A formação docente inclui as ações pedagógicas cotidianas do professor em contato direto com o seu ambiente de trabalho e a comunidade acadêmica onde se insere. Trata-se então, da construção de um saber singular que cada profissional constitui durante a sua trajetória profissional passo a passo. Trata-se de uma formação ancorada na vivência de sala de aula e em experiências de vida como professor articuladas pela coletividade. A partir das redes de diálogos que se constroem é que o professor, como sujeito cognoscente, irá mobilizando seus saberes e reconstruindo seu conhecimento.
Sob o ponto de vista social, uma das características importantes da formação do profissional docente é a sua historicidade: a formação dos professores implica em um conjunto de saberes incorporado ao longo da própria vida, saberes estes que decorrem da sua imersão num contexto societário, das relações que vão se estabelecendo com pessoas e instituições variadas num processo gradativo de socialização.
A esse respeito, Tardif (2002, p. 71) explica que:
A socialização é um processo de formação do individuo que se estende por toda história de vida e comporta rupturas e continuidades [...]. Em sociologia não existe consenso em relação à natureza dos saberes adquiridos através da
socialização. [...] A ideia de base é que esses saberes (esquemas, regras, hábitos, procedimentos, tipos, categorias, etc.) não são inatos, mas produzidos pela socialização, isto é, através do processo de imersão dos indivíduos nos diversos mundos socializados, [...] nos quais eles constroem, em interação com os outros, sua identidade pessoal e social.
Neste caso, os professores estrangeiros, ao se deparar com um novo universo passarão necessariamente por um processo de socialização onde ele levará tempo para se acostumar com o jeito de ser dos alunos, dos colegas, mesmo com todo o repertório de saberes e práticas que ele traz consigo. O desafio de religação não irá sem provocar resistências e adesões a algumas práticas encontradas. O professor passará por um processo de eleição e de seleção daquilo que ele achar conveniente para ele, mas também para o grupo evitando assim sua rejeição. Certamente, terá de se departir de algumas crenças, hábitos e princípios e incorporar outros novos. No entanto, considerando-se o professor como um adulto em processo de construção de uma nova realidade, ou seja, que aprende, Nóvoa (1988, p. 128) enuncia princípios que embasam essa discussão afirmando que:
O adulto em situação de formação é portador de uma história de vida e de uma experiência profissional [...]. Mais importante do que pensar em formar esse adulto é refletir sobre o modo como ele próprio se forma, isto é, o modo como ele apropria do seu patrimônio vivencial através de uma dinâmica de compreensão retrospectiva.
Reconhecer que a importância da experiência nos processos de formação supõe que esta é encarada como um processo interno ao sujeito e corresponde ao longo de sua vida a um processo de sua autoconstrução/reconstrução como pessoa. No próximo capítulo, trataremos de esclarecer as escolhas metodológicas adotadas nesse trabalho.
ESCOLHAS METODOLÓGICAS: QUAL CAMINHO PERCORRIDO?
O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terá o que colher”. (Cora
Coralina)
A pesquisa é antes de tudo o momento de encontros, desencontros e embates. Encontros com possibilidades e impossibilidades, frustrações e alegrias. É o momento de ver a composição das tessituras sociais. Os conflitos, os embates e a natureza das ações humanas em seus espaços cotidianos. É preciso dizer que a pesquisa é também uma dupla pesquisa, aquela que faz com um sujeito e aquela que o sujeito faz com você. Processo de autoconhecimento de si - próprio como aprendiz de pesquisador. São sobre estes encontros, estas descobertas, estes momentos que acontecem quando se emerge em campo de buscas por respostas de questões que nos afligem, sobre as imaginações humanas, imaginações teóricas e empíricas que escrevemos este capítulo.
