Cunha (2010) faz uma prospecção do que serão as bibliotecas no futuro e afirma que, uma área do acervo informacional que tende a crescer é o chamado conjunto de dados científicos (ou ciência eletrônica, e-science). Essa área, geralmente composta por bases de dados numéricos e os diferentes conjuntos de resultados das pesquisas realizadas nos institutos, faculdades e departamentos, nunca foi objeto de preocupação por parte da Biblioteca Universitária. Como a biblioteca começa a tomar para si a responsabilidade da gestão do conhecimento gerado no campus, ela agora precisa conhecer os conteúdos e as estruturas desses recursos informacionais hospedados nos laboratórios e gabinetes docentes.
Uma definição ampla da ciência eletrônica significa que para apoiá-la necessariamente está sendo incorporada uma série de atividades e serviços. Tal apoio exige o desenvolvimento, a coordenação e investimentos em vários setores da biblioteca para criar um sistema onde, certamente, estarão envolvidos a segurança dos dados, a preservação, o acesso e o controle dos metadados. Esses setores encontram na Biblioteca Universitária o seu nicho natural. Um levantamento realizado em agosto de 2010, junto a 40 Bibliotecas Universitárias dos Estados Unidos e Canadá, para a Association of Research Libraries, mostrou que:
73% dos entrevistados (...) indicaram a que biblioteca foi envolvida com o apoio à e- science em suas instituições. (...) Todos, com exceção de algumas bibliotecas, estão fornecendo consultoria e serviços de referência, tais como identificar a infra- estrutura de tecnologia usando ferramentas disponíveis (...) e no desenvolvimento de planos de gerenciamento de dados, e desenvolvimento de ferramentas para ajudar os investigadores. Alguns descreveram serviços mais avançados, tais como o arquivamento de dados relevantes e curadoria para a preservação digital em longo prazo e integração entre conjuntos de dados. (...) Enquanto as bibliotecas identificaram uma significativa lista de pontos a serem solucionados, ficou evidenciado durante todas as respostas da pesquisa um entusiasmo geral a respeito dos novos papéis a serem desempenhados [pela biblioteca] no processo da pesquisa acadêmica (Soehner; Steeves; Ward, 2010, p. 8).
A inclusão dessa nova área pela Biblioteca Universitária, por meio do que poderia ser denominado de repositório de dados científicos, não será rápida nem tranquila. Ela exigirá o treinamento dos recursos humanos para assumirem as novas funções inerentes à gestão de dados em formatos e assuntos variados, além do tratamento dos documentos e arquivos científicos existentes nos laboratórios de pesquisa.
Em seu artigo “A construção das bibliotecas universitárias no Brasil”, Silva (2010) apresenta, todavia, uma leitura importante sobre o que foi a formação dos bibliotecários que atuaram nas Bibliotecas Universitárias, que pode muito bem explicar a visão de futuro, contrapondo o que Cunha (2010) argumenta sobre o porquê da preocupação com estes dados científicos. Para a autora, citando Castro e Ribeiro (2004), a expansão dos Cursos de Biblioteconomia ocorreu, na sua maioria, na pós-reforma universitária de 68, portanto, no auge do regime militar, na mesma proporção em que eram fechados os cursos de Sociologia, Antropologia e Filosofia. Informa, ainda, que no período de 1965 a 1985, o predomínio americano continuou sendo a tônica na prática bibliotecária, principalmente com a total incorporação do ideário americano nas universidades brasileiras durante esse período (SILVA, 2010).
Ademais, afirma que, como toda transição, o deslocamento do modelo humanístico para o modelo pragmático também se deu na base de conflitos. Os profissionais pragmáticos, que defendiam o domínio da técnica eram especialistas e se diziam progressistas e modernos.
E são esses mesmos profissionais que estão ainda hoje preocupados com as técnicas e a tecnologia no âmbito da Biblioteca Universitária, do que de fato com o conhecimento que está sendo gerado em seu interior.
Castro (2000) apud Silva (2010) diz que os profissionais de Biblioteconomia mais valorizados eram os que atuavam nas bibliotecas especializadas e universitárias. Tal afirmativa era confirmada com base no nível salarial, no status, nas condições de atualização e no uso das modernas tecnologias de informação, em detrimento das bibliotecas públicas e escolares, demonstrando o quanto a trajetória da Biblioteconomia tem sido irregular.
