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4. Analyse

4.3. Behovet for informasjon

Escolhi para primeira entrevista a coordenadora do grupo Terças-Trans, sobretudo porque se tratava de quem eu poderia encontrar mais rapidamente. Entrei em contato com a Alessandra pelo celular e deixei recado na caixa postal, me apresentando e contando do meu contato e indicação do Xande. Não tendo retorno, liguei novamente no dia seguinte. Ela me disse que tentaria chegar mais cedo ao CRD para dar a entrevista, mas que não garantiria, pois estava muito ocupada. Eu disse que tudo bem, mas que de qualquer forma eu estaria lá uma hora antes do início do grupo, ou seja, às 18h. Eu estava priorizando o contato pessoal, uma negociação pessoal para entrevista, sobretudo porque já percebia que outros meios como telefone e e-mail tinham pouca eficácia.

Alessandra chegou uns 20 minutos antes do grupo; me apresentei e contei do meu objetivo. Ela foi bem simpática e receptiva, mas logo constatamos que a entrevista não poderia acontecer naquele dia, por uma questão de tempo. Verificou sua agenda e marcamos um encontro para o dia seguinte, no prédio da Associação. Ao final, ela me convidou para acompanhar o grupo que aconteceria naquele momento, assim eu já ficaria conhecendo um pouco do trabalho que ela e a APOGLBT realizavam. Eu aceitei o convite; notei que já estávamos na sala onde aconteceria o encontro. Ela permaneceu sentada ao meu lado, e aos poucos as pessoas foram chegando e se sentando nas poltronas. Apesar de me olharem com estranhamento, ninguém perguntou quem eu era e nem Alessandra me apresentou. A posteriori pareceu-me que o convite para o grupo e a própria impossibilidade de realizar a entrevista antes do mesmo foi uma maneira de Alessandra me demonstrar na prática o trabalho realizado e a dinâmica do universo trans. O Terças-Trans é uma reunião dirigida a pessoas que estão interessadas em discutir questões desta população; tem como objetivo

integrar, promover discussões e debates, levantar demandas visando políticas públicas e incentivar ações práticas em prol das Pessoas Trans e também dos GLBs. Os encontros têm uma tema a cada dia, assunto que é escolhido pela coordenadora; o do reunião que eu estava presente era “Trans e Mercado de Trabalho”. Não sendo objeto de análise desta dissertação, nosso recorte do conteúdo que surgiu no grupo só será retratado na medida em que ressurgirem durante a entrevista com a Alessandra. De qualquer forma, participar contribuiu muito para o entendimento de questões específicas das categorias trans e para a formulação de novas questões para a entrevista com a coordenadora.

No dia seguinte, no horário da entrevista, compareci na APOGLBT. Bati na porta e, como ninguém abriu, eu mesmo o fiz. O ambiente estava escuro e eu só via uma sala iluminada; dirigi-me até lá, onde encontrei um senhor que falava ao telefone (o tesoureiro). Eu me apresentei, disse que aguardava a Alessandra, ele me pediu que eu esperasse. Fiquei pelas salas observando alguns cartazes/anúncios da Parada dos anos anteriores e alguns materiais impressos; eu mesmo acendia a luz pelas salas onde passava. Minha impressão sobre um lugar “reservado” se confirmava. Alessandra chegou 20 minutos atrasada, fomos para a mesma sala onde Xande me recebera antes e iniciamos a entrevista.

O contato com Murilo Sarno, coordenador do grupo Entre Homens foi mais rápido e fluente; escrevi para seu e-mail, fornecido pela Alessandra o explicando o propósito do trabalho. No mesmo dia ele respondeu, propondo uma data, a qual aceitei. No começo da entrevista Murilo se mostra didático, explicando termos e gírias comuns à linguagem do Movimento, dando dicas de leitura e esclarecendo termos. Diferente de Alessandra, que se coloca a todo tempo como militante, o coordenador se mostra um pouco “cansado”:

Sabe quando você tem aquele namorado legal, que vocês fizeram coisas legais pra caramba, ouviam discos juntos, participava de várias coisas legais e você terminou, e ainda tem que ir na casa dele pegar algumas coisas? Ainda ajuda no encanamento, mas sente que não tem mais nada a ver com este encanamento? É assim que eu tô com Parada... (Murilo)

