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Carbon Stock of the Glacifluvial Soils Across the Study Area

5 Discussion

5.3 Linking Soil Carbon to the Deglaciation Landscape

5.3.4 Carbon Stock of the Glacifluvial Soils Across the Study Area

Os textos publicados por Bori desde o inicio de suas atividades como professora assistente da cadeira de psicologia no curso de Filosofia da Universidade de São Paulo já contém informações que ajudariam a definir a ciência conforme seu ponto de vista. Em 195922, por exemplo, ela publicou sua tese de doutorado, intitulado “Os experimentos de interrupção de tarefa e a Teoria de Motivação de Kurt Lewin”. Nele, antes de discutir os experimentos de interrupção de tarefas, a autora discute a maneira pela qual a ciência se desenvolve, apresentando a necessidade de “adotar a maneira de pensar galileica” (Martuscelli, 1959, p. 12), em vez da maneira de pensar aristotélica.

       

Segundo a análise da autora, os conceitos aristotélicos são organizados de forma dicotômica, são classificações abstratas e incluem valoração. Cientistas que adotam esta visão consideram como objeto apenas aqueles eventos que são regulares e frequentes: fatos individuais ou exceções acabam ficando de fora das concepções científicas.

Uma concepção mais adequada de ciência, proveniente da física, seria a concepção galileica. Cientistas que adotam esta concepção se opõem ao uso de conceitos valorativos. Os conceitos dicotômicos se tornaram, por sua vez, graduações contínuas: “Verificou-se uma transição do conceito de classe para o conceito de série” (Martuscelli, 1959, p. 12). Assim a autora descreve a importância deste novo modo de elaborar conceitos científicos:

Uma das contribuições mais importantes da maneira galileica de pensar é a descrição da realidade concreta mesmo quando se trata de um caso único. E assim também o caso individual, segundo essa orientação, é caracterizado e estudado no seu aspecto quantitativo. (Martuscelli, 1959, p. 12)

Bori também adota uma noção funcionalista de ciência ao afirmar que o objetivo de toda teoria científica é explicar, “o que significa estabelecer as relações funcionais entre as variáveis” (Martuscelli, 1959, p. 145) e isto deve ser feito ultrapassando os limites das observações diretas. Assim, uma teoria científica é considerada uma generalização para além dos dados imediatos.

Contudo, há um problema que se coloca nesta lógica das ciências. Segundo a autora, este é o problema da construção e formulação dos conceitos. A questão dos enunciados científicos é abordada por Bori como uma dificuldade de toda a ciência, uma vez que são nos enunciados que as relações entre as variáveis são expressas, permitindo a generalização: “A dificuldade primordial está no fato de que o conceito tem que unir numa palavra ou frase toda uma série de observações, feitas em épocas e condições diferentes” (1959, p. 146).

O método científico também é outro ponto discutido por Bori. Em diversos momentos, a autora privilegia o método experimental como “o método a ser preferido entre todos” (Bori, 1952/1953, p. 17). Isto porque

A experimentação é tanto uma maneira de pensar como um grupo de técnicas e precauções de laboratório. O laboratório é tradicionalmente considerado como uma situação de investigação na qual o estudo científico de um fenômeno pode se verificar sem a intervenção de fatores desconhecidos de qualquer magnitude.

Um experimento é simplesmente uma observação feita sob condições de controle (Bori, 1952/1953, p. 09).

Uma experimentação, portanto, deve ser feita a partir do controle de variáveis, mantendo constantes todos os estímulos, exceto aquele cujo efeito pretende-se avaliar: “Se pudermos mostrar que a resposta varia de uma maneira sistemática em relação à variação dos estímulos, teremos estabelecido um fator causal de um fenômeno psicológico” (p. 10). Porém, vale considerar que, para a autora, apenas com essas observações não há uma contribuição científica. Para tal, os resultados gerados pela observação em condições controladas devem ser interpretadas com base no corpo teórico da área. Para que estes resultados sejam de fato, uma contribuição científica, eles precisam ser comparados com resultados e teorias já produzidas até então:

Há ainda a considerar, porém, a interpretação crítica dos resultados, que traz em si a mais difícil e delicada de todas as funções do experimentador e dá a experimentação sua forma de contribuição científica, porque ela engloba os dados obtidos num todo coerente de conhecimentos comprovados (Bori, 1952/1953, p. 16).

Para Bori, as maiores crítica que uma teoria científica pode receber estão relacionadas ao método utilizado, seja no desenvolvimento ou na verificação da teoria, ou, como afirma a autora,

No nível mais baixo estão as críticas ao processo de verificação da teoria. Tais críticas se resumem nas técnicas que foram usadas para determinação dos fatos que a comprovam”.

