• No results found

No início da década de 1960, Aluízio Alves criou, no âmbito de seu Governo, o Conselho Estadual de Desenvolvimento (CED), cujo órgão técnico-administrativo tinha por incumbência realizar os estudos e pesquisas que se fizessem necessárias para a elaboração do Plano de Desenvolvimento Econômico Social para o ano de 1963.

A criação do CED trouxe avanços significativos na engrenagem da máquina do Estado, revelando, segundo Manfredi (1984, p. 106), uma mudança qualitativa no estilo da administração, que deixa de ter caráter rigorosamente político para ter uma atuação orientada em função de maior racionalidade, embora com antagonismos aí envolvidos.

Convém ressaltar, entretanto, que a tentativa de introduzir técnicas racionais de controle para garantir maior funcionalidade à máquina burocrática estadual não constitui um fato isolado e de iniciativa exclusiva daquele governador. É mais compreensível quando encarada como um reflexo da influência modernizante exercida pela SUDENE, que tinha como um de seus objetivos difundir o emprego de técnicas administrativas modernas, a fim de garantir as condições institucionais favoráveis à implantação de sua política de desenvolvimento nos nove estados do Nordeste incluídos em sua área de atuação (MANFREDI, 1984, p. 106).

35 Programa lançado pelo Presidente Kennedy em 1961. Esse programa objetivava o desenvolvimento das nações latino-americanas, através do financiamento de propostas que conduzissem os países apontados para novos tempos, mas sob os auspícios dos Estados Unidos. Segundo Guerra (2013, p. 27), na América Latina, no Brasil, e no Estado do Rio Grande do Norte, existiam divergências quanto à oportunidade de utilizar os mecanismos da Aliança para o Progresso.

Através dos estudos realizados pelo CED foi possível chegar a um diagnóstico deprimente sobre o sistema educacional do Rio Grande do Norte. Era necessário, diante dos grandes déficits apontados pelo Conselho, assumir uma intervenção imediata através de uma política mais arrojada. E “arrojo” era a marca registrada de Aluízio Alves que, em 1963 (ano da experiência angicana), elaborou o Plano Estadual de Educação que previa, em sua composição, metas qualitativas e quantitativas. Essas metas, para sua execução e coordenação dos programas previstos, ficaram a cargo do Serviço Cooperativo da Educação do Rio Grande do Norte, um órgão técnico-administrativo também criado pelo governador Aluízio.

Era preciso tomar uma postura diferente. Pensar e fazer uma educação diferente. Surgiu, assim, a possibilidade de colocar em prática um movimento de educação popular que, em sua forma e seu conteúdo, possibilitasse o que se pretendia: “uma educação voltada para a elevação dos padrões culturais da clientela a ser atendida, com vistas a garantir sua participação no processo de desenvolvimento socioeconômico a ser desencadeado” (MANFREDI, 1984, p. 109).

O chefe do executivo potiguar, que está empenhado na execução de um amplo e intenso programa de alfabetização da população de seu Estado, como parte fundamental do seu plano sócio-econômico destinado a multiplicar ao máximo a produção local de bens de consumo e a elevar, também, o padrão de vida da gente nordestina [...] (Entrevista concedia por Aluízio Alves ao Jornal O Estado de São Paulo, edição de 27 de janeiro de 1963, p. 7).

O local escolhido por Aluízio Alves para realizar seu “amplo plano de alfabetização” foi Angicos, sua cidade natal, como já destacamos anteriormente. Essa escolha não foi por acaso. Depois de sua eleição vitoriosa, ter o “povo” ao seu lado era uma necessidade e isso era fácil, dado o seu poder de oratória, seu carisma e sua popularidade junto aos mais necessitados. Nesse caso, Angicos era estrategicamente oportuno, pois, permitia aos conterrâneos de Aluízio uma maior aproximação e o afloramento do sentimento de “cuidado” por parte do administrador do Estado.