Desta forma, é de dentro-fora que Murilo faz fortes críticas; seu papel como moderador não se aproxima da de organizador da Parada ou mesmo do que chamamos militância: “A mim, eu entendo que é a parte de falar sobre sexo, afetividade e sobre ser quem você é”, ou ainda quando coloca: “Eu tenho certa alergia [a proselitismo, militância?] e já piorou muito”. Murilo aposta em uma busca individual de posicionamento, e só se une ao grupo somente como força resistente: “Eu sou anarquista, respondo por mim e respondo por minhas ações... Eu me junto a um grupo de outras pessoas quando percebo que eu sozinho

não vou conseguir mudar um certo quadro; que é hipócrita, machista, racista, sexista...”. A conversa flui. De alguma forma, a postura do coordenador lembra muito a dos militantes do movimento em seus primórdios. A institucionalização por exemplo é vista com receio ou mesmo repúdio.

No dia em que me encontrei com Murilo, já deixei marcada para ali há alguns dias a entrevista com o Xande. Fui recebido na hora marcada e com o propósito de “avançar” nas questões, fui logo me posicionando, dizendo da minha experiência com a militância, o que eu já conhecia sobre o tema e qual era o foco da entrevista. Foi uma entrevista bem mais curta em pelo menos uma hora em relação às outras. Desde o meio da entrevista em diante Xande dava sinais de que queria que nós nos apressássemos-se. Foi um discurso muito mais próximo do discurso oficial da Parada, ou seja, posicionamentos que já estavam postos na imprensa ou no site da APOGLBT. Depoimentos e histórias de vida, que tanto apareceram nas entrevistas com Alessandra e Murilo, foram muito poucos.

Para analisarmos as entrevistas é preciso demarcar dois momentos: antes e depois da minha apresentação como par. Só assim é possível sair do discurso oficial comum. Minha hipótese é que frente à ignorância primária por parte de estudantes sobre o tema, a resposta dos coordenadores é de estabelecer uma comunicação didática e padronizada, de caracterização, indicações, esclarecimentos, e tentativa de diminuição de pré-conceitos. Este tipo de percurso se deu nas três entrevistas, e o que me deu esta forte impressão foi que, na medida em que eu me mostrei familiarizado com o tema e mesmo com o universo gay, contanto principalmente da minha participação pessoal nas ações do movimento e freqüência nos lugares LGBTs, torno-se possível nos aprofundarmos em questões. Uma relação de confiança se estabelece a partir do momento em que me mostro do grupo. Mesmo depoimentos pessoais, assim como críticas e apontamentos sobre as contradições no Movimento, só aparecem depois que eu marco minha experiência pessoal nas Paradas e. Sem dúvida que isto reflete o receio de ataque e de manobras jocosas dos “de fora”, mas ao mesmo tempo levanta questões sobre que integração é possível sem a plataforma dos códigos de gueto. Qual assimilação social ampla pode se dar quando um grupo “se fecha” senão de permanecer no lugar “estranho”? Desta maneira, parece se estabelecer a mesma utilização entre um discurso oficial (externo) e um íntimo (interno) dos quais as minorias são vítimas. Comecei fazendo questões que caracterizassem o funcionamento e o cotidiano da APOGLBT, dos grupos (Terça-Trans e Entre-Homens) e também da Parada, focando propósitos, êxitos, problemas, fases e críticas recebidas. No segundo momento, a partir das primeiras

caracterizações, foi possível nos aprofundarmos em questões como identidades, mercado, diferenças de classe, relações políticas, estéticas, éticas etc.

Sobre a caracterização da Parada, uma das primeiras coisas que me chamou a atenção nas respostas dadas, e que eu ainda não havia notado, foi sobre sua gestão. Apesar da APOGLBT ser a organizadora oficial do evento, parece não tomar para si a responsabilidade por questões-chave sobre a Parada. Estranhamente afirmam concordar com a maioria das críticas usualmente feitas à manifestação e outros pontos polêmicos como erotização, mensagens veiculadas, escolhas e critérios de parcerias e outras nuances de caracterização do evento. Por que então repetem um formato que não concordam, perguntava a mim mesmo e a eles. Se eles têm clareza das questões ético-políticas envolvidas na perpetuação de alguns modelos expostos na Parada, por que não mudam? As respostas vinham no formato de um impossível. De contingências e dependências que aparentemente amarram a organização ao que afirma não concordar. Em relação a este aspecto é possível perceber que a APOGLBT não é totalmente responsável pela Parada em seu formato: “Ela leva o nome da organização, mas, a Parada é feita por vários grupos, a gente tem a parceira com as Católicas Pelo Direito de Decidir; Grupo CORSA, com as nossas campanhas;...” (Xande). Aqui também temos que considerar o Mercado segmentado e a relação com outros órgãos, governamentais ou não: “A gente tem o ministério do Turismo que financia, que patrocina a Parada né? Mas, não é só turismo, a gente quer direitos” (Xande).

