3 The empirical foundation of recent research on corruption
3.4 The action research approach
A questão da profissionalização em Artes sempre foi conturbada, pois quanto mais administrada a sociedade, mais programada a carreira artística deve ser. Aqui, em primeiro plano, estão a rentabilidade e o sucesso, com todas as
implicações que essas duas palavras possam trazer. Muitos adiam desejos de
culto à arte por toda uma vida, entregando-se a estudos e trabalhos que garantam sustento e uma suposta estabilidade, pois, no mundo do trabalho contemporâneo, ninguém pode se sentir seguro. Vive-se angustiado por anos a fio e, algumas vezes, quando acreditamos ter uma situação financeira estável, nos sentimos livres para tentar realizar alguns sonhos abandonados na infância ou na juventude.
Não cabe aqui discutir se deveria a arte estar sujeita à formação profissionalizante. Por que é preciso ter um diploma e um registro na DRT para fazer teatro? Sob a égide da cultura dominante, toda a remuneração legal advinda do trabalho artístico do ator está subordinada a esse registro. Renunciar a ele é renunciar a viver da arte. Os mecenas foram substituídos pelas leis de incentivo à cultura e pelo apoio financeiro dos grandes patrocinadores. Permanecer sem diploma e sem registro profissional é desistir da carreira artística definitivamente.
Resta buscar o registro para introduzir-se nos lugares onde a arte teatral é exercida e, assim, criticá-la do lado de dentro. Ser profissional da arte teatral hoje, no Brasil, é tentar não sucumbir à indústria do entretenimento, não ser
escravizado, nem excluído totalmente do meio artístico; significa dizer sim e não a todo o momento. Trata-se de não ser “arrancado do barco”, ou seja, em um movimento de resistência, criar, dentro das escolas de teatro, por exemplo, caminhos que transformem um pensamento advindo da indústria do entretenimento em objeto de reflexão e exercício estético e, por meio da arte, tentar transformar a pseudo formação socializada em formação genuína. A lógica da indústria do entretenimento afeta a todos: alunos, direção das escolas e artistas/docentes. Pode parecer pretensioso, mas precisamos acreditar no movimento lento e silencioso da arte dentro de cada um de nós, pois, como defende Adorno, “o contributo da arte para a sociedade não é comunicação direta com ela, mas algo de muito mediatizado, uma resistência, em que a evolução social se reproduz em virtude do desenvolvimento intra-estético, sem ser sua imitação”. (ADORNO, 2008, p.341).
Ainda conforme Adorno (idem), a arte é imanente à sociedade e, mesmo na modernidade, essa imanência está preservada, apesar de sermos frequentemente invadidos – nos lares, teatros, televisões, computadores – por expressões da cultura de massa, pretensas obras de arte facilitadas e decompostas. O movimento artístico pode estar escondido, mas não morto; pode estar agindo em lugares onde a Indústria Cultural não tenha alcançado nem mesmo com seus longos tentáculos; porque a arte genuína esquiva-se desse movimento.
Entretanto, não vemos todas as obras de arte. Cada um de nós é capaz de entrar em contato com um número ínfimo de manifestações artísticas. Vivemos, todos, sob o efeito eficaz e sutil do véu tecnológico. Muitas vezes, não conseguimos distinguir o que é entretenimento do que é arte. Podemos estar até diante de um objeto em transformação, pois, segundo o autor, “muitas obras, por exemplo, representações cultuais, metamorfoseiam-se em arte ao longo da história, quando o não tinham sido (...)” (ADORNO, 2008, p. 14).
Qualquer tentativa de manipulação da arte, de utilização para um fim específico, fere de morte sua essência. Assim como a obra de arte é imanente à sociedade, ela também não tem função social. Em outras palavras, ela pode expressar a luta contra essa sociedade, mas, ao mesmo tempo, é parte dela.
Portanto, ainda segundo o autor, “(...) se as obras de arte tiverem que predizer uma função, ela é sua falta de função” (ADORNO, 2008, p. 342).
