1.6.3.- CLÍNICA Y COMPLICACIONES
COMPLICACIONES CLINICAS AGUDAS 1.- Hipoglucemia
Ibn AbĪ Zar‘ assim descreve os Marínidas:
“Originários do deserto, onde pertenciam aos mais nobres dentre os Zenāta, os Marínidas vinham do Zāb [região da atual Argélia]. Não conheciam nem a prata, nem a moeda, nem a agricultura, nem o comércio. Toda a sua riqueza se reduzia a camelos, cavalos e escravos”3.
Os Marínidas parecem fornecer o modelo ideal para a teoria de Ibn Khaldūn sobre a ascensão das dinastias nômades e sua ‘asabiyya, ou “espírito de clã”, na qual o historiador identificava a força que fez os nômades saírem do deserto para conquistar territórios e fundar Estados. Após a batalha de Las Navas de Tolosa (1212), os Banū MarĪn, que viviam nas estepes pré -saarianas situadas entre TāfĪlālet e Figuig, iniciaram a invasão do nordeste do Marrocos e, valendo- - se do enfraquecimento do governo almóada, impuseram sua hegemonia aos agricultores locais, chegando a obrigar até cidades como Tāzā, Fés e al -Kasr al -KabĪr a lhes pagar tributo. Só os impelia, a princípio, o desejo natural de todos os nômades de enriquecer às custas dos povos sedentários, mas seus chefes vieram gradualmente a nutrir ambições políticas.
Entre 1240, data em que os Marínidas foram derrotados pelo exército almóada no cerco de Miknāsa (Meknes), e 1269, quando conquistaram Marrakech, a luta desenvolveu -se com sucesso intermitente. A lentidão para se chegar à conquista sem dúvida se explica pela falta de motivação religiosa no conflito, já que foi essa motivação o que contribuiu para que as conquistas dos Almorávidas e dos Almóadas se processassem num curto espaço de tempo. Contudo o primeiro ímpeto marínida, em 1248, foi coroado de sucesso; nesse ano, seu chefe Abū Yahyā (1244 -1258) tomou Fés, Tāzā, Miknāsa, Sala’ e Rabat. Sob o reinado de Abū Yūsuf Ya‘kūb (1258 -1286), que pode ser considerado o verdadeiro fundador do sultanato marínida, os últimos territórios ainda sob dominação almóada (o Alto Atlas, o Sūs e a região de Marrakech) foram sendo integrados ao novo reino, e a conquista de Marrakech, em 1269, pôs termo ao poder dos Almóadas.
Figura 4.2 A madraça Bou Inania, em Fés. Detalhe de uma janela do pátio; século XIV. (Foto Unesco/ Dominique Roger.)
Figura 4.3 A madraça Bou Inania, em Fés. Detalhe de uma meia -porta; século XIV. (Foto Unesco/ Dominique Roger.)
Figura 4.4 A mesquita de KarawiyyĪn, em Fés. Restauração da época almorávida; no pátio, a entrada central da sala de oração. (Clichê J. -L. Arbey.)
Em lugar de Marrakech, a nova dinastia escolheu Fés como capital; lá Abū Yūsuf fundou uma cidade, Fās al -DjadĪd (Nova Fés), passando a aglomeração mais antiga a chamar -se Fās BālĪ.
Embora não pudessem reivindicar nenhuma legitimidade religiosa, os Maríni- das logo se consideraram os herdeiros dos Almóadas, cujo império se esforçaram por restaurar, manifestando preferência por sua componente ibérica, o que, no entanto, não os impedia de se voltarem para o Oriente sempre que as condições se apresentassem favoráveis. Curioso fenômeno essa atração que as colinas verdes e as planícies férteis da Andaluzia exerciam sobre esses berberes originários do deserto, da estepe e da montanha, fossem eles Almorávidas, Almóadas ou Marínidas!
Como a história dos Haféssidas, a dos Marínidas pode ser dividida em dois grandes períodos, embora de menor duração: o primeiro cobre os reinados de Abū Yūsuf Ya‘kūb e de seu filho Abū Ya‘kūb Yūsuf (1286–1307); o segundo abrange os reinados de Abū ’l-Hasan (1331–1348) e de seu filho Abū Inān Fāris (1349–1358). Foi apenas durante esse segundo período que os Marínidas pude- ram aspirar, por pouquíssimo tempo, a uma autêntica hegemonia no Magreb.
