Mesmo que a tendência atual de práticas em saúde caracterize-se por abordagens biopsicossociais, ainda constatam-se procedimentos que se respaldam, prioritariamente, nos preceitos que derivam do paradigma biomédico. Nessa perspectiva considerou-se relevante a abordagem de alguns aspectos, mais específicos ao desempenho profissional na reabilitação.
No próprio contexto da reabilitação, as abordagens biopsicossociais muitas vezes são sobrepostas por práticas, onde o que prevalece, são posturas biomédicas (Martins & Araujo, 2008).
No século XX, nas ciências médicas, o paradigma biomédico, fortemente influenciado pelo modelo dualista cartesiano, é o paradigma dominante (Sheridan & Radmacher, 1992). O modelo foi retroalimentado pela descoberta de agentes externos (bactérias, vírus, deficiências químicas e de vitaminas) que reforçou ainda mais a premissa unicausal entre saúde e doença. Sob essa premissa, excluíam-se, dos modelos analíticos, aspectos sociais, psicológicos e comportamentais.
O modelo biopsicossocial de saúde, não descarta as influências das variáveis biomédicas. É inicialmente proposto por Engel (conforme citado por Ogden, 1996). A idéia, que sustenta a introdução do novo paradigma, é uma expansão do modelo biomédico para incluir os expressivos fatores psicossociais. Serão integrados, como variáveis intervenientes, não apenas a relação do corpo com possíveis agentes infecciosos, mas também o contexto físico, histórico e cultural, ampliando os parâmetros de análise e, concomitantemente, os recursos e as perspectivas de intervenção, favorecendo uma maior compreensão do binômio saúde e doença.
A demanda de repasse de informações é uma das metas dispensadas às equipes de reabilitação. No entanto, apenas o repasse de informações – dissociado de uma compreensão e congruência com expectativas e valores do próprio paciente – caracterizaria uma prática com enfoque mecanicista, que pode reduzir as perspectiva de resultados favoráveis. Na reabilitação reafirma-se a relevância de condutas que se apóiam em perspectivas teóricas que compreendem a saúde a partir de paradigmas biopsicossociais. O aprendizado e a generalização de novos hábitos dependem de que o indivíduo também compartilhe, com a equipe de saúde, da relevância de determinadas condutas e procedimentos, que garantam a preservação da saúde física após a lesão medular. Nesse sentido, destaca-se o modelo de crença em saúde proposto por Sheridan e Radmacher (1992). Nesse modelo é descrito que, inicialmente, o indivíduo precisa achar que é susceptível ao problema de saúde; em seguida, acreditar que o problema representa uma ameaça real para a sua saúde; e, finalmente, reconhecer que poderá assumir ações que irão reduzir essas ameaças. Assim, fica claro que o repasse apenas das informações não garante, de forma alguma, o aprendizado e a generalização dos novos hábitos para o ambiente social, externo aos domínios do centro de reabilitação.
As inúmeras e complexas demandas decorrentes da lesão medular fomentam reflexões contínuas dos profissionais da saúde, os quais têm o dever de abordar adequadamente as várias e complexas vicissitudes que integram um trauma medular. Cabe ao profissional atender as demandas geradas pelas mudanças do funcionamento do corpo, sem, no entanto, deixar de dar igual ênfase aos aspectos socioemocionais. Para a construção de metas realmente viáveis, a lesão medular exige práticas apoiadas em visões ampliadas dos sistemas que integram a vida do indivíduo em reabilitação, onde se pode destacar a visão ecológica proposta por Bronfenbrenner (1979).
O conhecimento do histórico de vida de cada indivíduo é de grande relevância para o estabelecimento de intervenções ao longo do processo de reabilitação. Entre os fatores que devem ser considerados no delineamento das propostas e das trajetórias do processo de reabilitação, configuram-se os interesses específicos de cada paciente e o estilo de vida adotado anteriormente à lesão medular. As demandas que envolvem a reabilitação na lesão medular, muitas vezes, só poderão ser atendidas quando avaliadas como pertinentes pelo próprio indivíduo em reabilitação e por sua família. A motivação e o interesse são essenciais coadjuvantes ao desenvolvimento de qualquer processo. Apresentam indiscutível relevância para a adesão às condutas que preservam as dimensões fisiológicas e funcionais. Cabe ao profissional da reabilitação identificar quais os fatores que concorrem ou que inibem o alcance das metas de intervenção.
O engajamento nas atividades e a continuidade das mesmas após a alta da reabilitação, geralmente, são maiores quando os interesses e motivações da pessoa em reabilitação são considerados e atendidos. Nesse sentido, verifica-se, muitas vezes, que variáveis emocionais e cognitivas, que se manifestam através das respostas emocionais e pela expressão de crenças e comportamentos, podem ser determinantes, inclusive invalidando o alcance de relevantes metas preestabelecidas, conforme a perspectiva da equipe de reabilitação. Isso ocorre quando essas metas não fazem sentido dentro do contexto socioambiental que retroalimentam o sistema de valores do próprio paciente.
Um dos fatores que enriquece a atuação dos profissionais na reabilitação é o trabalho em equipe. As trocas de informações, estabelecidas entre os membros das equipes multidisciplinares, favorecem o estabelecimento de uma visão global do paciente, assim, apontam para a eminência de condutas que atendem ao modelo biopsicossocial (Queiroz e Araujo, 2007). Os profissionais oriundos de formações humanísticas, diferentemente daqueles com formação nas ciências exatas e biológicas, tendem a favorecer reflexões multidisciplinares com enfoque biopsicossocial. Desse modo podem auxiliar a equipe a não permitir que aspectos relacionados às demandas funcionais (que se relacionam à mobilidade do corpo) prevaleçam em relação às variáveis psicossociais (Queiroz e Araujo, 2009).
