• No results found

A 23 de novembro de 1882, na sequência da convocação de uma sessão extraordinária da Câmara Municipal de Guimarães, o presidente da edilidade dá a conhecer oficialmente o projeto da comunidade portuguesa emigrante no Brasil181. A recetividade da assembleia terá sido

unânime. De imediato, o presidente avançou com uma proposta de composição da comissão de Guimarães responsável pelo acompanhamento dos trabalhos de construção do monumento, a saber: o administrador do concelho; o Barão de Pombeiro; o Conde de Margaride (sugerido pela Grande Comissão do Rio de Janeiro); Domingos Leite e Castro; Francisco Martins Sarmento; Francisco Ribeiro Martins da Costa; João Dias de Castro; João Pereira da Silva; Manuel Ribeiro

179AMAP, «Processo da estátua de D. Afonso Henriques», Carta nº58, ….

180AMAP, «Processo da estátua de D. Afonso Henriques», Carta nº58,….

181Nesta sessão estão presentes o presidente, António Coelho Mota Prego, os vereadores José de Castro Sampaio, José Ferreira de Abreu, José

46

de Faria; presidente da Associação Artística, João Pinto Queiroz; presidente da Associação Clerical, padre Francisco Xavier de Sousa Carneiro; o presidente da Associação Comercial, comendador Francisco José da Costa Guimarães; o presidente da Sociedade Martins Sarmento, José da Cunha Sampaio; Visconde de Lindoso e um vogal da Câmara182. É, também, deliberado

que a presidência da comissão seja confiada ao presidente da edilidade. A ata guarda a memória de Avelino Germano da Costa Freitas, um dos presentes na reunião da câmara, que sublinhou a importância de agradecer a iniciativa aos compatriotas emigrantes, em terras de Santa Cruz.

Passados, apenas dois dias, em 25 de novembro183, tem lugar a primeira sessão da

comissão, que reúne com o propósito de oficializar a comissão e fixar a agenda dos trabalhos. Nesta primeira sessão, são distribuídos os lugares a desempenhar na comissão. A presidência é entregue ao presidente da Câmara Municipal de Guimarães, como prática habitual; os lugares de vice-presidência são atribuídos ao Conde Margaride e ao Barão de Pombeiro; ocupam os lugares de secretários Francisco Ribeiro Martins da Costa e Dr. Francisco Martins Sarmento; e o cargo de tesoureiro é atribuído a Manuel Ribeiro de Faria184. Todos os membros convidados pelo

presidente, Mota Prego, aceitam fazer parte da comissão, não se registando nenhuma recusa. A comissão responsável pelos trabalhos relativos ao monumento a D. Afonso Henriques é composta por figuras de relevo da comunidade vimaranense, do ponto de vista social e económico, várias das quais que se encontram envolvidas em outros projetos tendentes ao desenvolvimento da cidade. Vejamos quem são e o que fazem.

QUADRO II: Perfil socioprofissional da Comissão local do monumento a D. Afonso Henriques

Fontes: AMAP, «Livro das Actas da Comissão do monumento de Afonso Henriques» (Cota:10-27-18-33); «Processo da Estátua de D. Afonso Henriques», Acta da Sessão da Câmara, Sessão Extraordinária de 23 de Novembro de 1882 (Cota: 10-27-19-1); Kinnon, Guimarães…, 106; António Amaro das Neves, «Conde de Margaride», em 1884 – o ano que mudou Guimarães, (Guimarães: Sociedade Martins Sarmento, 2010), 60-64 e Caldas, Guimarães: Apontamentos…202.

182AMAP, «Processo da Estátua de D. Afonso Henriques», Acta da Sessão da Câmara, Sessão extraordinária de 23 de Novembro de 1882, (Cota:

10-27-19-1).

183Actas de instalação - têm lugar nos Paços do Concelho.

47

O quadro II apresenta o perfil socioprofissional da equipa diretiva que integra. Todos os elementos são naturais de Guimarães. Alguns têm formação académica no curso então dominante na época: o Direito. O exercício de cargos políticos e a colaboração regular na imprensa são outros atributos comuns a alguns dos membros assim como a pertença maioritária à SMS.

