“Factores históricos importantes, juntamente com a forte regionalização ajudaram à criação de clusters portugueses com um elevado grau de especialização. (…) Alguns são relativamente bem desenvolvidos (…) enquanto que outros revelam algumas fraquezas estruturais e têm pouca profundidade em termos de indústrias de máquinas ou de serviços, como o calçado. No entanto, todos eles constituem bolsas importantes de conhecimentos portugueses sobre os quais se pode construir posições mais fortes de exportação.”
PORTER (1994)
Em 1994, M. PORTER apresentava como Construir as Vantagens Competitivas de Portugal. Analisa potencialidades e fragilidades do sector industrial e empresarial, assim como faz uma leitura da situação nacional no que se refere a cada um dos componentes do modelo do Diamante (já referido e descrito anteriormente) propondo, naturalmente, medidas/acções para concretizar essas vantagens competitivas. Começa por analisar cinco Clusters portugueses: dos lacticínios, do calçado, dos produtos de madeira, das rochas ornamentais e dos moldes para plástico, embora identifique outros, como o do vinho, do vestuário, da cerâmica, das rolhas de cortiça, da celulose e papel, do couro, do turismo, dos têxteis de lã, das frutas, da horticultura, entre outros. O autor pega no caso do Cluster de Produtos Florestais sueco e compara-o com o português, demonstrando que a inexistência de indústrias relacionadas internacionalmente competitivas (no caso português) resulta do facto de se tratar de um Cluster frágil e pouco profundo. Enquanto que na Suécia, neste Cluster, numerosas indústrias são competitivas a nível internacional (pasta de papel, toros e aparas de madeira, químicos, consultoria e engenharia, maquinaria e equipamento de papel e pasta de papel, serrações, maquinaria de serragem, silvicultura, mobiliário de madeira, casas pré-fabricadas, materiais de construção, etc.), no Cluster português apenas o são as indústrias de pasta de papel e da cortiça.
77 Figura 5. Exemplos de Clusters Regionais em Portugal (segundo M. PORTER)
Fonte: PORTER (1994, pg. 55)
Neste trabalho, o autor começou por analisar catorze sectores, considerados com alguma importância para a economia e potencial para se afirmarem enquanto Clusters, a saber: automóvel; cerâmica; químicos; cortiça; electrónica; calçado; mobiliário; indústria extractiva; moldes; rochas ornamentais; papel; celulose; têxteis/vestuário e produtos de madeira. Depois de examinados, foram seleccionados apenas quatro: o sector automóvel; o calçado; os têxteis e os produtos de madeira. Esta opção foi justificada pelo facto de alguns dos restantes terem uma capacidade limitada de criar inter-relações com outros sectores. Ficou também de fora o Cluster da cortiça dado que os substitutos (plástico e alumínio) não integram outros Clusters, logo seria inviável a interligação com outros sectores/Clusters.
Naquilo que PORTER (1994, pg. 144), neste projecto, designa de Novo Paradigma para a Mudança inclui sete princípios que deverão nortear as opções portuguesas na busca de um maior desenvolvimento económico. Esses sete princípios, que nos parecem
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importantes ter em consideração, na afirmação de um qualquer Cluster com potencialidades na economia portuguesa, como cremos ser o caso do Cluster do Mar, são:
- os indivíduos operam a mudança, não as instituições;
- o sector privado deve conduzir a mudança, não o Governo ou as instituições públicas; - ênfase na acção e não na produção de relatórios;
- reformas “determinadas pela procura” e não “determinadas pela oferta”;
- mudança avaliada pelo seu impacto nos quatro determinantes do Diamante e não pelo seu impacto macroeconómico;
- soluções consideradas em termos de problemas e não em termos funcionais; - adopção de uma visão sistémica em lugar das soluções parciais.
Os indivíduos, enquanto agentes activos e enformadores da procura, e o sector privado em geral assumem, deste modo, um papel primordial na dinamização de um Cluster, cuja abordagem deve sempre privilegiar uma perspectiva global (“visão sistémica”) e integrada.
Nas Iniciativas para a Acção, o autor faz o diagnóstico e desenvolve uma visão para aumentar a competitividade de alguns Clusters ou políticas públicas. Nesta abordagem considera:
- na agricultura: o sector dos vinhos; - nos serviços: o turismo;
- na indústria: o ramo automóvel, o calçado, as malhas e os produtos de madeira; - nas políticas públicas: a educação, o financiamento, a gestão florestal, as capacidades de gestão e a ciência e tecnologia.
Analisemos, meramente como referência, o exemplo dos vinhos, no sentido de uma breve exploração metodológica, seguida nesta investigação liderada por PORTER. Ao fazer o diagnóstico da situação actual do sector, o autor identifica, entre outros aspectos que:
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- a proliferação de marcas impede a criação de uma imagem forte; - há ausência de standards de qualidade bem definidos;
- há erosão da vantagem tradicional na mão-de-obra barata; - a cooperação e comunicação são limitadas na I&D;
- existem escassos conhecimentos de Marketing, Vendas e Distribuição; - persistem barreiras burocráticas.
De seguida, propõe-se uma Visão para o Cluster que, neste caso, se concretiza nos dois pontos seguintes:
- melhorar a imagem dos vinhos portugueses, quer no mercado interno, quer externo; - melhorar a sua (do Cluster) estrutura global de custos.
Como Acções e Task Forces Propostas, são sugeridas para o sector, entre outras:
- reduzir os custos nas vinhas e desenvolver o seu potencial (melhorando as capacidades profissionais dos viticultores e a qualidade das vinhas/uvas, reduzindo os custos de produção);
- reforçar as actividades de I&D, torná-las mais dirigidas para o mercado e melhorar as aptidões profissionais dos membros do Cluster a todos os níveis (através do aumento da aplicabilidade de I&D à indústria do vinho; da melhoria da comunicação entre as instituições de I&D; da melhoria das capacidades dos membros do Cluster).
