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Criteria for Efficient Segmentation

A proposta desse texto, em especial, por se tratar de uma discussão que finaliza um capítulo, não é questionar os processos avaliativos utilizados na experiência angicana, mas, sobretudo, conjecturar sobre impressões que cercam esse campo da experiência, que, a nosso ver, não pode ser cerceado do que ali se forjou, enquanto experiência de alfabetização histórica da educação de jovens e adultos.

Como parte do processo avaliativo pensado para os alunos da experiência de Angicos, Paulo Freire e sua equipe do SEC agregaram à proposta de alfabetização a aplicação do Teste de Inteligência Não Verbal (INV), de Pierre Weil, para mensuração da inteligência e, assim, possibilitar a organização dos Círculos de Cultura, dividindo os participantes por níveis de conhecimento. Este teste foi usado, pelo que ficou registrado, sem muito sucesso, como iremos refletir ao longo do desenvolvimento desse texto; já os testes de alfabetização e politização, foram usados ao final da proposta, com o claro objetivo de trazer à luz os aspectos quantitativos, muito mais do que qualitativos, do curso desenvolvido no transcorrer das 40 Horas.

Sobre o teste de inteligência de Pierre Gilles Weil

A Associação Internacional de Psicotécnica entende um “Teste”, segundo Weil (1967,

p. 29), como uma prova definida, idêntica para todos os indivíduos examinados, com técnica minuciosa para a avaliação dos êxitos ou dos fracassos, ou, ainda, para a notação numérica do sucesso. Essa tarefa pode implicar conhecimentos adquiridos, através do teste pedagógico; ou funções sensório-motoras; oumentais, através do teste psicológico.

Atento aso estudos mentais, já no Brasil, o professor Pierre Weil, em 1951, na Sociedade Pestalozzi, deu início às pesquisas preliminares na elaboração do teste INV (Forma A), um instrumento técnico que estivesse ao alcance dos analfabetos. Todavia, mais duas formas (B e C) foram criadas. A segunda forma do teste foi criada em 1954, como prova paralela à primeira, contudo, não foi objeto de estudos especiais. As duas formas iniciais (A e B) serviram de base para a elaboração, em 1956, da Forma C (WEIL e NICK, 1971) do teste INV. Tratavam-se de provas padronizadas, que se constituíam de pequenas situações problemáticas, indicadas em desenhos, a serem respondidas apenas com um sinal convencional (Idem ibidem, p. 19).

A proposta inicial de Paulo Freire e do Serviço de Extensão Cultural era aplicar o teste de Inteligência Não Verbal96 com os alunos da experiência angicana como parte do processo

inicial de avaliação dos participantes. Mas, essa ação, como veremos ao longo desse texto, não se concretizou com eficiência. Ela foi abortada já nas primeiras horas do curso. As

96 “[...] os testes não verbais que utilizam apenas lápis e papel para a sua execução, surgiram da necessidade de obter instrumentos adequados para a medida da inteligência de grupos que não poderiam ser testados mediante o emprego das escalas de inteligência usuais. Entre os grupos especiais para os quais necessitamos de testes não verbais e de execução, encontramos os surdos, os indivíduos com deficiência de linguagem, os analfabetos e os estrangeiros sem conhecimento ou com conhecimentos escassos da língua do país” (WEIL e NICK, 1971, p. 149).

características do teste não se amoldaram aos jovens e adultos quando tiveram o conjunto de folhas em suas mãos. Isso ficou claro quando os monitores sentiram a rejeição dos alunos ao teste, o que levou até a desistência do curso de alguns deles diante das dificuldades encontradas. Nas lembranças de D. Luzia sobre o teste INV:

“Eram muitas folhas... Mandaram marcar aquela papelada toda” (Entrevista com a pesquisadora, Nov. de 2014).

Quando de nossas entrevistas com os ex-alunos da experiência, exceto D. Luzia de Andrade, os demais entrevistados não se lembravam de como foi o teste, de sua aplicação, ou como se comportaram quando tiveram aquele caderno de folhas nas mãos. Nesse caso, como tentativa de refletir sobre o teste de inteligência ali aplicado, vamos trazer as narrativas mais conhecidas que, de forma breve, expõem o assunto.

[...] na primeiríssima noite fizemos algo que não mais repetimos. Aplicamos um teste psicológico de inteligência não verbal, conforme a programação da equipe do SEC. Poucos alunos o entenderam, muito poucos o terminaram e a maioria se desencorajou, pensando que seria muito difícil a aprendizagem. Foi trabalhoso resgatar a mobilização (GUERRA, 2013b, p. 34).