Em outras palavras, este capítulo tem como objetivo demonstrar os procedimentos, as técnicas, as aflições acontecidas durante a pesquisa de campo. Além, de colocar sobre o plano de análise as problemáticas com as quais nos envolvemos, os sujeitos em/da pesquisa, o objeto e o lugar de análise. Esse capítulo é a base, dele nascem todos os escritos desta pesquisa, é, portanto, a força pulsante, a fonte de erros e acertos. A escolha de um percurso para que se efetive uma compreensão mais próxima da realidade investigada, nem sempre é tarefa fácil, porém toda caminhada inicia-se com um primeiro passo.
Segundo Ludke & André (1986), a pesquisa como atividade humana e social traz consigo uma carga de valores, de preferências, interesses e princípios onde o pesquisador não se ausenta como indivíduo uma vez que os pressupostos que orientam seu pensamento vão também nortear a sua abordagem de pesquisa e, consequentemente, a metodologia utilizada.
Para desenvolver qualquer pesquisa, é fundamental que se tenha um método claramente definido e comprovadamente eficaz. Para Fiorese (2003, p. 27) “método (metodologia) é o conjunto de processos pelos quais se torna possível desenvolver
Produzir uma tese significa aprender e ordenar as próprias ideias que constituem uma experiência de trabalho metódico que exige disciplina, rigor e persistência, o que coloca realce sobremodo no processo, no enfrentamento das tensões advindas da autoria, nas inquietações teóricas, no confronto consigo mesmo, nas rupturas com os equívocos, na permanente abertura para novas aprendizagens.
São muitas as razões que levam alguém a se interessar por um estudo e as mais comuns são a prática e o local de atuação do profissional. Segundo Minayo (1997, p. 17) “nada pode ser intelectualmente um problema, se não tiver sido, em primeiro lugar, um problema de vida prática”. Deste ponto de vista, vimos que os interesses pela investigação de um problema resultam também das circunstancias sociais na qual o investigador está inserido.
Neste sentido, vale dizer que o tema dessa investigação representa uma construção advinda das diversas situações vividas e subjetivamente significadas, a partir da prática profissional que, em aproximação com as teorias estudadas, somam dúvidas que inquietam e provocam o desejo de conhecer mais, de compreender de outra maneira, de caminhar de um novo e outro jeito.
Meu caminho e a minha profissão, assim como a de qualquer outra pessoa, podem ser metaforicamente, comparados a uma estrada projetada para chegar-se a lugares determinados ou não. Segundo Lefebvre (1983, p.11) os trajetos são plenos de percalços e podem nos amedrontar. Por isso, é fundamental preparar-se para dar curso a uma caminhada. Complementa ainda esse mesmo autor, através de questionamentos, as dificuldades do percurso: como definir os caminhos? Como encontrá-los e reconhecer- se neles? Quem? Quando? Como? Por quê? O projeto e o trajeto conservam-se incertos e, não obstante, os percursos são obrigatórios.
De dados imediatos (os sujeitos estão aí nos cruzando todos os dias) e sensações primeiras (eles poderiam ser diferentes), iremos a fundo para desvelar, compreender a essência dos dizeres, dirigir o olhar às suas origens, rediscutindo a natureza da
informação (HISSA, 2003, p.185). Nesse sentido, ainda Lefebvre (1983, p. 216) que “o
imediato é apenas uma constatação [...] da existência de algo. O conhecimento não deve contar com o imediato, deve ir além, na convicção de que por detrás do imediato, há uma coisa, que ao mesmo tempo, se dissimula e se expressa”.
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E ainda:
O imediato, num certo sentido, é o concreto já que nos liga a ele, e, num outro sentido, é abstrato, já que as sensações nos dão apenas a superfície do mundo exterior, sua primeira relação conosco, seu lado voltado naturalmente para nós. (LEFEBVRE 1983, p. 223)
Após discorrer sobre os caminhos metodológicos a serem adotados, pretendemos na próxima parte indagar a respeito do método em si como principio norteador de todo o presente trabalho.