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Embora a corrente de transmissão direta nunca tenha sido interrompida, é certo que a Idade Média cristã só pôde descobrir, apreciar e compreender realmente a herança do pensamento antigo através das obras dos filósofos árabo -muçulmanos, entre os quais os andaluzes e magrebinos ocupam lugar de honra. Não possuímos nenhuma versão latina da obra de Ibn Bādjdja: só chegaram a nossos dias versões hebraicas, como a do Tadbīr al -Mutawahhid (O regime do solitário), feita por Moisés de Narbona em meados do século XIV. O mesmo ocorreu com a obra de Ibn Tufayl: seu Hayy ben Yakzān, tra- duzido para o hebraico em data indeterminada, foi comentado por Moisés de Narbona, na mesma língua, em 1349. A primeira tradução latina de que temos conhecimento, realizada por Pococke com o título de Philosophus autodidactus, data de 1671. É certo, no entanto, que Ibn Bādjdja e Abū Bakr (Ibn Tufayl), chamados respectivamente de Avempace e Abubacer, não eram desconhecidos da Idade Média latina.

Mas o grande mestre foi incontestavelmente Ibn Rushd (Averróis). Muitas de suas obras foram traduzidas – a ponto de terem chegado a nós, em grande parte, exclusivamente em versão latina ou hebraica – e discutidas com paixão. Da multidão de seus tradutores emerge a figura do inglês Michael Scot, que pode ser considerado pioneiro na difusão do averroísmo. A seu lado destacou -se Hermann, o Alemão (morto em 1272). Os dois integravam a corte de Frederico II e haviam trabalhado em Toledo. Assinalemos também que os Ibn Tibbon da Provença se esforçaram para difundir o averroísmo entre os judeus. O sucesso das obras de Averróis foi tão grande que várias versões de seus Comentários foram elaboradas já no século XIII.

Averróis, adversário de al -GhazzālĪ e autor do Tahāfut (traduzido com o título de Destructio destructionis), aparecia naturalmente como o campeão do racionalismo e do antidogmatismo aos olhos dos literatos da Idade Média latina. Destarte, o Ocidente cristão dividiu -se em dois campos: os averroístas e os antiaverroístas. O defensor mais fervoroso de Averróis na Universidade de Paris foi Sigério de Bra- bante. No entanto as teses consideradas averroístas – as quais, entre outras coisas, afirmavam a eternidade do mundo e negavam a imortalidade da alma individual – não podiam deixar de mobilizar os defensores da Igreja. Alberto Magno (1206- -1280), Santo Tomás de Aquino (1225 -1274) e Raimundo Lúlio dirigiram ofensiva particularmente vigorosa contra elas. O averroísmo continuava, no entanto, a seduzir. Em 1277, foi preciso condená -lo oficialmente. Sigério, preso e excomungado, teve fim trágico, por volta de 1281. Que as condenações fossem devidas a um erro de

interpretação, pouco importa. Jules Romains mostrou, em Donogoo, como o erro pode ser fértil. Averróis abalou violentamente os espíritos; fez pensar, quer por adesão, quer por reação. Um sinal seguro de seu sucesso e das paixões que desper- tou é o fato de se ter tornado um símbolo de descrença até para os pintores. Em Pisa, Andrea Orcagna oferece -lhe um lugar de destaque, ao lado de Maomé e do Anticristo, em seu Inferno, que orna o Campo -Santo, e, na Igreja de Santa Catarina, numa pintura de Francesco Traini, executada por volta de 1340, pode -se ver o filó- sofo de cabeça para baixo aos pés de Santo Tomás. Ora, por uma dessas ironias do destino que revertem as situações, Averróis teve seu maior triunfo justamente sobre o seu suposto vencedor. “Santo Tomás é ao mesmo tempo o mais sério adversário da doutrina averroísta e, pode -se dizer sem paradoxo, o primeiro discípulo do grande comentarista”, escreve Ernest Renan22. M. Asín Palacios e José María Casciaro

compartilham esse ponto de vista ao apontarem o “averroísmo teológico” de Santo Tomás, em cuja obra se encontram nada menos do que 503 citações do grande filósofo. Expurgado, ou mais bem compreendido, Averróis conheceu triunfo ainda maior no século XIV. João Baconthorpe (morto em 1346), provincial dos carmelitas da Inglaterra, foi considerado o “príncipe dos averroístas de seu tempo”. E, em 1473, quando reorganizava o ensino da filosofia, Luís XI recomendou a doutrina de “Aris- tóteles e seu comentarista Averróis, reconhecida, há muito tempo, como benéfica e salutar”23. Mas foi na Universidade de Pádua – onde estudou Cesare Cremonini

(morto em 1631), último dos grandes discípulos de Averróis – que o averroísmo exerceu seus efeitos mais brilhantes e duradouros; sua tradição só veio a se extinguir por completo no século XVIII.

