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7 Economic perspectives and quantitative analysis of the consequences of corruption

Para análise de alguns aspectos relativos à formação, mencionadas pelos alunos em suas avaliações finais, faz-se necessário traçar um breve relato sobre a trajetória final do curso.

Após o encerramento do bloco básico de Interpretação, os alunos realizaram duas montagens de espetáculos pertencentes também ao Bloco de Interpretação Dramática, eixo do curso.

A escola propõe que, nesses momentos, o docente de Interpretação Dramática seja substituído por diferentes diretores (professores de outras disciplinas ou convidados externos à instituição) a fim de que os alunos/atores exercitem seus trabalhos, gradativamente, com mais autonomia. Os temas das montagens devem ser escolhidos a partir de textos dramáticos submetidos a seminários, improvisações e discussões promovidas pelo grupo e diretor. Além       

34 Berliner Ensemble: companhia de teatro alemã fundada em 1949 pelo dramaturgo Bertolt

disso, as propostas de textos e autores devem vir, preferencialmente, dos alunos, mas, geralmente, o diretor também faz sugestões, baseado nas discussões com a turma e nos apontamentos contidos nas fichas individuais dos alunos (FAIA).

O objetivo é encontrar um tema que satisfaça as necessidades de cada aluno, relativas ao seu desenvolvimento no que diz respeito ao trabalho de ator e, também, localizar um tema que traduza a ideia artística que o grupo deseja expressar naquele momento. Evidentemente, não é uma tarefa fácil, pois as escolhas são fundadas em motivações e desejos de toda ordem.

A primeira montagem foi dirigida pelo docente responsável pelo módulo de História do Teatro. Vale lembrar que a maioria dos docentes trabalha como ator e diretor teatral, portanto, não há desvio ou adaptação de função. O texto escolhido para a Montagem I foi de autoria de um consagrado grupo dedicado à pesquisa do teatro brasileiro. O enredo refere-se ao rito de passagem de um menino de 11 anos que viajou sozinho por um longo percurso a fim de cumprir uma missão muito importante: levar a cabeça de um cachorro morto, que havia mordido seu irmão menor, ao Instituto Adolfo Lutz em São Paulo para certificar-se de que o animal não estava contaminado pelo vírus da raiva.

Segundo o “Pessoal do Trem”, o espetáculo tinha o objetivo de

(...) buscar um teatro popular que ofereça um painel abrangente do homem brasileiro, discutir questões relevantes que foram propostas por esses mesmos homens e mulheres, trabalhar com personagens muito próximos de nós, mergulhar profundamente nos sonhos das pessoas comuns e não dos “Heróis”35.

As apresentações da Montagem I ocorreram no mês de maio de 2010. Para a Montagem II, último projeto do curso, foram contratadas duas diretoras que não faziam parte do quadro fixo de funcionários da escola.

Os objetivos dessas contratações foram36:

1) experimentar um último trabalho sob orientação de artistas/docentes estranhos aos alunos;

      

35 Texto extraído do programa do espetáculo elaborado pelos alunos.

2) proporcionar oportunidade de nova experiência, uma vez que a dupla de diretoras, habituadas a trabalhar em parceria, possuía um importante diferencial. A primeira, que desenvolveu a parte inicial do trabalho era mestre em Artes Cênicas e havia pesquisado “Imaginação” a partir do sistema Stanislavski; e a segunda, também pós-graduada em Artes, era especialista em trabalhos voltados à expressão corporal, principalmente, no que diz respeito ao corpo criativo do ator.

No mês de Julho de 2010, conforme anotações do caderno de apontamentos da coordenação (CACP), a docente da primeira fase da Montagem II expressava preocupação: os alunos não conseguiam decidir-se sobre o tema da montagem. Ela foi orientada pela coordenação a fazer uma sugestão de tema e esclarecer aos alunos que a administração do tempo fazia parte do processo de aprendizagem, portanto, seria necessário decidir naquela mesma semana o tema da montagem, pois seu contrato estava expirando e havia o risco de que interrompesse sua participação sem que houvesse preparado a contento seu trabalho para a próxima diretora dar continuidade.

Para desapontamento da primeira diretora e da coordenação do curso, até aquele momento, os alunos não foram capazes de criar um esqueleto de texto a partir de exercícios propostos pela profissional como planejado.