A crescente influência dos árabes no Marrocos foi um dos dados marcan- tes do reinado dos Marínidas. Já sob os Almóadas os nômades árabes haviam começado a penetrar no território marroquino, modificando assim seu caráter exclusivamente berbere. A política dos Banū MarĪn face aos árabes, porém, foi ditada por considerações aritméticas: dada a fraqueza numérica dos Zenāta, que os apoiavam, eles só podiam acolher de bom grado a colaboração dos nôma- des árabes. Os próprios Zenāta em muito já se haviam assimilado aos árabes, e o makhzen marínida compunha -se de ambos os grupos. Todos esses fatores criavam condições favoráveis à expansão territorial dos árabes no Marrocos, em cujas planícies eles, de preferência, se fixavam. Numerosos grupos berberes foram arabizados. Ao contrário dos exércitos almorávidas e almóadas, onde se falava o berbere, sob os Marínidas a língua corrente e oficial passou a ser o árabe.
Esse processo de expansão dos árabes nômades também teve aspectos nega- tivos; enquanto o domínio dos nômades crescia incessantemente, diminuía o dos agricultores: campos, jardins e florestas eram transformados pelos nômades em áreas de pastagem. O desenvolvimento do nomadismo contribuiu, em grande parte, para cristalizar a estrutura social que iria caracterizar o Mar- rocos nos séculos seguintes: a divisão da população em nômades, citadinos e montanheses.
No plano político, resultava dessa divisão que somente as cidades e as zonas rurais adjacentes eram diretamente administradas pelos sultões, ao passo que as tribos makhzen, os árabes e os Zenāta desfrutavam de ampla autonomia, e, em
troca do serviço militar que prestavam, recebiam o direito de cobrar impostos dos camponeses. Porém, como não pudessem confiar inteiramente na lealdade e eficiência desses contingentes nômades, os governantes marínidas, da mesma forma que seus predecessores e vizinhos, passaram a depender mais e mais de exér- citos compostos por escravos mercenários, aquartelados nas grandes cidades. Os berberes do Atlas, do Rif e do Djibāl permaneceram fora do sistema de governo propriamente dito, embora às vezes reconhecessem a soberania dos sultões; no período de declínio dos Marínidas, lançaram incursões contra os territórios do
makhzen (bilād al -makhzen) e impuseram sua dominação ou protetorado a certas
regiões, assim ampliando os limites da “terra de dissidência” (bilād al -sibā). O afluxo regular de imigrantes andaluzes, que traziam consigo estilo mais requintado em matéria de arquitetura, artes e artesanatos diversos, assim como na literatura, imprimiu novo vigor à vida e à civilização urbanas. A capital, Fés, tornou -se o grande centro cultural do Marrocos, enquanto a antiga metró- pole, Marrakech, atravessou período de decadência. O enriquecimento cultural urbano, contudo, só veio aprofundar a separação entre as cidades e as zonas rurais, que continuavam a ter existência autônoma. Essa diferença era especial- mente perceptível no que diz respeito às modalidades da vida religiosa. Em Fés e em todas as grandes cidades esta se organizava em torno das universidades, como a de al -KarawiyyĪn, e das numerosas madraças (instituições de estudos islâmicos), nas quais predominava o rito ortodoxo maliquita, sob a proteção oficial dos sultões marínidas; os moradores dos campos, por sua vez, sentiam -se cada vez mais atraídos pelas zāwiya, pelas lojas das confrarias místicas (tarīka) e pelos santuários dos santos locais, os marabus. Essa tendência já começara a manifestar -se sob os Almóadas; estes haviam incorporado ao ensino oficial a doutrina de al -GhazzālĪ (morto em 1111) que integrara o misticismo
(tasawwuf ) ao islamismo ortodoxo. Sob o reinado dos Marínidas, a criação
de várias ordens sufi, que na sua maior parte constituíam ramificações da
kādirīya, marcou a institucionalização do misticismo. Tal manifestação do
islamismo popular muito contribuiu para a islamização das áreas rurais na medida em que conseguiu penetrar as regiões mais afastadas do Marrocos, alcançando as populações montanhesas berberes, que até então mal haviam sido atingidas pelo Islã.