Ao mesmo tempo, no centro dos conflitos vivenciados em todo o país, o Rio Grande do Norte buscava manter-se em lugar de destaque no cenário nacional. A Campanha de Pé no Chão Também se Aprende a Ler, em Natal, estava dando certo, mas, era preciso atingir uma frente maior, sob o encargo do Governo Estadual. Por isso, em outubro de 1962, o Governo do Estado do Rio Grande do Norte procurou Freire e sua equipe, através de seu Secretário de Educação, Calazans Fernandes, dada à repercussão que o método já estava tendo em meio ao

povo. Concomitantemente em que se pensava essa experiência no Estado, acertavam com o prefeito de Natal, a instalação na Capital, dentro da Campanha de Alfabetização que já estava acontecendo, de Círculos de Cultura com supervisão técnica também do Serviço de Extensão Cultural.

O que Paulo Freire estava desenvolvendo em Recife foi adotado, efetivamente, por se tratar de uma proposta cujo ritmo e condições adotadas faziam diferença para as mudanças requeridas no bojo da política-educacional vivenciada no Rio Grande do Norte e, por extensão, em todo o Brasil. Paiva (1987) e Scocuglia (2002) afirmam que, em 1960, tanto cristãos quanto marxistas estavam empenhados em movimentos de Educação de Adultos, com ênfase, sobretudo, na cultura popular e sua disseminação. Época emblemática – como já destacamos, os anos de 1960 passam a tratar a Alfabetização como Educação de Base, objetivando, através da conscientização, levar a população a compreender as condições socioeconômicas e politicas do país, como esclarece Beisiegel (2010, p. 19):

Entre 1962 e março de 1964, o método Paulo Freire foi adotado por quase todos os movimentos envolvidos na prática da educação popular no país. Por suas características de aparente simplicidade, pela clara realização nas práticas cotidianas de tudo aquilo que defendia na teoria, e, sobretudo, pela defesa da necessidade da conscientização, o método surgia como resposta à procura de um instrumento adequado de atuação para os diferentes agrupamentos envolvidos na busca de construção de uma sociedade mais justa no país (BEISIEGEL, 2010, p. 19).

Essa fala de Beisiegel pontua o alcance da proposta de Freire. Isto porque a experiência em Angicos serviu como divisor de águas, uma vez que até então o “Sistema Paulo Freire” parecia apenas um projeto local. Extremamente perspicaz no uso da mídia a seu favor, o governador lança mão da imprensa escrita para continuar anunciando a importância da educação para a sua plataforma governamental, como destaca esta reportagem do Jornal O Estado de São Paulo, datado de 27/01/1963, quando a experiência já estava iniciada:

Em Angicos [...] cerca de 1.200 pessoas, entre 14 e 70 anos de idade, aprenderão a ler, e as aulas já foram iniciadas, em um curso especial de alfabetização em massa e a jato, pois, o seu programa será cumprido em 35 horas de aula. As turmas terão 25 alunos cada uma. O método exclui a utilização de qualquer livro ou apostilas.

O que estava acontecendo em Angicos era apenas o início do que prognosticava o governador. Essa turma especial contou com a matrícula de 38036 (trezentos e oitenta) homens

e mulheres que representavam maiorias sociais marginalizadas, embora haja controvérsias sobre esse número. Vanilda Paiva (1987, p. 254), por exemplo, afirma em seu texto que “a experiência foi realizada com recursos do Estado, obtendo pleno êxito e atingindo um total de cerca de 400 alunos”. Era um número composto por um universo constituído por domésticas, operários, trabalhadores rurais, pedreiros, serventes, artesãos, lavadeiras, motoristas, carpinteiros, entre outros profissionais.

Manfredi (1984, pp. 109-110) reafirma que a proposta do Governo do Estado era ir além da simples alfabetização. Por isso, enquanto instrumento de garantia de participação e organização coletiva, a experiência propunha um conjunto de objetivos bastante definidos: a) a promoção do renascimento de padrões mais elevados de vida; b) a formação, no homem, da convicção de sua responsabilidade em educar a seus filhos; c) a habilitação ao exercício da cidadania, como eleitor, um membro de uma nação livre e participante ativo do regime democrático; d) a promoção da elevação do seu nível de vida em casa, nos aspectos da higiene, do conforto e da alimentação; e) a habilitação à administração equilibrada de seus recursos financeiros e da direção de sua própria vida; f) o despertamento, no homem, da noção de que ele, sua mulher, seus filhos, têm direito a uma vida melhor.

