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Gjennomføring av undersøkelse

4. Forskningsdesign og metode

4.4 Gjennomføring av undersøkelse

caldeira e o cilindro, conforme o pistão subisse ou descesse. Um

desses meninos, que gostava de brincar com seus

companheiros, notou que, atando um cordão da alavanca da

válvula que abria essa comunicação a outra parte da máquina, a

válvula abriria e fecharia sem a sua assistência, deixando-o livre

para divertir-se com os colegas em brincadeiras. (SMITH, 2008,

p.22).

Lewis W. Hine (1874 – 1940), sociólogo e fotógrafo americano que utilizou sua câmera como instrumento de convencimento para alterar as leis de trabalho infantil em seu país.

Realização

O problema de se buscar o dinheiro só pelo dinheiro é que isso nos torna vitimas da ganância, de uma ganância insaciável. Então nunca nos sentimos satisfeitos. Tornamo-nos escravos do dinheiro.

Dalai-Lama

Tomada de consciência

A tensão de trabalhar cuidando do dinheiro de terceiros21 é

crescente ao longo do tempo. Experimente dar a notícia de que o investimento que foi feito em nome do cliente sofreu uma perda financeira. No Brasil pós-estabilização do Real há uma grande quantidade de milionários, e para atender toda essa gente, há muitos profissionais no mercado financeiro que trabalham para fazer crescer o montante do recurso financeiro acumulado dessas poucas pessoas que amealharam grandes fortunas. Intitulam-se gestores de recursos. Cobram um percentual sobre o montante do dinheiro administrado e outro percentual se conseguem rendimentos sobre o que exceder a taxa de juros básica do mercado. Quando conseguem isso há um êxtase, um frenesi. Quando não conseguem experimentam um desânimo, uma reprovação, uma advertência. Quando perdem dinheiro de seu cliente em um investimento mal feito é uma hecatombe. Viver nessa tensão é um estresse constante que desgasta o emocional do profissional ao longo do tempo.

A acumulação de dinheiro no mundo cresceu de forma vertiginosa nos últimos 35 anos. Só nos últimos 15 anos o valor dos ativos financeiros

mundiais mais do que dobrou e atingiu em 2013 US$ 156 trilhões22. Para efeito de comparação, o valor representa 10 vezes o PIB dos Estados Unidos da América. Ganhar dinheiro por conta do rendimento desse dinheiro em detrimento ao trabalho contribui para o aprofundamento da desigualdade (MORIN, 2013 – p. 29).

Minha experiência mostra que quanto mais dinheiro, mais apegado a ele torna-se o acumulador. Raríssimas são as exceções. Quanto mais consciência fui tomando disso, maior era a minha dificuldade em conciliar o sentimento de realização pessoal com a labuta do dia a dia. Dedicar-me ao desenho de sistemas, processos e controles para que a estrutura administrativo-financeira da gestora de recursos pudesse dar conta de multiplicar o dinheiro dos clientes começou a tornar-se uma tarefa hercúlea, e fui aos poucos perdendo a força.

22

RO, Sam. The rise of the US$ 156 trillion market for global financial assets. Business Insider. 25/03/2014. www.businessinsider.com/156-trillion-global-financial-assets-2014-3. Data de acesso: 08/01/2015.

Acordar de manhã foi tornando- se um sacrifício tão grande que pude experimentar, pela primeira vez e de forma tão profunda, a infelicidade no trabalho. Percebi quão resiliente (ou teimoso) é o ser humano, pois

permaneci nessa situação de

miserabilidade por quase dois anos. De hercúleo, o trabalho passou a ser sísifico. Todo dia parecia com o dia

anterior e isso tornou-se

desmotivante, afinal o que torna a

atividade tão desgastante não é o esforço, mas a repetição Quando tomei a decisão de renunciar ao status de sócio e à remuneração acima da média que o mercado financeiro proporciona já não havia dúvida sobre aquilo que eu não queria fazer profissionalmente. Decididamente não queria mais trabalhar com a gestão do dinheiro de terceiros. Isso não significa que estava claro para mim o caminho a ser tomado. Precisei de três meses para desintoxicar a infelicidade dentro de mim. Tive uma noção muito clara e lúcida de que não havia propósito algum em trabalhar para que alguém pudesse acumular cada vez mais dinheiro. O meu trabalho havia desalinhado-se de minha potencialidade. Havia perdido o meu sentido de realização. Meu espírito agonizava.

