• No results found

Further development of the postponement and speculation

Chapter 2: Theoretical Framework

2.2 The structure of the distribution system

2.2.3 Postponement and speculation in distribution systems

2.2.3.3 Further development of the postponement and speculation

A produção do artesanato em Maranguape é uma prática histórica que acompanha a vida da cidade desde a chegada de seus primeiros fundadores portugueses que trouxeram consigo a prática dos bordados à mão e do Richelieu. Ao longo do tempo, a produção do bordado se tornou a atividade mais comum da região, passando a ser alvo de grandes investimentos por parte do governo e de instituições privadas. Hoje a organização do processo produtivo por meio da formatação de cooperativas e associações na região é uma constante.

Antes de começar a apontar sobre as etapas da trajetória que as artesãs de Maranguape vem traçando desde que resolveram trabalhar em grupo, seja em forma de associação ou não, até aos dias de hoje, quando pode-se perceber profundas transformações em seu modo de vida e trabalho, debruçar-me-ei sobre as condições históricas, sociais e geográficas que, direta ou indiretamente, contribuíram para a configuração atual da produção artesanal no município.

Maranguape integra o século dos descobrimentos, sob o domínio holandês da expedição de Matias Beck de 1649. Todavia, com a expulsão dos holandeses, foram os índios Potiguara que permaneceram donos das terras até o final do século XVIII. Somente no início do século XIX, inicia-se o povoamento lusitano de Maranguape com a concessão de sesmarias pelo governo Português. O nome Maranguape é de origem Tupi e tem como uma de suas versões etimologicamente mais aceitas o significado de “Vale da batalha” (MATOS, 1966).

O município encontra-se ao nordeste do estado do Ceará, localizando-se a 30km de Fortaleza. Anexado à Grande Fortaleza (Região Metropolitana)em 8 de junho de 1973, o município possui uma população de 88.135 habitantes e um PIB de R$ 5.325 o que representa 1,15% do PIB Estadual e o coloca na sétima posição entre as quinze maiores economias municipais cearenses. Seu território é altamente diferenciado, sendo os principais relevos as serras de Maranguape e Aratanha. Sua economia é baseada na comercialização de produtos agrícolas e na pecuária, sendo também o artesanato atividade

econômica bastante expressiva que faz do município um dos grandes pólos produtivos do Ceará na tipologia de bordado à mão18.

De acordo com Matos (1966, p. 32), já na década de 1960 as pessoas que não trabalhavam nas usinas de leite e na agricultura dedicavam-se ao trabalho artesanal. Segundo este autor, em 1962 existiam no município mais de seis mil bordadeiras e, conforme dados colhidos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), neste ano foram produzidas quase três e meio milhões de peças bordadas, compreendendo camisolas, vestidos, blusas, combinações, toalhas, anáguas etc. (Idem, p. 32). Os relatos sobre a alta produção do bordado em Maranguape confirmam os dados documentais: “Tinha muito, muito mesmo, a gente passava uma casa, na outra era bordado...” (Dona Terezinha, entrevistada em Setembro de 2008).

O bordado surgiu nessa região com o povoamento lusitano, a partir do século XIX, e atualmente compõe o patrimônio histórico e cultural da cidade. A citação abaixo descreve de forma “poética” o contexto cultural e artístico que envolve sua produção no município,

Em tupi-guarani, Maranguape significa “Vale da Batalha” deriva de Maranguab, o Sabedor da Guerra, cacique dos índios potiguaras. Em bom português, quer dizer uma região circundada de sítios e chácaras e que guarda ainda muitas lembranças de um passado de riqueza e ostentação e seus casarões de azulejos portugueses. A influência portuguesa trouxe, dentre outras coisas, o bordado. Tecido nas mãos, linhas sobre o colo, a cidade vai bordando o seu dia-a-dia. Reproduzindo no pano verde da Serra de Maranguape a linha da vida de seus moradores. Suas bordadeiras aprimoram velhos desenhos, inventam novas técnicas e fazem um trabalho reconhecido nacional e internacionalmente. Rico, sofisticado e, sobretudo versátil, o bordado de Maranguape enfeita toalhas, caminhos de mesa, colchas e cortinas, conferindo a cada peça a nobreza e a majestade originais. O município cresceu vendo suas mulheres bordarem a vida enquanto os homens tingiam os bordados. Maranguape é, hoje, a terra do bordado. O seu destino já estava traçado (SEBRAE, 2003, p. 04).

Embora, segundo as artesãs, na atualidade haja um crescente desinteresse dos mais jovens pela atividade, é comum encontrar grupos de mulheres trabalhando nas

18 Dados retirados do site do IPECE (Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará), referentes ao

ano de 2009. Disponível em www.ipece.ce.gov.br. Acessado em 05 de Novembro de 2009. (ver em anexo o mapa do município com a localização das referidas associações e do grupo de Dona Maria Joaquina)

calçadas de suas casas aos fins de tarde, partilhando idéias sobre “pontos” e desenhos; além disso, a presença de bastidores (instrumento utilizado para esticar o tecido enquanto se borda) e linhas em qualquer estabelecimento de comércio da região é outra evidência do papel desempenhado pela atividade na vida das pessoas que vivem em Maranguape.

Segundo dados obtidos a partir documentos históricos sobre o município (MATOS, 1966; AMA, 1988-2003), pude observar que o bordado transcende a esfera das atividades cotidianas para adentrar também os espaços da vida econômica do município. Além da verificação documental, há também dados colhidos a partir de relatos feitos pelas artesãs, ao longo de conversas que tivemos no decorrer desta pesquisa, que evidenciam a importância do artesanato para a vida do município. Desse modo, a história oficial sobre a atividade se cruza com a história contada pelas artesãs que é fundamental para que se perceba a importância do papel do artesanato nessa região. Assim, pode-se dizer que o bordado é como um cenário que ajuda a decorar e a compor a história escrita pelas pessoas mais humildes e também pelas pessoas mais abastadas que vivem no município, pois ele envolve muito das relações sociais vivenciadas em Maranguape.

2.2. Entre linhas, bastidores e bonecas – Bordado: da brincadeira infantil à ocupação