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4 Soil Carbon in the Deglaciation Landscape

4.6 Carbon Stabilisation

Como em todos os estudos sobre história da ciência há grande necessidade de se compreender contextos maiores que interferiram no desenvolvimento da área em estudo, também na história da psicologia, alguns autores tem destacado este ponto. Antunes (1998), por exemplo, afirma:

Para se compreender a Psicologia como construção histórica devem ser considerados três aspectos: o desenvolvimento específico das idéias e práticas psicológicas, sua base epistemológica e os fatores contextuais (aspectos estes só separáveis como recurso didático) (p. 10).

Assim, este capítulo apresenta o desenvolvimento de ideias e práticas psicológicas no Brasil, antes de seu reconhecimento legal no país, assim como uma breve análise do desenvolvimento da psicologia após seu reconhecimento legal, em 1962. Esta análise será feita considerando o cenário político e científico do país. Como Carolina M. Bori atuou durante a segunda metade do século XX, optou-se por discutir mais o cenário científico deste mesmo período, com uma breve explanação da primeira metade deste mesmo século.

Pode-se dizer que o início do século XX é um período de grandes transformações no cenário científico e acadêmico no Brasil. A pesquisa era um assunto que não fazia parte da formação de brasileiros ou da atuação de profissionais e neste período ela passou a ser encarada como uma prática que deveria se tornar mais livre e independente de resultados práticos. Começa a surgir, então, o debate sobre a criação de uma universidade no Brasil que deveria abrigar a ciência, os cientistas e as humanidades em geral, além de promover a pesquisa. Com isso, na década de 30, no Brasil, três universidades foram criadas. São a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade do Brasil e a Universidade do Distrito Federal (as duas últimas no estado do Rio de Janeiro) (Sampaio, 1991).

Para Sala (1991), as ciências no Brasil se institucionalizaram na virada para o século XX, sendo a criação do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio, em 1900, um marco do desenvolvimento da pesquisa no Brasil desta época. Contudo, a criação da Universidade de São Paulo (USP) e das Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), em 1935, representam a formação e treinamento profissional do pesquisador brasileiro. A partir de então, diversos professores estrangeiros se deslocaram para o Brasil, oferecendo vários cursos. Para o autor, foi com a criação da USP e das FFCL que “formou-se a primeira massa

crítica com consciência científica e os profissionais foram despertados para os problemas que inibiam o progresso científico” (p. 154).

Para autor, três fases dividem o reconhecimento da necessidade de desenvolvimento de pesquisa e de apoio para realizá-las. A primeira fase vai até a década de 1940, caracterizando-se por doações particulares à fundação Rockefeller e os Fundos Universitários de Pesquisa, constituído pelo Estado de 1947, que previa o uso de 0,5% da arrecadação tributária.

A segunda fase inicia-se com a criação do CNPq, em 1951 e inclui a FAPESP, em 1960, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) criado em 1969, a criação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES), pelo Ministério da Educação (MEC), e do Fundo Tecnológico - BNDES Funtec.

Por fim, a terceira fase se inicia da década de 1970. Segundo análise de Sala (1991) “Esta é caracterizada pelo reconhecimento explícito, ao nível de governo, que ciência e tecnologia são assuntos de Estado” (p. 154).

Um dos grandes marcos da ciência brasileira foi, sem dúvida, a criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1948, sociedade científica da qual Carolina Bori se associa em 1954, segundo relação de sócios admitidos entre setembro e dezembro de 1954 apresentada na Ciência e Cultura de 1954 e participou da diretoria, em diferentes cargos, por 17 anos, entre 1973 e 1989. Vale lembrar que a associação é fundada no ano em que Bori terminara seu curso de especialização em psicologia educacional pela USP.

Os campos de atuação em que a psicologia esteve presente até o início da década de 1960 foram, principalmente, a educação, a organização do trabalho e a medicina. A educação foi o campo com o maior número de trabalhos realizados, destacando as atividades desenvolvidas no Serviço de Psicologia Aplicada do Instituto Pedagógico da Diretoria de Ensino de São Paulo; a fundação da Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais, em 1932; a criação de uma “Escola para Anormais” no Sanatório de Recife, em 1936; a fundação do INEP; a instalação da Clínica de Orientação Infantil/Seção de Higiene Mental da Diretoria de Saúde Escolar da Secretaria de Educação de São Paulo, em 1938; a fundação da Fazenda do Rosário, em 1940, com a finalidade de educar crianças da zona rural, crianças “excepcionais” e “abandonadas”; o ISOP, em 1947; entre outros (Antunes, 2004).

