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Hovedtrender i studenttallsutviklingen

2 Det nasjonale FoU- og innovasjonssystemet

2.5 Menneskelige ressurser

2.5.3 Hovedtrender i studenttallsutviklingen

Relativamente aos processos de socialização/educação e à construção identitária, os 4 microempresários entrevistados revelaram ter percursos de vida diferentes, acima de tudo fruto das circunstâncias que a famílias de origem viviam e dos acontecimentos que se foram desenrolando e permitiram moldar as personalidades dos entrevistados e, por conseguinte, as próprias opções que tomaram na vida. Todos os entrevistados, à exceção do Microempresário D que indicou ser analfabeta e nunca ter tido a possibilidade de ir à escola, conseguiram concluir o 4º ano de escolaridade sem grande dificuldade, visto as comunidades onde viviam disponibilizarem escolas que lecionavam até este ano de ensino. Os maiores contrastes nos percursos educativos surgem a partir do 6º ano, altura em que estes, ao residirem em zonas rurais periféricas, dever-se-iam deslocar para a cidade para poderem continuar com os seus estudos. De facto, em Santo Antão, grande parte da população tem a educação básica concluída. Segundo o Relatório de Progresso de Execução dos ODM em Cabo Verde, realizado pelas Nações Unidas, a atual taxa líquida de escolaridade no ensino básico é de 79.7% no Concelho da Ribeira Grande, 73,2% no Concelho do Paul e 83,1% no Concelho de Porto Novo (Nações Unidas, 2009). Existe, também, uma grande evolução na taxa de alfabetização em Cabo Verde sendo esta, atualmente, de 70,3% nos adultos e de 96,6% nos jovens. Mesmo assim, a taxa de alfabetização de Santo Antão (cerca de 70%) continua abaixo da média nacional que é de 78,7% (QUIBB, 2007). Apesar da positiva evolução da conjuntura atual, durante a

infância e a adolescência dos microempresários em análise, “os desafios enfrentados para poderem prosseguir a nível escolar eram muitos, nomeadamente no que respeitava à falta de possibilidades financeiras para o pagamento de propinas e custos inerentes ao estudo, ao facto dos equipamentos escolares do 2º e 3º ciclo se encontrarem longe da comunidade onde residiam, nomeadamente nos centros urbanos, ou porque tinham de trabalhar para poder contribuir para a subsistência da família e por isso abandonavam a escola” (Notas de Campo, Agosto de 2012). A título de exemplo o testemunho dado pelo Microempresário B permite-nos compreender de que forma as baixas condições socioeconómicas impossibilitavam as famílias de, por exemplo, pagar as propinas ou mesmo o transporte escolar dos seus filhos, a fim de estes poderem dar continuidade ao seu percurso escolar. A par destas dificuldades, os restantes microempresários apontaram outras fundamentações tais como a necessidade de apoiar a família, algumas delas sem o apoio da figura parental, e que por isso sentiam maiores dificuldades de subsistência (microempresário A e D):

“Sendo a família pobre tive de deixar a escola durante algum tempo, isto porque quando terminaríamos, portanto, a 4ª classe era difícil para os nossos pais colocarem-nos na escola que ficava (…) aqui na Povoação. Eu teria de percorrer 12 km numa altura em que não havia muito transporte aqui em Cabo Verde”(MEb); “Quando fiz a 4ª classe, a minha mãe disse-me «menina vais para a escola aprender a costurar.» A minha mãe arranjou-me uma latinha daqueles bombons, arranjou-me agulhas, linha, (…) eu bordava, eu fazia renda” (MEa); “Nunca estive na escola. Não sei escrever nem ler nada”

(MEd).