Já em outra narrativa, baseada no diário de Angicos produzido por Lyra, Fernandes e Terra (1994, pp. 171-172) destacam:

Sobre a segunda hora de Angicos, Carlos Lyra registrou que foi aplicado o teste psicológico de Inteligência Não-Verbal (Pierre Gilles Weil) para avaliar o nível intelectual das turmas. O teste já havia sido iniciado no final da primeira aula e não foi bem-sucedido, pois os alunos ficaram confusos sobre o que fazer, como responder. Muitos entregaram em branco. Reclamaram que esquentava a cabeça, que cansava...

Carlos Lyra (1996, pp. 30-31), por sua vez, traz em seu texto, originalmente, relatos que ratificam as observações de Calazans Fernandes e Ana Terra, mas sem maiores explicações, apenas com mais ênfase:

A princípio acharam interessante. Gostaram das figurinhas. Ficaram alegres com a perspectiva de que iam escrever. Queriam letras. Mas ‘quando descobriram que não iam escrever, ficaram decepcionados, preocupados, nervosos, aflitos etc.’ (CC de Giselda).

Não entenderam as explicações, embora respondessem que sabiam o que iam fazer.

Iniciado o teste, demonstraram concretamente que não tinham entendido nada, apesar de longas e pacientes explicações. Além de marcarem com o sinal ‘+’ o lugar pedido no teste, marcavam outros, às vezes três, quatro ou mais vezes em um mesmo lugar. Alguns, depois de cansados de pensar, disseram:

- Estou de cabeça inchada. Não aguento mais! [...]

Eis algumas daquelas figurinhas, as imagens de que falam os autores:

FIGURA 7:

Figuras enumeradas do Teste INV – Forma A,

o teste de inteligência que foi utilizado com os alunos da experiência de Angicos.

Fonte: Imagens copiadas do livro O Potencial da Inteligência Brasileira,

de Pierre Weil e Eva Nick, 1971, pp 89-95.

De acordo com Lopes (2009), a atividade inicial sugere encontrar abaixo da matriz, entre oito figuras, a que está faltando no lugar indicado por um retângulo serrilhado nos lados,

embora apenas uma delas complete corretamente a figura ou a série de figuras. Não havia folha de resposta, os itens eram assinalados com um X no próprio caderno, uma vez que o teste podia ser aplicado também com analfabetos.

Desses aspectos conjecturais sobre o teste de inteligência aplicado na experiência pioneira, questiona-se: enfim, o que representava o Teste INV para a época? O que esse teste de inteligência poderia fornecer de subsídios avaliativos (quantitativos e qualitativos) para o grupo de participantes em Angicos e para as respostas que se buscavam sobre a viabilidade do próprio método? Há de se recordar que, até então, o método de alfabetização havia sido aplicado apenas com grupos urbanos e, mais, pequenos grupos, o que diferia do que se tinha figurado em Angicos: um grupo massivo de analfabetos de origem basicamente ruralista. Mais uma vez, ressalte-se, não temos a pretensão de trazer respostas conclusivas, mas, continuar problematizando determinadas situações que foram pouco ou nada esclarecidas.

Incialmente, é preciso que procuremos entender o que significava, à época, o teste de inteligência de Pierre Gilles Weil que se encontrava sob outra perspectiva (Forma A), diferente de sua última formação (Forma C). Sendo considerado um dos testes de mensuração da inteligência geral ou do fator g97, o Teste INV já estava entre os instrumentos mais

utilizados para a investigação do funcionamento cognitivo em diversos contextos socioeducativos, em especial como instrumento auxiliar no estudo do nível mental em analfabetos.

Na década anterior, entre os anos de 1953 e 1958, foi realizada, a cargo do SENAC (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) com a colaboração de várias instituições, uma pesquisa sobre o potencial de inteligência da população brasileira em todo o território nacional, conhecida como “Pesquisa Nacional de Nível Mental da População Brasileira”, que teve por amostragem um total de 25.989 (vinte e cinco mil e novecentos e oitenta e nove) sujeitos, cujas idades compreendiam entre 6 e 65 anos. A pesquisa foi desenvolvida com o teste de Inteligência Não Verbal (INV).

