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A caracterização da amostra, em termos de religiosidade, estado civil, prática de atividade laboral, vínculo previdenciário, desenvolvimento de atividades de estudo, práticas de esporte, atividades de lazer, redes de apoio e diferentes modalidades de transporte (para deslocamento na cidade de origem), antes e depois do trauma medular, atendeu eminentemente ao propósito de contextualização dos integrantes da amostra.

Constatou-se que a maioria dos participantes é jovem, do sexo masculino e sofreu a lesão medular devido a traumas ocorridos no trânsito. Verificaram-se consistências com outros resultados de estudos desenvolvidos nos Estados Unidos e outros países, entre os quais o Brasil, todos realizados com populações de indivíduos com diagnóstico de lesão medular (Cripps & cols., 2011; Lianza & cols., 2001; Office of Special Education and Rehabilitation Services, 2011; Rede SARAH, 2009).

Outro aspecto de interesse, relacionado à amostra, é que a mesma pode ser distribuída simetricamente, entre as subcategorias de escolaridade: ensino médio (n=17; 32,7%), ensino superior incompleto (n=17; 32,7%) e ensino superior (n=18; 34,6%) Observa-se, também, relativa

homogeneidade da amostra, quando os participantes são agrupados entre as demais variáveis explicativas (idade, sexo, tempo de lesão medular, escolaridade e nível neurológico). Fator que é reforçado analiticamente, vez que a única categoria de interesse, que não atendeu ao critério de igualdade, foi a de sexo. De qualquer modo, a discrepância entre o número de mulheres e homens (mulheres, n=16; homens, n=36), por si só, sugere maior desigualdade, o que faz com que as perspectivas de comparação entre os respectivos grupos (feminino e masculino) sejam menos robustas. Considerando a uniformidade entre os demais subgrupos, optou-se pelo desenvolvimento das análises, conforme as respectivas subcategorias amostrais.

Quando comparados os indivíduos com paraplegia com aqueles com tetraplegia, observa-se uma maior frequência de pessoas com vínculos empregatícios formais no grupo de tetraplégicos (Indivíduos com tetraplegia = 90%; paraplégicos = 71,43%). Nesse caso são endossados outros estudos (Ramakrishnan & cols., 2011) que ressaltam a relevância, para a reabilitação, da locação de maiores investimentos a capacitação profissional de indivíduos com lesão medular.

Do ponto de vista da religião, a maior parte dos participantes (63,5%) se considerou católica. Os demais (34,6%), que descreveram algum tipo de crença, eram protestantes, kardecistas ou acreditavam na existência de Deus, sem vínculo religioso específico. Apenas um integrante da amostra declarou não possuir qualquer crença. Mesmo que 51 (98,1%) indivíduos consideraram ter alguma doutrina religiosa, apenas 34,6% (N=18) praticam alguma religião regularmente. Conforme análise dos conteúdos direcionados à temática da religiosidade verificou-se que 13 indivíduos indicaram que a religião, de algum modo, favoreceu o enfrentamento da lesão medular. Destaca-se a fala de um homem (39 anos idade) com diagnóstico de tetraplegia há treze anos:

“Tudo o que auxiliou foi em pensar em minha família, de pensar que eu tinha que estar bem, para eles, pois sabia que eles não estariam bem, e a partir daí Deus me deu a felicidade de encarar isso numa boa e não tive dificuldades para enfrentar.” (P17)

O resultado da EMEP indicou que a estratégia de enfrentamento ‘religiosidade/pensamento fantasioso’ foi a segunda mais utilizada pelos participantes, entre as quatro estratégias exploradas pela escala. No entanto, também se pode constatar que, com o passar do tempo, os participantes faziam menor uso da estratégia. Ainda, em relação à estratégia de enfrentamento ‘religiosidade/pensamento fantasioso’, verifica-se, entre as pessoas com menos de 29 anos, maior emprego da estratégia entre as mais jovens. Em estudo realizado por Pereira e Araujo (2005) também se constatou mudanças nas modalidades estratégicas empregadas entre a etapa de pré- reabilitação (religiosidade, pensamento positivo e busca de suporte social) e a etapa de pós- reabilitação (focalização no problema, pensamento positivo e busca de suporte social). Observa-se, nesse sentido, a perspectiva de que a reabilitação esteja oferecendo recursos para um enfrentamento mais direcionado ao manejo de aspectos objetivos resultantes do trauma medular.

