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De acordo com Scaramucci (2016, p. 145) o termo “letramento, tradicionalmente, refere-se à capacidade de ler e escrever”. Soares (1999 apud SCARAMUCCI, 2016) afirma que letramento, nessa perspectiva, não é apenas saber ler e escrever, mas exercer essas práticas (de leitura e escrita) que circulam na sociedade. Taylor (2013) complementa que o termo letramento tem sido usado como sinônimo de “competências, habilidades” relacionados a ‘domínios” do dia a dia.

Nessa concepção estendida de letramento surge o termo letramento em avaliação. Stiggins (1991) foi pioneiro quanto ao uso do termo. Ele define o termo letrado em avaliação. Segundo o autor, ser letrado em avaliação é ter uma compreensão básica sobre a qualidade da avaliação e aplicar esse conhecimento a várias mensurações do rendimento dos alunos. Nessa perspectiva, o letramento em avaliação é um conjunto de conhecimentos sobre a avaliação, como instrumentos, práticas de avaliação e análise de resultados. O conceito de letramento em avaliação de Stiggins revela um caráter restrito de letramento em avaliação, pois destaca os aspectos de conhecimento sobre avaliação, uma visão técnica.

Já Inbar-Loure (2008, p. 389) define letrado em avaliação como aquele que “tem a capacidade de fazer e responder perguntas críticas sobre o propósito da avaliação, sobre a adequação da ferramenta que está sendo usada, sobre as condições do teste e sobre o que vai acontecer com base nos resultados do teste”.

A duas definições de letrado em avaliação se complementam e com base nelas podemos concluir que letramento em avaliação é o conjunto de conhecimentos sobre a natureza, as práticas, os instrumentos e as funções da avaliação, além da compreensão sobre os impactos e efeitos sociais que a avaliação possui.

Segundo Scaramucci (2016), o campo da avaliação durante os anos de 60 e 80 passou por um período de isolamento, pois estava muito focado em aspectos técnicos e

qualidades de medida, sendo uma disciplina à parte. A esse respeito, McNamara (2000) destaca o risco de se considerar a avaliação uma atividade meramente técnica. O letramento em avaliação tem grande importância para a mudança de visão sobre a avaliação, uma vez de que concebe a avaliação além de uma disciplina solitária e meramente técnica. Dessa forma, o letramento em avaliação surge como uma possibilidade de acesso ao público a conhecimentos sobre avaliação. Assim, professores, pais, alunos entre outros podem ter formação e se apropriar dos conhecimentos e implicações da avaliação.

Claro que é necessário fazer a distinção entre os profissionais que utilizam a avaliação constantemente em sua prática profissional e outras pessoas. Stiggins (1991) fala de estágios progressivos de letramento e diferentes níveis de letramento. Isso ocorre, por exemplo, quando comparamos professores e pais de estudantes: ambos podem ser letrados em avaliação, porém em diferentes níveis, uma vez que o pai não precisa elaborar instrumentos avaliativos, nem analisar resultados para tomada de decisões.

Nesse caso é compreensível a diferença entre os níveis de letramento em avaliação. Porém, essa diferença também pode se apresentar entre dois professores por exemplo, em que um tem mais conhecimento e consciência dos processos avaliativos e seus desdobramentos que o outro. Isso pode ocorrer porque geralmente a escola possui professores com diferentes experiencias e trajetórias e dependendo da formação do professor, ele já pode ter vivenciado palestras, cursos e formações sobre avaliação, o que aumentará seu nível de letramento.

Quando se trata de letramento em avaliação no contexto de línguas, os professores e profissionais da avaliação devem ter ciência e competência na área de avaliação, com a apropriação de conceitos e usos corretos dos instrumentos e resultados, sem perder de vista as consequências políticas e sociais e, além disso, precisam ter clareza sobre a natureza da linguagem, sobre o que é língua e o que é ensinar língua. A esse respeito Alderson e Banerjee (2002, p. 80) afirmam que “[...] central à avaliação é o entendimento do que é linguagem e o que está envolvido na aprendizagem e no uso da língua, o que então se torna a base para estabelecer maneiras de avaliar as capacidades das pessoas envolvidas”.

Em minha experiência como formador de professores de língua, destaco que professores de línguas letrados em avaliação são capazes de elaborar instrumentos avaliativos com qualidade, observando e reconhecendo a concepção de língua subjacente, além de distinguir a finalidade da avaliação no contexto escolar e refletir sobre dados, resultados e sobre a própria avaliação e os processos de ensino e de aprendizagem.