SALVADOR e CHORINCAS (2006) analisam o trabalho de M. PORTER, onde este propõe como grandes Clusters nacionais o vinho, a floresta e o turismo, e apontam o facto do autor se ter centrado em sectores tradicionais, em detrimento de sectores de ponta e de maior valor acrescentado. Aplicam o modelo do Diamante ao caso português, do que se conclui o seguinte:
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Modelo do Diamante Situação nacional
Condições dos factores - Importância dos Clusters regionais ligados a recursos
naturais e a trabalho intensivo
Condições da procura
- Dimensão reduzida do mercado interno
- Falta de uma procura sofisticada (com elevado poder de compra)
Indústrias conexas
- A maioria dos Clusters são simples Distritos Industriais no sentido Marshalliano
- Há fracas sinergias e redes fracas entre empresas
Estratégia, estrutura e rivalidade entre empresas
- Adesão UE: ambiente mais favorável ao investimento e à concorrência crescente
- Necessidade de aumentar a cooperação (combate ao individualismo dos empresários)
Quadro 1. Aplicação do modelo do Diamante de PORTER, por SALVADOR e CHORINCAS (2006)
As duas autoras consideram que, apesar de alguns avanços nos últimos anos, ainda estamos longe de ter Clusters regionais dinâmicos e competitivos no país. São também referidos os cinco Mega - Clusters nacionais em que o Governo decidiu apostar, a saber: - saúde; - comunicação e electrónica; - aeronáutica e automóvel; - moda; - turismo/lazer.
Até muito recentemente não havia referências à criação de um Cluster do Mar em Portugal. Com efeito, em Julho de 2009, foi reconhecido formalmente o Cluster do Conhecimento e Economia do Mar, constituído na Associação Oceano XXI cujo principal
objectivo é “dinamizar o Cluster do Conhecimento e da Economia do Mar promovendo
o desenvolvimento de relações de cooperação entre instituições do sector científico, empresas e entidades associativas dos diferentes sectores e actividades cuja área
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funcional de procura final é o Mar”29. Os sócios fundadores da Oceano XXI são a
Associação Fórum Mar Centro e o Instituto para o Desenvolvimento do Conhecimento e da Economia do Mar, sendo vários os parceiros deste Cluster, como a Associação de Indústrias Marítimas, a Associação Nacional dos Industriais de Conservas de Peixe, outras associações, cooperativas de produtores, empresas (de pesca, aquicultura, transformação de pescado, energias renováveis, tecnologias…), estaleiros navais, autarquias, instituições de investigação e de ensino superior, museus, entre outros. O objectivo geral da constituição e desenvolvimento deste Cluster do Mar prende-se com o “Valorizar o recurso MAR através do desenvolvimento de um conjunto de actividades, de produtos e de serviços que promovam o crescimento económico, o emprego e a internacionalização da região, apostando no reforço da I&D&I, da formação do empreendedorismo e da cooperação de forma a contribuir, em condições de sustentabilidade, para a competitividade da região”.30 Para isso, a Oceano XXI orienta
a sua acção de acordo com quatro linhas prioritárias, nomeadamente relacionadas com a I&D, a valorização dos produtos, a modernização das actividades produtivas e a dinamização do turismo e náutica de recreio:
Figura 6. Linhas prioritárias da OCEANO XXI
29 In, www.oceano21.org . 30 Idem. OCEANO XXI Investigação, Desenvolvimento Tecnológico, Inovação e Formação (economia do Mar) Modernização e inovação das indústrias
marítimas, actividade portuária e logística Desenvolvimento da náutica de recreio e turismo náutico; valorização do património marítimo Valorização dos produtos
da pesca, aquicultura e salicultura
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A Associação Fórum Mar Centro constitui-se como a Associação para a Dinamização do Cluster da Economia do Mar na Região Centro, sendo um factor a destacar a existência de alguns estaleiros navais nesta região – como os de Peniche, do Mondego, do Centro de Portugal, a Navalfoz e a NavalRia – cujas características, nomeadamente ao nível da mão-de-obra e know-how, significam potencialidades a explorar. O Instituto para o Desenvolvimento do Conhecimento e da Economia do Mar, criado em 2006 e associando diversas entidades empresariais e institucionais, em torno da investigação, formação e desenvolvimento dos sectores marítimos, assume o papel de dinamizador do Cluster do Mar da Região Norte.
No âmbito geral do Cluster do Conhecimento e da Economia do Mar foram reconhecidos alguns projectos âncora, nomeadamente:
- ECOMARE (projecto de construção de um aquário e centro de recuperação de animais marinhos);
- Parque de Ciência e Tecnologia do Mar da Universidade do Porto (na área da ID; formação e divulgação científica; acolhimento empresarial…);
- CONSUPESCA (em torno do objectivo de se conseguir a redução do consumo de combustível pela frota de pesca);
- PANTHALASSA (no âmbito da segurança alimentar na cadeia de transformação do pescado);
- Promoção e desenvolvimento do turismo náutico e dos desportos náuticos (incluindo a construção do terminal de cruzeiros de Leixões e a construção do Centro de Mar de Viana do Castelo, dedicado ao desenvolvimento da náutica de recreio e desportos náuticos);
- Turismo marítimo de natureza (incluindo, por exemplo, acções nas Berlengas…). Existem, ainda, projectos complementares àqueles que se concretizam no apoio à investigação, desenvolvimento, inovação e internacionalização empresarial no sector marítimo, à valorização do potencial das zonas costeiras, a acções colectivas no seio do sector, entre outros.