Na área do trabalho, houve a utilização de testes psicológicos, já na década de 1920, para fins de seleção de pessoal, sendo intensificado com a vinda de Emilio Mira y Lopes ao Brasil, em 1947. Neste período, destaca-se a criação do Centro Ferroviário de Ensino e Seleção Profissional (CFESP); a Comissão de Psicotécnica da Associação Brasileira de

Engenharia Ferroviária; o Boletim de Psicotécnica; o Serviço de Psicotécnica e seu laboratório no Serviço Nacional da Indústria (Senai) e no Serviço Nacional do Comércio (Senac).

Na área clínica, a Psicologia aparece sempre vinculada à medicina, servindo sempre como um apoio ou elemento subsidiário da área médica: “Essa idéia é reforçada pela resistência dos médicos, mais tarde, à regulação da profissão de psicólogo com atribuição clínica, além de outras investidas posteriores” (Antunes, 2004, p. 132).

Sobre estudos, pesquisas, eventos e entidades científicas e profissionais, Antunes (2004) destaca a participação maciça da Psicologia, em 1950, no encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); a primeira bolsa de pesquisa em Psicologia, em 1952; a primeira tese em psicologia experimental, sobre neurose experimental, de Joel Martins (1953), a fundação da Sociedade de Psicologia de São Paulo (SPSP) em 1945, por iniciativa de Annita Cabral e Otto Klineberg; a Associação Brasileira de Psicotécnica, em 1949, que, entre outras ações, entregou um memorial e um esboço de anteprojeto de lei relativo à formação de psicólogos ao Ministério da Educação, em 1953; a fundação da Sociedade de Rorscharch de São Paulo, em 1952; a Associação Brasileira de Psicólogos e a Associação Brasileira de Psicologia, em 1954, a Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, em 1959. Algumas dessas associações e sociedades se tornaram importantes na organização de uma comissão para elaborar um substitutivo ao projeto de lei de 1953 em prol do reconhecimento da psicologia como profissão independente. As associações que entraram nesta luta, segundo Antunes (2004), foram a Associação Brasileira de Psicologia Aplicada, a Sociedade de Psicologia de São Paulo e a Associação Brasileira de Psicólogos.

Durante este período de consolidação da Psicologia como área do conhecimento e campo de aplicação, Annita de Castilho e Marcondes Cabral (1953), preocupada com a formação acadêmica de profissionais preparados para atuar em psicologia, discute, em artigo, os requisitos básicos para a formação de “psicologistas”. Para ela, a preparação acadêmica deste profissional é uma necessidade urgente e deveria ser pensada respeitando três aspectos específicos (que são interdependentes). São os aspectos teórico, experimental e prático. Só assim a psicologia poderia “se organizar nas condições requeridas tanto pelo estado atual da ciência que a fundamenta, como também pela variedade e urgência das tarefas em cuja realização essa profissão é chamada a cooperar” (p. 43).

Sobre este período ela ainda afirma:

O ensino de psicologia, na Universidade se faz nas Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras, mas somente de maneira subsidiária aos

estudos de Filosofia e de Educação; em algumas faculdades desse tipo a psicologia social entra subsidiariamente no currículo de ciências sociais. (...) Começa-se, aqui e ali, a sentir que a criação de um Curso de Psicologia (autônomo) é não só necessária, como urgente (Cabral, 1953, p. 44).

Analisando todo o processo pelo qual a psicologia passou até seu reconhecimento como profissão no Brasil, Baptista (2010) afirma que este processo se iniciou com a “exposição pública das primeiras ideias sobre a regulamentação” (p. 172) no início da década de 1950, passou pela regularização da profissão pela Lei nº 4119/62 e foi finalizado apenas com a aprovação do código de ética e da instalação dos Conselhos de Psicologia, no ano de 1975. A análise que a autora faz, além de considerar os vários projetos que visavam a regularização da profissão, inclui o que se fazia nas diferentes regiões do país em que a Psicologia se fazia presente, as diversas associações que lutaram pelo reconhecimento da profissão e outras que também estavam relacionadas à Psicologia (como a Associação Brasileira de Psicotécnica, Sociedade Brasileira de Psicologia, Sociedade de Psicologia de São Paulo, Associação Mineira de Psicologia, Instituto de Psicologia da Universidade do Brasil, por exemplo), a discussão sobre o tempo que a formação do psicólogo deveria ter, os níveis de formação (bacharelado e a licença), as diversas comissões e encontros que discutiam a formação e regularização, a necessidade de formalizar a formação daqueles que trabalhavam com a Psicologia, a nome que o profissional da Psicologia deveria ter (Psicologista, Psicólogo ou Psicotécnico), os cursos que foram sendo oferecidos antes 1962 e um movimento dos médicos para que alguns pontos do projeto não fossem aprovados. Sobre isso, Baptista (2010) afirma:

