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Um exemplo de estudo de transmissão de status no Brasil foi realizado por Haller e Saraiva (1991). No texto, os autores basicamente testam a hipótese de Treiman (1970), para o caso brasileiro, de que com o desenvolvimento, os efeitos do status atribuído (ascription

status) e da origem de status (status ocupacional do pai) no processo de realização de status

(renda, educação e ocupação) diminuem. Comumente, são consideradas variáveis de status atribuído a raça e o sexo. Apesar de não trazer resultados sobre o papel da raça neste processo, os autores apresentam os resultados dos trabalhos de Valle Silva (1981) e Pastore e Haller (1982) acerca do tema. Em ambos os trabalhos, os autores mostram que negros possuem desvantegens em relação aos brancos nos processos de realização de renda e ocupacional. Haller e Saraiva (1991) não trazem dados acerca do papel da cor na realização de status. Seu estudo concentra-se em abordar o efeito do sexo em tal processo. São os principais resultados: o efeito do fator atribuído, baseado no sexo (ascriptive factor, based on gender) é forte nas diferenças de renda, existente, porém mais sutil, nas diferenças ocupacionais, e sem efeito nas diferenças educacionais. Nos dois primeiros, o efeito é favorável aos homens. Outro resultado relevante é o de que as mulheres são mais afetadas pelo status paterno do que os homens, e que este efeito aumenta com o desenvolvimento. Tal conclusão contradiz a hipótese de Treiman (1970) e nos leva a crer que o processo de desenvolvimento brasileiro, em vez de desestratificar a sociedade, tem mantido um caráter forte de desigualdade.

Há também estudos de mobilidade ocupacional que analisam os efeitos da raça e sexo. Valle Silva (2000) apresenta importante análise sobre cor e mobilidade ocupacional, com base nos dados da PNAD de 1996. Foi intenção do autor fazer uma reavaliação do papel da raça, em 1996, no processo de mobilidade, segundo as linhas gerais estabelecidas por Hasenbalg (1985), em estudo com base na PNAD de 1976. Em resumo, o estudo conclui que a despeito das mudanças ocorridas no regime de mobilidade social do Brasil desde a década de 1970, período em que aumentou a mobilidade circular e diminuiu a mobilidade do tipo estrutural, os padrões de mobilidade social dos grupos de cor apresentam diferenças que vão à mesma direção daquelas constatadas por Hasenbalg (1985) para 1976: os não-brancos estão expostos a chances menores de ascensão social; as dificuldades para ascender aumentam junto com o nível do estrato de origem; e os nascidos nos estratos mais elevados estão expostos a riscos maiores de mobilidade descendente.

Sobre o papel do gênero na mobilidade ocupacional no Brasil, o trabalho de Scalon (1999) é o mais significativo. Nele, a autora, além de traçar os padrões e tendências da

mobilidade social no Brasil, apresenta oportuno debate sobre as desigualdades de gênero e mobilidade. Tal discussão surge da suposição de que as mulheres possuem padrão de fluidez diferente do dos homens, em função de características particulares da participação feminina na força de trabalho. Testou-se a hipótese da diferença significativa no padrão de mobilidade e, portanto, nas características da estrutura social brasileira para homens e mulheres. Com base na PNAD de 1988, a autora definiu um modelo de mobilidade para os homens e o aplicou aos dados referentes à mulheres. O não-ajustamento do modelo masculino para as mulheres implica reconhecer que a posição das mulheres na estrutura social não pode ser derivada da posição dos homens, uma vez que elas possuem padrões de mobilidade (intergeracional) distintos. Este, entretanto, não foi o resultado obtido. O modelo de mobilidade masculina ajustou-se para os dados das mulheres. Assim, com base nos dados de 1988, rejeita-se os argumentos de que as mulheres têm posições desvantajosas em relação aos homens, ao menos no que diz respeito às suas chances relativas de mobilidade social (fluidez/rigidez). Tem-se que o modelo de mobilidade social brasileiro é válido para a força de trabalho como um todo, independentemente do sexo. A grande conclusão do estudo é a de que, no Brasil, embora as mulheres apresentem posições desvantajosas no que diz respeito às taxas absolutas de mobilidade, não há relevantes desigualdades de gênero no contexto da estrutura de classes, refletida nos padrões intrínsecos à associação entre origem e destino.

Apesar de extensos e bem realizados, os estudos acima não esgotaram a temática da estratificação social no Brasil. Neste sentido, este estudo pretende contribuir com o debate, ao (1) atualizar os estudos de realização socioeconômica no Brasil, com os dados de 1996. Nesta atualização pretende-se, no modelo proposto por Blau e Duncan (1967), incluir os seguintes trajetos: “escolaridade do pai” “status ocupacional do primeiro emprego do indivíduo”; “escolaridade do pai” “status ocupacional do indivíduo”. Tais inclusões foram realizadas com o propósito de aproximar o modelo a ser testado do modelo e resultados de Sewell, Haller e Portes (1969) e Haller e Portes (1973); (2) Testar o modelo atualizado ora descrito para o setor público no Brasil.

O setor público foi escolhido por ser considerado eminentemente burocrático, em especial após 1988. Dentre outras coisas, este estudo pretende: identificar quais os efeitos das variáveis meritocráticas e não meritocráticas no processo de estratificação social no setor público brasileiro; analisar se tais efeitos têm se alterado ao longo do tempo; analisar de que modo a estratificação social em tal setor no país se diferencia da ocorrida em geral; analisar qual foi o impacto da Carta Magna de 1988 na estratificação social no setor público no Brasil,

ao instituir e obrigar o provimento de cargos e empregos públicos por meio de concursos públicos.