A.H. Maslow (1908 – 1970)

Maslow pode ter exagerado, mas antecipou os sintomas do problema. Uma pesquisa realizada em 2011 junto a 592 organizações na

Figura 1 - Mito do Sisifo

Se você planeja ser qualquer coisa menos do que aquilo que você é capaz, provavelmente você será infeliz todos os dias de sua vida.

Figura de “O mito de sísifo”, imagem obtida em

http://www.wscom.com.br/blog/eduardohenrique/post/post/Ca da+um+com+sua+verdade+e+S%C3%ADsifo+com+sua+pedr a+na+montanha-27

estresse superou, pela primeira vez, o câncer como principal causa de

ausência de longo prazo no trabalho decorrente de doença23. No ambiente

de trabalho o estresse talvez seja a principal causa motriz de infelicidade. O problema é de cunho social.

Da mudança do trabalho braçal para o intelectual típico da economia do conhecimento percebemos a alteração das doenças ocasionadas no trabalho. De problemas físicos passamos a contabilizar o absenteísmo pelas causas mentais e emocionais. Por si só, isso já é fonte de que alguma coisa pode estar errada.

No meu caso, a tomada de consciência de um estado de infelicidade veio antes do conhecimento daquilo que me deixa feliz no trabalho e demandou um aprofundamento sobre a relação trabalho x realização. Segundo Alexandre Teixeira, as vidas pessoal e profissional estão se fundindo de um modo inédito. Logo, quem não busca felicidade no trabalho, não busca felicidade na vida (TEIXEIRA, 2012, p.25).

23

Maiores detalhes vide www.cipd.com.uk, sítio eletrônico da Chartered Institute of

Após as necessidades básicas A busca por algo maior

Satisfeitas as necessidades básicas, há uma busca natural por realização, inspiração. Esse é um sentimento relativamente novo no ser humano. Segundo Roman Krznaric (KRZNARIC, 2012, p.14), a busca generalizada por realização deu-se a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. A palavra inglesa fulfilment (realização, satisfação) nem sequer constava no primeiro dicionário da língua inglesa, publicado em 1755. Durante a pesquisa que realizou com um grande numero de pessoas de mais de uma dúzia de países para escrever seu livro, Krznaric diz que “nunca   um   número   tão   grande   de   pessoas   sentiu   tanta   insatisfação   com   a   vida  profissional  e  tanta  incerteza  sobre  como  resolver  o  problema”. Quanto mais a pessoa toma consciência de sua integralidade, maior tende a ser a necessidade de desafios holísticos. É assim comigo.

O propósito de ganhar dinheiro passa por proporcionar os meios para realizarmos alguma coisa. É fundamental questionar qual o ponto de vista básico sobre a vida. Se o direcionamento for para fora, ou seja, se a busca for a felicidade por meios externos, pela geração da riqueza, acaba- se perpetuando o ciclo de se querer sempre ganhar mais dinheiro.

Por outro lado, se o ponto de vista considerar que o dinheiro é, sim, importante, mas houver a conscientização de que existem outros fatores imateriais, então há uma perspectiva para se levar uma vida mais feliz, um sentido mais amplo de realização. O equilíbrio dessa equação é muito difícil. Quanto menor o salário, mais próximo das preocupações fisiológicas permanecemos. Quanto maior, mais propenso ao apego material ficamos.

O primeiro passo é reconhecer os benefícios da segurança causada pelo equilíbrio financeiro, de sua função estrutural segura para outras

que conheço justificam a energia empregada na jornada de trabalho, ainda que desgastante, por conta da manutenção do padrão de vida de sua família. Proporcionar educação de primeira linha aos filhos justifica o sacrifício. Apesar de as necessidades básicas estarem satisfeitas (fisiológicas e de segurança), há uma tendência de permanecer na escala básica, atrelada ao medo da perda do que já foi conquistado e ao medo de que sua prole pode não dar conta de obter as mesmas conquistas básicas por conta própria. O curioso é que a maioria das pessoas com quem relacionei-me profissionalmente de forma mais contundente não tinham herdado nada dos seus pais. Conquistaram tudo o que tinham por conta própria. Lutaram para obter um nível de vida material muito confortável, mas temem que seus filhos não obtenham as mesmas conquistas.