Os diferentes aspectos do desafio cristão e da correspondente reação dos muçulmanos na África do noroeste serão examinados mais adiante; no entanto faz -se necessário abordar desde já, ainda que de maneira sucinta, a questão das intervenções marínidas na península Ibérica. Após ter consolidado sua autori- dade no Marrocos, Abū Yūsuf Ya‘kūb atravessou o estreito de Gibraltar (1275)
e conseguiu vitória decisiva sobre os castelhanos nas proximidades de Ecija (Istidja’). Até o ano de 1285 o sultão lançou três novas campanhas contra os exércitos espanhóis, tendo a armada marínida derrotado a esquadra castelhana em 1279; este fato teve por efeito conter momentaneamente a ameaça que os cristãos representavam para o Marrocos e Granada. A quarta campanha resultou num acordo segundo o qual o rei de Castela se comprometia a não intervir nos negócios dos territórios muçulmanos na Espanha e a restituir os manuscritos árabes de que os cristãos se haviam apossado anteriormente. Essa paz de com- promisso (1285) foi exaltada pelos Marínidas como se fosse uma vitória.
O sultão Abū Ya‘kūb Yūsuf precisou reprimir uma série de revoltas no sul do Marrocos, envolvendo -se com toda a energia na tentativa de conquistar Tlemcen e liquidar a Dinastia Zaiânida. Por essas razões, estava pouco disposto a dispen- sar suas forças intervindo do outro lado do estreito; em 1291, porém, como o rei de Castela rompesse o acordo firmado seis anos antes, o sultão viu -se forçado a empreender curta campanha – que não trouxe nenhum resultado positivo –, retomando, em seguida, as operações contra Tlemcen.
Depois do assassinato de Abū Ya‘kūb, a Dinastia Marínida atravessou período de eclipse devido, principalmente, à dissidência de um dos membros da família reinante, que se havia apoderado de vastas regiões do sul do Mar- rocos e assumido o controle do comércio transaariano. Só se pôs fim à rebelião depois que Abū ’l -Hasan ascendeu ao trono, em 1331. Enquanto durou essa luta intestina, os Marínidas tiveram que renunciar à sua política ofensiva, tanto na Espanha quanto no Magreb.
Abū ’l -Hasan foi, sem dúvida, o maior dos sultões marínidas. Pouco após sua ascensão ao poder, reafirmou a autoridade de Fés sobre o Marrocos meridional, pôs fim aos conflitos internos e retomou a política de conquistas. Durante a primeira metade do reinado, consagrou todos os esforços ao restabelecimento da soberania muçulmana na Espanha, o que se tornava premente, pois em 1337 o rei de Castela retomou as hostilidades contra Granada. Em 1333, o exército marínida atravessou o estreito de Gibraltar e conquistou Algeciras. Nos seis anos que se seguiram, Abū ’l -Hasan e o emir násrida de Granada juntaram forças na tentativa de vibrar golpe mortal contra a Espanha cristã, ameaça que levou à aliança entre Castela e Aragão. A frota marínida, com o reforço de alguns navios haféssidas, conseguiu garantir o controle sobre o estreito e vencer, em 1340, as forças navais castelhanas em batalha decisiva. O exército muçulmano cercou, então, a fortaleza de Tarifa, que conseguiu resistir até a chegada das tropas cristãs enviadas em seu socorro. Nos ferozes combates que marcaram a batalha de Rio Salado (1340), o exército muçulmano sofreu pesada derrota, a
mais grave desde Las Navas de Tolosa. Em 1344, Algeciras foi recuperada pelos cristãos. Embora Gibraltar continuasse em poder dos Marínidas, a derrota de Rio Salado, a que logo se seguiram novos desastres na IfrĪkiya, forçou o sultão a desistir de sua aventura espanhola. A partir de então, os Marínidas – assim como todas as demais dinastias marroquinas que os sucederam – viram -se sem condições de intervir ativamente na Espanha. O último vestígio do que fora o glorioso império muçulmano na Espanha, o emirado de Granada, ficou, assim, entregue a si mesmo, em sua desesperada luta pela sobrevivência.
