Os gabinetes de leitura instalados no Brasil no século XIX são um modelo importado da Europa, com suas variantes francesas, alemãs e inglesas. Martins (2015) apresenta esse tipo de espaço, que era mais do que estudo, como “elemento dinâmico e moderno das relações mediadas pelo impresso e motivadas pela leitura, múltiplas realidades se justapõem e se conformam aos caracteres distintivos de cada sociedade e de cada comunidade, noutros termos ao solo histórico” (MARTINS, 2015, p. 17). No Brasil, o modelo que mais irá se destacar será o modelo francês. Com a inauguração do Real Gabinete Português de Leitura, em 1837 no Rio de Janeiro, São Paulo passa a reivindicar um modelo paulista para os gabinetes.
Inicialmente eram conhecidos três gabinetes de leitura no estado. Exatamente aqueles que permaneceram até hoje nas cidades de Sorocaba, Rio Claro e Jundiaí: Gabinete de Leitura Rio-clarense e Gabinete de Leitura Ruy Barbosa, respectivamente. O compulsar de documentação, as viagens empreendidas, os depoimentos recolhidos, os questionários aplicados e o avanço do trabalho foram relevando a existência de mais, muito mais, até se chegar ao conhecimento da existência de dezessete gabinetes, só na Província de São Paulo, área geográfica de seu maior florescimento no Brasil. Todos eles deixaram pouco rastro material. Os mais sólidos, que até conheceram sede própria, foram demolidos. Em Ubatuba, um gabinete foi queimado e nada sobrou da documentação escrita, salvo a menção de seus feitos impressos nos jornais locais, recuperados por um historiador amador da cidade (MARTINS, 2015, p. 24-25). Porém, nas folhas avulsas da imprensa iguapense a que se teve acesso, localizadas aqui e acolá com algum colecionador, o gabinete de leitura reaparecia como espaço cívico para alistamento eleitoral.
Foi o progresso material, registado a partir da década de 1840, ainda mal estudado, que permitiu a instalação precoce de um gabinete de leitura provincial, centelha confirmadora da existência de núcleo urbano expressivo e de uma sociedade em busca de ilustração (MARTINS, 2015, p. 39).
Nessas circunstâncias, mais do que a história pontual do gabinete, é importante percebê-lo como sintonia das novas relações sociais que aconteciam no espaço, confirmando a existência de uma sociedade que se transformava e se problematizava, constituindo-se o próprio gabinete em marco dessa transição (MARTINS, 2015, p. 41).
Os gabinetes funcionavam com locação de livros, comprovando desde o início o caráter mercantil da instituição, o que demonstrava a existência do tripé fundamental para a circulação do livro: produção literária, público consumidor e comércio livreiro. Logo, o surgimento dessas casas em particular na França, Inglaterra e Alemanha, correspondendo à expansão do mercado livreiro europeu, veio ao encontro de uma população ávida de leitura e, mais que isso, apaixonada pelo gênero romance então florescente. É sabido que o surto desse gênero foi essencial para o consumo do livro, produto que alimentou os gabinetes de leitura de lá e de cá (MARTINS, 2015, p. 49).
No caso dos gabinetes, além da função específica de alugar livros, inauguraram a monásticas e as bibliotecas laicas, no processo de disseminação do conhecimento marcado pela laicização, democratização e socialização da cultura, registrado basicamente no século XIX. Entre as teocráticas e reclusas bibliotecas dos mosteiros e das universidades, recinto de saber exclusivo da Igreja, e as bibliotecas públicas, bibliotecas-monumento, guardiãs de acervos do Estado, intimidadoras e
classificatórias, reduto e eruditos e sábios, emergiu o gabinete de leitura, espaço despretensioso, despojado, em princípio acessível a todos os consulentes, desde que em condições de pagar o módico aluguel estipulado (MARTINS, 2015, p. 49-50).
Na França, o consumo o consumo literário apresentou-se como alternativa de uma realidade áspera, preenchendo a vida que existia no ritmo do trabalho capitalista, quando a própria emergência do romance decorria do isolamento crescente do indivíduo na sociedade. A leitura popularizou-se e, por volta de 1864, admitia-se: “todo mundo que lê hoje em dia, desde a jovem prostituta em seu boudoir à vendedora de batatas em seu estabelecimento”. Até mesmo os militares procuravam ler os jornais ou distrair-se com obras que não encontravam na biblioteca da caserna ou mesmo do círculo militar (MARTINS, 2015, p. 54).
Tabela 10 – Gabinetes de Leitura em Paris, 1819-1883
Ano 1819 1820 1823 1837 1842 1844 1871 1883 n. 23 32 83 162 207 215 198 118
Fonte: (MARTINS, 2015, p. 57).
Da mesma maneira que os gabinetes proliferaram na França do século XIX, não foi diferente no Brasil. Para se ter ideia do êxito desse espaço dos oito gabinetes existentes, seis estavam instalados na Rua do Ouvidor, conforme o quadro 8.
Quadro 1 - Gabinetes de Leitura do Rio de Janeiro, 1884-1861
Gabinete Endereço
Gabinete Francês e Portugês de Mongie rua do Ouvidor, n. 87 Gabinete Francês e Portugês de Cremière rua do Ouvidor, n. 104 Gabinete Francês e Português de Desiré Dujardin rua do Ouvidor, n. 105 Gabinete Francês e Português de Madame Breton rua do Ouvidor, n. 118 Gabinete Francês de Madame Edet rua do Ouvidor, n. 120 Casa do Livro Azul, Albino Jordão rua do Ouvidor, n 121 Gabinete Francês rua da Quintanda, n.45 Gabinete Francês de Martin rua do Cano, n. 71
Fonte: (MARTINS, 2015, p. 64).
Data de 1837 a fundação do Real Gabinete Português de Leitura, instituição de escopo associativo e cultural que figura como referência aos demais exemplares que vingaram no Brasil. Seu amplo significado no panorama do Império, permanecendo até o presente como uma das entidades culturais atuantes no país. A iniciativa da criação desse espaço coube a
portugueses liberais – comerciantes e bacharéis de direito na sua maioria, homens avançados para seu tempo, recém-imigrados – os quais se instalavam numa sociedade em transformação. Sua proposta voltava-se para a agremiação dos portugueses “em um estabelecimento criado por portugueses, o primeiro do Império, no intuito de sua ilustração geral, e de concorrer para restaurar a glória literária da pátria” (MARTINS, 2015, p. 67).
No salão nobre de uma casa particular, a de n. 20 da tradicional rua Direita, hoje 1° de Março, moradia do advogado imigrante português Antônio José Coelho Lousada, nascia o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, em sessão encerrada ás 13h45 do dia 14 de maio, um domingo (MARTINS, 2015, p. 71).
Apesar de todo o sucesso que os gabinetes de leituras gozavam com os portugueses, a Biblioteca Real, então recém-aberta ao público, ainda em 1818, mereceu apreciação pouco favorável do inglês John Luccock, que afirmava conter “poucas obras apropriadas ao estado de progresso atual da ciência, ou do gosto moderno”. O mesmo autor relata que alguns conventos vinham franqueando suas bibliotecas, encontrando-se inesperadamente obras gregas na de São Bento e que até mesmo se liam lições de filosofia para alguns interessados. A venda de livros, porém, acontecia apenas em leilões, sabendo-se que em 1818 as obras inglesas e latinas obtinham mais saída, poucas, porém para mãos brasileiras (MARTINS, 2015, p. 70).