”…l’agglomération est à l’espace ce que l’apprentissage est au temps. La proximité est la première forme de mise en rapport des activités humaines.”
BENKO e LIPIETZ (2000)
A configuração da ocupação espacial de um determinado território, que reflecte a intervenção de agentes e a influência de dinâmicas diversas, vai-se alterando ao longo do tempo. A apropriação social de um espaço num determinado momento gera um padrão de ocupação (redes, fluxos…) específico, que será inevitavelmente reajustado sempre que se alterem as forças intervenientes sobre esse espaço (agentes e/ou dinâmicas económicas, sociais, culturais, etc…). Como ponto de partida na abordagem à questão da concentração de agentes e actividades num dado território, consideremos as seguintes palavras de CHORINCAS, MARQUES e RIBEIRO (2001, pg.
43): “…a globalização da actividade económica e a tendência das empresas operando
em áreas de negócio afins se localizarem e actuarem em proximidade tornaram-se forças motrizes do desenvolvimento económico…”. Com efeito, as vantagens competitivas de um território em relação a outro passam, na opinião de numerosos autores20, pela concentração geográfica das actividades económicas, aquilo a que economistas e geógrafos apelidam de “economias de aglomeração”, “economias de vizinhança” ou “economias de proximidade”. A aglomeração é, para aqueles autores (2001, pg. 47), um dos três tipos de polarização geográfica (a par da Co-localização e da Clusterização), consistindo “…numa localização geograficamente próxima de empresas que contribui para a sua competitividade, mas de um modo que se poderá designar como ‘passivo’; neste caso são fracas as relações entre as empresas que concorrem no mesmo sector, bem como entre fornecedores e clientes; predominam as
20
COURLET (2001, pg. 50) sublinha a “efficacité du modèle de concentration d’activités (…) la
competitivité globale s’appuie dans de nombreuses activités sur ces formes d’agglomérations d’entreprises industrielles et de services.”
50
relações com as Universidades locais (…) com o sector de serviços de suporte e com as infra-estruturas”.
Como enquadrar o papel destas economias regionais, que resultam da concentração espacial/aglomeração de actividades, com a globalização da economia mundial? Em primeiro lugar, e como refere SALVADOR (2003, pg. 1177), importa considerar que a “…globalização é também sinónimo de diferenciação e especialização, através da criação de redes de locais ou regiões dinâmicas que se evidenciam do resto do mundo”
e que, por isso, “…acarreta a diversificação dos mercados e produtos, a ascensão das
identidades ou especificidades regionais, a desestandardização da produção.” Sendo assim, a especificidade e a diferenciação tornam-se a chave do sucesso das economias locais e regionais no mercado mundial (global). A globalização, como foi já referido, ao estimular a crescente circulação de capitais, originou uma nova distribuição espacial das actividades económicas, o que tem estimulado a competição entre territórios na
captação de investimentos externos. Como refere GIRAUD (1996, pg. 119), “num
determinado território, a evolução da riqueza depende então cada vez mais do seu carácter atractivo para o conjunto dos capitalismos, qualquer que seja a sua origem nacional.” A competitividade territorial passa a ser avaliada pela capacidade que um território tem de atrair investimentos, por apresentar factores competitivos, como infra-estruturas para a sociedade do conhecimento ou sectores de grande dinamismo económico, por exemplo, e de proporcionar níveis sustentáveis de emprego e a obtenção de rendimentos elevados. Encontramo-nos, desta forma, num contexto de ”concurrence aigue entre firmes et entre territoires”, (POMMIER, 2001, pg. 169), onde a atitude dos agentes locais é fundamental para o sucesso da economia local/regional. A proximidade geográfica entre actividades de ramos semelhantes e complementares é considerada factor determinante de competitividade no mercado actual, pois traduz- se em benefícios, relacionados com a redução dos custos de produção e de transporte, e o consequente aumento dos lucros, assim como com a maior facilidade de
divulgação da informação e das inovações tecnológicas21.
21“A concentração de empresas e instituições numa determinada região ou território diminui os custos
de transporte, acelera o ritmo de difusão da informação, leva à melhoria dos produtos, faz com que a ‘a indústria ande no ar’, segundo expressão do próprio Marshall. A concentração de actividades
51
AUDRETSCH e LEHMANN (2006) reconhecem que a emergência das regiões e da proximidade geográfica são elementos importantes da actividade económica, sendo o conhecimento um factor determinante da competitividade e do crescimento. Referem também que a inovação anda normalmente mais associada a empresas de pequena dimensão. Sendo assim, assumem a defesa dos Clusters regionais como fórmula do sucesso da afirmação territorial no contexto actual de intensa concorrência, em que a
competitividade se processa à escala internacional – “…globalization has dramatically
altered both the spatial and the organizational forms of economic activity, rendering regional clusters once again a key building block for international competitiveness” (pg. 189). Já PANICCIA (2006, pg. 93) refere-se à concentração espacial de empresas como pré – requisito para a existência de “external economies”, defendendo que o conceito de aglomeração aparece mais associado a empresas de pequena dimensão. Relativamente a este conceito, sugere MARKUSEN (2000, pg. 99) que “…le caractère attractif d’un lieu réside non pas dans le calcul individuel de localisation des entreprises ou des travailleurs, mais dans les économies externes que réalise chaque entreprise avec ses homologues et ses prestataires de services grâce à sa situation spatiale“. Desencadeia-se, assim, um processo de competitividade entre territórios, que no fundo não mais é do que a expressão da competitividade existente entre empresas e indústrias, e que foi estudado pelo economista MICHAEL PORTER através do conhecido Modelo do Diamante:
Figura 3. O Modelo do Diamante (ou Diamante da Vantagem Nacional) de M. PORTER
Adaptado de PORTER (1994, pg. 50)
semelhantes, concorrentes e complementares (…) derivam da localização e constituem uma importante fonte de aumento de rendimentos e vantagens competitivas”, SALVADOR (2003, pg. 1178-1179).
