Sabendo que o processo de mudança para uma efetiva comunicação pública da ciência no ambiente web não passa somente pelo domínio das novas tecnologias e suas linguagens, mas principalmente, pela disposição e iniciativa gerencial em implementar essas mudanças, o que requer uma prática da comunicação não só focada nos interesses da organização e dos seus públicos-alvo, mas também no interesse público, realizou-se uma entrevista informal com a atual gerente de transferência de tecnologia, área responsável pela comunicação da Unidade, para medir o grau de receptividade institucional às novas mídias. Os resultados comprovam parte das hipóteses. Além disso, a conversa também buscou observar as prováveis intenções do corpo gerencial com a comunicação praticada pela Unidade na Internet.
Confiramos a transcrição de conversa:
Sobre as vantagens e desvantagens do aproveitamento das ferramentas web 2.0: Essa é uma pergunta cuja resposta eu também gostaria de receber. Acredito que seja inexorável entrar nessa onda, mas sinceramente não consigo perceber outro ganho que não seja estar na onda, entende? Gostaria de, em algum momento, verificar os comentários já postados no nosso twitter para ver o conteúdo .
Sobre as limitações/empecilhos institucionais e de cultura organizacional que se colocam para acompanhar a evolução da comunicação: O que eu vejo como maior empecilho é a falta de tempo para cuidar desse instrumento adequadamente e da total ausência de uma orientação institucional clara sobre o posicionamento da instituição. Penso que regras claras, filtros e monitoramento seriam o mínimo para se trabalhar minimamente com esses recursos .
Sobre a forma de conduzir a gestão das novas tecnologias para se implementar iniciativas inovadoras: Novamente monitoramento e orientações claras, acompanhamento das ferramentas a serem exploradas. O que você quer dizer com iniciativas inovadoras? A disponibilização de mídias sociais ou receber sugestões ou feed back do público para as atividades da Empresa?
Sobre como manter abertos canais de interlocução social e com quais critérios: Acredito que as mídias sociais, assim como SAC e outras ferramentas, poderão ser úteis para isso. Mas penso que se queremos saber como nossas tecnologias estão atingindo o público, teríamos que fazer um trabalho específico para isso, pois é da natureza humana criticar muito mais facilmente que elogiar. Se esperarmos a manifestação espontânea, apenas sempre teremos uma visão distorcida. No sentido de sondar demandas pode ser bom, mas devemos
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lembrar que nem toda demanda é passível de ser atendida e temos que cuidar para que isso não desaponte o interlocutor .
Sobre se a Embrapa Café está preparada para aproveitar a interatividade potencial das mídias disponíveis na web 2.0: Há alguns serviços prestados pela Internet ultimamente que são espetaculares. O fato de a gente pode emitir boletos, fazer pagamentos, conseguir acompanhar todo tipo de andamentos de processos é muito bom. No caso da Embrapa Café, como estaríamos realmente facilitando o relacionamento com o público? Vejo que o público teria, como tem, a chance de se manifestar. E aí? O que poderíamos oferecer como resposta à demanda do público? É difícil responder essas questões, sem contextualizar. Pela estrutura que temos na Unidade, penso que continua sendo uma via de mão única e o que é pior, porque nós não conseguimos dar o retorno necessário .
Sobre sugestões para tornar o conhecimento científico mais próximo dos públicos e sociedade na web 2.0: Eu acho que a adequação da informação aos diferentes públicos é a chave para isso. Hoje todo mundo usa Internet e a informação é encontrada. O aproveitamento dessa informação é que é mais complicado. Assim a informação trabalhada para diferentes públicos e disponibilizada na web já facilitaria muito .
Sobre se acredita ser o mundo virtual da organização viável para o caso específico da Embrapa Café: Teremos que viabilizar, pois, como já falei, parece-me inexorável
Como se vê, as respostas confirmam, de fato, parte das hipóteses colocadas nesta pesquisa, como por exemplo, a ausência de orientação institucional sobre o posicionamento em questões de mídias digitais. Além disso, mostra que ainda é dada pouca importância ao tema - também por falta de tempo e de pessoal se duvida se essa iniciativa é inovadora e eficiente em atingir os públicos e atender as demandas solicitadas. Resumindo, há um ambiente de descrença na web como ambiente de comunicação e relacionamento da organização com seus públicos e a sociedade, apesar de afirmar que a inserção nessa onda é inexorável.
As respostas mostram que existe apego ao tradicional modelo de divulgação científica; uma consciência ainda incipiente no ambiente organizacional com relação às novas mídias e à necessidade de se fazer uma comunicação pública da ciência agropecuária de via dupla, cientista-sociedade; desconhecimento do tamanho do potencial do mundo digital para a comunicação com os públicos de interesse e sociedade; e até uma certa dose de insegurança e intimidação com relação a essas inovações propostas.
Essa escolha é fruto também de uma convicção gerencial de que não se poderia implementar grande parte das demandas recebidas, por motivos vários, desde os
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institucionais, políticos, econômicos, sociais etc somado a uma pouca motivação e não conscientização de fato sobre a urgência e a importância da participação mais direta de seus públicos, que fortalece a sustentabilidade institucional e a competitividade do seu negócio.
Pode-se dizer que há ainda uma resistência a adotar de fato a interatividade em seu site também por se acreditar que isso vai gerar um trabalho de acompanhamento e gestão dessas informações para o qual acredita-se que ainda não existe pessoal suficiente ou devidamente capacitado para atendê-las.
Pesa também nessa decisão o receio de que a Unidade, cuja existência é baseada na coordenação de um arranjo institucional inédito e único no Brasil e no mundo em parcerias científicas e políticas, não consiga administrar e conciliar interesses de dezenas de instituições de pesquisa, ensino e extensão em todo o País. Abrir para uma participação interativa poderia gerar conflitos e críticas, não só da cadeia produtiva e sociedade em geral, mas também internamente ao Consórcio Pesquisa Café.
Assim, os mecanismos institucionais acionadas quando o tema é web 2.0 são reativos e não proativos, o que significa dizer que há uma escolha pela absorção controlada das influências vinda do seu mundo externo e de sua não-cultura.
Resistências à parte, sabe-se que há formas de driblar essas questões, focando interatividade em públicos de interesse mais direto, abrindo espaço para os demais, conforme a necessidade e a capacidade de atendimento. Além disso, há meios de gerir essas informações de forma estratégia, de modo que sirvam principalmente como feedback do trabalho que está sendo prestado, servindo de ferramenta para direcionar e aprimorar ações. São essas sugestões feitas já de antemão. Vejamos mais.