Este último objetivo refletiu-se largamente na expressão utilizada pela maioria dos entrevistados: “Queremos melhorar de vida”. A importância desse desejo também foi ratificada pelo próprio governador em entrevista ao Jornal O Estado de São Paulo, quando enfatizou que, no período do levantamento do universo vocabular37, os participantes

expressaram prioritariamente esse desejo:

Respondendo às perguntas que lhes foram feitas pela equipe de coordenadores e monitores – acrescentou o Sr. Aluízio Alves – os matriculados responderam que queriam aprender a ler para viver melhor [...] (Jornal O Estado de São Paulo, edição de 27 de janeiro de 1963, p. 7).

Em entrevista concedida para esta pesquisa, a filha do Sr. Severino Araújo, um dos alunos da experiência, quase cinquenta anos depois, afirmou:

36 Esse foi o número de alunos matriculados para o projeto piloto de Angicos. Todavia, foi um total de 300 (trezentos) alunos que concluíram as “40 Horas” de aula. Tomamos por referência o número divulgado por Marcos Guerra durante o evento em comemoração ao “Cinquentenário das 40 Horas de Angicos”, em abril de 2013, qual seja: 380 alunos.

37 O campo empírico da investigação realizada em Angicos será tema de um dos tópicos de nosso estudo mais a frente.

“Nossa vida mudou. Meus pais saíram da casinha que morávamos e fomos para o centro da cidade. Passamos a ter uma vida melhor. Hoje, como filha de ex-alunos da experiência, com o acesso à escola, sou professora, pedagoga” (Profa. Eneide de Araújo em entrevista realizada em setembro de 2012).

Contudo, outras vias além dos objetivos expostos por Manfredi suplantavam o caráter essencialmente educativo do movimento. Na verdade, a ação também se revelou permeada por um caráter eminentemente político. Seu próprio financiamento evidenciou isso de forma clara. O evento em Angicos foi financiado pela Aliança para o Progresso, cuja expectativa residia, através de objetivos declarados, no fato de que a América Latina deveria progredir através de homens e mulheres mais politizados e conscientes. Mas, até que ponto isso era válido mesmo? Será que os americanos não queriam mesmo era conter o ímpeto de inconformismo que havia no Nordeste, fazendo com que as suas demandas pudessem ser conduzidas pelos políticos nos quais eles confiavam?

[...] a pressão norte-americana para o que o Brasil se mantivesse alinhado à sua política utiliza todo tipo de armas. Uma delas era a Aliança Para o Progresso, com o objetivo de ‘comprar as mentes e os corações de toda uma nação’. O Programa Aliança Para o Progresso consistia numa cooperação econômica. No caso brasileiro, estabeleceram-se convênios com governos estaduais simpatizantes ou defensores dos interesses americanos. A título de exemplo, pode-se citar o governador do Rio Grande do Norte, Aluízio Alves, que firmou acordo com os americanos, sendo um dos primeiros governadores a apoiar o golpe militar (CAPISTRANO, 2010, p. 21).

As iniciativas e os fatos que permearam a experiência de Angicos foram amplamente registrados por muitos autores, fossem eles profissionais da área de educação, fossem jornalistas que sentiram a necessidade de escrever sob o olhar observador de quem capta a notícia ou a informação que está disponível. O fato é que, em meio a literatura produzida sobre a temática, o acontecimento em Angicos capitaneou um movimento de educação popular diferente que alfabetizava e politizava, como ratifica a ex-monitora Valquíria F. Silva (2013, p. 182) ao afirmar que a pedagogia ali implantada fazia a “diferença”, em especial, entre o alfabetizar e o letrar (embora essa palavra ainda não estivesse sendo utilizada no conceito hoje assumido dentro dos estudos linguísticos), entre desenvolver consciências e ensinar riscos e rabiscos, entre pensamento e ação.

Capítulo Terceiro – A CULTURA

DO MOVIMENTO DE CULTURA POPULAR ÀS 40 HORAS DE ANGICOS: