Educadores, em geral, e notadamente professores de Matemática, têm se preocupado com os bloqueios e com o fracasso escolar de muitos alunos. As variáveis afetivas, entre elas a motivação, também têm uma importante influência nos resultados escolares dos alunos, apesar de se verificar, por vezes, uma tendência, em especial, de professores da educação básica, em enfatizar, de maneira considerável, a questão do raciocínio e do pensamento lógico no ensino da Matemática.
Mas para mudar o conceito que o aluno faz quanto à Matemática, muitas práticas pedagógicas utilizadas ainda hoje devem ser revistas, como as aulas expositivas em que o professor passa para o quadro aquilo que ele julga importante, o aluno copia e, em seguida, procura fazer exercícios de aplicação que, em geral, são repetições de um modelo apresentado pelo professor. Assim, os alunos passam a acreditar que a aprendizagem em Matemática se dá por meio de um acúmulo de fórmulas e algoritmos, e que a Matemática é um corpo de conceitos verdadeiros e estáticos, sobre os quais não se pode duvidar ou questionar (D’AMBRÓSIO, B. S., 1989).
A autora supracitada propõe alguns exemplos de propostas de trabalho visando melhorar o envolvimento do aluno com a Matemática. Entre elas, poder-se-iam apontar: resolução de problemas como proposta metodológica, a modelagem, o uso de computadores, a etnomatemática, a história da Matemática como motivação para o ensino de tópicos do currículo e o uso de jogos matemáticos.
Resolução de Problemas
Visa a construção de conceitos matemáticos pelo aluno por meio de situações que estimulam a curiosidade Matemática, pois assim o mesmo será capaz de interpretar os fenômenos matemáticos e explicá-los dentro de sua concepção da Matemática envolvida.
Assim, o aluno envolve-se com o “fazer” matemático no sentido de criar hipóteses e conjecturas e investigá-las a partir da situação problema proposta.
Modelagem
Com a modelagem matemática, o aluno se torna mais consciente da utilidade da Matemática para resolver e analisar problemas do dia-a-dia. É uma fase fundamental para que os conceitos trabalhados tenham um maior significado para os alunos.
O Uso de Computadores
Acredita-se que metodologia de trabalho dessa natureza tem o poder de dar ao aluno a autoconfiança na sua capacidade de criar e fazer Matemática. Com essa abordagem, a Matemática deixa de ser um corpo de conhecimentos prontos e simplesmente transmitidos aos alunos e passa a ser algo em que o aluno faz parte integrante do processo de construção de seus conceitos. Um exemplo é o software Gabri-Géomètre II, que permite abordar qualquer assunto de geometria ou qualquer atividade na qual a geometria pode ser útil.
Etnomatemática
Procura-se eliminar a concepção tradicional de que todo conhecimento matemático do indivíduo será adquirido na situação escolar e, mais ainda, de que o aluno chega à escola sem nenhuma pré-conceituação de ideias matemáticas. Essa proposta de trabalho requer uma preparação do professor no sentido de reconhecer e identificar as construções conceituais desenvolvidas pelos alunos.
História da Matemática
Representa a motivação para o trabalho com o desenvolvimento de diversos conceitos matemáticos, pois parte do princípio de que o estudo da construção histórica do conhecimento matemático leva a uma maior compreensão da evolução do conceito, enfatizando as dificuldades epistemológicas inerentes ao conceito que está sendo trabalhado.
Jogos Matemáticos
Esta é uma abordagem metodológica baseada no processo de construção do conhecimento matemático do aluno, por meio de suas experiências com diferentes situações problemas colocadas em forma de jogo.
São diversas as linhas metodológicas enfatizando a construção de conceitos matemáticos pelos alunos, nas quais eles se tornam ativos na sua aprendizagem, pois deixam de ter uma posição passiva diante da sua aprendizagem da Matemática, além de deixar de acreditar que a aprendizagem da Matemática possa ocorrer como consequência da absorção de conceitos passados a eles por um simples processo de transmissão de informação.
Segundo Pirola (1995), muitos professores apresentam o conteúdo matemático desvinculado do cotidiano, sem se preocuparem com a aprendizagem de significados e a formação dos conceitos significativos. Os conceitos lógico-matemáticos são apresentados ao aluno não como conceitos inter-relacionados, mas como uma infinidade de definições técnicas e demonstrações abstratas e, muitas vezes, incompreensíveis, de forma a priorizar a memorização, desconsiderando, assim, a compreensão. Essa forma de ensino pode contribuir para uma baixa motivação, gerando insatisfação quanto à disciplina.
Segundo Pais (2006), a resolução de problemas é uma estratégia para trabalhar com os valores educativos da Matemática e não para estimular competições pela via do conhecimento. No contexto escolar, é importante que o aluno se envolva de forma intrínseca com o conhecimento matemático. Isso contribui para que a aprendizagem se torne mais significativa, uma vez que incluía experimentação e a descoberta do novo. O autor enfatiza que a descoberta da solução pelo aluno representa a origem da motivação para novas aprendizagens.