O segundo aspecto “do que não se tem controle” diz respeito aos freqüentadores, que aumentam ano a ano e que em sua maioria desconhece o propósito da manifestação: “Eu sei que em uma pesquisa que foi feita, 17% das pessoas que vão à Parada vão pelo sentido político da manifestação... Pouco? Não sei... 17% de três milhões, pode ser... Devia ser 90%? Infelizmente não é mais”. (Xande). Assim, a Parada desejada pelos organizadores parece esbarrar em muitos impossíveis: não identificados, impronunciáveis e onipresentes, surgidos em algum momento:

Ali é um outro momento, ali não é um carnaval, eu tô falando como Alexandre, como presidente desta instituição, na gestão de 2008 a 2010, entendeu? Eu tenho uma visão que é um momento político, se eu tenho um Sindicato dos Enfermeiros, o Sindicado dos Bancários, o Sindicato dos Professores, o Sindicato dos Telemarketings lá erguendo as bandeiras, eu não preciso de mais nada... Meu sonho, como Alexandre era ter uma Parada só de ONGs. (Xande).

A fala de Xande nos sugere que nas gestões anteriores se permitiu um formato que teria gerado confusão na comunicação sobre propósito da Parada, mas não nega (e não pode negar) que mesmo na atualidade, o apoio de determinados órgãos e de casas noturnas continuam corroborando com uma comunicação que a APOGLBT diz refutar. Signos do carnaval, do turismo, do entretenimento fortalecem a relação apolítica com o público, mesmo com o esforço sindical que Xande destaca. Murilo considera que o problema é intrínseco à institucionalização:

O problema é que pra instituição, a ONG, que tem CNPJ, o famoso CNPJ é um problema, é uma discussão que vem lá de longe, lá do Somos, e deve ter... A instituição tem que se proteger... O Trio coloca o gogo-boy todo ano, independente da cláusula, e todo ano ele tira a sunga... Mas, não é a Associação da Parada Gay que vai policiar... A cláusula existe, dizendo: “Olhe, a Associação não se responsabiliza com qualquer problema que você tenha com a Polícia”. O roteiro da Parada não tem homem pelado... (Murilo)

O público pode estar dissonante com o discurso da instituição APOGLBT, mas não com a ideologia que prega estilo de vida, liberdade pessoal, hedonismo e consumismo, tão em pauta na atualidade. Há uma contradição entre o que querem as políticas de identidade e o que a própria identidade coligada ao estilo de vida embute. Torna-se árduo chamar o sujeito ao compromisso com qualquer política, porque todo sacrifício é tido como tolo. Ou tolerado, deste que não afete o gozo:

Em contraste com o fundamentalismo percebido no Outro Fanático, o que vemos hoje é uma imagem hegemônica do sujeito liberal que, como o Último Homem nietzschiano, interessa-se apenas pela busca dos prazeres particulares e dos ideais privados de felicidade: uma postura de pura sobrevivência, sem nenhum sentido de missão ou compromisso histórico. (Žižek: 2006:130).