Esse estudo colocou em relevo um fenômeno importantíssimo no campo da educação, bem como na psicologia do desenvolvimento. Foi observada, nos resultados, a curva evolutiva clássica, referente ao desenvolvimento mental nos analfabetos, inclusive da evolução das operações lógicas na criança e no adolescente. Isto foi possível, uma vez que os itens do teste INV foram

97 “Do ponto de vista psicológico, g foi definido em função de ‘leis noegenéticas’. As leis noegenéticas se referem ao que o fator g tem em comum com os outros testes. Segundo Sisto (2006), o termo noegenético envolve dois conceitos, quais sejam: o noético e o genético. Noético significa todo conhecimento (percepção ou pensamento) baseado no próprio dado da informação. Genético se refere a todo conhecimento na medida em que dá origem a um conteúdo (fica excluída a mera reprodução)” (LOPES, 2009, p. 05).

dispostos de maneira a permitir, além da medida da inteligência geral, a medida do nível mental em seu aspecto evolutivo, isto é, segundo as etapas do desenvolvimento cognitivo propostas por Jean Piaget (LOPES, 2009, p. 05).

Provavelmente esta pesquisa tenha sido uma das motivações que viabilizou a escolha pelo Teste INV em Angicos, já que ele havia sido aplicado, poucos anos antes, com jovens e adultos brasileiros. Além disso, o INV, à época, mostrava-se “útil no prognóstico da educabilidade, tanto de adultos analfabetos como de crianças em idade escolar” (WEIL e NICK, 1971, p. 179).

Colocamos em cena, agora, uma personagem de quem muito pouco se falou, entre os estudiosos das 40 Horas: Maria José Monteiro98, uma jovem que, nos idos de seus vinte anos,

havia participado, segundo Fernandes e Terra (1994), da feitura inicial do método com Paulo Freire, de quem era aluna no SEC.

Nas férias escolares de 1963, coube a ela anotar e gravar as falas de Roberto Cavalcante, de Luiz Costa Lima, de Aurenice Cardoso, de Jomart Muniz de Brito, de Jarbas Maciel, de Paulo Pacheco e de Paulo Freire, quando este foi, pela primeira vez, a Natal, acompanhada da esposa Elza Freire, para o conjunto de conferências sobre filosofia, metodologia e ideologia, da fundamentação de Angicos. Com suas anotações, ela foi a Angicos e pesquisou o universo vocabular. Sem a empírica memória de Maria José, não teria sido possível resgatar o que se sabe, hoje, dos primórdios das ’40 horas’, já que estava todo mundo aprendendo (p. 97).

Como se vê, Maria José participou ativamente dos acontecimentos iniciais em Angicos. Foi ela que adquiriu, no Rio de Janeiro, os testes psicológicos aplicados aos alunos. Todavia, até onde podemos verificar sua participação nos estudos sobre as 40 Horas, o registro de sua presença tem se colocado quase invisível. Na realidade, foi a partir de um relato seu sobre uma aula ministrada por Paulo de Freire no curso de Pedagogia da Escola do Serviço Social, quando ele fez uma exposição acerca de um método de alfabetização de adultos, que se desenvolvia com ajuda audiovisual, a partir de uma experiência franco- africana, que Calazans Fernandes ouviu falar sobre a associação de Freire ao método de alfabetização.

98Relato de Calazans na íntegra: “Numa das frequentes passagens pelo Instituto Joaquim Nabuco, em Recife, nas pesquisas para a série sobre a revolução social na América Latina, encontramos o industrial Odilon Ribeiro, raro espécime de usineiro, de sólida formação, de influente militância na politica do Rio Grande do Norte... Na ocasião, Gilberto Freyre nos apresentou à estudante Maria José Monteiro, aluna de pedagogia de Paulo Freire, na Escola de Serviço Social... Falamos do que víramos na África e em Israel e do nosso empenho em descobrir ou desenvolver uma metodologia de alfabetização eficiente, rápida e barata, para uso imediato. Na sala de Gilberto, pela primeira vez ouvimos falar de Paulo Freire, então referenciado na bibliografia dos movimentos de cultura do Nordeste” (FERNANDES e TERRA, 1994, p. 70).

Algum tempo depois, precisamente em setembro de 1962, Calazans e Maria José foram juntos ao SEC para convidar Paulo Freire a conhecer o SECERN e o projeto que tinham em mente para o Rio Grande do Norte junto aos analfabetos. Dias depois, Calazans relata: “devidamente instruídos por Odilon Ribeiro, numa tarde de sábado, de setembro, passamos com Aluísio e Maria José na casa de Paulo Freire (rua Alfredo Coutinho, 79), no Recife, para selar o compromisso” (Idem ibidem, pp. 71-72).