As ideias do professor sobre a motivação têm uma enorme influência, pois se ele considera que a motivação ou desmotivação dos alunos é um traço estável de sua personalidade, cuja aquisição se deu em contextos alheios à escola, dificilmente tentará modificá-la ou manifestará alguma expectativa de mudança futura (MARCHESI, 2004). Assim, o professor precisa estar sempre motivando os alunos em situações cotidianas como, por exemplo, incentivar que resolvam problemas do livro, a fim de entenderem melhor a matéria (STERNBERG; GRIGORENKO, 2003).
Conseguir que os alunos confiram algum sentido às suas aprendizagens e se sintam motivados para elas supõe ensinar bem. Consequentemente, os objetivos, os métodos pedagógicos, os sistemas de organização e relação, e os critérios de avaliação que
correspondem a uma boa prática docente são os mais adequados para prevenir e reduzir a desmotivação. Assim, Marchesi (2004) propõe que, para o aluno estar motivado, é necessário que o desenvolvimento pessoal e social dos alunos não esteja à margem do currículo, mas deve fazer parte de todo ensino oferecido. Sinaliza ainda que uma atitude de confiança e de responsabilidade ajuda os alunos a se conhecerem melhor e a aceitarem a responsabilidade pelo que fazem. Ressalta que é necessário estabelecer relações tutoriais imaginativas e flexíveis e que a participação dos alunos em programas comunitários ou a experiência em locais de trabalho permite os mesmos ampliarem suas habilidades sociais e sua independência.
Uma análise das pesquisas efetuadas mostra que o desempenho escolar em Matemática sofre influência de variáveis cognitivas e motivacionais. As relações entre atitudes vinculadas à Matemática e desempenho têm sido focalizadas por pesquisadores como, por exemplo, Neves, L. F. (2002), que investigou as relações entre o desempenho dos alunos em Matemática, suas percepções e expectativas, bem como as percepções e expectativas dos respectivos professores quanto a este desempenho. Participaram do estudo 122 alunos de 3ª e 4ª série do ensino fundamental, de ambos os gêneros. Os resultados revelaram que os alunos que tiveram crenças de maior autoeficácia apresentaram melhor desempenho em Matemática. O estudo ainda revelou que existe uma relação recíproca entre as crenças nas próprias capacidades e os resultados alcançados.
Gontijo (2007) investigou a relação entre criatividade, motivação em Matemática e criatividade em Matemática, em uma amostra de 100 alunos, dos gêneros masculino e feminino, da 3ª ano do Ensino Médio de uma escola particular do Distrito Federal. Não foram observadas diferenças significativas entre alunos dos gêneros masculino e feminino quanto às médias em criatividade no Teste Torrance do Pensamento Criativo. Porém, os alunos do gênero masculino apresentaram melhor desempenho em comparação aos alunos do gênero feminino em relação à criatividade em Matemática. Quanto à motivação em Matemática, os alunos do gênero masculino se perceberam de forma mais favorável em relação a dois dos seis fatores da escala aplicada “Jogos e Desafios” e “Resolução de Problemas”, enquanto os alunos do gênero feminino evidenciaram percepção mais favorável apenas no fator “Hábitos de Estudo”. Nos demais fatores, não foram encontradas diferenças significativas. Constatou- se ainda correlação positiva entre criatividade e criatividade matemática e entre motivação e criatividade em Matemática.
Preckel et al. (2008) investigaram as diferenças de gênero entre alunos alemães, sendo 181 superdotados e 181 não-superdotados, em desempenho acadêmico, autoconceito,
interesse e motivação em Matemática. Autoconceito, interesse e motivação foram medidos por questionários. Os resultados indicaram que os alunos superdotados apresentaram melhor desempenho em Matemática do que os alunos de habilidade média. Não foram observadas diferenças significativas em Matemática entre alunos de diferentes séries, tendo, entretanto, os alunos do gênero masculino apresentado resultados mais satisfatórios. Quanto às medidas de autoconceito, interesse e motivação, as diferenças entre gêneros foram maiores em alunos superdotados do que em alunos de habilidade média. Os pesquisadores concluíram que as mulheres costumam considerar sua competência matemática mais baixa do que os homens, e as mulheres superdotadas, no estudo, não foram exceção, apesar de terem obtido notas boas em Matemática. Ressaltaram, também, a necessidade de programas para desenvolver o interesse em Matemática em alunas superdotadas, pois temem que elas possam ser prejudicadas em escolhas futuras quanto às carreiras profissionais e ocupações que requeiram o domínio da Matemática.
Os resultados encontrados por Gontijo (2007) e por Preckel et al. (2008) estão em consonância com Landau (1990) e Wechsler (2002), as quais, em suas pesquisas com crianças superdotadas e criativas, não encontraram diferenças significativas entre meninos e meninas em habilidades de pensamento criativo. Porém, constatou-se que as meninas, apresentam melhor desenvolvimento da linguagem; maior capacidade de adaptação, ajustando-se com facilidade aos papéis sociais que lhes são impostos e se conformando com eles; além de serem educadas para expressar menos curiosidade e mais conformismo. Os meninos, por sua vez, são mais encorajados a ousar, a se arriscar, a pensar e agir de forma independente, a realizar novas descobertas, fazendo com que apresentem melhor performance em Matemática e Ciências.