As ciências

Na Idade Média, os filósofos com frequência exerciam a medicina. Averróis também legou ao Ocidente cristão uma obra médica; Kitāb al -Kulliyāt (Livro das generalidades) foi traduzido em Pádua em 1255 pelo judeu Bonacossa, com o título de Colliget. As melhores obras dos representantes da célebre escola de medicina de Kayrawān – Ishāk ben ‘Imrān (morto em 893), Ishāk ben Sulaymān al -Isrā’ĪlĪ (morto em 932) e Ibn al -Djazzār (morto em 1004) – já haviam sido traduzidas no século XI por Constantino, o Africano, e eram usadas para o ensino em Salerno. A obra médica de Ishāk al -Isrā’ĪlĪ permaneceu em alta conta até o fim do século XVI. Foi publicada em Lião, em 1575, com o título de Omnia opera

22 RENAN, 1866, p. 236. 23 Ibid., p. 317.

Ysaac. O Zād al -Musāfir (Viático do viajante), de Ibn al -Djazzār, teve o mesmo

sucesso. Além da versão latina, existem uma em grego e outra em hebraico. O

Kitāb al -Ta‘rīf do andaluz Abū al -Kāsim al -ZahrāwĪ (conhecido como

Abulcasis, 931–1013), parcialmente traduzido por Gerardo de Cremona com o título de Alsaharavius ou Açaravius, gozou de grande renome durante toda a Idade Média, principalmente no que concerne à cirurgia. Finalmente, a versão latina do Taysīr, de Ibn Zuhr, feita por Paravicius, tornou -se conhe- cida em Veneza em 1280. Todas essas obras, embora não tivessem alcançado o mesmo nível de difusão ou a notoriedade do Cânon da medicina – a bíblia de todos os médicos da Idade Média –, do oriental Avicena, muito contribuíram para o progresso dos estudos médicos no Ocidente cristão. A farmacologia medieval deve ao andaluz Ibn Wāfid (Abenguefit, 988 -1074) uma de suas obras básicas, também traduzida por Gerardo de Cremona com o título de

De medicamentis simplicibus.

A contribuição andaluza e magrebina à difusão das ciências matemáticas e astronômicas no Ocidente cristão não foi menos importante. Adelardo de Bath traduziu as Tábuas astronômicas de Maslama al -MadjrĪtĪ, estabelecidas por volta do ano 1000 com base no trabalho de al -KhwārizmĪ (morto em 849). Yehudā ben Moshe concluiu em 1254 a tradução castelhana da vasta enciclopédia astro- lógica de Ibn AbĪ al -Ridjāl (morto após 1037), da IfrĪkiya, o Kitāb al -Bāri

fī -ahkām al -Nudjūm. O texto castelhano serviu de base para duas versões latinas,

três hebraicas, uma portuguesa, e outras em francês e em inglês, o que indica o enorme sucesso da obra. Deve -se a Gerardo de Cremona a tradução das Tábuas de al -ZarkālĪ (Azarquiel) – que, com o título de Tablas toledanas, se impuseram a toda a Europa medieval – e uma versão do Islāh al -Madjistī (Reforma do Almagesto), de Djāhir ben Aflah (Geber ou Jabir). O Tratado de astronomia (Kitāb fī ’l-Hay’a) de al -BitrūdjĪ (Alpetragius) foi traduzido para o latim por Michael Scot e para o hebraico por Moisés ben Tibbon em 1259. A partir dessa versão, Kalonimos ben David fez, em 1526, nova tradução latina, impressa em Veneza em 1531, sinal do contínuo sucesso da obra. Destaquemos, enfim, que o gênio matemático Leonardo de Pisa ou Fibonacci (nascido por volta de 1175, passou muito tempo em Bidjāya, onde o pai era notário) muito deve, principalmente no domínio da álgebra, à influência árabe, cujo sistema numérico ele introduziu na Europa.