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Tipos de Diabetes

1.6. DIABETES MELLITUS TIPO 2

A queda dos Almóadas devolveu o Magreb à situação que precedera a ascensão dos Fatímidas (ver volume 3, capítulo 10); três Estados independentes – não raro,

adversários – formaram -se sobre os restos do império, internamente minados pelas querelas dinásticas e pelas revoltas e, no plano externo, cada vez mais ameaçados pelos ataques do inimigo cristão. Esses três territórios terminariam por dar ori- gem aos Estados que tomaram os nomes de Tunísia, Argélia e Marrocos e que, a despeito das várias características comuns, evoluíram de maneiras diferentes.

Como o capítulo seguinte (capítulo 5) traz uma descrição pormenorizada da sociedade do Magreb pós -almóada, limitar -nos -emos, aqui, a traçar um resumo com as características gerais das estruturas políticas e sociais daqueles Estados. Cada um dos três territórios foi governado por uma dinastia de origem berbere,

porém profundamente arabizada, que contava com o apoio das cabilas makhzen1

e que, na prática, controlava apenas as cidades e os grupos sedentarizados das planícies. As regiões montanhosas e as vastas estepes constituíam bastiões dos montanheses berberes ou de nômades árabes sempre prontos a atacar as regiões periféricas do território makhzen. A obediência aos decretos do sobe- rano media - se segundo o poder efetivo deste e sua capacidade de exercê -lo. Os sultões haféssidas e marínidas disputaram seguidas vezes o título de califa, único meio de conseguir de seus turbulentos súditos o reconhecimento de sua autoridade espiritual. Suas pretensões, porém, jamais alcançaram eco além das fronteiras de seus próprios territórios. Excetuando -se o efêmero reconheci- mento do soberano haféssida al -Mustansir, em meados do século XIII, pelos xarifes de Meca e pelos Mamelucos do Egito, esses “califas” ocidentais foram incapazes de rivalizar com o califado abássida do Cairo no que diz respeito ao reconhecimento da função de califa pelo conjunto do mundo islâmico.

Durante o período pós -almóada, os três Estados também tiveram que lutar contra a pressão cada vez mais forte que os Estados cristãos da península Ibérica, da Itália, da Sicília e da França exerciam sobre todo o Magreb. Tal pressão – a um tempo militar, política e econômica – era consequência das modificações ocorridas no equilíbrio de forças entre a Europa ocidental e os países islâmicos do Mediterrâneo. Os três Estados do Magreb tentaram encontrar os meios de enfrentar essa agressividade, nova, do mundo cristão e, embora tivessem sofrido várias perdas menores e não conseguissem evitar que Granada, último reduto da presença muçulmana na Espanha, caísse em poder dos cristãos, de modo geral foram capazes de preservar seu patrimônio. Podemos indagar, porém, se o Magreb em seu conjunto – ou pelo menos em suas regiões orientais – não teria conhecido destino idêntico ao de Granada, no século XVI, não fosse

1 Makhzen significava originalmente “tesouro”; com o passar do tempo, veio a designar o sistema oficial

Áfr ic a do século xii ao século xv i

o surgimento de uma nova potência islâmica, o Império Otomano, que nesse período decisivo restabeleceu o equilíbrio de forças na bacia do Mediterrâneo. Não se deve esquecer que, nessa época, os Estados ibéricos – Portugal e Espanha – envolviam -se cada vez mais em empresas ultramarinas, as quais concentravam quase todos os seus interesses e a maior parte dos seus recursos humanos.

Três dinastias sucederam aos Almóadas, repartindo entre si o Magreb e conservando -se no poder durante a maior parte do período que ora nos interessa: a dos Haféssidas (1228–1574), que teve Túnis por capital, a dos Zaiânidas (‘Abd al -Wādid - 1235–1554), que governou em Tlemcen (Tilimsan), e a dos Marínidas (c. 1230–1472), instalada no Marrocos. Começaremos por situar os principais acontecimentos que marcaram a história dessas três dinastias, para depois exami- nar os fatos essenciais da história da África setentrional como um todo.

Os Haféssidas

O ancestral epônimo da dinastia foi o célebre companheiro do mahdī Ibn Tūmart, Abū Hafs ‘Umar al -HintātĪ, xeque dos berberes Hintāta, que em muito contribuiu para o esplendor do Império Almóada. Seu filho ‘Abd al -WahĪd Ibn AbĪ Hafs governou a IfrĪkiya de 1207 a 1221 com poderes quase autônomos de fato, lançando dessa forma as bases para a futura independência da região. Em 1228, Abū Zakariyyā’, filho de ‘Abd al -WahĪd que se distinguira na luta contra os Banū Ghāniya (últimos representantes dos Almorávidas na IfrĪkiya), assumiu o governo. Sob o pretexto de defender o verdadeiro ensinamento e espírito do movimento almóada – eram os tempos em que tal doutrina estava repudiada pelo próprio califa almóada –, Abū Zakariyyā’ deixou de citar o nome do soberano no sermão (khutba) do meio -dia de sexta -feira e assumiu o título de emir independente (em 1229). Sete anos mais tarde, afirmou sua soberania em caráter definitivo ao incluir o próprio nome na khutba.