No caso do microempresário C, em específico, o facto de este não ter dado continuidade à sua educação não veio a revelar constrangimento maior, visto esta ter sido uma opção pessoal e porque não vivia uma situação de carência, possuindo bens familiares os quais herdou e que hoje representam uma das principais fontes de sustento da sua família. Fruto da experiência e do acompanhamento dado pela família, compreende-se que este, desde cedo, empreendeu as competências chave para se autonomizar e para gerir negócios e por isso hoje é um microempresário de sucesso, tendo recorrido ao microcrédito somente enquanto via menos burocratizada para aceder a pequenos montantes de dinheiro que lhe permita fazer alguns investimentos nas suas propriedades (Notas de Campo, Agosto de 2012). No que respeita aos microempresários A e B, estes afirmam, ainda, compreender a importância da educação no seu percurso pessoal e profissional e, por isso, mobilizaram, autonomamente, recursos no sentido de poderem reorientar o seu percurso educativo e aumentarem as suas habilitações profissionais e pessoais:

“Eu não quis estudar mais. Eu tive hipótese. (…) mas eu desisti no primeiro ano” (MEc). (…) Eu comecei a sentir-me cansada (…) então fui fazer algumas formações, fiz de culinária, de manipulação de alimentos. Eu fiz algumas formações e a partir daí é que comecei a ganhar mais experiência para poder trabalhar para outras pessoas” (MEa); “Depois, portanto, de algum tempo fiz algum pedido junto de algumas instituições aqui da Ribeira Grande (…) depois aí apareceu um senhor que era director da escola, conseguiu arranjar-me alguns anos para eu estudar. Tipo de uma bolsa (…) ” (MEb).

Como é possível verificar nos dados de recenseamento de 2000 em Cabo Verde, estes indicam que existe uma correlação direta entre a escolarização e o aumento do nível da qualidade de vida das famílias isto é, as famílias com um nível de qualidade de vida mais baixo são normalmente aquelas que não conseguem assegurar a escolarização dos seus filhos e, por isso, diminuem as oportunidades de progresso económico dos mesmos, perpetuando a sua situação de pobreza (INE

CV, 2001). Desta forma, e como refere Capucha (2005), conclui-se que, no geral, um dos fatores que pode contribuir para o perpetuar da situação de pobreza é a falta de acesso à educação enquanto motor de desenvolvimento de competências pessoais e profissionais que permitam às pessoas uma maior margem de manobra para encontrar alternativas de geração de rendimentos e construir o seu próprio percurso e história de vida.

A educação é, pois, o setor que tem sob a sua responsabilidade a qualificação do capital humano, condição necessária ao desenvolvimento da sociedade em geral, e dos indivíduos em particular, exercendo um papel decisivo nos processos de inclusão social e combate à pobreza. Assim, a aposta nesse setor deverá constituir um dos pré-requisitos fundamentais dos diferentes programas de desenvolvimento em Cabo Verde. Para este efeito, segundo o DECRP III, Cabo Verde tem expandido os estabelecimentos de ensino e, também, os centros de formação técnica e profissional tendo em visto o aumento das taxas de alfabetização e de escolarização. A este nível faz referência à importância de melhorar a qualidade do sistema de ensino, considerando as atuais exigências da sociedade: “a educação é fundamental para a redução de pobreza. Diversos estudos empíricos demonstram que a probabilidade de ser pobre aumenta em relação inversa ao nível de instrução. A melhoria da qualidade de educação tem por isso um papel fundamental no DECRP III e um impacto transversal em todos os clusters de competitividade.” (DECRP, 2012: 95)

Entretanto, à medida que as diferentes trajetórias de vida aqui em análise se foram organizando, os próprios microempresários foram refazendo os seus trajetos pessoais e sociais “à luz e sob o impulso de projectos de identidade (“saber ser”) ” e de “representações das condições de vida que os sujeitos sociais experimentaram na sua diversidade afectiva e emocional (“saber”) ” (Esteves, 1986: 43).

