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4.5 Healthy Choice

4.5.2 Healthy Choice i Norge

“Perguntei se A., uma menina de seis anos, gostava da escola. Ela prontamente respondeu:

– Na creche eu gostava de brincar de massinha, escorregador, mas gosto mais dessa escola porque aprende a ler, escrever e desenhar. Para mim, a professora é boazinha, para os outros, não. Eles não fazem a lição e ficam virados para trás.”

(Diário de campo, abril, 2013)

As crianças são inseridas cada vez mais cedo na escola. A., com apenas seis anos8, já tem uma experiência anterior e outra atual em relação à escola: a

educação infantil e a escola de ensino fundamental. A. parece reconhecer que cada experiência teve uma importância diferente para sua vida e já aprendeu que, se ela desempenhar um determinado papel, será aceita pela professora, que será “boazinha” para ela. A escola é o lugar para A. estar nesse momento da vida.

Uma escola se constitui com a presença de meninos e meninas como A.; escola é lugar de crianças, e isso nos parece óbvio. Para Gimeno Sacristàn, “é preciso problematizar o que é óbvio, do qual faz parte o quotidiano, como meio de realçar, de sentir o mundo mais vivamente e de poder voltar a encontrar o significado do que nos rodeia” (2000, p. 7). A escola faz parte desse bojo de obviedades que constituem as sociedades atuais, na qual naturalmente se frequenta desde muito cedo: estudar significa desenvolver-se e ter maiores chances de um futuro melhor, uma experiência humana imprescindível. “A força dessa representação mítica, que se aceita como algo que é bom e conveniente para todos, até ao ponto de ter sido convertida num direito humano e universal” (GIMENO SACRISTÀN, 2000, p. 8).

Problematizar a razão da escola nos dias atuais (e principalmente seu modus operandi) é questionar em que medida ela atende às demandas da sociedade atual, e, possivelmente, questionar sua importância para o desenvolvimento humano.

A escolarização massiva é uma realidade, e ser criança nos dias atuais significa, entre outros fatores, frequentar a escola. Está posto no imaginário popular que toda criança precisa ir para a escola. Ingressar, estar, permanecer estudando é

um direito e uma obrigatoriedade nesse imaginário. A universalidade da escolarização, e a forma semelhante que se apresenta em diferentes países, “contribui para que sua realidade se dilua no quotidiano das coisas, que parecem ocorrer por necessidade” (GIMENO SACRISTÀN, 2000, p. 7). Já está posta a importância da escolarização e de sua expansão para a ampliação de oportunidades, a construção de identidades e preparação para os desafios da vida:

A escolarização converte-se num aspecto antropológico de importância fundamental que esboça a imagem de uma infância e de uma primeira juventude, focalizadas em condições idealizadas de vida, consideradas inerentes e que são definidoras de um status: ser criança ou adolescente consiste, entre outras coisas, ser considerado um sujeito a escolarizar. (GIMENO SACRISTÁN, 2000, p. 32).

Assim, a escolarização segue uma trajetória natural e está na representação coletiva como algo bom, conveniente e necessário, pois nesse lugar “a criança estará em boas mãos”. Pode-se pensar que a escola é um invento social quase que sagrado. Provavelmente é inconcebível pensar na organização da sociedade atual sem escola. Seu modo de estruturar-se ao longo dos tempos criou um modelo de organização que, aparentemente, nos isenta da responsabilidade de questionar sua historicidade, criticar seus artefatos, propor e assumir as mudanças necessárias para responder às demandas dos dias atuais.

A escola se insere cada vez mais na vida dos mais novos até as idades mais avançadas. Nela, está o legado de ensinar linguagens, valores, comportamentos, formas de pensar que operam no modo das pessoas conviverem na sociedade. “É um mito ligado à crença na existência do progresso, que consideramos formadora de uma vida mais plena e com mais qualidade nas sociedades avançadas e que deveria ser proporcionada a todos pela situação de bem-estar” (GIMENO SACRISTÁN, 2000, p. 8).

Segundo o relatório Educação: um tesouro a descobrir, da Unesco9, a

educação surge como um trunfo indispensável para que a humanidade tenha a possibilidade de progredir na consolidação dos ideais da paz, da liberdade e da justiça social (UNESCO, 2010). Essa fé na educação como uma via para o desenvolvimento humano dá à escola a responsabilidade de garantir para as gerações mais novas o acesso ao conhecimento produzido pelas gerações

anteriores e prepará-las para enfrentar as tensões da atualidade:

a) Tensão entre o global e o local (pensar globalmente e agir na comunidade em que vive, exercendo a cidadania);

b) Tensão entre o universal e o singular (a preocupação com a globalização da cultura e o caráter único de cada pessoa, a riqueza de suas tradições e raízes e a condição de cada pessoa decidir seu futuro);

c) Tensão entre tradição e Modernidade (adaptar-se sem negar a si mesmo, construir autonomia sem negar sua relação coletiva, além de manter o progresso científico);

d) Tensão entre o longo prazo e o curto prazo (a relação com o efêmero e o instantâneo, contexto com excesso de informações e de emoções passageiras, as soluções rápidas, o consenso);

e) Tensão entre a indispensável competição e o respeito pela igualdade de oportunidades (o imperativo da competição versus o fortalecimento de cada ser humano e os meios para realizar todas as suas potencialidades, a solidariedade);

f) Tensão entre o extraordinário desenvolvimento dos conhecimentos e as capacidades de assimilação do homem (autoconhecimento, saúde física e psicológica, cuidado do meio ambiente, aprender a viver melhor pelo conhecimento, pela experiência e pela construção de uma cultura pessoal);

g) Tensão entre o espiritual e o material, ideal e valores, moral e ética, transcendência, respeito ao pluralismo, superação de si mesmo para a sobrevivência da humanidade (UNESCO, 2010).

Se a educação prepara as pessoas para enfrentar todos os desafios da atualidade, que não são poucos, nem simples, parece ser imperativo que ela se dê ao longo da vida, em todas as esferas da sociedade, e não exclusivamente na escola. Por este motivo, a própria Unesco propõe o conceito de “sociedade

educativa”, mas enfatiza que nada pode substituir o saber formal da escola. Ressalta que é “desejável que a escola venha a incrementar, cada vez mais, o gosto e prazer de aprender, a capacidade de aprender a aprender, além da curiosidade intelectual” (UNESCO, 2010, p. 12).

Seguramente, a escola, como instituição formal de educação, apresenta dificuldades em ajustar-se e transformar-se diante das complexas mudanças sociais e culturais da atualidade diante de tantas tensões, e o grande desafio colocado aos seus profissionais consiste em revitalizar o sentido da educação, e, por extensão, o sentido da escola na vida das pessoas. Para Gimeno Sacristàn:

[...] a necessidade de restabelecer o sentido da educação é essencial para que esta resulte num conceito e num projecto transparentes para a mais ampla base da população, renovando, deste modo, o compromisso com a mesma. (GIMENO SACRISTÀN, 2000, p. 9).

Neste sentido, o autor defende que “a sacralização dos conteúdos, da autoridade que os transmite, a negação da liberdade e da singularidade do sujeito que aprende, a ausência de democracia” (2000, p. 105) presentes em grande parte das escolas são incompatíveis com valores da democracia e da formação humana que são base cultural para um país ou um povo.