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Activity interdependencies and coordination framework

Chapter 2: Theoretical Framework

2.3 Coordination and interdependencies

2.3.1 Activity interdependencies and coordination framework

Eu comecei a bordar na mão com sete anos de idade...Uma tia minha bordando lá em casa, aí a gente muito menina, quando ela se levantava da máquina a gente ia lá e se sentava, aí fazia lá as disgraceira no bordado, quando ela chegava dava uns cascudo na gente, mas foi assim que a gente aprendeu... E quando eu tinha 11 anos, meu pai comprou uma máquina e a gente começou a bordar na máquina pra minha mãe distribuir no interior... Aí foi aonde eu aprendi a trabalhar, bordar, lavar, engomar... (grifo meu – Dona Maria Joaquina19, 65 anos – entrevistada em 23 de Abril de 2009).

Como foi colocado em outro momento desta dissertação, para que se possa compreender as dimensões das modificações causadas pelas políticas interventoras na atividade das artesãs, a fim de dar aos seus produtos um teor mercadológico “aceitável”, é preciso considerar não só o produto de seu trabalho ou as novas metodologias adotadas para a incrementação do mesmo. É preciso voltar o centro das atenções àquelas que são responsáveis pela produção e que são alvo direto de tais interferências: as artesãs, já que estas são as personagens principais desse processo.

Assim, a apreensão das transformações em seu trabalho também envolve a apreensão de seu modo de vida, de suas experiências e de suas vivencias, como coloca Isabel Ferreira Borsoy (2005), e é nisso que nos aprofundaremos a partir de agora.

De acordo com Filgueiras (2006), dentre todos os tipos de artesanato produzidos no Ceará, o bordado é o que representa a maior expansão em todo o estado. Segundo a autora, a atividade de bordar ocupa grande contingente de mão-de-obra feminina e é de caráter doméstico, isto é, “são as donas de casa que têm também a responsabilidade sobre a produção artesanal” (p. 23). Filgueiras afirma, ainda, que a situação mais comum é a utilização de parte dos familiares como ajudantes e aprendizes na produção do artesanato e que esta relação de produção familiar garante a continuidade do saber, habilitando novos artesãos a prosseguirem com os mesmos métodos de trabalho de seus antecessores.

19 D, Maria Joaquina tem 65 anos de idade e reside no distrito de Tabatinga, distante da sede de Maranguape

por 15 quilômetros, e lidera um grupo de 42 bordadeiras sem nenhum vínculo institucional há quase 30 anos. Veremos de forma mais detalhada as relações de trabalho neste grupo mais adiante.

No caso das bordadeiras dos grupos observados, esta realidade não é diferente; como foi colocado até aqui, a arte de bordar é vivenciada pelas mulheres desde a sua infância. O aprendizado do bordado inicia-se cedo, elas aprendem o ofício ainda crianças, geralmente ajudando às mães, avós, tias e irmãs.

Para Porto Alegre (1994, p. 63), “[...] quando a arte se reproduz dentro da família, é muito comum que seus membros não se preocupem com outras formas de aprendizado, outros padrões e modelos, carregando assim, por gerações o mesmo ‘estilo’”. De acordo com a autora, podemos considerar o trabalho artesanal como da ordem da “tradição”, por ele ser uma herança transmitida ao longo das gerações, apresentando uma regularidade nos métodos de produção, composição das formas e desenhos, bem como na comercialização (Idem).

Dona Terezinha, 75 anos, nasceu e cresceu no centro de Maranguape, já foi associada à AMA e à APAM, mas atualmente não participa mais, ativamente, de nenhuma dessas associações. Conta que aprendeu a bordar ainda criança, com oito anos de idade, e que largou os estudos para se dedicar ao trabalho, junto com a tia. Desde lá não parou mais de bordar e não conhece outro meio de vida senão este.

Assim como Dona Terezinha, há muitas outras artesãs que vivenciaram essa experiência; o fato da troca dos estudos pelo trabalho é uma constante nos relatos das mesmas. E, diante desses casos, pude perceber que a prática do bordado na vida da maioria dessas mulheres deixa de ser uma atividade recreativa, uma brincadeira infantil, para se tornar meio de vida, muito precocemente, ou seja, ainda na infância. Outro caso ilustrativo é o de Dona Maria Madalena (43 anos), moradora do distrito de Tabatinga e que atualmente participa do grupo de Dona Maria Joaquina. Ela conta que começou a bordar aos 11 anos de idade com sua mãe e que tão logo aprendeu o ofício largou os estudos, na terceira série, para ajudá-la,

Eu comecei a bordar com onze anos, minha mãe me dava pra eu fazer aquelas coisa mais fácil e eu num sabia bordar na mão não, só na máquina (...) Minha mãe brigava pra eu estudar, mas quando eu vi que o bordado dava um dinheirinho eu nunca mais quis ir pro colégio não, mas se fosse hoje eu tinha era estudado porque era melhor né? E também naquele tempo não era fácil como hoje não, o colégio era longe, mas se fosse agora eu num fazia isso não porque hoje o estudo é mais fácil. (Maria Madalena, entrevistada em 23 de Abril de 2009).