Embora tivesse rompido com a tutela política dos califas almóadas, Abū Zakariyyā’ não renegou a doutrina almóada: ao contrário, justificou sua própria ascensão ao poder como sendo um meio de fazer reviver a autêntica ortodoxia almóada, e nisso teve certo êxito, pois vários centros do Marrocos e da Andaluzia reconheceram -no como califa legítimo. Em 1233, pôs termo, definitivamente, à rebelião dos Banū Ghāniya na região meridional da IfrĪkiya. Suas campa- nhas a oeste saldaram -se por vitórias: sucessivamente conquistou Constan- tine, Bidjāya e Argel; a leste, submeteu toda a costa da Tripolitânia. Assim, reuniu os elementos que iriam constituir o território haféssida. O próprio fundador da Dinastia Zaiânida (‘Abd al -Wādid), Yaghmurasān Ibn Zayyan,

submeteu -se à sua autoridade, e tanto os Marínidas quanto os Násridas de Gra- nada reconheceram - no como suserano.

O estabelecimento da paz e da segurança permitiu rápido crescimento eco- nômico, e a capital Túnis voltou a ser frequentada por mercadores estrangeiros, provenientes da Provença, da Catalunha e das repúblicas italianas. As relações com a Sicília tornaram -se amistosas, mas em 1239 o soberano haféssida pas- sou a pagar tributo a Frederico II pelo direito ao comércio marítimo e à livre importação do trigo da ilha.

Quando Abū Zakariyyā’ morreu, em 1249, deixou a seu filho e sucessor, Abū ‘Abd Allāh Muhammad al -Mustansir (1249–1277), um Estado próspero e seguro, de incontestada hegemonia na África setentrional. Conspirações e revoltas jamais ameaçaram seriamente a autoridade de al -Mustansir, ainda que a abalassem ocasionalmente as rivalidades entre os xeques almóadas e os refu- giados e imigrantes andaluzes, os quais constituíam elite política de considerável influência. Em 1253, al -Mustansir tomou o título de amīr al -mu’minīn, sendo reconhecido como califa pelos xarifes de Meca em 1259 e, um ano mais tarde, pelos Mamelucos do Egito. Mas durou pouco esse seu reconhecimento pelo Oriente, que, aliás, se devia apenas a um concurso de circunstâncias excepcionais: o último califa abássida de Bagdá fora morto em 1258 pelos mongóis, deixando vago o califado. Em 1261, o sultão mameluco Baybars instalou no Cairo um califa abássida fantoche, cuja linhagem seria a única reconhecida por todo o Oriente muçulmano até 1517. Apesar disso, o efêmero califado de al -Mustansir comprova o grande prestígio dos Haféssidas no mundo islâmico, em que seu Estado era tido como um dos mais poderosos e estáveis.

Alguns anos mais tarde, al -Mustansir teve a oportunidade de aumentar sua reputação no mundo muçulmano, graças aos efeitos da Cruzada conduzida contra Túnis por Luís IX, rei de França, em 1270. Não são muito claras as

razões para essa Cruzada tardia, e existem numerosas interpretações a respeito2.

Aventou -se a hipótese de que os franceses teriam sido atraídos pela prosperidade da IfrĪkiya, ou ainda, conforme relata Ibn Khaldūn, de que comerciantes da Provença, diante da dificuldade de obterem o retorno do dinheiro que haviam emprestado aos tunisianos, teriam insistido para que se fizesse a expedição. Por sua vez, São Luís (Luís IX) acreditava que al -Mustansir queria se converter ao cristianismo; ademais, tencionava usar a IfrĪkiya como base para futura cam- panha contra o Egito. A expedição foi mal preparada – até mesmo Carlos de

Anjou, rei da Sicília, irmão de São Luís, só foi informado da empresa no último instante. Os cruzados desembarcaram em Cartago, mas, passadas poucas sema- nas, uma epidemia devastou seu campo, matando o próprio rei. Carlos de Anjou apressou -se em concluir a paz: a Cruzada era -lhe inteiramente indiferente, e, por outro lado, tinha interesse em restabelecer as boas relações comerciais com o Estado haféssida. Al -Mustansir, que desde o começo das hostilidades pro- clamara a djihād (guerra santa) e reunira destacamentos compostos de homens de diversas cidades e de nômades árabes, estava tão disposto quanto Carlos de Anjou a encerrar rapidamente essa infeliz história, ainda mais que seus aliados nômades já começavam a voltar para o sul, buscando as pastagens de inverno. O tratado de paz foi um compromisso, e o califa haféssida aceitou continuar pagando tributo à Sicília, assim como os impostos sobre as importações de trigo; concordou igualmente em expulsar da IfrĪkiya os últimos representantes da Dinastia dos Hohenstaufen, que se haviam refugiado em terra africana depois de vencidos por Carlos de Anjou. Conclusão bastante inesperada a dessa última Cruzada: as relações comerciais tornaram -se ainda mais intensas do que antes. Sob os reinados de Abū Zakariyyā’ e de al -Mustansir, a Dinastia Haféssida teve seu primeiro apogeu: reconheceu -se sua hegemonia em todo o Magreb, entendendo -se sua autoridade até a Espanha muçulmana, a oeste, e até o Hidjāz (Hedjaz), a leste; os Estados europeus do Mediterrâneo ocidental não puderam ignorar seu poderio, e os governantes espanhóis e italianos empenharam -se em firmar alianças com o império.