Deste modo o que temos é uma reivindicação ao prazer no contraponto de uma política de Direitos Civis, como aponta fala de Murilo:

Pós-Parada a gente recebe crítica de gente, que não é de movimento, nem de partido, que diz: “Poxa, a Parada tava muito feia, só tinha coisa de partido, coisa de política, cadê meu

glamour, cadê minha dança... não quero saber de nada disto, eu quero dançar, eu quero beijar, quero dar...”. E a gente recebe crítica de pessoas de partido que falam: “A Parada é só

homem pelado, só baixaria, porque que não deixam os partidos políticos botar cartaz... se tivesse nosso partido aqui a Parada ia ser muito melhor”. (Murilo)

Uma tensão se instala uma vez que se coloca a questão perversa de fazer o sujeito decidir entre “ser comportado” e assim ter o acesso a cidadania e ser “depravado” e continuar no campo do gozo, que é estranho ao campo político e desejável no mercado: o “mais do

mesmo; sexo e baladinha” (Alessandra Saraiva). Certamente o que não está compreendido nos lemas da Parada GLBT de São Paulo é que mais do que uma revolução no Código Civil, o que se quer é uma mudança cultural, o que muitas vezes é reduzido à ampliação do gueto. Ora, se é disto que se trata, não existem mais proibições. O capitalismo pronuncia a nova ordem, como nos aponta Žižek: “Goze de todas as maneiras! Goze sua sexualidade, realize seu eu, encontre sua identidade sexual, alcance o sucesso ou mesmo goze uma ascese espiritual” (Žižek, 2005 Apud Safatle, 2005:120).

O Carnaval, pelo menos pela via do gueto, já está garantido. E quanto ao número de participantes: “Eu acho que se tiver cem pessoas ali reivindicando e sabendo qual é o intuito da Parada, vale a pena... Se tiver três milhões de pessoas sem saber o que ta fazendo ali não vale à pena” (Xande). Ora, se a Parada não é o espaço do Carnaval, como tanta vezes frisou o presidente durante a entrevista, e se todos os entrevistados dizem não se importar com o número de participantes, resta saber porque então se ligar às amarras contingenciais que não permitem politizá-la de fato. Por que permitir a manutenção dos padrões estéticos e éticos, com os quais dizem discordar, através de parcerias que somente estão interessadas na Parada enquanto produto turístico (do governo ao Mercado)? Seria algum receio de perder a parcela do público que só está interessada no Carnaval?

O engodo certamente é mais amplo. Žižek (2005) nos aponta que no Capitalismo não haveria lugar para um entusiasmo ético-político, já que a morte do socialismo real foi prova da morte das utopias. Há desejo de mudança, e algum engajamento político da sociedade civil, mas que esbarra no imperativo de consumismo passivo e apolítico. Ao buscar patrocínios a APOGLBT parece não perceber a que a estratégia de acesso à direitos via afirmação do poder de consumo é arriscada um país cuja a desigualdade social é patente. A experiência com o mercado segmentado já os mostrou que o apoio pela via do consumo é limitado e por vezes até cruel, como percebemos na fala de Xande:

Você pode ver em cima de trios de militância os tipos de pessoas que tem, e nos trios particulares... É o que eu falei, os gogos-boys mais sarados, mais gostosos, os “melhores gays” estão lá... [nos trios particulares] E quando a população, de classe, é mais pob... É... Mais inferior... Começou a freqüentar a Parada, foi mais um motivo para eles pararem de freqüentar. Porque se eu for promover a minha casa, que custa 100 reais pra entrar, aquelas pessoas que estão lá, aqueles pobretões não vão ter dinheiro pra freqüentar... “Eu não quero aqueles

pobretões feios que não vão ter dinheiro pra gastar lá, então não me interessa mais fazer propaganda, eu vou fazer uma festa no dia da Parada, e chamo quem de fato é de meu interesse”. Entendeu? A festa rola na The Week. A Manifestação rola na Paulista. Assim é melhor, e é assim que eu vou continuar trabalhando. (Xande)

No entanto, a diretoria se frustra por não conseguir apoio de marcas maiores: “Que as empresas privadas reconheçam, sim, que nós somos Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transexuais e Travestis e tomamos Coca-cola. E que bebemos Brahma, e que usamos perfume da Natura” (Xande). Parece não perceber que assim como aconteceu com o mercado GLS, há um claro limite de status econômico que torna possível a aceitação ou não. Talvez, e é bem provável, o mercado maior venha a se interessar em patrocinar a Parada de São Paulo, como já acontece em outros países, mas o mais difícil certamente é conseguir tal apoio sem que isto implique na exigência de contrapartida por parte da Associação, que precisaria tentar garantir a presença de pessoas com perfil sócio-econômico condizente com as marcas e comportamento que não as desagradem. Apoiar nada tem a ver com aceitar, como aponta Žižek (2005):

