O critério inicial da escolha dos sujeitos foi respaldado pelo baixo rendimento escolar com possível dificuldade de aprendizagem matemática. A seleção dos estudantes teve início com a análise de relatórios avaliativos dos bimestres anteriores, em concordância com a professora regente.
Porém, durante o processo de observação, outros parâmetros foram considerados como o envolvimento dos sujeitos com jogos e sua relação com a Matemática. Para evitar constrangimentos àqueles com maiores dificuldades nessa área do conhecimento, optou-se pela escolha de estudantes que se encontravam em diferentes níveis de aprendizagem, uma vez que os jogos propostos favorecem a democratização e participação de todos, independentemente das dificuldades apresentadas.
Isto posto, para o estudo de caso, foram selecionados seis sujeitos, sendo dois estudantes que apresentavam baixo rendimento escolar, dois com rendimento escolar mediano e dois com maior aproveitamento escolar em Matemática. A quantidade de estudantes escolhida se justifica pelo fato de ser um número viável para observação e condução do trabalho.
As duas crianças que apresentavam maior dificuldade de aprendizagem na Matemática eram também aquelas mais infrequentes, fator que poderia comprometer a pesquisa. Por isso, foram eleitas duas outras crianças com aproveitamento escolar em Matemática aquém do esperado. Para manter as identidades dos participantes em
sigilo, utilizaremos os personagens da série de tirinhas Peanuts, pela similaridade das características com as dos sujeitos da pesquisa bem como pela temática análoga.
Mais conhecida no Brasil por “Snoopy”, a série, criada em 1950 pelo cartunista Charles Monroe Schulz, só apresenta crianças, mas parece ter sido escrita para adultos. Com severas críticas às formas de ensino tradicional, os quadros surgem no ápice do Movimento da Matemática Moderna42, criado nos Estados Unidos e
exportado para diversos países, incluindo o Brasil, onde chegou por volta de 1960. Os próprios personagens falam de suas dificuldades para atender às cobranças da escola e, com humor irônico e inteligente, revelam situações acadêmicas cotidianas, entre provas, trabalhos e férias.
Assim, nessa pesquisa, os personagens análogos aos sujeitos foram Sally, Charlie Brown, Linus, Patty Pimentinha, Marcie e Lucy, conforme figura 3.
Figura 3 – Personagens da série Peanuts
Fonte: Imagem retirada da internet.
As crianças serão brevemente apresentadas nesse primeiro momento e ganharão maior destaque posteriormente, a partir dos resultados e análises dos dados construídos.
A estudante Sally com oito anos, chegou à escola no 3º bimestre de 2018, vinda do Maranhão onde deixou pais e irmãos e era aluna destaque no 3º ano, apesar de ainda não ler ou escrever convencionalmente nem operar, matematicamente. No DF, morava com seus padrinhos em outra região administrativa do DF, mas passava o dia no comércio de sua madrinha, nas proximidades da escola. Logo concluiu que “só na
42 O Movimento da Matemática Moderna surgiu nos EUA após a Segunda Guerra Mundial. A proposta
de reformulação do ensino da Matemática, em busca do desenvolvimento tecnológico culminou na criação da didática do “siga o modelo”, cujo método de aprendizagem era assentado na repetição.
outra escola era inteligente”. No início ficava em seu cantinho apenas observando, sem manifestar-se, procurando passar despercebida pelos demais.
Após sua inserção nos jogos, revelou-se uma menina alegre, esperta, curiosa e muito risonha. Tinha ideia da adição e subtração, mas estava muito aquém do necessário, em relação à construção de conceitos matemáticos. Demonstrou muitas dificuldades na resolução de adições com agrupamento e subtrações com desagrupamento, especialmente quando os números apresentavam mais de um algarismo.