António Coelho da Mota Prego (1860-1934), presidente do município e da comissão responsável pela estátua Afonso Henriques faz parte dos notáveis da cidade. É advogado e regista uma colaboração regular na imprensa e na vida política do concelho185. Mota Prego foi o

responsável pelo lançamento do projeto. Em breve, abandonou as funções diretivas na comissão por ter sido afastado da presidência da edilidade, em 19 de novembro de 1885. O novo presidente do município, Luís Martins Pereira Menezes, passou o responsável pela comissão186.

Os lugares da vice-presidência são desempenhados por duas das mais importantes personalidades da cidade. Ambas são tituladas e descendentes de famílias aristocratas da região. Luís Cardoso Martins da Costa Macedo (1836-1919), conde de Margaride, é bacharel em Filosofia, pela Universidade de Coimbra. No ano de 1862, recebeu o título de Fidalgo Cavaleiro da Casa Real. Dez anos depois, foi-lhe concedido o título de Visconde de Margaride e mais tarde foi elevado a Conde de Margaride. Desenvolveu uma carreira política significativa, a partir dos anos 70, tendo exercido cargos à escala local e regional, bem como nacional. Foi, assim, par do reino (por carta régia de 29 de dezembro de 1881), governador civil dos distritos de Braga (1871 – 1877) e do Porto (1878-1879). Exerceu, por diversas vezes, a presidência da Câmara Municipal de Guimarães, concretamente nos anos de 1870, 1878 e entre 1887 e 1892. Entre novembro de 1883 e novembro de 1885, foi um dos procuradores de Guimarães na Junta Geral do Distrito de Braga. A sua presença na comissão é um sinal do seu forte envolvimento no progresso de Guimarães, sobretudo ao longo dos anos 80, colaborando em todas as atividades de engrandecimento e dinamização da cidade, como referimos, atrás187.

185Kinnon, Guimarães…, 106.

186AMAP, «Comissão do monumento a D. Afonso Henriques», Carta nº24, 19 de Novembro de 1882.

187Na Câmara dos Pares, fez parte da Comissão de Agricultura, em 1886. Recorde-se que foi um dos defensores da ideia de criação de uma

escola industrial em Guimarães (1884) e da criação do Liceu de Guimarães (1896). Desenvolveu uma intensa colaboração na imprensa e em revistas locais. No campo assistencial ocupou o cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães, para além de figurar entre colaboradores outras instituições de cariz social. Faleceu em 30 de julho de 1919, na sua casa de Guimarães O seu testamento comprova sua preocupação com a beneficência contemplando instituições como o Asilo de Santa Estefânia, a Creche de S. Francisco, as Oficinas de S. José, a Ordem Terceira de S. Domingos e o Asilo de Mendicidade. Cf. António Amaro das Neves, «Conde de Margaride», em 1884 – o ano que mudou Guimarães, (Guimarães: Sociedade Martins Sarmento, 2010), 60-64.

48

Por sua vez, Paulo de Melo Sampaio Freitas de Amaral é o 1º Barão de Pombeiro de Riba Vizela, título concedido a 9 de agosto de 1851, e Comendador da Ordem de Cristo a 13 de julho de 1853. É, ainda, formado em Direito, pela Universidade de Coimbra188.

Sobre Francisco Ribeiro Martins da Costa (1837-?) as informações biográficas são bem mais lacunares. Apenas se sabe que foi sócio da Sociedade Martins Sarmento e fez parte dos acionistas da Companhia dos Banhos de Vizela, pelo menos em 1879189. Trata-se de uma das

figuras mais importantes da comunidade vimaranense. Formado em Direito, pela Universidade de Coimbra, exerceu a profissão de arqueólogo e etnólogo. No ano de 1875, inicia a exploração arqueológica da Citânia de Briteiros, retomando os trabalhos, no ano no seguinte, com a exploração do Castro Sabroso. No ano de 1882, é criada, em sua honra, a Sociedade Martins Sarmento, à qual o notável investigador lega as suas coleções, a sua biblioteca erudita, a casa onde habitou, rendimentos e várias propriedades190. Distinguiu-se ainda pela sua produção

erudita: destacam-se as obras Ora Marítima e os Argonautos, alguns opúsculos, cerca de 80 artigos científicos publicados em diversas revistas e jornais e, finalmente, numerosos manuscritos inéditos191.

