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A formação para a avaliação do professor pode fomentar questionamentos não somente em relação às concepções de avaliação, mas também em relação à concepção de língua/linguagem. Isso porque ter clareza sobre o que é língua(gem) é fundamental para o letramento em avaliação no contexto de línguas, uma vez que o docente necessita construir instrumentos avaliativos, fazer inferências dos dados e amostras da linguagem produzida pelo estudante e tomar decisões.

Segundo Klein (2009), o entendimento de concepção é mais amplo que um simples conceito. Dessa forma, ter uma concepção não é apenas definir algo, mas se trata de um conjunto de preceitos, conceitos, crenças sobre determinado assunto ou aspecto. Assim, um conceito pode revelar uma concepção que o embasa ou o sustenta. A mesma autora (2009, p. 15) também destaca que “a forma como concebemos determinado produto ou processo da realidade que tomamos como objeto de ensino-aprendizagem influi decisivamente no modo como encaminharemos nossa prática pedagógica”.

Em relação à concepção de linguagem, Klein (2009, p. 15) postula que “qualquer concepção de linguagem está articulada a uma concepção de mundo e uma concepção de realidade”O professor precisa reconhecer as concepções de linguagem subjacentes às práticas de ensino e avaliação. As concepções estão no campo abstrato da filosofia de ensinar, portanto, da abordagem. Almeida Filho (2007, p. 17) conceitua abordagem como “um conjunto de disposições, conhecimentos, crenças, pressupostos, e eventualmente princípios sobre o que é linguagem humana, língua estrangeira e o que é aprender e ensinar uma língua-alvo.”

O autor complementa seu conceito apontando que geralmente o ensino está relacionado a contextos formais (escola) e que frequentemente as disposições e conhecimentos presentes da abordagem do professor precisam contemplar as concepções de homem ou pessoa humana, assim como de sala de aula e dos papeis desempenhados por alunos e professores de uma nova língua.

Concordo com o autor quanto à definição de abordagem do professor de línguas como uma abstração composta de concepções sobre a natureza da língua, sobre o ensino e sobre os papeis de professores e alunos. Nessa perspectiva, a abordagem é um norteador, aquilo que orienta o professor em suas práticas de planejamento e execução da ação pedagógica.

A abordagem se materializa no ensino, por exemplo, por meio dos materiais escolhidos e utilizados pelos professores e também pela escolha do tipo de avaliação e de instrumentos avaliativos empregados.

Segundo Almeida Filho (2011), duas grandes abordagens se destacam no ensino de línguas contemporâneo, são as abordagens gramatical e comunicacional. O mesmo autor, em sua obra Dimensões Comunicativas (1993) aborda características dessas duas abordagens. A primeira abriga uma concepção de língua como estrutura, bem como uma ideia de ensino de línguas baseada em normas gramaticais. A segunda abordagem, por sua vez, difere-se da concepção de língua apenas como estrutura. Ela tem como eixo a língua como ferramenta de comunicação pessoal e o ensino voltado para o uso da língua e para o significado do que se quer expressar.

É notório que a concepção de linguagem exerce forte influência na abordagem do professor. Scaramucci (2006) destaca que a concepção de linguagem do docente é o que subsidia o seu método de ensino, assim como define seu material didático e instrumentos de avaliação. Nesse sentido, se o construto avaliado é uma perspectiva de linguagem como prática social, o professor terá como foco o sentido e a expressão na língua-alvo e se distanciará dos aspectos meramente gramaticais e estruturais da língua.

Independentemente da concepção de linguagem do professor, o mais importante é que ele tenha consciência disso para que consiga, de fato, desempenhar uma boa avaliação, respeitando, sobretudo, o princípio da validade. Quevedo-Carmargo (2017) diz que “Todo(a) professor(a) de línguas deve perguntar a si mesmo(a) o que entende por língua”. A mesma autora (2014) afirma que as práticas avaliativas estão relacionadas às abordagens de ensino e essas abordagens trazem sempre consigo uma concepção ou visão de linguagem. O quadro 2 apresenta um resumo da relação avaliação e concepção de linguagem em diferentes momentos históricos no ensino de LE.

Quadro 2 - Relação entre concepção de língua/ linguagem e construto avaliado

Período Concepção de linguagem Avaliação

Fase pré-científica: até meados do século XX

Língua como sinônimo de gramática e vocabulário,

desvalorização da habilidade oral

Aferição de conhecimento gramatical e lexical por meio de

itens isolados e descontextualizados. Segunda fase psicométrica- estruturalista: 1940 - 1960

Língua como assimilação de estruturas

Verificação de estruturas corretas e fragmentação da língua

Terceira fase: psicolinguística-

sociológica

Língua funcional – usada para fazer coisas no cotidiano do dia-dia.

Verificação das funções linguísticas e das competências gramatical,

Quarta fase: final do século XX

Língua como comunicação Capacidade de uso da língua. Integração entre o aprendizado da sala de aula e o que ocorre na vida

real. Fonte: elaborado pelo autor baseado em Quevedo-Camargo (2014, p. 86-87)

Segundo Quevedo-Camargo (2014), ainda nos dias atuais há a influência da primeira fase nas avaliações de línguas. Isso revela que ainda é muito presente a visão de linguagem como um conjunto de regras gramaticais e um baú de léxico. De acordo com ( Spolsky (1975), a prática de avaliação de verificação de estrutura, léxico e gramática passou a fundamentar os testes, abarcando pontos isolados. Podemos citar como exemplo o uso de uma técnica avaliativa chamada “cloze”, usada para avaliar leitura.

Essas técnicas favoreciam a objetividade de correção e ainda seguiam a concepção estrutural de que a língua pode ser dívida em 4 habilidades e, consequentemente, essas habilidades poderiam ser avaliadas (medidas) separadamente. Para esse tipo de teste, é comum o uso de itens como de múltipla escolha, de preenchimento de lacunas, de verdadeiro ou falso/ certo ou errado, que aceitam apenas uma resposta correta em meio aos distratores, que são as respostas erradas em uma questão.

Embora nas práticas de ensino e avaliação de línguas não tenhamos avançado muito, pelo menos no Brasil, a cronologia das discussões dentro da área do ensino de língua aponta para um marco de mudança de paradigma: o advento da competência comunicativa nos anos 70.

O termo competência comunicativa foi empregado primeiramente por Hymes (1971). Na época, o antropólogo Dell Hymes não se referia exatamente ao contexto de ensino de línguas, mas seu pioneirismo foi fundamental para os estudos nesta área. O conceito foi ganhando forças na década de 80 com os autores Canale e Swain, que apresentaram seu modelo já pensando no ensino de línguas estrangeiras. Esses autores trouxeram a ideia de que essa competência é composta por outras competências (gramatical, sociolingúistica e estratégicas). A partir de então, as discussões sobre competência comunicativa levaram ao questionamento de que a competência é mais do que formular frases na língua-alvo e passou-se a valorizar o contexto e o uso da língua.

Nesta seção abordei a questão da formação e do letramento em avaliação do professor de línguas que passa pela concepção de linguagem. Na sequência, discorro sobre as questões éticas que envolvem a avaliação, elemento indispensável que deve fazer parte da formação e das ações de qualquer professor, inclusive os docentes que se dedicam ao ensino de línguas