Mais geral que a crítica à técnica, mas ainda do mesmo tipo, é a crítica à aplicabilidade de um experimento a uma dada teoria. Tal crítica poderá mostrar que os fatos tais como foram mencionados podem ser colocados em mais de um contexto e que a investigação deixa de distinguir entre esses contextos (Martuscelli, 1959, p. 145)

Assim, pode-se notar que, do ponto de vista de Bori, o conhecimento científico deve ser produzido a partir de eventos individuais, buscando relações funcionais entre eventos. Aparentemente, isto evita a construção de conhecimento por classificação de fenômenos regulares e a valoração de fenômenos estudados. A experimentação ganha destaque em relação à outros métodos de construção de conhecimento, apesar de não recusar a possibilidade de construção de conhecimento a partir de outros métodos e mesmo apontar a necessidade de fazê-lo, como será discutido adiante a partir dos texto dela. É possível encontrar análises históricas de conceitos e técnicas (Bori, 1955/1956, por exemplo), defesa do conhecimento da história da área (Botomé, 2007) e o relato da utilização de uma pesquisa sócio-psicológica, caracterizada quando

a complexidade da situação torna a princípio impossível um ataque direto a um ou outro aspecto, que parece ser o mais importante... Tudo que pode se esperar de um trabalho deste tipo é chegar o pesquisador a formar uma ideia das interrelações estabelecidas, dos aspectos que poderão ser estudados diretamente mais tarde e do tipo de técnicas mais adequadas ao estudo (Martuscelli, 1957a, p. 85).

Na pesquisa em que ela utilizou este método, tinha o objetivo de levantar hipóteses que pudessem explicar o “comportamento exteriorizado” (Martuscelli, 1957a, p. 84) por pessoas de uma seita religiosa do interior de Minas Gerais. Assim, o método utilizado em uma pesquisa deve ser escolhido de acordo com o objeto de interesse. Isto pode ser concluído quando a autora justifica a opção metodológica de seu estudo: “Os fatores que poderiam ser importantes e, portanto, deveriam ser objeto de verificação, não são conhecidos e nem sempre seriam prontamente controlados se se suspeitasse de uma existência e atuação” (Martuscelli, 1957a, p. 85)

Outro ponto importante na definição de ciência de acordo com Bori é uma preocupação com as definições de conceitos estudados. Ao propor estudar o comportamento manifestado pelo grupo, afirma:

partimos da hipótese geral e básica de que o comportamento do indivíduo é determinado pela estrutura do campo psicológico no momento da ação. O campo psicológico submetido à experiência como estendendo-se ao redor do indivíduo, inclui o indivíduo e a experiência dos objetos e pessoas que compõem o campo. O indivíduo é concebido como sofrendo a influência de um campo de forças psíquicas exteriores ao seu próprio corpo, e ele sente-se a si mesmo locomovendo-se sob a ação dessas forças em direção de um objetivo positivo ou afastando-se de um objetivo negativo (Martuscelli, 1957a, p. 85)

A definição de conceitos aparece também em estudos sobre evasão escolar (Bori, 1969), em distinção entre experimentos e aparelhos (Bori, 1964), expressão de personalidade (Martuscelli, 1954/1955, Bori, 1955/1956), técnicas projetivas (Martuscelli, 1954/1955).

Em 1984, Carolina Bori participou de uma mesa redonda na Universidade de Brasília, discutindo o tema “A pesquisa no Brasil: problemas e soluções”. O que foi exposto por Bori foi gravado e, em 2007, Silvio Paulo Botomé, que havia trabalhado na transcrição e edição do texto, publicou esta apresentação com o título “Onde falta melhorar a pesquisa em Psicologia no Brasil sob a ótica de Carolina Martuscelli Bori”. Segundo Botomé, grande parte da edição do texto foi feita com a supervisão da própria Carolina Bori, porém, ela faleceu antes de

conseguirem enviar para publicação. Ainda assim, ele considerou importante que publicasse o texto.

Nesta apresentação, Bori analisa o desenvolvimento científico nacional, incluindo a necessidade do desenvolvimento de todo tipo de pesquisa. Para ela, a produção de conhecimento é a base para o desenvolvimento do país, portanto, é compromisso dos cientistas discutir e apresentar suas pesquisas para toda a população: “E essa é uma tarefa enorme e desafiadora que o cientista tem neste País: ele não pode continuar a falar sozinho ou para seus pares, ele precisa aprender a falar também para as pessoas dos mais diferentes segmentos da população” (Botomé, 2007, p. 31).