A comissão inclui ainda mais treze vogais. Para além do administrador do concelho, Manuel de Castro Sampaio, que figura por inerência do cargo, conta-se a presença de Domingos Leite e Castro, jornalista e personalidade ativa na vida da cidade192, dos presidentes das principais

instituições e associações da cidade - João Pinto de Queiroz – Associação Artística Vimaranense193; padre Francisco Xavier de Sousa Carneiro – Associação Clerical Vimaranense194;

comendador Francisco José da Costa Guimarães – Associação Comercial de Guimarães195;

António Vieira de Andrade – Associação de Socorros Mútuos Vimaranense e José da Cunha Sampaio196- Sociedade Martins Sarmento; que representam, indiretamente, as outras associações

da cidade: Associação dos Bombeiros Voluntários197 e o Sindicato Agrícola. É de realçar que há

188Caldas, Guimarães: Apontamentos…, 202.

189S.a., Relatório da Companhia dos Banhos de Vizela e Parecer do Conselho Fiscal, (Porto: Imprensa Comercial, 1880), 28.

190Do seu legado resultou o compromisso da SMS assumir o encargo pela conservação da importantíssima estação arqueológica da Citânia de

Briteiros.

191Cf. sobre o assunto http://www.csarmento.uminho.pt/sns_41.asp consultado em 3 de Março de 2012.

192Nasce em 15 de outubro de 1816 na freguesia da Oliveira, em Guimarães e morre a 10 de setembro de 1916. Escritor e jornalista é um dos

fundadores da Sociedade Martins Sarmento, sendo um colaborador assíduo da Revista de Guimarães. Lança a ideia da realização da Exposição Industrial de 1884, sendo autor de numerosas obras.

193A Associação Artística Vimaranense fundada no ano de 1870, com os estatutos aprovados em 1869.

194A Associação Clerical Vimaranense distingue-se pelo facto de ser a primeira de Portugal. Os estatutos são aprovados em 1872.

195A Associação Comercial de Guimarães tem como objetivo a promoção dos interesses comerciais locais. Estatutos aprovados em 1865.

196Nasce a 5 de novembro de 1841 em Vila Nova de Famalicão e morre em março de 1901. Escritor, jornalista e advogado forma-se em Direito

na Universidade de Coimbra. Destaca-se pelo exercício da sua profissão, bem como no jornalismo e nas letras. É o 1º Presidente da Sociedade Martins Sarmento e irmão mais velho do historiador Alberto de Sampaio.

197A Companhia dos Bombeiros Voluntários é inaugurada no ano de 1877 por José Martins de Queirós Montenegro, o qual assume o papel de

primeiro comandante. A companhia é formada por comerciantes, proprietários e artistas. A base de sustentação provém de uma quota mensal paga pelos associados.

49

apenas três elementos que não são naturais de Guimarães: José da Cunha Sampaio, natural de Vila Nova de Famalicão, nasceu na quinta de S. Boamense, freguesia de Cabeçudos, pertença da família há várias gerações. Este advogado, que também exerceu cargos da magistratura judicial, encontrava-se profundamente ligado à cidade, por razões do foro profissional e familiar. Refira-se que é irmão Alberto Sampaio, individualidade de destaque na história de Guimarães198.

Por seu turno, António Ribeiro da Costa Salgado e Serafim Antunes Rodrigues Guimarães são provenientes do Brasil.

A comissão é assim representativa do circulo de notáveis da cidade tanto do ponto de vista cultural e intelectual como também económico, que encontramos igualmente presente noutros empreendimentos cívicos em beneficio do progresso da cidade (Sociedade Martins Sarmento, Exposição Industrial, Companhia dos Banhos de Vizela199 e Companhia de Fiação e Tecidos de

Guimarães) e no apoio a melhoramentos a realizar no concelho (estradas, ligação ferroviária, construção do cemitério público). Registe-se, por fim, que este círculo participa, também, nas contendas e episódios que marcam a questão «brácaro-vimaranense», entre outros debates da época200.