Condições dos Factores Condições da Procura Indústrias Relacionadas e de Suporte Estratégia, Estrutura e Rivalidade Empresarial História Políticas Públicas
52
Na sua opinião, este modelo é “como o campo de batalha que cada país estabelece para as suas indústrias e empresas”, correspondendo cada ponta do Diamante aos “quatro grandes atributos duma nação, que contêm os componentes da visão sistémica”, PORTER (1994, pg. 49). Ora, a competitividade de cada território, reforçada pela concentração geográfica, é, assim, medida através da análise dessas quatro pontas, a saber:
- Condições dos factores (de produção, oferecidas por um território e traduzidas pela existência/oferta de terra, trabalho, infra-estruturas, capital, recursos naturais, etc.): “presença de conjuntos de aptidões, tecnologias e infra-estruturas altamente especializados, bem como de capital disponível para as necessidades de empresas específicas, permanentemente melhorados”, PORTER (1994, pg. 50);
- Condições da procura (dinamizadora da inovação, dela está dependente o sucesso, uma vez que quanto mais alto for o grau de exigência e de sofisticação dos
consumidores mais as empresas são pressionadas a inovar e a progredir): “presença de
clientes locais exigentes, que pressionem as empresas a inovar e cujas necessidades sofisticadas representem/antecipem as necessidades globais”, PORTER (1994, pg. 50); - Indústrias Relacionadas e de Suporte (podem constituir-se, igualmente, como
motores de inovação e progresso): “fornecedores locais capazes de inputs
especializados (componentes, máquinas e serviços), componente essencial da inovação na indústria”, PORTER (1994, pg. 50);
- Estratégia, estrutura e rivalidade empresarial (a estratégia, as condições do meio e competitividade/rivalidade entre empresas constituem estímulos à inovação e
dinamismo): “ um contexto local que permita estratégias e formas de organização e de
gestão que apoiem a inovação”, PORTER (1994, pg. 50).
Além destes, considera ainda as políticas públicas e os acontecimentos do passado, como factores determinantes da competitividade territorial. Para o autor (pg. 53) a concentração geográfica reforça a vantagem competitiva dos territórios, uma vez que “aumenta a pressão da rivalidade local e a frequência de cisões, estimula e aumenta a sofisticação dos clientes locais, estimula a formação de indústrias relacionadas de suporte, incentiva um maior investimento local na criação de factores especializados e
53
proporciona um pólo de atracção para os factores móveis”, sendo que a rivalidade, neste contexto, é dinamizadora do desenvolvimento.
Algumas aplicações deste modelo, como as realizadas no nosso país por SALVADOR (2003) e (2003)a ao turismo algarvio e ao triângulo dos mármores alentejanos, traduziram a sua utilidade na identificação de mais-valias e debilidades dos respectivos territórios, enquanto elementos de competitividade territorial, dados importantes a considerar na definição das linhas estratégicas dos seus planos de crescimento/desenvolvimento e na sua capacidade de afirmação no que toca àqueles sectores económicos.
Também BENKO e LIPIETZ (1994a, pg. 7) dão um contributo para a abordagem das vantagens da proximidade geográfica de actividades. Considerando os efeitos positivos da aglomeração, distinguem as economias de aglomeração internas ao ramo (quando duas actividades intimamente interdependentes se localizam num mesmo espaço geográfico – nesta obra é dado o exemplo das vantagens da localização próxima do vendedor e do fabricante de gelados) dos efeitos de proximidade externos ao ramo (quando a deslocação a um determinado espaço para adquirir um produto
proporciona a aquisição de um outro, sem qualquer ligação entre si – um dos
exemplos referidos por aqueles autores é o de uma deslocação para se adquirir um creme solar que resulta na aquisição suplementar de um gelado). Refira-se, ainda, que os defensores das vantagens da aglomeração espacial normalmente associam-na à especialização, ou seja, quanto mais uma empresa se especializa mais dependerá das que lhe são complementares, logo mais vantajosa é uma localização de proximidade.