A segurança material deveria levar ao próximo estágio, a segurança emocional. Daí a importância da tomada de consciência sobre nossas emoções. Por meio do autoconhecimento obtemos mais segurança e equilíbrio emocional, conhecemos o nosso modus operandum interno. Tudo ao seu tempo, com muita dedicação. A ilusão da realização via acúmulo de riqueza, a sua insaciabilidade, é o caminho a ser questionado. Para muitos é difícil saber quando sair dessa estrada e seguir o caminho que leve à realização mais holística e profunda em nós mesmos. Uma dica de quando isso deve ser feito é o momento em que nossa carreira apresenta mais dissabores do que prazeres, quando a sensação de realização tornar-se tão distante que já não há motivos para levantarmos da cama e ir bater o cartão de ponto. A luz amarela no painel de controle de nossas emoções acende-se. É hora de encostar o veículo e ver o que está errado, antes que o motor funda.

Uma das dificuldades de se caminhar nesta estrada é a ausência de sinalização clara. Não raro seguimos a direção da obtenção de status e/ou poder. A estrada convida-nos nesse sentido. Assim como para a acumulação de riqueza, essa é outra direção que não leva à satisfação plena, mas a um caminho cheio de deslizamentos, chuvas e risco de

acidentes. Ter reconhecimento dos outros pode ser um caminho narcisista e efêmero que nos afasta de nosso propósito. Vasculhando bem nossos objetivos mais profundos, podemos deparar com inseguranças próprias, mas para se chegar a essa consciência faz-se necessário percorrer a estrada e enfrentar seus buracos. É muito difícil, senão injusto, convencer os iniciantes da trajetória profissional a não percorrer e viver o caminho rumo aos altos cargos de uma organização mostrando apenas que o status não lhes trará realizações. É preciso ter algum status para descobrir que ele significa muito pouco ou nada. É importante a ideia de se vivenciar a tentação de pertencer a um grupo social seleto, ao qual poucos chegam, para descobrir por conta própria que isso pode não significar realização. Sempre haverá um degrau a mais onde outras pessoas estão. A escada social é longa e não enxergamos o seu fim. A subida é cansativa e interminável.

Olhando amiúde, ser admirado e respeitado não tem relação direta com status. Diferentemente da reverência pelo status, a reverência pelo exemplo da ação é um fator motivacional. Motivamo-nos vendo as pessoas fazendo, acontecendo, construindo e não apenas porque são ou estão em alguma posição social hierárquica superior.

Equilíbrio e sucesso A difícil equação

(DALAI-LAMA e CUTLER,

Howard C., 2004, p.104).

A quantidade de dinheiro que se ganha em vida pelo trabalho atende aos extremos. De um lado, ganhar um mínimo de dinheiro significa sobrevivência, daí a sua importância vital básica. Entretanto, a partir desse

Por mais que realizemo-nos com nosso trabalho, é um erro considerá-lo como única fonte de satisfação.

mínimo a relação vai tornando-se supérflua e há ameaça real destrutiva de caráter. É uma equação dialógica de extremos e com sinais opostos. É como o remédio que em dose certa cura e em dose excessiva mata. Não por acaso grandes lideres morais da história conviveram com o lado mínimo da gangorra. No outro lado da moeda, não é difícil identificarmos vaidade exacerbada em grandes acumuladores de dinheiro. Raros os que não se contaminam.

Pesquisa nos Estados Unidos da América indica que superado o limite mínimo de segurança (alimentar, de moradia e educação) o aumento da renda não impacta significativamente em qualidade de vida, felicidade ou realização (TEIXEIRA, 2012, p.45). Já sabemos que dinheiro não traz felicidade, mas a ausência dele traz infelicidade.

Um estudo conduzido por Amy Wrzesniewwski em 1997 mostra os trabalhadores em três categorias: (a) aqueles que consideram o trabalho apenas um emprego pelo qual se obtém a remuneração necessária à sobrevivência; (b) os que o veem como uma carreira, cuja motivação é a ascensão profissional; e (c) aqueles que o têm como uma vocação, ou seja, uma contribuição para um bem comum maior, um significado. O estudo mostra que é nessa terceira categoria que as pessoas mostram-se mais felizes e satisfeitas com o trabalho que desempenham. Parece-me incrível que ainda precisemos de pesquisas desse tipo para consolidar esse conhecimento comum.