Estudo exploratório, desenvolvido por Queiroz e Araujo (2009), sobre a percepção de profissionais da saúde que trabalham em reabilitação, permitiu o destaque de alguns aspectos. Constata-se uma avaliação positiva do ter acesso ao apoio interprofissional, pois considera-se que facilita processos decisórios. Observou-se que fatores, tais como: a organização das atividades, limites temporais, espaço físico, número de pacientes atendidos, tamanho da equipe, enfoque na questão motora propriamente dita, dificultavam a abordagem ao paciente.
Em estudo que foi realizado com díades de enfermeiro e pacientes, durante procedimentos de curativos, verificou-se que os profissionais, apesar de expressarem conceitos e valores
compatíveis como o modelo biopsicossocial, priorizavam durante a prática o repasse de informações e não os aspectos relacionais (Martins & Araujo, 2008). Almeja-se, com o tempo, uma maior aproximação entre os aspectos teóricos e a prática em saúde. Desse modo, privilegiando aspectos psicológicos, sistêmicos e contextuais, tais como as variáveis biomédicas. No entanto, práticas automatizadas acabam sendo a opção mais fácil, onde, muitas vezes, o que prevalece é a demanda de um maior número de atendimentos no menor espaço de tempo. De qualquer modo, reconhece-se que decisões em saúde são beneficiadas por ações integradas e responsáveis, onde a tônica principal seja o favorecimento de bem-estar e qualidade de vida para pacientes e familiares. Ao mesmo tempo, são importantes investimentos potencializadores de ganhos nas dimensões institucionais e comunitárias, sem deixar-se de garantir e preservar a saúde dos profissionais que participam do processo (Queiroz & Araujo, 2006).
Conforme Vera (2005), ter crença no processo de reabilitação deve ser um dos principais atributos do profissional de saúde. Se ele próprio não acredita na efetividade de um processo de reabilitação, não considera a possibilidade de uma vida digna e repleta de satisfações após a instauração de uma lesão medular, então a tarefa de “reabilitar”, passa a ser técnica e destituída de sentido, tornando-se praticamente impossível. A autora também pontua que o sucesso da reabilitação é fortemente influenciado pela comunicação que se estabelece entre profissional e indivíduo em reabilitação. Nesse sentido, também pode-se destacar que o processo de reabilitação tem características biunívocas, onde o aprendizado pode ser recíproco.
Os padrões comportamentais, onde inclui-se a dinâmica de comunicação estabelecida entre paciente e família também pode ser um alvo de intervenção. Verifica-se que, na lesão medular, é importante que o indivíduo, que depende de terceiros, saiba como pedir ajuda. Nesse sentido, a perspectiva de relacionamentos mais harmônicos, preserva a saúde da díade formada pelo paciente e seu cuidador.
Ainda, considerando-se a premência de uma boa comunicação para a maximização de resultados na reabilitação, vale ressaltar, ser este domínio de responsabilidade de todos os profissionais que compõem a equipe multidisciplinar. Não sendo a responsabilidade pela abertura e manutenção de canais efetivos de comunicação exclusiva de profissionais da área psicológica. É uma tarefa difícil e, por assim ser, precisa estar sendo reciclada, através de treinamentos contínuos (Pereira & Araujo, 2006). O intercâmbio entre os profissionais da equipe de reabilitação, que otimizam as trocas interprofissionais e processos decisórios, também pode ser favorecido por processos de treinamento e aprimoramento profissional (Queiroz, 2003).
Peter e cols. (2011) buscaram, através de uma revisão sistemática da literatura, caracterizar qual seria o papel exercido pelos diferentes recursos psicológicos na adaptação de indivíduos após a ocorrência de uma lesão medular. Foram selecionados 83 estudos, a maior parte desses
caracterizada por metodologia de corte transversal, sendo que as temáticas psicológicas mais abordadas foram: autoeficácia, autoestima, senso de coerência, espiritualidade, otimismo, cognição e características de personalidade. Verificou-se que autoeficácia e autoestima associavam-se a melhores níveis de ajustamento, caracterizado através de percepções positivas do próprio bem-estar e também melhores medidas de saúde mental. No respectivo estudo de revisão, constatou-se que poucas pesquisas correlacionam as variáveis psicológicas aos principais marcos de resultados favoráveis em resposta ao processo de reabilitação, entre os quais se destacam a reinserção e efetiva participação social. Considera-se que a maior parte dos estudos respalda-se em variáveis psicológicas fragmentadas, dissociadas do contexto geral que integra um processo de reabilitação. Os autores propõem que na prática da reabilitação seja dada maior ênfase às intervenções centradas no paciente, direcionadas ao desenvolvimento de recursos específicos tanto do âmbito pessoal como comunitário. Nesse sentido ampliando recursos emocionais, como também instrumentalizando o indivíduo para o resgate de papéis que sejam do seu interesse específico.
Arcabouços teóricos que buscam associar crenças individuais ao padrão de respostas emergentes, permitem caracterizar e planejar quais das crenças disfuncionais, que sendo confrontadas, irão potencializar reavaliações cognitivas e, consequentemente, o estabelecimento de condutas mais adaptativas. Em contextos médicos e hospitalares, processos de intervenção que facilitem comportamentos adaptativos, geralmente, associam-se a maior nível de adesão e propiciam comportamentos preservadores da qualidade de vida.
Examinados aspectos relacionados à reabilitação, a seguir, será introduzido o conceito de estresse e enfrentamento, com ênfase aos estudos que abordam a temática, a partir da vivência de uma lesão medular.