O multiculturalismo é um racismo que esvazia sua própria posição de todo conteúdo positivo (o multiculturalista não é um racista direto, não opõe ao Outro os valores particulares de sua própria cultura), mas mantém uma posição como o ponto vazio da universalidade, privilegiado, a partir do qual se podem apreciar (e depreciar) apropriadamente as outras culturas particulares – o respeito do multiculturalista pela especificidade do Outro é a forma mesma como afirma sua própria superioridade. (Žižek, 2005:33)

O uso das cores da bandeira do arco-íris é utilizado assim como uma marca do “respeito”, mas da separação também, pois para ter acesso a tal “consideração” social são necessários alguns preceitos; deve-se apresentar uma personagem sem excessos Žižek (2005), um gay palatável, como nos conta Murilo sobre a aceitação dos LGBTs pela sociedade: “Talvez aceite se você ficar só de mão dada, monogâmico, limpinho, arrumadinho... De preferência branco, e que tenha trabalho, e que não vá pra locais de “pegação”. Divergir disto é estar sujo e sujo não é aceito pela sociedade”. Comportamento e posição econômica. Mas, se os gays masculinos ainda podem ter uma passagem à aceitação, ainda que por tais requisitos, a aceitação das Transexuais e Trangêneros é inviável; passa não só pelo crivo do comportamento e do estilo. Mesmo a identidade – como munição política – não lhes cabem, considerando a gama de peculiaridades e posições fronteiriças da sexualidade e gênero que categoria alguma é capaz de abarcar:

Em relação às travestis é super complexo, é um universo imenso e vai daquela que não tem um pingo de informação e sofre e todas as mazelas... Até aquela que é super... é... Como eu posso dizer... Européias e estudadas... Indo até aquelas que são totalmente anônimas no mundo e que são travestis, ficam na delas. É um universo enorme. Mas eu tenho sim, uma população que nunca vai ser travesti, que nunca vai se vestir o dia todo, porque tem muitas Cross [CD,

Crossdressers]41 que falam: “Eu sinto falta do meu homem, eu gosto da minha masculinidade, mas eu quero ser mulher também e pronto”. (Alessandra)

As siglas e nomes tentam dar conta de unificar todas as TT´s. No entanto, há sempre uma performance comportamental e sexual que escapa. Na verdade verificamos que isso se dá em todas as categorias, gays, lésbicas, bissexuais e trans, sendo que nesta última é mais evidente. Este é o incompleto inerente ao rótulo. O interessante é que nas entrevistas com os coordenadores a noção de uma identidade esta mais próximo de um estandarte político. Tenta escapar da concepção de Giddens (1997) que a liga fundamentalmente ao estilo de vida. Murilo tenta nos mostrar a diferença:

Então, é que as pessoas confundem identidade com estilo de vida. São coisas diferentes... Cê pode ser gay, e eu entendo identidade gay como: ‘eu tenho desejo, tenho prática e experiências

sexuais com outros homens.’ Outra coisa é um estilo de vida, e aí você tem o principalzão, que é aquele imaginário, o estereótipo: adora Madonna, Britney [Spears], dança horrores, ferve na Bubu, depois vai pra The Week... e vai ter sub-estereótipos de acordo com o nível de preconceito interno que você tem, hierarquia dos preconceitos: o mais odioso é o da bicha “pão-com-ovo”, este é o mais desqualificado. (Murilo)

Mas não é possível negar que a tradição da cultura gay - dos ícones na arte ao ‘gosto pelo luxo’ (Silva,1960), passando pelos costumeiros códigos de gueto - mantenha e ajude a dar continuidade à formação da Personagem gay que se apresenta à sociedade. Murilo, ao tentar fugir da importância do estilo de vida na formação da identidade, apenas o diversifica entre várias maneiras de utilizar o código gay; e assim, quando faz a crítica, confirma que é muito difícil fugir dos estereótipos e dos produtos que são associados a ele: “Sabe? Eu gosto de comprar vodka, mas eu posso ficar com a Sminnorf, não precisar ser a Absolut todo dia... Pra mostrar que eu sou uma bicha de luxo sabe? Com Absolut todo dia...”. (Murilo).

Só mesmo a parcela da população mais distante do consumo, e, portanto, da premissa