube>. Acesso em: 20 mar. 2011.
37
Essa citação foi facilmente comprovada ao longo de todo o caminho pelas veredas do site. Ao separarmos os dados desta pesquisa de acordo com os princípios do estudo de caso e da análise de conteúdo, pudemos perceber parte do funcionamento dessa plataforma e quais suas tendências. Retomando os objetivos desta dissertação, chegamos à conclusão que o YouTube apresenta bifurcações a respeito desse tema polêmico – barreira/muro, com destaque para os tipos de vídeos como, filmes, vídeos turísticos, debates e palestras encontrados, além dos mais tradicionais, como reportagens e documentários. Para a nossa surpresa, não houve o predomínio de partidarismos, tanto na análise de todos os vídeos como na avaliação da parte especificamente voltada para o muro. Também observamos certa criatividade em parte da amostragem.
Desta feita, diante de todas as evidências levantadas por esta pesquisa, percebemos que os corredores do YouTube podem oferecer espaço para a pluralidade, com destaque para o fato de que o site pode – e precisa – ser mais bem explorado para se tornar uma ampla plataforma de exposição e expressão, em que diferentes pessoas possam manifestar e defender idéias, tendo um lugar para a exposição de pontos de vista diferenciados, sejam eles convergentes, divergentes e/ou paralelos. Em consonância com esses dois pesquisadores, percebemos o YouTube como uma nova prática de mídia, como um sistema híbrido de gestão da informação:
[...] onde usuários fornecem todos os tipos de entrada, entre as quais o envio de material audiovisual, certamente é o site raison d'être. [...] O material tem que ser descrito, indexado e classificado de diversas maneiras a fim de ser armazenável, identificável, recuperável e, portanto, visível ou, num sentido literal, para se tornar visível. Uma vez tornado visível neste sentido enfático, graças ao design do software, um clipe torna-se relacionado a outros vídeos, classificados em termos de sua popularidade relativa de acordo com o número de visitas, e pode mesmo tornar-se um "featured video", porque têm qualidades atribuídas a ele, comentários que podem desencadear desaprovação, aprovação ou debates, mas também pode ser sinalizado e, conseqüentemente, removido por ser julgado inadequado (tradução livre). 38
to a community (as in a social-networking system like MySpace or Facebook), but rather as a way of strategically combining video content with numerical data. It can hardly have escaped anyone that YouTube presents videos in conjunction with viewer statistics, not detailed user profiles. As a matter of fact, “users” are by definition reducible to quantify traces of actual usage. With views, clicks, comments and ratings counted, user behavior becomes a byproduct of all the informational transactions taking place on the site, and raw data constantly gets fed back into the YouTube machinery (SNICKARS; VONDERAU, 2009, p. 16).
38
[...] where users provide all sorts of input, among which the uploading of audiovisual material most certainly is
the site’s raison d’être. [...] The material has to be described, indexed and categorized in various ways in order to be storable, identifiable, retrievable and thus viewable or, in a literal sense, to become visible. Once made visible in this emphatic sense, thanks to the software design a clip becomes related to other videos, ranked in terms of its relative popularity according to the number of views, and it may even become a ‘featured video’ because of whatever
.
A forma como a plataforma YouTube é alimentada, como o material em áudio e vídeo é classificado e catalogado – o que inclui as ações de participantes e espectadores, que também podem classificar o material assistido – contribuem para o surgimento dessa nova prática de mídia, que permite uma nova forma de comunicação possível, em grande parte, graças à tecnologia, como defendeu Pierre Lévy.
O estabelecimento de conexão telefônica entre terminais e memórias informatizadas e a extensão das redes digitais de transmissão ampliam, a cada dia, um ciberespaço mundial no qual todo elemento de informação encontra-se em contato virtual com todos e com cada um. Essas tendências fundamentais, já atuantes há mais de 25 anos, farão sentir cada vez mais seus efeitos nas próximas décadas. O atual curso dos acontecimentos converge para a constituição de um novo meio de comunicação, de pensamento e de trabalho para as sociedades humanas (LÉVY, 2003, p. 11).
Para Pelle Snickars e Patrick Vonderau, a tecnologia e as interações dentro do site transformaram não apenas a noção de plataforma, mas também o caráter da comunidade YouTube, o que continuará a fazê-lo (SNICKARS; VONDERAU, 2009). Com a presente pesquisa, nosso intuito é colaborar para que as reentrâncias do labirinto YouTube sejam cada vez mais percorridas, considerando o grande leque de possibilidades de recortes envolvendo-as. Temos plena convicção de que não esgotamos o presente tema e que há muito mais a ser pesquisado a respeito do funcionamento e das possibilidades dessa nova mídia. Esperamos que o YouTube seja cada vez mais estudado e debatido, para que novas formas e práticas de mídia sejam fomentadas.
[...] em poucos anos, o YouTube tem encontrado um grande público participante, atraído um surpreendente nível de investimento financeiro, e sido objeto de criação de mitos e celebração hiperbólica. [...] A virada digital tem acelerado os desafios para as distinções ontológicas entre os meios de comunicação já estabelecidos, oferecendo novos conceitos de definição e novas formas de mídia com grandes implicações para a mídia tradicional. [...] A virada digital tem melhorado o nosso sentido de ruptura com o passado, ampliando a nossa impressão de habitar em um momento histórico privilegiado, além de nosso status como testemunhas do novo (tradução livre).39
qualities have been ascribed to it; others comment on it; it may trigger approval, disapproval or debates; it may also get flagged and consequently removed for being judged inappropriate. (KESSLER, Frank; SCHÄFER, Mirko
Tobias. Navigating YouTube: Constituting a Hybrid Information Management System. In: SNICKARS, Pelle; VONDERAU, Patrick eds. The YouTube Reader. Stockholm: KB, 2009, 287p.)
39
[...] short years, YouTube has found a large participating public, attracted an astounding level of financial
investment, and been the subject of mythmaking and hyperbolic celebration. […] the digital turn has accelerated the challenges to the ontological distinctions among established media, offering both new definitional conceits and new media forms with wide-ranging implications for traditional media. […] the digital turn has enhanced our sense of
Diante de toda esta pesquisa, destacamos o pensamento dos autores Snickars e Vonderau, que afirmaram que: “YouTube tornou-se o epítome da cultura digital , não só prometendo infinitas oportunidades de marketing viral ou de desenvolvimento de formatos, mas também por permitir que "você" poste um vídeo que pode incidentalmente mudar o curso da história” (tradução livre). 40
Ambos frisaram a importância da aplicação da perspectiva da metáfora do laboratório ao YouTube, destacando que o próprio Google tem coletado informações há anos na busca pelo algoritmo mais eficiente para seus anunciantes. Na opinião dos dois pesquisadores, explorando o YouTube como um laboratório, é possível fazer experimentos diversos para encontrar novas formas de fazer uso de dados e de normalizar os efeitos estatísticos constantemente apresentados aos visualizadores dos vídeos.