Ainda de acordo com os autores supracitados, os monitores da experiência nunca viram Maria José com bons olhos, olhavam-na com desconfiança por estar ligada ao governador, ao secretário de educação e aos americanos, essa ligação impediu sua participação como alfabetizadora (monitora) em Angicos. Mas, conflitos internos à parte, voltemos ao Teste INV.

Os aspectos que envolvem a memória se colocam a prova diante as narrativas que se impõem de forma desencontrada para nossa análise. De fato, as narrativas que destacamos anteriormente trazem alguns pontos importantes sobre o Teste INV, mas que em nada esclarecem o que realmente se pensou com o desenvolvimento desse teste de inteligência junto aos analfabetos angicanos. Pelo contrário, em alguns momentos, as informações confundem, mais do que elucidam o que pouco se falou sobre a utilização do teste de inteligência em Angicos.

Na fala de Guerra, percebe-se o quão o uso do teste trouxe confusão entre os alunos, de maneira que alguns deles optaram por não continuar no projeto: “No CC de Gizelda, um participante disse que ‘não ia mais, porque se continuasse daquele jeito...’ – e cumpriu sua palavra” (LYRA, 1996, p. 31). A fala de Guerra é ratificada por Carlos Lyra, portanto. Todavia, Calazans Fernandes, sobre o assunto, é circunspecto e não trata de possíveis desistências dos alunos, sequer problematiza o assunto, o que é estranho, pois, Guerra afirma que o burburinho gerado permitira que, por um momento, fosse “trabalhoso resgatar a mobilização” de volta e conter a instabilidade entre analfabetos. Lyra também assume, em seu texto, uma postura similar a de Marcos Guerra, promovendo um debate reflexivo sobre o que aconteceu entre os alunos:

[...]

- É uma coisa invisível. A gente não sabe onde é que bota. - Vá cansar a cabeça de outro burro!

- Se tem de passar por isso para aprender a ler? (Manoel Dez Mil Réis) - Alguns ficaram tão nervosos que, no CC de Valquíria, perguntaram se poderiam continuar indo as aulas, mesmo que tirassem zero na prova. Um

participante do CC de Lenira jogou o teste no chão exclamou: ‘Vá endoidar outro!’, não voltando mais.

[...]

Quase a totalidade dos participantes deixou de responder as duas últimas páginas do teste (LYRA, 1996, p. 31).

Diante do mal-estar desenvolvido, Guerra (2013b) afirma que, sobre o assunto, os monitores puderam conversar francamente com Paulo Freire e sua equipe, ao que, após ouvirem as impressões dos coordenadores, ficou claro que colocar os analfabetos sob a exposição avaliativa do teste de inteligência escolhido seria, provavelmente, colocar em xeque o sucesso da experiência. Para evitar uma dispersão irreparável entre os alunos, o teste foi suspenso. De acordo com o autor, foi quando os monitores tiveram “a primeira certeza em relação a abertura, humildade e espírito científico que encontraríamos da parte deles (Freire e equipe), em nosso diálogo” (2013b, p. 34).

Sobre esse aspecto, acerca da decisão tomada em suspender o teste, Lyra destaca: “Decidimos, então, não esperar o resultado do teste e fizemos a seleção das turmas”, ou seja, sua fala nos remete ao entendimento de que a opção por cancelar a continuidade da aplicação do teste foi pertinente aos monitores. A primeira vista, parece contraditório com o que afirma Guerra ao destacar que foi consensual junto à equipe do SEC, mas, na verdade, o que se ressalta é que toda a equipe queria que tudo desse certo. Além disso, tal contradição se fortalece quando Lyra ainda coloca: “Marcos observa: ‘Ficamos mais independentes do SEC (Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife)” (1996, p. 31).

Com base nesses fatos, a memória assume uma importância singular. Rousseau (1978 apud Rossi, 2010) afirma que, de todas as coisas que norteiam a memória, os sentimentos é o seu guia mais seguro. Para ele, é possível incorrer em omissões nos fatos, em transposições, em erros de datas, mas não no que se sente. Depois de Rousseau e de seus pontos de vista iluminados sobre a memória, ela...

[...] aparecerá, cada vez mais, como uma realidade vaga, fragmentada e incompleta; o passado será concebido como ‘reconstruído’ e organizado sobre a base de uma coerência imaginária. O passado imaginado se torna um problema não só para a psicologia, mas também (e se gostaria de dizer principalmente) para a historiografia. A memória involuntária precede a memória voluntária e a condiciona. Somente a sobreposição e o entrelaçamento casual, no período contemporâneo, de emoções e imagens que pertencem a tempos diversos, constituem a memória (ROSSI, 2010, p. 96) (Grifos nossos).