Peter Drucker classifica os trabalhadores que usam sua capacidade intelectual para desenvolver atividades profissionais como trabalhadores do conhecimento. Cita, como exemplo, executivos, consultores, advogados, médicos e professores. O mercado de trabalho adotou o mesmo conceito,

mas alterou o nome para trabalhadores qualificados24.

Esses trabalhadores qualificados enquadram-se nas categorias (b) e (c) acima, e, para eles, uma boa remuneração é equação mínima para a dedicação ao trabalho. Trata-se de mera compensação pelos anos

24

Fonte: MAIA, Humberto. O foco é nos melhores CEO Exame – Ideias para quem

dedicados à obtenção de conhecimento e pelas horas destinadas ao trabalho. Pensam que vale a pena o sacrifício, ainda que por algum tempo.

A remuneração satisfatória não entra na lista dos principais itens motivacionais, mas tende a ser o primeiro item da lista de desmotivação. Não há, aqui, relação direta com realização.

São vários os fatores que contribuem para a realização de uma pessoa no trabalho: os interesses pessoais, o ambiente de trabalho, as condições de vida particular, o quadro social onde se está inserido, a natureza do trabalho e as relações pessoais com parceiros, chefes ou liderados. Por isso a realização de cada um é pessoal, intransferível e indelegável.

Segundo Dalai-Lama, as coisas mais importantes na busca da sensação de realização no trabalho são a atitude da pessoa e a consciência de si. A compreensão de si é fundamental, inclusive para identificar os desafios intelectual ou emocional quando se está diante deles e as prováveis frustrações naturais do processo de alcançar o sucesso profissional.

Ter sucesso financeiro tornou-se valor cultural. Há uma idolatria àqueles que ganham muito dinheiro e uma inveja quando tomamos conhecimento sobre o que fazem com ele. Os valores financeiros e a carência de boa liderança elevam os endinheirados ao status de celebridade. Consumimos as receitas para o sucesso material. Desejamos conhecer os 10 hábitos de pessoas bem-sucedidas financeiramente, típico dos livros de autoajuda. No fundo, acalmada a ânsia do desejo de possuir bens materiais, deparamo-nos com valores mais abrangentes e significativos, os quais o dinheiro não compra.

Nesta tomada de consciência maior há uma demanda por líderes que defendam valores éticos e simples, capazes de arregimentar uma grande quantidade de pessoas. O Cardeal de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, transformou-se rapidamente em um líder universal assim que assumiu a condição de papa e começou a pregar valores básicos

identificáveis e requeridos pela sociedade cristã. A rapidez com que se deu esse reconhecimento como líder carismático identifica a carência da sociedade por ética e moralidade.

Realização não está atrelada ao sucesso financeiro. Percebemos isso com mais nitidez no longo prazo, na maturidade das experiências adquiridas.

Excetuando-se as conquistas materiais, o sucesso possui uma conotação utópica em si mesmo. Talvez por isso o desafio maior não seja ser uma pessoa bem-sucedida, mas identificar o que queremos como sucesso para nós mesmos. Fala-se (escreve-se) muito sobre felicidade no trabalho. Sempre tive dificuldade em responder à pergunta: Você é feliz com o que faz? Para mim era sempre uma questão temporal, ou seja, se estava feliz no momento da pergunta. Quando aprofundo a construção da resposta (e tenho essa tendência) alongo o conceito de felicidade, que engloba dores, dissabores, tristezas, arrependimentos tanto quanto alegria, satisfação, êxtase. A felicidade carrega em si um tanto de infelicidade também, tão necessária para compreender a ontologia que o sentimento conota. Sou feliz por já ter sofrido, por ter chorado, pelas dores imensas. Sou feliz, também, por ter envergado mas não quebrado. Sou grato pelo meus sofrimentos e medos pois fizeram com que eu amadurecesse e compreendesse uma pouco mais da vida. Gracias à la vida.

A grande maioria das pessoas que conheci não teve uma atitude proativa na busca por aquilo que realmente queriam fazer em suas profissões. Somos forçados a escolher os caminhos de nossas carreiras muito cedo, quando ainda não temos consciência do que nos motiva, anima ou desafia.

Já no ensino médio temos de escolher rotas nas estradas da profissão: ciências humanas, exatas ou biológicas.

Eu mesmo queria ter sido jogador de futebol, mas gostava tanto de jogar bola que não considerava essa atividade como uma profissão. Quando acabou o ensino médio tive de escolher. O trabalho já tinha, na

minha cabeça, um sentido negativo, o de fazer aquilo de que não se gosta em troca de uma sobrevivência. Indeciso, cursei administração de empresas, sonhando ser diretor financeiro. Depois de tantos anos nessa área aprendi que a maioria das pessoas que decide pelo curso de administração de empresas quer ser, de alguma forma, executivo em alguma corporação, ainda que não tenha clareza sobre o que irá fazer realmente. Mantive o prazer da prática do futebol aos fins de semana, mas minha primeira remuneração veio do esforço de um emprego rotineiro como escriturário de um banco. Fiz amigos por lá, e um deles havia deixado o banco para participar do extenso programa anual de contratação de trainees de uma das maiores empresas de auditoria do mundo. Acompanhei o processo torcendo por ele, a ponto de emprestar o único terno que possuía para ele participar das entrevistas e, depois de admitido, cursar os primeiros meses do treinamento.

Ele ficou tão encantado com a empresa que tentou convencer-me a fazer a inscrição no ano seguinte. Eu estava resoluto a não sair do banco pois vislumbrava uma grande carreira como bancário. Trabalhar no mercado financeiro estava começando a ser moda entre os universitários da época. Ele insistiu; e eu também. Não conformado, fez a minha inscrição sem o meu conhecimento. Fui chamado para a primeira etapa do processo de seleção, passei para a segunda etapa e, nesse momento, fiquei instigado pela dificuldade de entrar naquela empresa. Se é difícil entrar, deve ser boa para trabalhar, pensei. Após a quarta e última etapa do longo processo de seleção lembro-me de receber o derradeiro telegrama da empresa que sentenciava a decisão final. Guardei o envelope fechado no bolso e sai correndo para a faculdade. Sentado no banco do ônibus, olhando as pessoas na rua pela janela, retirei o envelope do bolso e fiquei explorando as minhas emoções. Estava ansioso pelo resultado, mas queria prevenir-me de decepções. O coração palpitou. Abri. Telegramas eram curtos, pois o custo era medido por palavra. Não tinha artigo. Havia passado pela última fase e estava entre os eleitos para a turma de trainees de 1988. Não contive uma imensa alegria interior que,

Precisava pegar meu terno de volta com meu amigo, pensei sorrindo e satisfeito com minha primeira conquista profissional.

Aos poucos fui percebendo que as oportunidades recrutavam os candidatos ao emprego - e não o contrário. Isso ainda pairou como dúvida

até tomar conhecimento de como Robert Wong25 descreve o processo em

que entregamos nossas iniciativas. Segundo ele, a maioria das pessoas desenvolveu sua vida profissional de engrenagem em engrenagem, de condicionamento em condicionamento que o primeiro emprego o achou. Eu não havia escolhido o meu ofício. Foi ele quem me escolheu. Ser auditor nunca esteve no meu radar profissional. Wong cita, porém, que essa atitude reativa submete-nos às grifes e aos símbolos de status até o ponto   de   entregarmos   nossas   almas   na   busca   insensata   de   valores   materiais   para   um   futuro   geralmente   desvinculado   do   nosso   equilíbrio   essencial.”  (WONG, 2006, p.26). E o resultado é a infelicidade.

Isso aconteceu comigo a ponto de não ter mais motivação alguma de encarar mais um dia de trabalho e ter de efetuar uma parada técnica de três meses só para pensar no que eu queria fazer. Reconheço que faço

parte da geração X26, que questionou, de forma mais vigorosa, a relação

entre trabalho e felicidade.

A grande depressão de 1929 privilegiou a estabilidade e a segurança. Os baby boomers foram educados para muito trabalho e sacrifício em nome da estabilidade adquirida pela geração anterior, acarretando em carreiras de longa duração nas empresas. Com o advento da prosperidade econômica, a geração X criou a ideologia de que o trabalho deveria contribuir para a realização pessoal. A felicidade no

25

Robert Wong esteve (é assim que ele se apresenta) presidente da Korn Ferry (empresa de recrutamento e seleção) para o Brasil e America Latina. Foi considerado pela revista

The Economist um dos 200 mais destacados headhunters do mundo. 26

Há um consenso generalizado que segrega as gerações de acordo com a época de