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9 BOSTEDET SOM RESSURS

9.2 Gymnasfrekvensen varierer med fylke

Seria precipitado insistir em que a fala originou-se exclusivamente da imitação onomatopaica da paisagem sonora natural. Mas não pode haver dúvida de que a língua dançou e ainda continua a dançar com a paisagem sonora. Os poetas e os músicos têm mantido viva a memória, ainda que o homem moderno se tenha convertido em um “espectador

de óculos”( SCHAFER, 2001, p. 68).

1 O diretor teatral Russo Constantin Stanislávski é considerado até os dias de hoje como um dos mais importantes artistas teatrais do final do século XIX e início do século XX, sobretudo pela sua contribuição para a arte do ator, gerando toda uma terminologia que acabou sendo, muitas vezes, considerada como um sistema de preparação para o ator, sobretudo de estilo realista (realismo-psicológico), salvo sua última etapa, das ações físicas, que foi retomada por diversos diretores do século XX, expandindo o estilo realista para o qual foi pensado inicialmente. Stanislavski ficou famoso pelo estilo de cena e de interpretação realista que imprimiu aos textos do dramaturgo russo Anton Tchekov.

113 O músico Murray Schafer, interessado no estudo das relações e mudanças da paisagem sonora no decorrer da história e os modos como essas mudanças podem interferir nos nossos comportamentos, nos mostra também como o mundo está cada vez mais povoado por sons, mas, ao mesmo tempo, a variedade de alguns deles desaparece. Há muitos sons em extinção na paisagem sonora atual e, a maioria deles são sons da natureza. Destes sons, cada vez mais, nos

tornamos alienados. “Sons manufaturados são uniformes e, quanto mais eles dominam a

paisagem sonora, mais homogênea ela se torna” (SCHAFER, 2001, p.12)”. Mas, segundo o autor, o que é paisagem sonora?

A paisagem sonora é qualquer campo de estudo acústico. Podemos referir-nos a uma composição musical, a um programa de rádio ou mesmo a um ambiente acústico como paisagens sonoras. [...] O ambiente sonoro. Tecnicamente, qualquer porção do ambiente sonoro vista como um campo de estudos. O termo pode referir-se a ambientes reais ou a construções abstratas, como composições musicais e montagens de fitas, em particular quando consideradas como um ambiente (SCHAFER, 2001, p.23 e 366).

O compositor canadense tem investido em pesquisas e práticas estéticas – educativas para desenvolver a acuidade da escuta de crianças, jovens, adultos, músicos, professores entre outros profissionais envolvidos e interessados no estudo da paisagem sonora. Nos últimos anos, as contribuições de Schafer têm despertado o interesse de artistas da performance, do teatro, do cinema e audio-visual. De fato, a maneira de entender a sua arte e também a sua forma de expressão musical está completamente imbricada a um contexto social e a uma interdisciplinaridade de saberes na feitura da composição sonora. Schafer (2001) desenvolve um projeto interdisciplinar inspirado na célebre escola de arte alemã Bauhaus2, chamado

“projeto acústico” no intuito de reunir profissionais de várias áreas tais como músicos,

psicólogos, sociólogos, físicos acústicos reunidos para estudar em conjunto a paisagem sonora mundial, tendo como objetivo documentar aspectos importantes dos sons, observar suas diferenças, tendências, semelhanças , analisar os sons em extinção, estudar as relações simbólicas entre som e comportamento e, a partir desses cruzamentos, criar proposições para

2 Importante escola de arte do século XX, sob liderança do arquiteto Walter Gropius. Esta escola reuniu alguns dos maiores pintores e arquitetos da época (Klee, Kandinsky, Moholy-Nagy, Mies van der Rohe) a artesãos de reconhecida competência. “ A sinergia interdisciplinar das habilidades dos membros permitiu estabelecer um novo campo de estudos graças a criação da disciplina chamada projeto industrial. A Bauhaus levou a estética à maquinaria e à produção de massa (SCHAFER, 2001, p.19).