Verifica-se que a maior parte dos participantes (n=36; 69,20%) é solteira. Apenas dezesseis participantes possuem filhos (entre filhos naturais ou adotivos). Quando analisados com relação às respectivas procedências, observa-se que os integrantes da amostra eram provenientes de 13 diferentes estados brasileiros. Essa diversidade de procedências dos participantes ocorre, pois sendo a Rede SARAH de Hospitais, mais especificamente as Unidades de Brasília, centros de referência, geralmente recebem pacientes de todo Brasil e mesmo de outros países.

A análise do perfil dos participantes, realizando alguma atividade de estudo, indica que a lesão medular tanto ocasionou interrupção das atividades de estudo, como também permitiu que seis indivíduos, que não estudavam antes da lesão medular, optassem por ingressar na escola. Vale ressaltar que a psicologia foi o curso com o maior número de participantes matriculados e o direito foi o segundo. Estudos que exploram, detalhadamente, o processo de retorno à escola, após a ocorrência de uma lesão medular, não foram identificados na literatura.

Em função do evento da lesão medular, entre os participantes do estudo, constatou-se uma redução de 60% de vínculos formais de emprego e a introdução de algum tipo de assistência previdenciária para 55,77% dos indivíduos. Não trabalhar e a dependência de assistência previdenciária adicionam considerável custo social (Office of Special Education and Rehabilitation

Services, 2011). Observou-se certa homogeneidade entre indivíduos paraplégicos e tetraplégicos, quanto ao recebimento de auxilio previdenciário e ao exercício de atividades laborais, posteriormente a ocorrência do trauma medular. Assim, demonstrou-se que a gravidade da lesão medular não foi o que determinou o recebimento ou não de qualquer benefício e, nem tão pouco, foi fator de retorno ao trabalho. Conforme estudo de revisão, também se contatou uma tendência geral de não existir diferenças nos índices de retorno ao trabalho, conforme a distribuição da amostra, por critérios topográficos da lesão (Lidal & cols., 2007)

Na pesquisa atual foi constatado que o índice de retorno ao trabalho foi significativamente maior entre os participantes do sexo masculino, com idades abaixo de 29 anos e com menos de quatro anos de lesão medular, que não recebiam benefício, isso em comparação com aqueles que recebiam algum auxílio previdenciário.

Esperar-se-ia, após quatro anos de lesão medular, que as pessoas já tivessem dominado recursos operacionais para a reinserção no mercado de trabalho ou em atividades escolares. Tal expectativa veio a se confirmar, entre os participantes com mais de quatro anos de lesão medular, que apresentam o maior índice de pessoas que trabalham e/ou estudam. Dessa forma, confirmando os achados do estudo de revisão (Lidal & cols., 2007), que apontam para um índice maior de retorno ao trabalho entre pessoas com mais tempo de lesão medular. Ainda, verifica-se que o índice de retorno ao trabalho é maior, entre pessoas mais velhas, com idades entre 29 e 45 anos. Estudo de revisão descreveu maior retorno ao trabalho entre pessoas mais novas, no entanto a amostra do presente estudo não ultrapassa a faixa de 45 anos que se confundem com os participantes mais

jovens do estudo de revisão (Lidal & cols., 2007). Essa diferença é devida à existência de intersecção nas faixas de idade das amostras de ambos os estudos.

Considerando-se o resultado que os mais jovens tendem a não retornar ao trabalho, convém que as equipes de reabilitação atuem no sentido de capacitar, tanto funcionalmente como com treinamentos específicos, para o retorno ao trabalho.

Lidal e cols. (2007) obtiveram uma média (estatisticamente balanceada) de todos os resultados pertinentes ao retorno ao trabalho, de pessoas vítimas de uma lesão medular, e obtiveram um índice médio, de retorno ao trabalho, de 67%. No caso, a média derivada do estudo de revisão é maior que a verificada nesta pesquisa. A síntese dos artigos – que compuseram o estudo de revisão − também indicou, no decorrer do tempo, uma tendência de ampliação da taxa de retorno ao trabalho. Aspecto que também foi observado entre os participantes com lesão medular da amostra. Considerando-se o número absoluto de pessoas integrantes da amostra, verifica-se que quanto maiores o tempo de lesão e a idade também são maiores as taxas de retorno a alguma ocupação (trabalho ou estudo).