Entre suas afirmações explana:
Esses saberes eram impregnados pelo liberalismo americano, cultura política atualmente dominante, caracterizada como racionalista, universalista e individualista. Essa influência afastou os profissionais quase que totalmente dos problemas sociais e cotidianos do contexto nacional, adotando posições destituídas de criticidade e alheias a macroquestões sociais, culturais e econômicas O modelo também foi responsável pela quase inexistência de intelectuais entre os profissionais de Biblioteconomia, cuja predominância é de técnicos com pouco senso crítico. No âmbito universitário, tal carência gera entre os bibliotecários uma dificuldade de se inserir e interagir no cotidiano desse campo, pois demanda profissionais atualizados,
questionadores e plenamente envolvidos com o campo científico-universitário. Absorveram o senso comum, com seus esteriótipos e preconceitos, e os mantiveram como representações próprias (SILVA, 2010).
Ora, com esse perfil profissional apresentado pela maioria, não é difícil pensar que, entre outros motivos, esse é um dos principais para que, muito do que é projetado para o futuro da Biblioteca Universitária, seja somente com a visão tecnicista e com a preocupação quase exclusiva com acervos e suportes.
Essa visão é apresentada por Cavalcante (2007, p. 95) quando afirma que até então os bibliotecários tinham a tendência de olhar para dentro, visavam mais o documento do que o usuário, inseridos numa prática dissociada da sociedade, da política, do cidadão e da vida, voltada principalmente para o acervo, o processamento técnico e a palavra escrita. Tais discussões geraram uma espécie de mal estar com a questão da qualidade técnica, ou a chamada predominância do modelo tecnicista, e fizeram emergir uma consciência renovada, voltada para uma concepção social do papel das bibliotecas.
A abertura política da década de 1980 presenciou a emergência de um novo cenário de reafirmação política da sociedade brasileira e com ela uma grande produção científica sobre os novos movimentos sociais (SILVA, 2010). Acompanhando a tendência, proliferaram estudos e pesquisas na área de Biblioteconomia, acerca do papel social e político das bibliotecas (SILVA, 2010). A realização de Seminários Nacionais de Bibliotecas Universitárias – SNBU a cada 2 anos também foi fator que propiciou o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre a Biblioteca Universitária, o que permitiu novos estudos além da preocupação anteriormente citada principalmente para acervo.
Para Silva (2010), a adoção do modelo neoliberal a partir do governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) no qual a política econômica brasileira abraçou o ideário neoliberal no que este tinha de mais ortodoxo, seguindo as orientações do Banco Mundial, que difundiu o modelo de governance, incutiu-se a perspectiva de eficiência, qualidade e flexibilidade como cultura na administração pública, inspirada em elementos da gestão empresarial. Orientações que na prática se transformariam em determinações, pois o Banco Mundial exigiu que os países latino-americanos aceitassem as resoluções em troca de empréstimos (BEHRING, 2003; LEHER, 2001 apud SILVA, 2010).
Esse modelo de gestão foi amplamente acatado nas BU com número reduzido de funcionários, porém com novos serviços informacionais, que surgiram a partir do advento da sociedade de informação e da globalização. Esses, caracteristicamente, eram pautados pela assimilação de Tecnologias da Informação – TIs, acervos digitais e atividades educativas de
inclusão digital para os usuários e, principalmente, as exigências dos processos avaliativos do MEC.
Almeida Junior (2004) esclarece que, historicamente, as atividades e funções do profissional bibliotecário estiveram muito mais voltadas para a preservação do que para a disseminação e, talvez por esse motivo, a preocupação constante com o acervo. Mais adiante, o autor afirma que, por conta dessa situação, as bibliotecas funcionavam como “reprodutoras da organização social existente”. Sendo as Bibliotecas Universitárias o objeto deste estudo, há que se esperar que nesses espaços exista postura mais crítica em relação à “reprodução da organização social”.
O mesmo autor alerta para a importância do profissional que atua na biblioteca como sendo articulador e facilitador para o usuário que não tem como se apropriar do conhecimento, ainda que alfabetizado eletronicamente. O não usuário para Almeida Junior (2004) se diferencia do usuário em potencial na medida em que é impossibilitado de fazer uso do conteúdo existente na biblioteca, pois não possui a habilidade necessária para a apropriação das informações mesmo com a mediação dos bibliotecários e de seus produtos disponíveis.
Muitos profissionais acreditam que as atuais tecnologias serão o impulsionador para a chamada “democratização da informação” como papel da biblioteca do futuro. Mas Milton Santos (2008) lembra:
Um dos traços marcantes do atual período histórico é, pois, o papel verdadeiramente despótico da informação [...], todavia, nas condições atuais, as técnicas da informação são principalmente utilizadas por um punhado de atores em função de seus objetivos particulares. Essas técnicas de informação são apropriadas por alguns Estados e por algumas empresas, aprofundando assim os processos de criação de desigualdades [...] O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde. Isso tanto é mais grave porque, nas condições atuais da vida econômica e social, a informação constitui um dado essencial e imprescindível.
Assim é importante repensar o lugar da Biblioteca Universitária no futuro e também o conhecimento que está ou não sendo produzido em seu espaço.