Como referem aqueles autores - BENKO e LIPIETZ (2000, pg. 15) -“La nouvelle
géographie sócio-économique, celle qui s’est bâtie à l’époque du fordisme sur l’étude des «circuits de branche», puis a encensé les «districts industriels» du postfordisme, avait souligné qu’en quelque sorte chaque région «méritait», par son tissu social propre, sa spécialisation dans le capitalisme contemporain. Pour l’économie géographique, ce tissu se réduit à une formule magique: «effets externes de proximité ou d’agglomération».”
Procurando explicar o incentivo de localização de empresas e trabalhadores em regiões onde ocorre a concentração, HANSON (2000, pg. 478) defende que a
54
aglomeração espacial “…appears to be a dynamic process, involving a high degree of
interregional and intersectoral mobility of labor and capital”, sendo que “explaining why labor and capital are attracted to particular regions is essential to unlock the mystery of why economic activity spatially agglomerates”. Considera que se os custos médios de produção decrescem com o aumento produtivo daí decorrem as vantagens de concentrar o processo numa localização particular. Outra conclusão do autor é que as regiões densamente concentradas ou oferecem níveis de produtividade mais altos ou menores custos de produção, daí a sua atractividade.
Partilhamos da opinião de CHORINCAS, MARQUES e RIBEIRO (2001, pg. 65) ao considerarem que a proximidade geográfica é facilitadora de inovação e competitividade, na medida em que:
- aumenta as vantagens competitivas das empresas; - beneficia das vantagens das economias de aglomeração; - incentiva as relações de confiança entre actores regionais; - cria redes de cooperação;
- aprofunda redes com instituições científicas e ligadas à tecnologia; - reduz o individualismo empresarial.
Se, por um lado, as empresas são atraídas para localizações que tenham grandes concentrações de unidades congéneres ou complementares, por outro, os
trabalhadores são atraídos por níveis salariais mais altos. Logo, “There is now a large
body of empirical evidence that suggests that economic benefits to agglomeration exist and have quantitatively important effects on the migration of labor and the location of industry”, HANSON (2000, pg. 489).
A proximidade entre actividades permite a criação de ligações que facilitam as transacções, sendo, por isso, promotoras de economias de escala. Esta premissa tem sido abordada essencialmente no contexto das pequenas e médias empresas. Quando alguns economistas alertaram para o papel dos Distritos Industriais, a generalidade dos autores andava fascinada com a grande empresa e o taylorismo. VIDAL (2001, pg. 85) refere que “il était donc difficile de faire admettre que, grâce à des regroupements
55
articulés, les petites entreprises pouvaient être aussi compétitives que les grandes, à condition de bien organiser les chaînes de valeur et de savoir.” No entanto, começaram a afirmar-se os defensores das pequenas e médias empresas que, já no final do século XIX, tinham encontrado eco entre autores como G. COLOMBO e G. TONIOLO, referidos
por VIDAL, (2001, pg. 90, 92-93), que acrescenta que “les PME italiennes ont permis à
l’économie transalpine de surmonter des crises lors des périodes les plus noires de son histoire. Les petites entreprises des districts, grâce à leur organisation en réseau et à leur capacité à opérer comme des groupes sociologiquement soudés ont été aux premières lignes de ces combats.”
As relações empresariais e territoriais cada vez mais complexas que, entretanto, começaram a consolidar-se, conduziram, no final do século passado, ao aparecimento e difusão do conceito de rede(s) – de telecomunicações, de empresas, de territórios… BENKO e LIPIETZ (1994a, pg. 4) falam de redes de empresas (“À grande empresa integrada, sucede a rede de empresas especializadas, ligadas por relações de subcontratação ou de parceria. No caso da subcontratação pura, as empresas contratantes podem em rigor dirigir-se a uma empresa longínqua (na Ásia…): mas é preciso encontrá-la, é preciso que ela esteja integrada num mercado de empresas de subcontratação, agrupadas em torno de um porto ou aeroporto”), DUPUY (1991, pg. 52) de territórios – rede (“Chaque citadin reconstruirait un territoire-réseau dont il serait (…) le centre. (…) Le territoire – réseau pourrait ainsi combiner la fourniture des services nécessaires à la vie urbaine, des relations sociales, des relations avec des lieux de loisirs ou des centres personnels d’intérêt. (…) Cette recomposition d’un réseau- territoire par le citadin, cette reconstitution d’une sorte de ville de réseaux centrée sur son propre projet de vie, serait l’ébauche d’un nouveau modèle de société.”)
Em síntese, a globalização, ao enaltecer as identidades regionais e locais como factor determinante da competitividade territorial e as vantagens proporcionadas pela concentração geográfica das actividades, induziu o reaparecimento do conceito de Distrito Industrial, criado nos finais do século XIX por Alfred Marshall, e que agora surge mais complexo, teoricamente mais exigente e associado a outros como Sistema Local de Produção, Cluster Regional e Região Inteligente.
56
3. OS DISTRITOS INDUSTRIAIS DA ERA GLOBAL – OS CLUSTERS LOCAIS/REGIONAIS E