A vasta literatura sobre o estudo das finanças empresariais, relata que muitos dos problemas relacionados a essa área são reflexos do mal dimensionamento de mercado (CAMPOS, 2003; FRIZZO, CYRNE, 2000). Com efeito, o excesso de recursos aplicados inadequadamente para aquisições de fatores de demanda mal dimensionados pode acarretar danos à saúde financeira das empresas. Diante da grande variedade de bens exigidos para que uma empresa inicie e mantenha suas atividades operacionais, cumpre destacar o papel das mercadorias, frente às aplicações vultosas de recursos neste ativo que as empresas comerciais, objeto desta pesquisa, necessitam investir.
Além disso, sabe-se que o dano financeiro de curto prazo provocado pelo dimensionamento inadequado de mercado, junto com a equivocada aquisição de mercadorias, está relacionado à obrigatoriedade do pagamento das mercadorias, independente de suas vendas. Ainda sobre a mesma problemática, o mesmo efeito produzido nas finanças pode ocorrer a partir de aquisições antecipadas de mercadorias, as quais visam à obtenção de vantagens diante de preços exíguos e/ou prazos de pagamentos facilitados pelos fornecedores.
Em ambas as situações, no entanto, o risco corrido pelo caixa da empresa é elevado, sobretudo quando ela opera com baixa liquidez, como é exemplificado na quadro 1 a seguir.
0 1.410 2.910 3.500 3.700 3.800 3.500 5.110 6.710 M1 M2 M3 Fornecedores 2.090 2.200 2.255 Impostos 760 800 820
(-) Atividades operacionais Cíclicas (g) Desembolsos 1.500 1.500 1.500
1.410 2.910 4.455
(f)
(h)
BENS DISPONÍVEIS PARA VENDAS
(b) (c) (d) (e) -2020 ESTOQUE FINAL 1.040 -980
O
P
E
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A
Ç
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P
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ÍO
D
O
(=) Caixa Gerado no período pelas operações cíclicas e não-cíclicas
SALDO ACUMULADO DE CAIXA (i)
Resultado Cx Período 5.000 3.040 1.040 3.800 950 3.040 EVOLUÇÃO -460 -500 -520
SALDO INICIAL DE CAIXA (a)
FORNECEDORES (pagamentos de mercadorias não- comercializadas) 1.410 1.500 1.545 Alimentação do Caixa 1000 1025 (=) RESULTADO DO CAOS FINANCEIRO GERADO PELAS MERCADORIAS NÃO-VENDIDA
CAOS FINANCEIRO GERADO PELAS MERCADORIAS COM BAIXA ATIVIDADE DE GIRO
ESTOQUE INICIAL COMPRAS
PERÍODOS
-1960 -2000
ingressos gerados pelas operações do período
(-) Desembolsos garantidos pelas mercadorias vendidas
(=) Margem Financeira gerada pelas mercadorias vendidas
(-) Aniquilação das margens das mercadorias vendidas pelas não- vendidas
Vendas de Mercadorias 4.000 4.100
Quadro 1 - Efeito no caixa produzido por mercadorias estocadas com baixa atividade de giro, ao longo de três meses
Fonte: Elaborado pelo autor
O quadro 1 acima ilustra a simulação do efeito provocado pela aquisição de mercadorias com base em demandas mal planejadas. A partir desta perspectiva, observa-se o declínio do saldo inicial de caixa (a), à medida que as operações o vão consumindo mês a mês. O detalhamento do fluxo financeiro demonstrado na tabela anterior evidencia que o montante de margem financeira gerada pelas mercadorias vendidas(d) foi insuficiente para
pagar as mercadorias não comercializadas (e). Então, o déficit financeiro resultante dessa situação(f), adicionado ao valor dos gastos operacionais cíclicos(g) que dão suporte às atividades de compra e venda das mercadorias, reduzem consideravelmente o saldo inicial de caixa (h). Em suma, o valor aplicado nas mercadorias não-vendidas, além da absorção de parcela significativa da margem financeira gerada pelas mercadorias vendidas, contribuiu significativamente para o consumo da totalidade do saldo inicial de caixa, destacado na linha “I” da coluna “M3” do quadro que apresentou a simulação acima.
O efeito sucessivo do consumo do caixa inicial produz um déficit nas finanças da empresa ao término do período, obrigando o gestor a alterar a formatação de financiamento da Necessidade de Capital de Giro (NCG). Assim, considerando a simulação realizada, a empresa não consegue manter suas atividades operacionais com os recursos próprios e passa a depender de fontes externas para financiar essas atividades. Cumpre destacar que essa situação deficitária foi acarretada, exclusivamente, pelas mercadorias adquiridas em excesso.
Os resultados da aplicação de recursos em aquisições excessivas de mercadorias podem implicar duas situações: por um lado, podem trazer benefícios imediatos de redução do preço médio por item estocado, face aos descontos negociados junto aos fornecedores; por outro lado, porém, podem acarretar danos irreparáveis às finanças tanto do cliente, quanto do fornecedor, ao se pôr em perspectiva os efeitos produzidos por essa vantagem econômica de curto prazo auferida, em relação a um prazo mais elástico. Um exame mais detalhado dessa decisão permite identificar vantagens e desvantagens para ambas as partes relacionadas.
A vantagem, do ponto de vista do cliente, é representada pelo desconto no preço unitário de compra, produzindo aumento na margem unitária de contribuição da mercadoria vendida (diferença entre o preço de venda e o preço de custo da mercadoria). Em outra perspectiva, percebe-se desvantagem em virtude do comprometimento financeiro dos
períodos mais curtos, acarretado pelas aplicações excessivas de recursos em mercadorias que produzirão maiores ganhos em períodos futuros, quando vendidas.
Do ponto de vista do fornecedor, observa-se como vantagem a intensificação no ritmo de comercialização. Esse fato produz o rápido retorno ao caixa dos recursos aplicados na mercadoria, adicionados da margem de lucro, beneficiando, então, a dinâmica financeira no curto prazo. No longo prazo, no entanto, as aquisições excessivas do cliente, que favoreceram o caixa do fornecedor no curto prazo, podem vir a acarretar danos à manutenção dos ganhos econômicos das vendas para este, em virtude de uma possível dificuldade financeira que aquele possa vir a ter, devido aos excessivos recursos aplicados por ele em aquisições de mercadorias.
Em síntese, a expansão das aplicações de recursos em aquisições de mercadorias pode provocar uma seqüência de fatos que produzem efeitos nocivos ao capital de giro da empresa. Então, o crescimento anormal dos estoques no final do período gera a redução do giro médio das mercadorias, que amplia a extensão do tempo médio de rotação dos estoques e do ciclo operacional, acarretando dano ao Ciclo Financeiro.
Considerando os aspectos financeiros anteriormente relatados, resultantes de decisões gerenciais de aquisições de mercadorias, esta pesquisa abordou as empresas comerciais selecionadas, visando a classificar o dinamismo financeiro das mesmas, segundo sistema de avaliação em que a resultante SV seja a principal medida de aferição, conforme é apresentado em seguida.