A segunda diretora prosseguiu os trabalhos. O último período de ensaios coincidiu com as férias da coordenação do curso. No retorno das férias (25.09.2010), a turma apresentaria o penúltimo espetáculo da temporada de formatura. Tratava-se de uma colagem de cenas do Teatro do Absurdo:

Espetáculo composto por um prólogo – poema de Eduardo Alves da Costa, sketches e peças curtas de Harold Pinter, Samuel Beckett e Karl Valentin. (...) a platéia assistirá pedaços de absurdo do mundo onde a comunicação não é

tão eficaz e lógica quanto se pensa37.

Em uma primeira interpretação foi fácil deduzir: seguiram o tema que as diretoras propuseram. O espetáculo explorava a solidão, a falta de gentileza, a perda da memória, o vazio das palavras, a crueldade do mundo do trabalho, o       

homem robotizado, a escuridão da alma e o sonho pela recuperação do amor. Os textos foram enxertados com insinuações sobre os locais de moradia, tais como Osasco e Carapicuíba, e situações do cotidiano do “Pessoal do Trem”. Então, estava claro: os alunos/atores, a partir de improvisações do cotidiano, haviam participado plenamente da criação do texto do espetáculo.

A identificação com as situações e personagens propostas por autores, como Samuel Beckett foi flagrante. Os alunos/atores fizeram uma leitura da obra original, tendo como parâmetro a sua própria realidade. Trabalharam o tragicômico a partir de situações contemporâneas, utilizando um humor ácido, incorporando personagens com movimentos corporais robotizados, olhares vazios e atitudes grotescas, como, por exemplo, uma entrevista estúpida para um emprego burocrático, cujas perguntas repetitivas e sem sentido culminavam com uma sessão de eletrochoques no candidato à vaga.

O trabalho apresentado estava totalmente coerente com o pensamento de Adorno (2008) acerca da obra de Beckett. Segundo o autor, “os esgares clownescos pueris e sangrentos nos quais, em Beckett, o sujeito se desintegra, exprimem sua verdade histórica [...]” (ADORNO, 2008, p.375). A identificação com as situações e personagens propostas por autores como Samuel Beckett foi flagrante. Para Carlson, Adorno alerta que

o artista deve reconhecer que sua criação está implícita à racionalidade de seu tempo, no nosso caso essa racionalidade é a tecnológica, e caso queira desafiá-la, deverá fazê-lo dentro do próprio processo criativo, não somente naquilo que diz respeito ao assunto, mas da maneira como este assunto é tratado (CARLSON, 1997, p.411).

Ainda segundo Carlson (idem), também a partir do pensamento de Adorno, Beckett é um autor engajado porque cria e assume uma nova forma de reflexão: o absurdo do real para além do realismo. Para que o artista trabalhe a obra de Beckett, é preciso uma mudança de atitude, é preciso “explodir por dentro” (CARLSON, 1997, p.411).

Tal explosão interna, necessária para que o ator capte as características do Teatro do Absurdo para poder representá-lo, verdadeiramente, pode ser interpretada como a consciência de que somos sujeitos fragmentados, entediados com nossa existência, impotentes diante de nossa mortalidade, conscientes de

que desprezamos, inconscientemente, nossa memória e danificamos nossa imaginação.

Os trabalhos de Beckett mostram a realidade absurda criada por sujeitos grotescos – e que diante dela não podemos desistir. Conforme defende Borges (2004), temos que continuar caminhando, “[...] como o artista, que não consegue se expressar a não ser por meio de sua arte, mas que continua tentando, mesmo que suas tentativas estejam fadadas ao fracasso” (BORGES, 2004 apud SOUSA, 2009, p.10).

Ao analisarem esse estado de coisas, segundo Andrade (2001), “Beckett e Adorno afirmam a necessidade de se elaborar formas significativas, que sejam ao mesmo tempo denúncia e mímesis desse estado de coisas” (ANDRADE, 2001, p.32). Tais formas significativas podem ser obras artísticas, exercícios cênicos criados por alunos/atores, exercendo sua recém conquistada profissão como um trabalho de resistência, ora permeado pelo prazer, ora pelo sofrimento.