Tanto os Zaiânidas de Tlemcen quanto os Marínidas de Fés aproveitaram- - se da fraqueza dos Haféssidas durante a primeira metade do século XIV para alargar seus respectivos domínios. Abū ’l -Hasan valeu -se da ocasião com muita habilidade; a pretexto de socorrer os Haféssidas ameaçados pelo soberano zaiâ- nida, invadiu o Magreb central em 1235 e, após assédio de dois anos, conquistou Tlemcen, capital zaiânida. Essa vitória sobre seus tradicionais adversários – vitória que ele fez proclamar perante todos os monarcas do mundo muçulmano – deu a Abū ’l -Hasan a possibilidade de concretizar seu sonho de um Magreb unificado sob sua autoridade. O território zaiânida foi ocupado pelos exércitos marínidas, e os Haféssidas tornaram -se praticamente vassalos de Abū ’l -Hasan. Mais tarde, num momento em que a Dinastia Haféssida se encontrava nova- mente às voltas com conflitos de sucessão, o sultão marchou sobre Túnis (1347) e anexou o Reino Haféssida. Essa conquista marcou o ponto culminante de seu
reinado e da história da Dinastia Marínida4.
Ao apogeu seguiu -se a queda: a política de interferência nos negócios das cabilas árabes da IfrĪkiya conduzida por Abū ’l -Hasan terminou por levá -las a uma revolta generalizada; em 1348, o exército do sultão sofreu uma derrota perto de Kayrawān, e Abū ’l -Hasan viu -se cercado em sua própria capital. Embora conseguisse escapar e restabelecer, ao menos em parte, sua autoridade em Túnis, essa derrota revelava a fragilidade da hegemonia marínida sobre o Magreb. Tlemcen repeliu o jugo da Dinastia Marínida; os príncipes haféssidas de Bidjāya, Constantine e Annāba (Bône) seguiram -lhe o exemplo. O filho de Abū ’l -Hasan, Abū Inān Fāris, proclamou -se sultão em Fés, depondo o próprio pai; quando este tentou recon- quistar o trono, com o que restara de seu exército, foi derrotado por Abū Inān Fāris, em 1350, vendo -se obrigado a buscar refúgio nas montanhas, onde morreu um ano mais tarde.
4 O grande historiador Ibn Khaldūn alimentou, por muito tempo, a esperança de que os Marínidas pudessem reunificar o Magreb; assim, o insucesso de Abū ’l -Hasan trouxe -lhe grande decepção. Ver IBN KHALDūN, trad. francesa, 1852 -1856, v. 4, p. 253.
A ascensão e queda de Abū ’l -Hasan pode ser vista como uma síntese da história heroica e trágica do Magreb sob as dinastias berberes: uma lenta acumu- lação de forças, a que se segue um longo período de sucessos cada vez maiores, e repentinamente, no apogeu da glória, no momento em que finalmente parecem realizar -se os projetos mais audaciosos, o desastre e a queda que destroçam tudo o que até então se conquistou, liberando por completo as forças da anarquia e da discórdia. As causas do revés final de Abū ’l -Hasan lembram as que levaram ao declínio dos Almóadas: excessiva dispersão dos recursos humanos e materiais em campanhas ofensivas lançadas em duas direções, incapacidade de admitir os particularismos e interesses locais e tribais, situação financeira precária, falta de coesão interna até mesmo no seio da própria dinastia.
Os primeiros anos do reinado de Abū Inān Fāris transcorreram em clima de prosperidade, tal como no governo do pai, vinte anos antes. Demonstrando ambição igual à de Abū ’l -Hasan, arrogou -se o título de amīr al -mu’minīn, pri- vativo dos califas, e quis reunificar o Magreb. Em 1352, reconquistou Tlemcen; no ano seguinte, foi a vez de Bidjāya, e, em 1357, no ápice da glória, tomou Túnis. Apesar de todos esses sucessos, sua queda foi tão rápida quanto a do pai e deveu -se às mesmas razões – basicamente a oposição dos árabes, que o obrigou a abandonar a IfrĪkiya e retornar a Fés, onde foi assassinado, pouco tempo mais tarde, por um dos vizires. Com a morte de Abū Inān Fāris encerra -se o período da grandeza marínida. A partir de então, a história da dinastia, até sua extinção no século XV, foi apenas de anarquia, revolta e decadência em todos os níveis, político, econômico e cultural. Entre 1358 e 1465, nada menos que 17 sultões sucederam -se no trono de Fés, porém nenhum capaz de conter quer as forças de dissensão interna, quer a ameaça externa. Os vizires viram aumentar seu poder, sendo que, a partir de 1420, tal função se tornou privilégio dos membros do clã Banu Wattās, da tribo dos Zenāta. Os Watássidas, cuja influência era crescente, tiveram o poder de fazer reis durante a segunda metade do século XV até 1472, data em que Muhammad al -Shaykh foi proclamado sultão em Fés, após seis anos de lutas contra os xarifes que se pretendiam descendentes de Idris II (fun- dador de Fés) e objetivavam o poder político. A ascensão desses xarifes estava relacionada ao culto dos santos e à crença na baraka (bênção) que podia ser concedida pelos marabus e, mais especialmente, pelos descendentes do profeta Maomé. Por outro lado, a crescente pressão exercida sobre o Marrocos pelos portugueses suscitou amplo descontentamento popular e a oposição à Dinastia Marínida, que se mostrara incapaz de conter as incursões dos infiéis.
