ASPECTOS INTRODUCTORIOS
I. APROXIMACIÓN TEÓRICA
1. PLANTEAMIENTO DEL PROBLEMA
1.1 El deterioro comunicativo en la Unidad de Cuidados Intensivos
A História tem desses momentos singulares. Explodem, súbito, fragorosos, lançando na alma dos contemporâneos uma larga pausa bojada de assombro, e perenizam nas páginas dos anais numa angus- tiosa reticência, a fazer vibra, em emotividades doridas, a alma dos pósteros. . .
3 Diário do Rio Grande Rio Grande, 13 de fevereiro de 1908, ano 60, no
12686, p. 1.
O regicídio português nas páginas da imprensa rio-grandina 37 Portugal, o velho Portugal, engrinaldado de rosas e de glórias, dos pâmpanos dos seus vinhedos e dos louros das suas conquistas, era agora, após os centenários decorridos em silencioso marasmo, à face da Europa o Little Portugal a que aludia, em diplomáticos sorrisos, Lord Salisbury. Olhavam-no as potências como um menino posto em tutelas e ninguém duvidava da encarnação dos Castro e dos Albuquerque nos plácidos vinhateiros do Douro, nos serenos campinos do Ribatejo. Apenas, a longes, uma vitória obtida na África por um punhado de soldados, vinha lembrar que ainda existiam descendentes dos lutadores que de Guimarães, Ourique e Aljubarrota – na conquista da pátria – até Ceuta, Socotorá e Diu – na conquista do mundo – tinham escrito a sangue uma epopeia de assombros e deslumbramentos.
E o reino lusitano, sob o cetro bragantino, seguia amodorrado para o letargo das nações decadentes. . .
Quanto, pois, num efervescer de sangue novo, numa ebulição de ardores juvenis, a recente crise – fermentação de brios espezinhados e liberdades derrogadas – veio agitá-lo, assumindo caráter grave, uma interrogação se formulou, avantajada, em todos os espíritos. Seria a velha raça dos tempos do mestre de Avis e de 1640 que renascerá?
E prenhes de sombrias conjeturas outras se avolumavam, crepus- culando: seria em bem? Em mal seria?
Neste país que é um prolongamento transoceânico daquele ex- tremo do velho mundo, todos se interessavam por esse escachoar de sentimentos, onde se abriam luzidos relâmpagos, onde rolavam trovões longínquos.
E ela que, de improviso, a crise estoura convulsa, num repuxar selvagem de sangue que espadana pela História na crônica de mais um regicídio.
O assassinato, qualquer que ele seja, horroriza sempre. É um des- pertar de fera no coração de um homem. É um fato de eras remotas que veio latente, por secretos e subterrâneos caminhos de atavismo psíquicos e morais, jorrar em plena sociedade, a recordar a floresta o-
riginal. É sempre o avatar do homem das cavernas no homem das cidades.
Há graduações porém no crime.
O assassinato político envergonha a humanidade. Traz-lhe o sangue à face como uma vergastada.
O pária que tem fome e mata para roubar, – explica-se. O im- pulsivo que, num momento de cólera, mata para se desafrontar, – compreende-se. O indivíduo que na defesa da vida mata para não morrer, é animal, age por instinto, – compreende-se ainda. O polí- tico, fanatizado ou não, que mata por política, que mata por cálculo, é homem, age racionalmente, – revolta.
Nos primeiros casos, funciona um tribunal, abre-se a porta duma penitenciária, e tudo passou. Uma sepultura a mais no cemitério, mais um sentenciado na prisão, e a vida se normaliza. No último, não; fica sempre na alma aquela pausa angustiada, nos espíritos aquela reticência de horror de que acima falei.
Nestes tempos de hoje; tempos positivos que derrocaram, com ilusão, a poesia das instituições, não vemos mais sobre nas frontes reais a auréola do direito divino. Mas o sentimento é sempre o mesmo. Por este, ou este outro caminho, o espírito humano atinge sempre o mesmo ermo. A análise do fato nos conduz hoje a idêntica emoção, a idêntico horror das épocas em que no regicídio se via o sacrilégio. A impressão é a mesmíssima, seja aquele que tomba Henrique de Valois de Bourbon, algum dos Romanoff, Humberto de Saboia ou Carlos de Bragança. . .
Quando uma nação, na mais solene hora que a humanidade tenha visto, se constituiu em tribunal supremo para julgar um rei e a Europa atirou a cabeça de Luís XVI, houve uma convulsão nacional de que resultou o trágico evento. Não é o caso do regicida que mata de emboscada, pelo julgamento falaz da sua consciência desviada.
O assassinato do soberano português deixa-nos dolorosíssima im- pressão, mais do que a de outros casos emocionantes. É que não há somente a avolumá-la à dramática moldura que a circunda. No rei,
O regicídio português nas páginas da imprensa rio-grandina 39 nós, alheados à política interna de Portugal, víamos o chefe de um povo irmão, o amigo cuja visita nos aprestávamos para festejar numa verdadeira expansão de alma nacional. Há mais ainda: os últimos reinantes assassinados têm-no sido, como Humberto da Itália, como Isabel da Áustria, pelo tresvario do anarquismo terrorista. A lei do
habito actus, e quando chega a nova de que uma fronte coroada foi
alvo do atentado, dum êmulo de Ravachol, é como se fosse uma coisa já esperada; não estupidifica. Mas agora se manifesta o legítimo tipo do assassinato político, a forma clássica do regicídio.
E nós lembramos que dos punhais de Jacques Clément e Ravaillac as carabinas do Terreiro do Paço medeiam vários séculos de civiliza- ção. . .
Oh! A civilização!. . . Linda utopia com que se acalenta a raça hu- mana, como com formosas lendas de fadas nos embalavam nossas amas. . . Lá está, num dos cárceres da torre de S. Julião, aquele ad- mirável poeta que dizia, há trinta anos: “A civilização é a selvajaria aperfeiçoada.” Há paradoxos que a fatalidade, nos seus sarcasmos, se compraz em demonstrar.
O regicídio de 1o
de fevereiro enluta um povo, enluta uma raça, en- luta a humanidade inteira. É o rebentar súbito de um minuto da Idade Média em pleno século XX. E, sobre esta página negra da humanidade, ficará pairando, tragicamente suave, a figura branca dessa rainha, bra- ços abertos, a ofertar-se um alvo para resguardar um filho. . . que já é cadáver – nota divina dessa tragédia humana. . .
Vivaldo Coaracy