A sociedade brasileira ainda é pouco letrada em avaliação, inclusive os profissionais que utilizam a avaliação no contexto escolar. Scaramucci (2016) aponta que o

baixo tratamento da temática avaliação, em especial nos cursos de Letras, contribui para um baixo nível de letramento em avaliação por parte do professorado. Quevedo Camargo (2018, p. 237) fala das consequências da falta de letramento no ensino de línguas. Segundo a autora, umas das consequências “é a própria sala de aula onde avaliar significa, em grande parte, aplicar provas para verificar se o conteúdo linguístico foi aprendido, sem considerar a língua em uso e a função formativa da avaliação [...]”.

A seguir apresento um breve quadro com alguns aspectos que destaco como importantes para o letramento em avaliação do professor de línguas.

Quadro 1 - Aspectos desejáveis do letramento em avaliação do professor de línguas Aspectos desejáveis

Funções da avaliação Saber diferenciar e aplicar no contexto da docência as características, usos e impactos socias das diferentes funções da avaliação (somativa, formativa, diagnóstica e classificatória em favor das aprendizagens. Conhecimento técnico Ter domínio básico sobre princípios da

avaliação (validade, confiabilidade, praticidade, efeito retroativo, autenticidade); distinção entre tipos de teste: rendimento, proficiência, acesso ou entrada, classificação ou nivelamento. Concepção de linguagem definir com clareza a concepção de linguagem

que sustenta o ensino e a avaliação.

Concepção de avaliação e de educação definir e explicitar a própria concepção de avaliação e de educação.

Fonte: Autoria própria

Nesse quadro sobre aspectos desejáveis no letramento em avaliação do professor de línguas, no que se refere ao conhecimento sobre as funções da avaliação, o termo “impactos sociais” aparece em destaque porque, ao compreender as funções, o professor letrado precisa ter em mente os impactos sociais que suas avaliações podem desempenhar dentro e fora da sala de aula. Dessa forma, precisa estar atento para selecionar conscientemente os melhores

instrumentos, com clareza sobre o uso em sala de aula e para a aprendizagem. No bojo dos impactos estão também a observância às questões de ética, de inclusão e exclusão e de relações de poder.

No bloco categorizado como conhecimento técnico, é importante salientar que são destacados conhecimentos básicos. Isso significa que o professor de línguas, em sua atuação e preparação para a sala de aula, não precisa de um aprofundamento nessas questões a ponto de compreender dados estatísticos e arcabouço teórico muito refinado sobre princípios da avaliação.

É desejável que o professor consiga construir e avaliar seus instrumentos avaliativos com clareza sobre o que está avaliando, o que os resultados demonstram, em que condições os estudantes estavam quando no momento da avaliação. Ou seja, o professor precisa ter um domínio técnico para garantir minimamente uma avaliação profissional e distanciar-se de uma prática amadora. É necessário que o professor de línguas também conheça os diferentes tipos de teste para que consiga utilizá-los com qualidade e consciência para as diferentes finalidades.

Claro que se o professor tiver um conhecimento técnico sobre avaliação mais aprofundando, um tanto melhor, porém, esse aprofundamento já se caracteriza como um nível a mais no letramento do professor. Uma qualificação de seu letramento que o habilita a atuar em outras funções além da sala de aula.

Outro ponto igualmente relevante é a concepção de avaliação. O professor necessita ter conhecimento sobre as diferentes funções da avaliação e sobretudo em que momento cada função entra em sua sala de aula. Além desse conhecimento, o docente precisa ter clareza de sua concepção de avaliação. É necessário que o professor explicite o que é avaliação para ele. Geralmente essa concepção vem por meio de definição quando o professor afirma o que é avaliação.

A concepção de linguagem é um diferencial no letramento em avaliação do professor de línguas. Ela é fundamental tanto para o professor de língua estrangeira como para o professor de língua materna. A relação entre concepção de linguagem e avaliação é fundamental, pois é o que proporciona coerência entre ensino e avaliação. Além disso, tecnicamente, uma avaliação de línguas de rendimento que não condiz com o construto ensinado (língua ensinada) apresenta um problema de validade. A seguir abordo sobre a concepção de linguagem e o ensino e avaliação de línguas.