Embora os primeiros sultões watássidas, Muhammad al -Shaykh (1472– 1505) e seu filho Muhammad al -BurtukālĪ (1505–1524), tivessem conseguido
restabelecer, em certa medida, o poder do sultanato de Fés, contendo o movi- mento xarifino, não foram capazes de impedir a expansão portuguesa no litoral atlântico. Ademais, a área de autoridade dos Watássidas quase não ia além de Fés e arredores; as regiões do sul do Marrocos, praticamente independentes, escapavam ao seu controle. Foi nessas regiões que as novas forças populares, sob o comando de uma família xarifina, deflagraram, no início do século XVI, guerra santa contra os fortes portugueses da zona costeira. Esses combates cons-
tituíram os primeiros passos rumo à queda definitiva da Dinastia Watássida5.
Os Zaiânidas (‘Abd al ‑Wādidas)
Originário de um ramo menor dos Zenāta, o governador almóada de Tilimsan (Tlemcen), Yaghmurāsan Ibn Zayyān, proclamou -se independente da tutela do sultão – que reinava sobre um império em plena desagregação – no ano de 1235, tal como fizera Abū Zakariyyā’ em Túnis. A dinastia que fundou sobreviveu por mais de três séculos (até 1554). Desde o nascimento, o novo reino teve a exis- tência ameaçada por vizinhos, mais poderosos, do oeste e do leste, e pelos árabes nômades do sul. É quase um milagre que tenha sobrevivido por tanto tempo. Tal longevidade foi fruto de política hábil, conduzida por alguns soberanos muito capazes, dentre os quais, os mais bem -sucedidos foram o próprio Yaghmurāsan, fundador da dinastia (1235 -1283), e Abū Hammū II (1359–1389). Sob esses soberanos, o reino de Tlemcen tomou por diversas vezes a ofensiva contra os Marínidas e Haféssidas, tendo como objetivo atingir o vale do Chelif e Bidjāya, a leste, e chegar até as cercanias de Fés, a oeste. A maior parte do tempo, porém, os Zaiânidas foram forçados à defensiva. Tlemcen foi atacada e cercada seguidas vezes por tropas marínidas, e, no século XV, os marroquinos ocuparam por vários decênios a maior porção do território zaiânida.
Os períodos de fraqueza da dinastia foram todos explorados pelos árabes nômades, que penetraram sistematicamente até o centro do reino, conseguindo privá -lo de algumas das suas províncias periféricas. Paralelamente, a arabização dos berberes Zenāta intensificou -se de tal modo que a Argélia ocidental veio a perder seu caráter essencialmente berbere.
A principal debilidade do reino devia -se ao fato de serem suas bases eco- nômicas estreitas e unilaterais: o Estado, cujo território compreendia as regiões menos férteis do Tell, tinha uma população sedentária numericamente pequena e uma grande maioria de pastores nômades, os quais, por sua vez, sofriam a
pressão das incursões dos árabes originários do sul, perdendo regularmente suas pastagens. A instabilidade assim criada contribuiu em grande medida para a multiplicação dos conflitos tanto no interior da sociedade como no seio da pró- pria dinastia. Não surpreende, dadas estas condições, que os Zaiânidas tenham estado submetidos por longos períodos aos protetorados marínida, haféssida e, ainda, ao aragonês.
Em condições políticas e econômicas tão desfavoráveis, parece inacreditá- vel que esse Estado tenha conseguido sobreviver até a conquista otomana, em meados do século XVI. Seu principal trunfo foi a cidade de Tlemcen, o mais importante dos entrepostos comerciais do Magreb central, depois de Tāhart, Graças à sua posição geográfica – no encontro da privilegiada rota norte -sul, que ia de Orã (Wahrān) aos oásis saarianos, prosseguindo até o Sudão, com o eixo oeste -leste, que ligava Fés à IfrĪkiya – Tlemcen logo superou as demais metrópoles, tornando -se o ponto central no comércio entre a Europa, o Magreb