O estudante Charlie Brown, tinha dez anos e veio de outra cidade do DF, mudando-se para as redondezas da escola, em 2017, com seus pais e irmãos. Amigo de todos no grupo, sempre demonstrava preocupação com os colegas. Repetente no 3º ano, manifestava muita ansiedade e aflição com a retenção, chorando algumas vezes em sala, em momentos da tradicional prova. Logo ele despertou o interesse da pesquisadora. Ainda apresentava muitas dificuldades ortográficas e também no raciocínio lógico-matemático. Procurava constantemente o reconhecimento dos colegas e da pesquisadora e a aprovação da professora ao apresentar suas atividades. No início, participava dos jogos como um momento de pura diversão, contudo, a partir do metajogo43, percebeu a oportunidade de aprender jogando.
Linus, de oito anos, apresentou-se uma criança curiosa e cheia de energia. Gostava de opinar e questionar os fatos apresentados. Era o filósofo do grupo. Morava nas proximidades da escola com a mãe e o avô materno que, segundo a progenitora, o desestabilizava emocionalmente com palavras críticas que o diminuíam e colaboravam para sua baixa autoestima. Aparentava ter dificuldade em organizar seus pertences, perdendo-os com frequência. Manifestava momentos de distração e desatenção, perdendo o foco rapidamente durante as atividades propostas deixando- as incompletas e, por isso, necessitando da intervenção da professora para sua conclusão. Ainda não havia se apropriado do sistema de escrita alfabética e por isso apresentava registros escritos, na maioria das vezes, ilegíveis. Com baixo limiar à frustração, chorava durante as aulas, em situações que o confrontavam. Apresentava resistência para refazer atividades após a correção e tinha baixo rendimento escolar
43 Metajogo é o debate sobre as ações matemáticas depois do jogo [...]. é essencialmente mobilização
de uma metalinguagem, pois estão a discutir sobre as linguagens simbólicas mobilizadas ao longo da atividade jogo (MUNIZ, 2016, p. 39).
em Português e Matemática, apesar do excelente raciocínio lógico-matemático revelado durante as observações em sala.
Patty Pimentinha, uma menina de oito anos, mostrou-se alegre e muito mandona durante as atividades em grupo, mas, ao mesmo tempo, muito insegura em relação às suas aprendizagens e conhecimentos. Por isso, apresentava grande dependência da professora na realização das atividades. Estava se apropriando da língua materna com grandes avanços na leitura e escrita, porém com muitas dificuldades na matemática. Preocupava-se com a realização das atividades em sala, valorizando a escrita e a cópia do quadro em detrimento de outras atividades como jogos e brincadeiras. Residia próximo à escola com seus pais e irmão e demonstrava receber apoio e acompanhamento familiar.
Marcie, de nove anos, morava nas proximidades da escola com seus pais e mostrou-se uma criança sapeca e brincalhona. Alfabetizada, manifestava evidente gosto pela leitura, jogos e brincadeiras e destacava-se por ser questionadora, eloquente e participativa. Apresentava bom desempenho escolar, no entanto, as ausências de alguns conceitos matemáticos prejudicavam-na, durante a resolução de operações matemáticas. Quando não conseguia concluir, Marcie chorava, especialmente em situações de avaliação formal. Algumas dificuldades foram percebidas pela professora desde o primeiro bimestre, de acordo com o relatório da estudante, mas se estenderam até o final do terceiro bimestre. Marcie externava muito medo das provas bimestrais.
Lucy, oito anos, residia com sua mãe nas imediações da escola. Revelou-se uma líder nata nos grupos dos quais participava. Prática, racional e autoritária, com frequência envolvia-se em conflitos com os colegas. Alegre e apaixonada por futebol, demonstrava autonomia nas atividades realizadas. Manifestava suas ideias oralmente e também nos textos escritos, sempre opinando e contestando fatos dos quais discordava. No entanto, ainda apresentava aspectos a serem melhorados na língua materna, relacionados à leitura e à escrita. Fã dos jogos, desde o início da pesquisa apresentou excelente raciocínio lógico matemático, utilizando registros diferentes nas resoluções de situações matemáticas. Em algumas situações, a competitividade, expressa na celeridade em resolver os problemas e apresentar uma resposta, conduziu a estudante a cometer erros.