Para os pensadores da teoria crítica da sociedade, conforme afirma Slater (1978), embora a arte não tenha função social, ela emana da sociedade e assume um papel crítico que busca expor aspectos manipulativos do discurso dominante, quebrando, assim, sua ideologia. Entretanto, nas atuais condições, “essa des- ideologização da realidade não consegue constituir-se numa força crítico-prática da práxis de classe” (SLATER, 1978, p. 209).
Se a angústia ronda o professor, se a visão que temos da arte é a que acaba de ser descrita, o que podemos dizer da arte teatral desenvolvida em sala de aula?
A história da educação formal, no Brasil, é uma sequência de descontinuidades. Ora, o mesmo vale para a educação artística: devemos, no mínimo, considerar que ela se dá em um número reduzido de escolas que abrigam sujeitos de variadas faixas etárias, diferentes níveis de escolaridade,
movidos por diversos motivos e apresentando diversas origens sociais. A
profissionalização e a docência em Artes Cênicas são extremamente complexas. A lei que regulamentou a profissão de artista e, consequentemente, a função de
ator, data de 197815. A comprovação da profissão, até hoje, se dá pelo número do
DRT.
Atualmente, a capacitação em Artes Cênicas é obtida por duas diferentes
maneiras16: apresentação de provas documentais de exercício da profissão antes
de 05/10/78 ou certificação escolar emitida por escola de teatro regulamentada. Estipula, ainda, a lei 6.533/78, Art. 2º, Parágrafo Único:
O candidato que apresentar provas documentais de conclusão de curso regular de Faculdade de Licenciatura de Artes Cênicas será encaminhado ao Conselho de Capacitação Profissional para a segunda e última fase do exame prático, junto ao Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo.
15 Lei 6.533, de 24 de maio de 1978 – dispõe sobre a regulamentação das profissões de Artista e
Técnico em Espetáculos de Diversões.
16 Fonte: SATED – Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de
Em resumo, por lei, os atores formados pelas escolas técnicas e bacharelados podem exercer a profissão, mas não estão habilitados à docência. Já os licenciados poderão ser professores, mas não podem exercer a profissão de atores, ou seja, não estão capacitados.
Tal situação é contornada por todas as escolas técnicas, reconhecidas pelo MEC, da seguinte maneira: além dos profissionais habilitados em Artes Cênicas pelas escolas de nível superior, reconhecidas pelo MEC, podem ser contratados docentes com formação técnica profissionalizante, desde que comprovem experiência em sala de aula.
Segue abaixo o que prescreve o Plano do Curso Técnico em Arte
Dramática organizado pela escola onde foi realizada esta pesquisa17:
Para atuar neste curso, é aconselhável que os docentes possuam curso técnico na área (com SRTE), graduação em artes cênicas, graduação em outra área com pós-graduação em cênicas, e/ou que tenham ampla experiência profissional relacionada à área.
O destaque feito acima é importante porque demonstra a importância do registro na DRT. Ele não somente capacita para o exercício da profissão de ator, como também, na prática, habilita para a docência, principalmente nas escolas de nível técnico-profissionalizante.
Em tal sentido, é necessário ressaltar que, no mercado de trabalho artístico, seja em espetáculos considerados “comerciais”, ligados aos padrões da Indústria Cultural, ou em espetáculos de grupos experimentais, voltados, principalmente à pesquisa cênica, a habilitação por meio de escolas técnicas profissionalizantes é, habitualmente, mais valorizada que as demais. Isso acontece em virtude da comprovada qualidade, na prática, dos exercícios cênicos realizados nessas escolas.
Com essa longa descrição sobre capacitação e habilitação em Artes Cênicas, quisemos salientar que a principal característica da escola técnica em questão é fornecer a habilitação que dá direito ao exercício da profissão e atuação em Artes Cênicas. Em resumo, na prática, o aluno formado por essa ou por outras escolas técnicas, reconhecidas pelo MEC, pode ser ator no mercado
17 Trecho extraído do Plano de Curso, não citado na Bibliografia para preservação da identidade
de trabalho e professor, na maioria das escolas de Artes Cênicas de nível médio do país, assim como em cursos livres. Explicitar, portanto, a diferença entre habilitação e capacitação é importante ao entendimento da real motivação para o aumento da procura pelo curso técnico em questão.