114 atuar na educação pública de uma maneira geral conscientizando a importância do ambiente sonoro na vida do ser humano e como o mesmo também é compositor desta paisagem mundial. As suas próprias composições apontam para esse lugar, que proporciona às pessoas a percepção do quanto a paisagem sonora é dinâmica, mutante e, assim, possível de ser transformável. Sobre a sua atuação na educação pública, aspecto importante no seu trabalho, Schafer nos provoca a pensar que

Precisamos ensinar às pessoas como ouvir mais cuidadosa e criticamente a paisagem sonora; depois, precisamos solicitar sua ajuda para replanejá-la. Em uma sociedade verdadeiramente democrática, a paisagem sonora será planejada por aqueles que nela vivem, e não por forças imperialistas vindas de fora (SCHAFER, 2001, p.12).

Schafer (2001), ao longo do seu livro intitulado “A afinação do mundo” levanta a seguinte questão: a paisagem sonora do mundo é algo indeterminado, sobre a qual não temos controle, ou somos nós integrantes desta composição e executores das suas sonoridades?

O autor percebe o mundo como uma composição musical macroscópica e é essa a ideia que percorre todo o seu estudo, suas composições musicais, instalações sonoras e atuação como educador musical, ou seja, sua prática como artista e pedagogo estão intensamente integrados aos aspectos sociais e estéticos do seu tempo. A noção de música de Schafer é influenciada pelas mudanças de paradigma impulsionadas desde John Cage a todas as experimentações que nos dias de hoje ocorrem no âmbito da música contemporânea. Para Cage “música é som, sons à nossa volta, quer estejamos dentro ou fora das salas de concertos (SCHAFER, 2001, p.19).

Um outro princípio de trabalho trazido pelo autor é a noção de limpeza dos ouvidos que é um programa sistemático de exercícios que visa o treinamento para uma escuta de maneira mais discriminada dos sons. Tais exercícios objetivam fazer com que o outro note sons que nunca havia percebido, ouvir intensamente sons do seu ambiente e também perceber os sons que nós mesmos colocamos no ambiente, proporcionando a clariaudiência e não ouvidos amortecidos. Abrir os ouvidos e estimular a clariaudiência significa literalmente o sentido de audição clara. Schafer chama a atenção de que o modo com o qual ele emprega esse termo não é nem um pouco místico, simplesmente se refere à excepcional habilidade auditiva, tendo em vista particularmente o som ambiental. A capacidade auditiva pode ser treinada, para se chegar ao estado de clariaudiência por meio de exercícios de limpeza de ouvidos.

115 Ao contrário dos outros órgãos dos sentidos, os ouvidos são expostos e vulneráveis. Os olhos podem ser fechados, se quisermos; os ouvidos não, estão sempre abertos. Os olhos podem focalizar e apontar nossa vontade, enquanto os ouvidos captam todos os sons do horizonte acústico, em todas as direções (SCHAFER, 1991, p.67).

Para tanto, buscou-se aprender a analisar, a classificar o som no intuito de descobrir similaridades, contrastes e modelos. Mas como diz o próprio Schafer “toda técnica de análise só pode ser justificada se nos conduzir à melhoria da percepção, do julgamento e da invenção” (SCHAFER, 2001, p.189). Para isso, Schafer cria uma série de exercícios de treinamento auditivo que, muitas vezes, abrem possibilidades para além da percepção dos sons de ambientes diversos, ativando uma imaginação e percepção de um estado de escuta do corpo.

As inquietações provocadas por Schafer inspiram a presente pesquisa a investigar aspectos da nossa própria paisagem, digo nossa, pois falarei das paisagens sonoras inscritas, inventadas, apuradas, lapidadas ao longo do processo de criação vinculado ao laboratório prático desta pesquisa. Que sons queremos encorajar, preservar, multiplicar uma vez que surgem no processo?

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