Nas conversas que tive com artesãs de diversas localidades de Maranguape pude perceber que suas histórias de vida são bem semelhantes. Visitei pessoas que vivem do bordado em três distritos diferentes de Maranguape, fora a sede do município, (Itapebussu, Tabatinga e Jubaia) e que participam ou já participaram dos grupos mencionados e vi que suas histórias de vida apresentam alguns pontos em comum, como o início do aprendizado, a relação com a escola e a situação econômico-familiar.

O fato de todas as bordadeiras ajudarem na renda familiar desde crianças é, acredito, o ponto mais peculiar de sua relação com a atividade. Apesar de muitas reclamarem da pouca lucratividade e da sazonalidade das encomendas, é do bordado que todas elas tiram o sustento parcial e até total da família, como é o caso de Cristina Alves que também participa do grupo de Dona Maria Joaquina. Cristina tem 44 anos de idade, é mãe de dois filhos adolescentes e diz ter aprendido o ofício com sua mãe, quando a ajudava a bordar para as lojas do Mercado Central ainda durante a infância:

Eu comecei ainda pequena, a minha mãe vendia pros box do Mercado Central e toda semana a gente pegava o ônibus na pista e ia lá pra Fortaleza vê se vendia as peça; era mais vestido de criança bordado. Aí com dezesseis anos eu me casei e tive os minino, mas num parei de bordar não, quando eles dormia eu pulava na máquina (Cristina Alves– entrevistada em 25 de Abril de 2009).

Quando perguntei a Cristina se ela estava satisfeita com o dinheiro que conseguia com os bordados ela me respondeu que não porque é insuficiente para suprir suas necessidades materiais (sua renda equivale a duzentos reais por mês); no entanto, atualmente seus dois filhos não trabalham e seu marido está desempregado. Logo, sem se dar conta, é do bordado que Cristina tira todo o sustento de sua família.

De acordo com Richard Sennet (2006), o que diferencia o artesão do trabalhador fabril é o seu domínio de todo o processo de trabalho e, conseqüentemente, a sua capacidade de execução do objeto inteiro. No entanto, a divisão do trabalho entre as bordadeiras contempladas por este estudo é algo que merece atenção, pois muitas delas, principalmente as mais jovens, dizem não dominar certas técnicas de execução ou acabamento do bordado, ficando, assim, responsáveis apenas por etapas do processo. Essa situação impulsionou também a terceirização da mão-de-obra das artesãs para a realização de etapas específicas do processo produtivo do bordado, o que propiciou a formação de

grupos produtivos nos quais as mulheres passaram a dividir as etapas dos processos do trabalho entre si para atender às encomendas feitas a uma artesã que domina todo o processo.

Ora, se uma artesã só sabe bordar e não sabe costurar, ela dificilmente receberá uma encomenda para a realização de uma peça inteira, não apenas por falta de demanda, mas, também, porque ela reconhece suas limitações. Desse modo, as artesãs que dominam todo o processo é que canalizam a clientela e também se tornam referência neste tipo de trabalho e, assim, devido à centralização da demanda, estas acabam por subcontratar a mão-de-obra de outras artesãs para a execução de etapas do processo.

Entre as artesãs entrevistadas, durante a realização desta pesquisa, são poucas as que participam das várias etapas do processo produtivo, até chegar ao comprador final. A grande maioria das mulheres depende do contato ou da influência de outra artesã, que pode ser a presidente da associação ou do grupo informal de que participe, para mediar a venda. Podemos verificar, por meio dos depoimentos, que as mulheres iniciaram no ofício ajudando suas mães a dar conta de encomendas feitas por terceiros e que assim permanecem até hoje.

A minha mãe bordava vestido de criança, era uns vestidim que uma mulher já trazia pronto pra ela bordar, depois a minha mãe morreu e eu fiquei no lugar dela...(Mazé, ex-associada à AMA - entrevistada em 22 de Janeiro de 2008).

A mãe pegava bordado de umas mulher que levava e ía vender lá em Fortaleza. Ela trazia as coisa feita e os material, as linha, e minha mãe só fazia o bordado (...) Quando eu me casei, eu me mudei pra cá e agora trabalho pra Dona Maria Joaquina, eu sei fazer de tudo, mas pra ela eu só faço mais é o matame fino porque só tem três mulhé comigo que sabe fazer (Maria Madalena, 43 anos – participa do grupo de Dona Maria Joaquina. Entrevistada em 17 de Abril de 2009).

Pode-se observar a partir dos depoimentos que a sistematização do trabalho é vivenciada por estas artesãs desde a infância, pois pela experiência, elas perceberam que era importante dividir a atividade com suas mães para, assim, otimizarem a produção e terem um acréscimo na renda familiar. Essa racionalização do modo de produzir o bordado deu origem a alguns grupos informais em Maranguape que, com o tempo, vieram a se transformar nas primeiras associações do município. No próximo capítulo serão

apresentadas as fases da complexificação na organização do trabalho das artesãs depois que os grupos passaram de uma ordem mais doméstica e quase informal de produção para outra mais burocratizada com a formação das primeiras associações de bordadeiras em Maranguape e a posterior atuação de políticas de desenvolvimento empreendidas principalmente pelo SEBRAE e pela CEART.

2.3. A primeira associação de bordadeiras de Maranguape: afluências para uma nova