Segundo relato de Mathilde Neder, a presidente da Sociedade de Psicologia de São Paulo, Carolina Bori, recebeu um telefonema do senador Lauro Cruz informando que havia uma pressão dos médicos para não aprovarem na regulamentação o que se relacionasse à psicoterapia... (p. 186).

Segundo Baptista (2010), logo após a aprovação da lei que regulamenta a profissão, foi formada a Comissão de Avaliação de Registros de Diplomas, com o objetivo que conferir os títulos conforme os critérios já apresentados. Esta comissão era formada com profissionais do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais era presidida por Lourenço Filho1, Pe. Antonius

       

1

Manuel Bergström Lourenço Filho (1897 – 1970), foi um educador brasileiro, escreveu livros em áreas como Geografia e História do Brasil, Psicologia (principalmente sobre testes e medidas na educação, maturação humana), Estatística e Sociologia.

Benkö2, Carolina Bori, Enzo Azzi3 e Pedro Parafita Bessa4. O papel desempenhado por esta comissão teria, segundo a autora, gerado muitos embates e conflitos. Além disso, a análise dos processos durou cerca de 10 anos.

Com a criação dos primeiros cursos de psicologia, um dos grandes problemas foi o material didático. Vilela (2012) afirma que “O ensino continua, pois, centrado na expertise do professor” (p. 39). Esta característica só mudaria quando alguns professores começam a encontrar bibliografia da área de Psicologia, já que a ênfase dos cursos de então era o ensino de uma Psicologia voltada para a Educação. De todo modo, nas décadas de 1950 e 1960 começam a ser publicados vários livros específicos traduzidos para o português. Nesta tarefa, a autora destaca o papel de Dante Moreira Leite5 e Carolina Bori.

Além disso, Matos (1998) afirma que Carolina Bori esteve presente durante este processo de regulamentação da Psicologia e foi a principal responsável pela implantação e disseminação de laboratório de Psicologia Experimental em cursos de graduação. Tomanari (2005) destaca a importância dela para a introdução e fortalecimento da Análise Experimental do Comportamento no Brasil. Já César Ades (1998) enfatiza a visão de Bori sobre a definição de Psicologia. Ela tinha uma visão clara de que a psicologia deveria ser uma ciência experimental, contudo, nunca desvalorizando outras formas de definição da área. Segundo o autor, a visão de psicologia que Bori tinha, aparecia sempre implicitamente em suas defesas à pesquisa.

       

2 Pe. Antonius Benkö (1920 – 2013), húngaro, chegou no Brasil em 1954 e a partir de 1957, foi contratado pela

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Criou o Centro de Orientação Psicopedagógica – COPP.

3

Enzo Azzi (1921-1985), italiano, doutor em Medicina e Cirurgia, pela Universidade de Parma, e em Psicologia Experimental e Educacional pela Universidade Católica de Turim, foi o responsável pela organização do IPPUCSP (Instituto de Psicologia e Pedagogia da PUC/SP).

4 Pedro Parafita de Bessa (1923 – 2002), mineiro, foi o primeiro diretor do curso de Psicologia da Universidade

Federal de Minas Gerais, no ano de 1960. Teve aulas no Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento de Professoras com a professora Helena Antipoff. Ele foi uma das trinta pessoas que assinaram a ata da primeira reunião da Sociedade Mineira de Psicologia, na década de 1950.

5 Dante Moreira Leite (1927 – 1976), intelectual e filósofo formado pela USP, foi professor do Departamento de

Psicologia Social e do Trabalho, traduziu diversos livros sobre Psicologia, contribuiu grandemente para Psicologia Social no Brasil. Entre suas principais publicações estão: Psicologia e literatura (1965) e O caráter nacional brasileiro (1969).