Chapter 4: The Setting and Autolink
4.4 Services provided and activities undertaken
4.4.1 Car transport, storage and associated services
Nem sempre a censura foi vista como um impedimento da liberdade, seja essa a liberdade de expressão, seja essa a liberdade de comércio, como foi visto no caso da indústria cultural. Em alguns momentos ela apareceu ligada ao estímulo de certos hábitos e à viabilidade de certas atividades, como se viu com relação a censura no âmbito da política cinematográfica durante o período Vargas, que tinha o objetivo tanto de controle repressivo quanto de estímulo a um determinado tipo de produção cultural.
62 Esse livro-manifesto reuniu as experiências, as perspectivas e os projeções do jovem Glauber Rocha (na época
com 24 anos), no qual tentava articular suas críticas e projetos para a cinematografia nacional, marcados pela valorização de um cinema que expusesse sua condição como produção de um país subdesenvolvido e seu compromisso com a transformação dessa realidade nacional. Atravessado por um estilo antropofágico, o livro apresenta uma linguagem heterodoxa, demonstrando o engajamento na construção de uma identidade nacional. Esse manifesto foi, portanto, tanto revolucionário como pragmático, pois também buscava soluções estéticas, éticas e políticas concretas para sua realidade.
63 ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema novo. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, pp. 169 – 170. 64 Ibid., p. 170.
Essa articulação entre a dimensão repressiva e a possibilidade de execução de atividades vistas de grande importância tem sido uma ligação comum na cultura censória que se analisa aqui. A presença do relator da CPI para investigar as atividades da indústria cinematográfica nacional e estrangeira, deputado Ewaldo Pinto, no processo do filme Noite Vazia indicava a importância dessa dimensão da censura para a SCDP66.
Criada em 1963, em sintonia com o fervor desenvolvimentista que vigorava na década de 1960, a Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as atividades da indústria cinematográfica nacional e estrangeira67 reafirmou muitas das considerações formuladas no âmbito do GEICINE68. O relatório da CPI, de 1964, possuía como uma das principais proposições a formulação de uma
POLÍTICA CINEMATOGRÁFICA BRASILEIRA, baseada na defesa efetiva do mercado nacional preferencialmente para o filme brasileiro e no oferecimento de substanciais estímulos financeiros à produção de filmes nacionais69.
Tendo em vista a situação da indústria cinematográfica no Brasil, vista pelo GEICINE e pela CPI como dominada pela produção estrangeira e associada aos exibidores nacionais, que impossibilitaria o desenvolvimento da produção nacional, a Política Cinematográfica proposta pelo Relatório era pautada em amplas medidas protecionistas:
A medida básica para a implantação da indústria cinematográfica nacional é desafogar o mercado brasileiro diminuindo, substancialmente, a importação de filmes através de medidas audaciosas em matéria de cobertura cambial, tarifas, impostos de consumo e taxa de censura, e coordenand o essas providências em espirito de franco e leal protecionismo industrial. Essa é a linha mestra para uma política cinematográfica brasileira70.
Deste modo, no Relatório, era necessária uma ação firme do Estado para que se desse o desenvolvimento do cinema no Brasil, ou seja, que fosse imposta “uma severa e eficiente ditadura”71. A censura teria, portanto, essa função.
Dentre os vários encaminhamentos propostos no Relatório, para o que se procura apresentar aqui, destacam-se dois: a criação do Instituto Nacional de Cinema (INC), “nos termos do proposto pelo Grupo Executivo da Indústria Cinematográfica”, e a “fixação de censura única, federal”.
66 Por exemplo, ao contrário dos outros convidados, que foram, pelo que tudo indica, escolhidos pelas instituições
que representavam, Ewaldo Pinto foi convidado diretamente. Cf. Portaria nº 397, de 29/09/1964, e Portaria nº 407, de 02/10/1964. Processo do filme “Noite Vazia”. Caixa 229. BR DF AN, BSB NS.CPR.CIN, FIL.
67 Essa CPI foi criada pelo Resolução da Câmara dos Deputados nº 28, de 26 de julho de 1963. Seu relatório final
foi apresentado à Câmara em 1964, sendo aprovado pela Resolução da Câmara dos Deputados nº70, de 1964.
68 O Grupo Executivo da Indústria Cinematográfica (GEICINE) foi criado pelo decreto nº 50.278, de 17 de
fevereiro de 1961, durante o governo de Jânio Quadros. Diretamente subordinado ao Presidente da República, o GEICINE tinha como objetivo dar execução às diretrizes básicas para incentivo à indústria cinematográfica brasileira.
69 Relatório da CPI para investigar as atividades da indústria cinematográfica nacional e estrangeira, 1964, p. 19. 70 Ibid., p. 12.
Essas proposições eram coordenadas, na medida em que a censura do cinema, no projeto do INC proposto pela CPI, seria de responsabilidade do Instituto Nacional de Cinema72. No projeto de lei, a censura tinha como um de seus papéis gerar recursos para o INC, com a transformação da taxa cinematográfica para educação popular (criada pelo decreto 21.240/32) em taxa de censura cinematográfica.
Além disso, a censura teria outra função. No anteprojeto do INC, previa-se a formação de um Conselho de Censura73. O mesmo seria formado por representantes do Ministério da Educação e Cultura, do Juizado de Menores, da crítica cinematográfica, das entidades culturais de cinema, de distribuidores de diretores de cinema e escritores, os quais seriam indicados pelas respectivas entidades representadas74. O que se sobressai, à primeira vista, é o caráter marcadamente não-policial do grupo de representantes, com a exceção dos do Juizado de Menores. No geral, o Conselho, no anteprojeto, se propunha ser um órgão de diálogo do Estado com os órgãos produtores e as entidades culturais. A censura desse órgão, dentro do pensamento que foi articulado no Relatório da CPI, agiria de forma a selecionar filmes como um modo de “desenvolver” a Nação do ponto de vista moral, cultural e econômico. A censura, dessa forma, seria útil ao desenvolvimento do cinema nacional não somente por dar recursos ao INC, mas também “elevando” a qualidade do cinema nacional.