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Paralelamente aos desenvolvimentos do projeto do monumento em memória de Afonso Henriques é lançado o programa comemorativo do centenário da sua morte. Este tem lugar em Guimarães e em Coimbra, cidades que eram apontadas como espaços simbólicos do monarca:

249AMAP, «Processo da estátua de D. Afonso Henriques», Carta nº17, 5 de Novembro de 1885, (Cota: 10-27-19-1).

250AMAP, «Livro de Actas Municipais», Sessão municipal de 11 de Novembro de 1885, (Cota: 10-10-6-12), 31.

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a primeira era considerada o local de nascimento do rei e Coimbra o local do seu falecimento e onde se encontra sepultado252. Como sublinha o historiador Sérgio Campos Matos, em ambas as

cidades as comemorações assumiram um carácter marcadamente «regionalista», sem repercussões à escala nacional. Daí a importância menor que a imprensa de Lisboa e do Porto lhes atribuíram. Apenas O Ocidente, o Diário de Notícias, o Correio da Noite e O Primeiro de Janeiro noticiam os festejos, informação omissa nos jornais A Nação (legitimista) e n’ O Século (republicano)253.

Em Guimarães a iniciativa não contou com o apoio dos poderes locais: a Câmara Municipal manifestou indisponibilidade material de colaborar no evento. A edilidade rejeitou ainda a proposta de a cerimónia de lançamento da 1ª pedra da estátua do rei símbolo da nacionalidade tenha lugar no dia reservado às comemorações de 6 de dezembro de 1885254. Desconhecemos

se outros motivos justificam esta tomada de posição. Duas ocorrências significativas tiveram lugar nas imediações dos preparativos do centenário mas que julgamos não ter condicionado o formato das comemorações: o afastamento de Mota Prego da presidência da edilidade, (provavelmente no dia seguinte - 19 de novembro - à decisão camarária sobre a não participação nos festejos do centenário)e os conflitos entre a cidade e a capital do distrito registados no final do mês de novembro255.

Nestas circunstâncias, a organização dos festejos do centenário esteve a cargo de um grupo de jovens que decidiu levar avante a realização das comemorações, através da promoção de uma subscrição local, como noticia o Comércio de Guimarães256. A mesma fonte elogia a ação de

Albano Belino257 e Albano Pires de Sousa, empregados comerciais que trabalhavam na rua da

Rainha, que terão impedido que a efemérida não caísse no esquecimento. No seu conjunto, a imprensa da cidade enaltece a iniciativa destes, ao mesmo tempo que realça o bom acolhimento da comunidade local.

252Sérgio Campos Matos, «D. Afonso Henriques na cultura histórica oitocentista», Em 2º Congresso histórico de Guimarães D. Afonso Henriques

na história e na arte, Actas do Congresso, Guimarães: Câmara Municipal de Guimarães, Universidade do Minho, 1996), 233.

253Matos, D. Afonso Henriques na cultura histórica…), 233.

254AMAP, «Actas Municipais», Sessão municipal de 18 de Novembro de 1885 (Cota: 10-10-6-12), A.M.A.P., [35v].

255Referimo-nos ao episódio de apedrejamento de dois dos procuradores à Junta Geral do Distrito de Braga, Conde de Margaride, Dr. Joaquim

José Meira e José Minotes, que teve lugar na sede do distrito, a 28 de novembro de 1885. O incidente gerou a revolta da população vimaranense e esteve na base do movimento de «União ao Porto», que contou com o apoio do deputado por este círculo eleitoral, João Franco Castelo Branco, na pretendeu a desanexação do concelho de Guimarães do distrito de Braga e a sua integração no distrito do Porto, cf. Manuel Alves de Oliveira, «Um motim de há 100 anos entre Braga e Guimarães», Boletim dos Trabalhos Históricos, XXXVI, (1985): 348.

256S.a., «O sétimo centenário de D. Affonso Henriques», O Comércio de Guimarães, nº144, 7 de Dezembro, 1885, [1].

257Albano Belino era natural de Gouveia foi para Guimarães em 1876. Começa a trabalhar numa tabacaria. Ainda jovem mostra qualidades

literárias como poeta e colaborador de jornais como: Religião e Pátria, Memória, Comércio de Guimarães e ainda correspondente do Jornal da Manhã, do Porto. Em 1886, juntamente com o colega Albano Pires de Sousa, também empregado do comércio, funda uma folha destinada às

damas vimaranenses, O Bijou. Registou uma participação ativa na questão brácaro-vimaranense, em novembro de 1885. Cf.

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O programa comemorativo foi assim modesto e de projeção apenas local. A escassez de meios financeiros limitou os festejos. A abertura das festas foi marcada pela intervenção de de duas bandas musicais que percorrem as ruas de Guimarães e realização de um Te Deum na Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, cerimónia que contou com a presença de uma assistência ilustre: autoridades locais, administrativas, judiciais e militares, corporações religiosas, associações da cidade, entre outros258.

Em Coimbra, em termos análogos, os poderes locais não se encontram na organização das comemorações259. O grande impulsionador dos festejos foi o diretor do Conimbricense, Joaquim

Martins de Carvalho. Nas paginas do jornal, em finais de novembro, informa os leitores dos preparativos que estão a ter lugar na cidade nortenha ao mesmo tempo que que exorta os conterrâneos para a celebração do centenário atendendo aos valores patrióticos que o personagem encerra:

«Na verdade seria deplorável que n’ esta cidade houvesse plena indiferrença no sétimo centenário de D. Affonso Henriques, não se fazendo qualquer demonstração por muito modesta que fosse.» § «Uma nação que é indifferente à memoria dos seus grandes

homens, é uma nação morta»260.

Nas páginas do Conimbricense, o jornalista divulga uma proposta de um programa do centenário que reproduz o modelo das festividades já correntes, apelando à participação cívica das entidades oficiais e das associações da cidade261. A cidade, segundo a mesma fonte,

respondeu de forma entusiástica ao cortejo cívico realizado e ao sarau promovido pela Associação dos Artistas evidenciando o seu elevado patriotismo: «Em todos se manifestava a satisfação por, esta festa patriótica, e com a qual Coimbra mostrou, mais uma vez, o que pode e o que

vale quando quer»262.

A repercussão destas festividades à escala nacional foi menor, como referimos atrás 263, o que

as diferencia das comemorações camonianas e inclusive das pombalinas. De acordo com Sérgio Campos Matos dois motivos o justificam: por um lado, a simbologia das personagens

258 S.a., «Retrospecto da quinzena», O Progresso Católico, 15, Dezembro de 1885, 46.

259 Matos, D. Afonso Henriques na cultura história …, 234.

260 S.a., «O sétimo centenário de D. Affonso Henriques», O Comércio de Guimarães, 26 de Novembro, 1885, [1].

261Matos, D. Afonso Henriques na cultura histórica …, 234 e Joaquim Martins Carvalho, «Manifestação patriótica», O Conimbricense, 24 de

Novembro, 1885, 1.

262 Joaquim Carvalho de Martins, «Grande cortejo cívico», , O Conimbricense, nº 3996, 9 de Dezembro de 1885, 1.

263A revista Ocidente noticiou as comemorações registadas em Coimbra sem que a marca regional da efeméride fosse perturbada, cf. S.a.,

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consentânea com a mentalidade positivista e de matriz republicana, por outro lado, o apoio direto do Estado manifesto, em particular, nas comemorações camonianas264.