Após a morte de al -Mustansir a situação foi se deteriorando, e durante mais de um século o Império Haféssida conheceu lutas intestinas periódicas entre os membros da dinastia reinante, sendo também abalado pelas revoltas dos árabes e pela dissidência de cidades e mesmo de regiões inteiras. Bidjāya e Constantine, cidades onde essa dissidência manifestou -se com maior intensidade, em várias ocasiões constituíram principados independentes governados por membros da dinastia que se opunham ao poder central. Essas tendências centrífugas se fizeram sentir com maior vigor nas épocas em que o poder central se revelava enfraque- cido: chegou a haver ocasiões em que três ou mais governantes haféssidas de diferentes cidades reivindicavam simultaneamente o trono de Túnis. Tal estado de coisas forçosamente reverteria o movimento do pêndulo do poder em favor do Magreb ocidental, ou seja, dos Marínidas do Marrocos, que, em duas ocasiões, em 1348 e 1357, lograram ocupar com suas tropas parte considerável do território haféssida, inclusive a própria capital, Túnis. Mas essas duas ocupações foram de curta duração, tendo os nômades árabes depressa expulsado os invasores. Pelo fim do reinado de Abū Ishāk (1350 -1369), Bidjāya, Constantine e Túnis eram

governadas por três soberanos haféssidas independentes entre si, enquanto o sul, o sudeste e parte do litoral (Sāhil) se mantinham independentes de Túnis.

O renascimento do poderio haféssida teve início com Abū ’l-‘Abbās (1370-1394) e prosseguiu sob os longos reinados de seus sucessores Abū Fāris (1394 -1434) e ‘Uthmān (1435 -1488). Abū ’l-‘Abbās conseguiu reunificar e reorganizar o país; anulou as concessões de terras, refreou as tendências locais à insubordinação e restaurou o prestígio da dinastia. Dados os conflitos internos que por essa data grassavam em Tlemcen e a hostilidade então declarada entre Zaiânidas e Marínidas, nada tinha a recear quanto a seu flanco ocidental. Seu filho Abū Fāris completou a obra de reunificação por ele iniciada e destituiu as dinastias locais de Bidjāya, Constantine, Trípoli, Gafsa, Nafzawa e Biskra; para essas cidades nomeou governadores que escolheu dentre seus próprios escravos libertos. Posteriormente, estendeu sua autoridade aos Zaiânidas de Tlemcen e por diversas vezes interveio no Marrocos e até na Andaluzia. O sucesso de Abū Fāris devia -se, em grande parte, ao fato de praticar uma política de equilíbrio entre os principais grupos que compunham a população de seu reino – almóadas, árabes e andaluzes. Embora fosse muçulmano fervoroso, mostrou -se tolerante para com os judeus; a popularidade de que desfrutou vinha essencialmente de sua preocupação em ser justo, dos favores com que brindou as autoridades religiosas – tanto ulemás

(‘ulamā’) quanto xarifes – da supressão dos impostos ilegais, das construções que man-

dou edificar e, finalmente, da pompa com que fazia celebrar as festas muçulmanas. Embora os primeiros anos do reinado de ‘Uthmān, seu neto, tenham sido perturbados pela luta que o opôs a certos membros rebeldes de sua família, em linhas gerais o longo período em que governou foi pacífico; o sultão mostrou -se capaz de manter a integridade de seu reino. Num segundo momento, o governo de ‘Uthmān foi abalado pela fome e por epidemias de peste, assim como pelo reinício da agitação árabe no sul. Ainda assim, porém, conseguiu, não sem difi- culdades, manter sua influência sobre Tlemcen, e foi reconhecido pelo fundador da nova dinastia dos Watássidas (Banū Wattās) de Fés. Não se conhecem bem os últimos anos do reinado de ‘Uthmān, porém, ao que parece, ele próprio semeou os germes de problemas futuros ao retomar a prática de nomear membros de sua família para o posto de governador provincial. Se sua forte personalidade se revelara capaz de deter a propensão natural desses governadores à independên- cia, seus sucessores não conseguiram conter o fluxo da anarquia, e o segundo período de hegemonia haféssida esboroou -se tão abruptamente quanto o pri- meiro. Assim, o final do século XV e o começo do XVI viram a anarquia minar novamente a dinastia, a tal ponto que esta se tornou incapaz de fazer frente à perigosa situação criada pela rivalidade entre a Espanha e o Império Otomano,

ambos desejosos de obter a hegemonia na bacia mediterrânica. Mas os esforços desesperados dos Haféssidas para preservar sua independência num mundo em transformação pertencem já ao período estudado no volume V.