A prova é o símbolo mais forte da avaliação tradicional escolar. Ela é inclusive sinônimo de avaliação muitas vezes. É comum a prática de semanas e períodos escolares dedicados às provas. Podemos dizer que a cultura de avaliar nas escolas brasileiras tem grande amparo no uso de provas. Dessa forma, uma avaliação desvinculada do uso de provas é uma mudança significativa e uma ruptura com praticas tradicionais.
Durante toda a história da humanidade, o ser humano progrediu e cresceu porque buscou questionar a realidade, o que envolve questões culturais e sociais que tradicionalmente são seguidas e reproduzidas. As grandes mudanças sociais foram ocasionadas pela ruptura e discussão sobre padrões e condutas impostas às pessoas pela sociedade. Podemos citar as questões de gênero, por exemplo. Foi necessário que muitas mulheres lutassem para serem reconhecidas na sociedade, os seja, romperam com a tradição que lhes destinava uma vida de submissão, inferioridade e ausência de direitos sociais e universais.
Mas as mudanças ocorrem gradativamente. Ainda hoje encontramos situações de desigualdades relacionadas ao gênero. Da mesma forma, podemos dizer que a escola tradicional está sendo questionada e muito provavelmente ela passará por modificações. A palavra-chave é ainda a reflexão sobre o que se vive e se tem de modelo de escola. Essa reflexão passa por vários aspectos e talvez o que tenha um forte impacto social seja a avaliação.
Ao abordar esse tema, não há como não tocar no instrumento ou forma de avaliação mais tradicional, que é a prova. Ela pode ser caracterizada como um instrumento de produção de dados, ou seja, é utilizada para que os dados sobre um determinado conhecimento ou habilidade sejam gerados e, posteriormente, esses dados sejam analisados.
McNamara (2000) destaca que os testes de “caneta e papel” são uma forma tradicional de avaliação. No ensino de línguas, segundo o autor, essa avaliação tende a medir componentes isolados da língua como gramática e vocabulário, por exemplo. Isso revela uma visão fragmentada de língua (gem) e uma supervalorização desse instrumento/ forma de avaliar. A prova pode ser usada de forma formativa ou somativa. De acordo com Vianna (2002), um teste para uso em sala de aula com a finalidade de promover uma avaliação formativa, não tem as mesmas características de outro com a finalidade de seleção, como ocorre com a avaliação somativa.
Quando os professores começam a falar e a discorrer sobre a avaliação dentro da escola, não demora muito para que o instrumento prova revele suas fragilidades, pois passa a ser notório que, na maioria das vezes, ela seja usada como único instrumento de avaliação, o que, segundo Scaramucci (1993, p. 95), é um recorte limitado do processo avaliativo: “[... ] uma visão do processo sob ângulos diferentes possibilita ao avaliador minimizar suas chances de erros, uma vez que a avaliação através de um único instrumento se mostra limitada”. A esse respeito Vianna (2002) afirma que um único instrumento não é capaz de medir de forma mais globalizada e integral as diferentes dimensões do ser humano.
No âmbito de ensino de línguas, a prova também aparece na avaliação da oralidade dos estudantes, geralmente em formato de entrevistas ou arguição de vocabulário e itens linguísticos.
A prova é pontual, ocorre em momentos preparados e marcados previamente e quase sempre não é usada de maneira formativa, pois, na maioria das vezes, os estudantes não têm a oportunidade de refazê-la e, quando a recebem corrigida, já se sentem desencorajados pelo fato de esse instrumento vir acompanhado da nota. O estudante que não atingi a pontuação mínima pode se sentir fracassado e sentenciado, já que nada mais tem a fazer.
Essa conduta não olha para o processo do estudante. Segundo Scarramucci (1998, p. 117) “o professor julga o desempenho do aluno com base no produto da aprendizagem, aferido através de provas e exames”. Dessa forma, todo o percurso caminhado pelo estudante durante o processo de ensino-aprendizagem não é considerado, valoriza-se apenas o momento do exame. Ainda pior é que o resultado da prova não serve como avaliação do trabalho docente, apenas avalia o aluno e enfatiza o erro em detrimento da construção do conhecimento (HOFFMANN, 2018).
Ao ser usado dessa forma, com a finalidade apenas de mensuração, notação e constatação, o instrumento prova não contribui para o processo de ensino-aprendizagem. O docente precisa refletir sobre o objetivo do uso da prova em sua sala de aula. Para que apenas classificar os estudantes? Que impacto esse instrumento está trazendo para a aprendizagem dos estudantes? A esse respeito Luckesi (2011, p. 186) afirma que: “A função central do ato de avaliar é subsidiar soluções para os impasses diagnosticados, a fim de chegar de modo satisfatório aos resultados desejados”. Se o professor verifica no resultado da prova que o estudante não aprendeu e nada é feito, a prova serviu apenas para classificar e excluir o estudante do processo.
Desconstruir tudo o que social e psicologicamente a prova representa não é simples. Não se pode também dizer que prova deve ser extinta da escola. O que deve estar claro para o
professor é o objetivo dele ao aplicar esse instrumento e o uso que fará dos resultados. Essa compreensão é muito difícil de ser alcançada quando se está inserido em uma cultura forte e arraigada em que a prova tem um peso enorme e é tratada como sinônimo de avaliação.
Sendo assim, uma ação/ reação que pode ser de grande valia para a reflexão e mudança das práticas avaliativas e de ensino, a adoção de “não prova” na avaliação, pelo menos por um período, a fim de ressignificar seu uso. Pode ser um momento de subversão para que a forte cultura de avaliar traduzida nas provas seja repensada pelos professores e estes consigam utilizar outras formas de avaliar e desvincular-se da concepção de avaliação como sinônimo de aplicação de prova. Dessa forma, podem aprimorar seus processos. Ao diversificar os instrumentos avaliativos, o professor é levado à reflexão de como o instrumento e o uso de provas não são infalíveis, mas geralmente têm um alcance tão grande a ponto de decidir quem é aprovado ou reprovado.
Embora o trabalho com a linguagem – ensino de línguas - possibilite o uso de muita criatividade e espontaneidade na sala de aula, os instrumentos avaliativos geralmente não são dinâmicos nem diversos. O professor ainda deposita muita confiança no instrumento prova e dá pouca importância para suas observações ao longo das aulas, ou seja, concebe a avaliação como aplicação de provas para aferir quem aprendeu ou não o conteúdo linguístico. Assim, momentos importantes de coleta de dados em que os estudantes estão produzindo muita linguagem por meio de diálogos, apresentações, dramatizações, entre outros geralmente são pouco valorizados e analisados.
A prova também pode compor a avaliação formativa, somada a outros instrumentos avaliativos. A prova com finalidade formativa não precisa necessariamente vir acompanhada de nota ou conceito, não pode estar repleta de “armadilhas”, precisa estar desassociada do caráter punitivo e também deve apresentar objetivos claros de sua aplicação e do que pretende avaliar.
O uso de provas de forma somativa revela que não se trata de eliminar as provas, mas sim ressignificá-las e colocá-las a serviço da aprendizagem, e não a serviço da burocracia escolar e institucional.