Assim, os respetivos processos de construção identitária são compostos por duas dimensões essenciais: a pessoal no sentido em que a subjetividade da construção do eu acarreta uma dimensão pessoal e de elaboração do projeto de vida, e a coletiva porque o seu projeto de vida está condicionado por fatores externos que determinam, também, a dimensão pessoal e sobre os quais o individuo não tem controlo (Vieira, 2003). Compreender o caminho percorrido pelos microempresários entrevistados é uma tentativa de compreender as suas identidades, e de descobrir um percurso frequentemente difícil e complexo, composto por avanços e recuos e por opções tomadas, muitas vezes inconscientemente dos riscos associados. Assim, face à conjuntura social e económica que viveram na infância há algumas caraterísticas pessoais que os entrevistados manifestaram ter, que coincidem e são fruto da maturação de experiências passadas que traçaram a construção identitária de cada um. Os relatos foram marcados pela honestidade e pela afetividade, permitindo criar um ambiente mais empático e propício à partilha. No entanto, a falta de disponibilidade temporal de alguns microempresários e as dificuldades de expressão de outros traduziram-se em algumas dificuldades em responder de forma elucidativa e objetiva às questões colocadas. Mesmo assim, partindo do olhar geral sobre as informações recolhidas, é possível sentir um grande cruzamento de trajetórias, isto é, as histórias individuais refletem também histórias coletivas de um determinado contexto socioeconómico e histórico. São, pois, histórias que vão dando voz aos seus protagonistas e

contornando vivências muitas vezes semelhantes e outras vezes com subtilezas singulares e distintas.

No que respeita à dimensão pessoal, todos os entrevistados relataram uma vivência impregnada de sonhos e de vontade de ter uma vida diferente daquela que os seus pais, ou o próprio contexto lócus social lhes pode proporcionar. Por isso, a responsabilidade e maturidade incutidas pelo apoio que, desde cedo, tiveram de dar para o sustento da sua família, é um dos pontos mais focados pelos entrevistados:

“Eu cresci uma rapariga madura e responsável. Eu fui adulta. Mas sempre gostei de brincar com os meninos e ainda hoje gosto (…) ” (MEa); “Sempre fui responsável desde pequenino” (MEc).

Para além disso, o determinismo e o espírito empreendedor que desenvolve no indivíduo a busca constante de alternativas que permitem encontrar novos caminhos de progresso é outra das caraterísticas muito presentes e que certamente reforçou, a convicção e iniciativa dos microempresários em procurar de microcrédito.

“Já na altura eu tinha espírito de negócio porque a minha mãe tinha um negócio” (MEa); “Eu posso dizer que sou trabalhador porque luto todos os dias (…) Eu continuo a dizer eu sempre lutei, lutei pela vida e continuo lutando” (MEb); “Sou uma pessoa responsável, honesta e trabalhadora” (MEc).

Sobre uma perspetiva de reciprocidade, encontramos intimamente ligada à dimensão auto, a dimensão hétero dos processos de construção identitária. “Na verdade, o homem não é humano senão porque vive em sociedade. (...) É a sociedade que nos lança fora de nós mesmos, que nos obriga a considerar outros interesses que não os nossos, que nos ensina a dominar as paixões, os instintos (…). Bem longe de estarem em oposição, ou de poderem desenvolver-se em sentido inverso, um do outro – sociedade e indivíduo são ideias dependentes uma da outra (Durkheim, 1978: 45-46). De facto, no processo de socialização dos diferentes sujeitos de atenção, estes descobriram e adotaram diferentes papeis, impostos pela mediação dos seus grupos de pertença nos quais se incluem as redes de suporte anteriormente explanadas, e no elo que têm à sociedade através de um conjunto de valores que os ligam ao seu meio social. Neste ponto, sente-se que a comunidade e as relações de vizinhança têm um papel muito importante pois permitiram aprofundar relações de afetividade facilitadoras de processos de socialização ricos por terem por base valores de solidariedade e a entre-ajuda que aparentaram à investigadora estar na base daquilo que são as atuais redes de segurança social informais e que correspondem a um dos principais recursos de sobrevivência das famílias muito pobres em Santo Antão e Cabo-Verde. (Notas de Campo, Abril de 2012)

“Vivíamos numa comunidade onde brincávamos, jogávamos, fazíamos tanta coisa, (…) foi uma infância feliz” (MEb).

Mais uma vez, o próprio contexto socioeconómico e as situações de carência vividas principalmente pelos microempresários A, B e D reforçaram os seus valores de solidariedade e o sentido de maturidade que reforçam ter hoje em dia.