As aparentes contradições superpostas nas falas documentadas têm, neste sentido, uma razão de ser. Nossa memória, para ser ativada, não precisa de esforço. É vão o esforço de evocar o passado sob pressão. É preciso, recorrer às sensações. “O tempo recordado será concebido como expandido ou contraído, dependendo da vivacidade das imagens evocadas. A memória [...] ‘coloniza’ o passado e o reordena tendo por base as concepções e as emoções do presente” (Idem ibidem, p. 97). É nesse plano, o das sensações, que a memória dos ex-alunos assegura o bom desenvolvimento da dimensão relacional semeada junto aos coordenadores.

Outro ponto de discordância entre esses textos sobre o Teste INV é o tempo dedicado, dentro das 40 Horas, para o seu aproveitamento. Guerra destaca que a aplicação do teste foi apenas “na primeiríssima noite”, usando suas palavras: “fizemos algo que não mais repetimos”. Ele esclarece ou confunde ainda mais quando ressalta: “Acertamos que poderíamos aplicar num outro momento, mas nem isso foi mais solicitado. Para facilitar, não computamos essa noite, quando nos referimos a cada uma das 40 horas” (GUERRA, 2013b, p. 34) (Grifos nossos).

Fernandes e Terra, por sua vez, não ampliam a discussão, apenas trazem mais questionamentos quando destacam: “O teste já havia sido iniciado no final da primeira aula e não foi bem-sucedido, pois os alunos ficaram confusos sobre o que fazer, como responder” (1994, p. 172). Essa fala inicia o comentário dos autores acerca da “segunda hora” de Angicos. Entende-se aqui que os alunos tiveram que lidar com o Teste INV durante dois dias, na primeira e na segunda noite, o que contraria a fala de Guerra que afirmou ter sido aplicado “na primeiríssima noite” e não se repetiu mais.

Constituindo-se um teste de mensuração da inteligência, o Teste INV, afirma Lyra (1996, p. 30), em sua “Forma A99”, foi utilizado “para medir o grau de inteligência dos

participantes e selecioná-los em turmas (o que foi feito sem a utilização do resultado do teste): organização dos CCs”. Com base nessa fala de Lyra, o teste de inteligência teria esse significado: a seleção das turmas, para o que sequer foi utilizado, uma vez que abortou.

Tendo por referência as características que foram balizando a gnosiologia freireana, é bom lembrar que Paulo Freire buscava fundamentar, o quanto pudesse, o alcance de seu trabalho e o teste poderia contribuir para isso, uma vez que já havia sido aplicado em larga escala no país. Assim, o que parece ter sido um equívoco quando da realização do Teste INV foi o volume de atividades que o compunham: “Eram muitas folhas”, o que cobrava uma atenção gráfica dos alunos de muito esforço, já que não estavam afeitos a isso. Além disso, o

99 A “Forma A” do Teste INV constitui a primeira versão do teste de inteligência desenvolvido por Pierre Weil, em 1951. Ele consta de um caderno composto por várias folhas e, dessa versão, surgiram suas Formas B e C.

aspecto ainda experimental da proposta de alfabetização abria espaço para essas iniciativas um tanto arriscadas. Acerca dessa questão, as informações que versam sobre a aparelhagem desse teste são desencontradas e, mesmo assim, pouco explícitas. Todavia, há que se considerar que o teste de inteligência não era orgânico ao método, por isso foi logo deixado de

lado, como escreve Guerra, embora trazendo algumas falas já anunciadas nesse texto e em

outros textos do autor sobre as 40 Horas:

Durante todo o processo a orientação de Paulo Freire e sua equipe do SEC foi de valor inestimável. Estávamos juntos e atentos para cada progresso, cada ganho de aprendizagem, cada dificuldade, procurando soluções cada vez que surgia um problema. Uma única dificuldade gerou um impasse aparente, logo ultrapassado com o consentimento de Paulo Freire. No primeiro dia aplicamos um ‘Teste de Inteligência de Pierre Weill’. As pessoas foram convidadas para aprender a ler e escrever, e demonstraram grande dificuldade para sinalizar as respostas. A experiência foi negativa, e muitos dos alunos disseram que o esforço lhes ‘esquentara a cabeça’. E que