Para que a população possa, de fato, ter acesso ao conhecimento científico de qualidade, o cientista deve dominar o conhecimento existente

O conhecimento existente no mundo, pelo menos na área em que cada cientista atua e em áreas afins, é fundamental para o desenvolvimento como Ciência e como sociedade. Não apenas o conhecimento científico como também o conhecimento produzido por outros processos (ou maneiras) de conhecer. Todos são contribuições que precisam ser conhecidas. Sem ‘dominar o conhecimento’ existente, não superaremos as condições em que vivemos (Botomé, 2007, p. 32)

Afirma que o ponto principal de qualquer discussão sobre ciência deve ser as questões da sociedade brasileira. Para ela, tudo que será realizado em pesquisa, no Brasil, deve ter como foco as necessidades e condições do país. Não se trata do desenvolvimento de uma ciência nacionalista, mas de uma busca por solução de problemas específicos do Brasil. A autora critica cientistas que importam soluções ou uma visão de que, como a ciência brasileira é incipiente, não é mais necessário desenvolve-la. Segundo a noção de ciência de Bori, importar soluções de países que estão mais desenvolvidos não é uma prática adequada.

a perspectiva de exame do problema precisa ser uma perspectiva brasileira. Só é possível equacionar “soluções” que sejam apropriadas ao contexto de desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia deste meio. Da Ciência e Tecnologia apropriadas ao desenvolvimento deste país (Botomé, 2007, p. 31, grifo do autor)

Todos estes aspectos podem ser encontrados em uma fala de Bori (1989), também em Brasília, na Câmara dos Deputados, para discutir uma proposta do Poder Executivo que previa um recurso financeiro insuficiente para o setor de ciência e tecnologia. Na ocasião, Bori, como presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, discute afirma: “Neste painel, pesquisadores discorrerão sobre o que se faz em nome da ciência, por meio dela ou visando seu desenvolvimento. Mas, também, a propósito da ciência, de sua utilização e de sua

responsabilidade social” (Bori, 1989, p. 213). A autora baseou sua fala no Artigo 218 e 219 do capítulo da ciência e tecnologia presentes na Constituição Brasileira. No geral, estabelecem que é papel do Estado promover e incentivar o desenvolvimento científico, a pesquisa e a capacitação tecnológica. Além disso, enfatiza a importância do desenvolvimento de tecnologias para solução de problemas tipicamente brasileiros.

A Ciência é vista por Bori como uma atividade coletiva e, junto com a Tecnologia, são dois ingredientes que ajudariam na solução dos problemas que o país enfrenta. A Universidade seria o local, por excelência, onde Ciência e Tecnologia se desenvolveriam. Os profissionais deveriam ter “uma formação científica suficiente para serem capazes de produzir conhecimento e atuar na sociedade de maneira coerente como o melhor conhecimento existente” (Botomé, 2007, p. 34).

Há outro ponto a se considerar na noção de ciência proposta por Bori. Para ela, o cientista deveria conhecer o que já é conhecido. Isto implica em conhecer a história da ciência como pré-requisito para produção de um conhecimento que seja, de fato, relevante:

Não parece aceitável ver a extinção de muitas condições criadas para responder a necessidades do País, sendo substituídas por rotinas de atividades consagradas pela inércia e pelo hábito dos que já aprenderam a realizar essas atividades sob as condições existentes hoje A gênese de muito do que a Ciência conseguiu nos dias atuais está em algumas décadas antes e nós ignoramos isso. Sem história não faremos ciência. Pelo menos Ciência digna desse nome” (Botomé, 2007, p. 34)

Por fim, vale considerar uma mudança de ênfase na discussão sobre ciência nas publicações de Bori, o que não significa uma mudança na noção de ciência. Em suas primeiras publicações, há uma defesa do método experimental (Bori, 1952/53, 1953/54, 1955/56), o que não deixou de acontecer ao longo do tempo, porém, parece haver, nas últimas publicações da autora (Bori, 1989; Botomé, 2007, por exemplo) uma defesa da construção do conhecimento que seja mais integrado e que vise atender às necessidades da população brasileira.

A definição de ciência, de acordo com as publicações de Bori, enfatiza as atividades coletivas do cientista visando a construção do conhecimento de modo coerente. Isto significa dizer que um cientista deve dominar todo o conhecimento da área e apresentar o resultado de suas pesquisas de modo coerente. Teoria e dados de experimentação fazem parte de uma mesma preocupação e devem estar presentes em todas as propostas de solução de problemas

sociais. Aliás, a grande preocupação que os cientistas deveriam ter é a solução de problemas que o país enfrenta.

Uma teoria científica deve, portanto, apresentar enunciados com generalizações das relações funcionais entre eventos e, além disso, deve ser apresentada a toda a população que possa se interessar pelo conhecimento. Este deveria ser o caminho da ciência.