1. Innledning
1.5. Analyseenhet og problemstilling
O troféu “Pau-de-Sebo” 2005 - que nomeia inimigos dos gays – “premiou” em 2004 o “Arcebispo de Brasília, D. José Freire Falcão, por declarar que ‘as uniões homossexuais são uma desordem moral que a Igreja jamais poderá aceitar’” 26 e o “Deputado Samuel Malafaia (PMDB/RJ), pastor da Assembléia de Deus por suas declarações homofóbicas” (Francisco, FSP, 08/03/05). Rosinha Garotinho, evangélica e prefeita do Rio de Janeiro na época, também ganha o troféu e em primeiro lugar, por ter vetado uma lei que confere ao parceiro homossexual os mesmos direitos dos demais servidores. Ataques mais irônicos são tentados, como o do vereador Carlos Apolinário (PDT), integrante da Igreja Assembléia de Deus, que apresentou um projeto de lei na câmera que buscava instituir o Dia do Orgulho Hétero, em uma óbvia provocação aos ganhos do movimento gay.
Dias antes da Parada o empresariado GLS foi à imprensa fazer uma manifestação contra os altos custos para se colocar um trio elétrico na avenida durante o evento. Soma-se cerca de 40 mil reais por carro, dos quais 3 mil iriam para a APOGLBT. Agências de publicidade do mercado maior alegam que a falta de organização e que a APOGLBT cobram valores exorbitantes. Outras críticas começam a ser feitas com mais notoriedade;
25 Fonte: http://www.justica.sp.gov.br 26 Fonte: http://www.ggb.org.br
personalidades do próprio meio gay como drags famosas e presidentes de grupos gays começam apontar a perda do sentido político da manifestação.
Também acontece próxima à data da Parada do Orgulho Gay a Marcha Para Jesus, evento que reuniu 2 milhões de evangélicos na Avenida Paulista. A matéria da FSP (27/05/05) conta como os comerciantes locais lamentaram a queda de movimento e a diminuição na venda de bebidas nos bares da região durante a Marcha. Este também foi o último ano que a Marcha Para Jesus recebeu autorização da prefeitura para acontecer na Avenida Paulista. Líderes religiosos alegaram preconceito econômico, pelo fato do evento não trazer tanto dinheiro à cidade como a Parada Gay. Argumento difícil de derrubar frente às pesquisas da Secretaria de Turismo da cidade sobre o perfil do turista gay que vem para Paradas somadas à matéria que retratava o baixo consumo dos evangélicos. No entanto, deve- se levar em consideração que os LGBTs precisam de uma expressão e visibilidade contra o preconceito que os evangélicos dispensam.
Neste ano, a APOGLBT passa não mais a anunciar a Parada como único evento, mas destaca o Mês do Orgulho GLBT; afora as tradicionais festas e o dia no parque de diversão, começa a haver mais debates e eventos que se estendem pelo mês. Mas o evento Parada em si continua sendo a grande atração, e com um impacto econômico que a FSP (28/05/2006) anunciava estar estipulado em R$350 milhões em ganhos para o comércio da cidade. Hotéis lotados, casas noturnas com intensa programação, saunas sem armários, na Parada lazer é ponto alto. No sábado anterior ao evento aconteceu também a 3ª Caminhada de Lésbicas, Bissexuais e Simpatizantes com o tema: “Com direito não se brinca: pão, circo e cidadania”. A organização de pronto esclareceu não se tratar de uma dissidência da Parada, mas que seria importante dar visibilidade a questões específicas das lésbicas.
Como vem acontecendo cada vez mais, a Imprensa também aproveita para “discutir” questões sobre a diversidade sexual nos dias que antecedem a Parada. A revista da Folha traz uma matéria de capa com o título: “Macho Acossado” (Xavier, 29/05/2005), onde relata que os homens supostamente estariam confusos com os limites da masculinidade, e “evitariam comportamento ‘suspeito’”, ou seja, temendo serem confundidos com gays. Assim os heterossexuais de classe média, profissionais liberais, nos contam, por exemplo, que ir ao estádio com amigo “tudo bem!”, já ir ao cinema “pega mal” exposição de arte então, “nem pensar”. A “bem humorada” matéria ilustra como existe um imaginário sobre gays e seu estilo de vida. O então Vereador Carlos Apolinário (PDT) – um dos idealizadores do projeto Dia do Orgulho Hétero – diz na matéria que é preciso “(...) chamar atenção, pois os homossexuais começam a exigir direitos que nem sequer os héteros têm” (Idem). Ele não diz
quais seriam os direitos, mas afirma que é inaceitável “dois homens bigodudos se beijando” onde ele janta com a família.
“Parceria civil, já! Direitos iguais: nem mais, nem menos” – com 2,5 milhões de pessoas “ (..) o movimento cobrou do Legislativo a aprovação do Projeto de Parceria Civil entre pessoas do mesmo sexo, que tramitava no Congresso Nacional há dez anos, expondo a necessidade de se construir uma legislação quee garantisse igualdade aos LGBTs”. (site APOGLBT). José Serra, prefeito na época, não respondeu à pergunta se era ou não a favor do PCR e destacou a importância do evento para o turismo da cidade.
Na matéria do dia seguinte a FSP, reportou a Parada. Chama a atenção um trecho da matéria que o jornalista denominou de “Gay ‘separatista’ prefere a festa à desfilar na parada”, onde descreve a “participação” de um rapaz:
Muito exibido, mas com ressalvas. Assim é o personal trainer Rogério Antônio da Silva, 35, que recebeu a Folha ontem para acompanhá-lo nos preparativos para a Parada Gay e numa festa diurna no Conjunto Nacional, na avenida Paulista. Silva fez até fotos tomando banho, mas pediu para não ser associado a ‘bichinhas estereotipadas’. Na sua própria definição, Silva é um ‘gay com cabeça de hétero’: disse que freqüenta reuniões de donos de Tigra, seu carro, gosta de esportes radicais e faz boxe. Ele diz que poucas pessoas sabem que ele é gay. Silva se recusou a posar para fotos ao lado das ‘pintosas’, afirmou que não fazia a menor questão de ser associado ‘àquelas pessoas’. Só quando subiu à festa regada à champanhe disse: ‘Esse é o meu ambiente’.No salão, um DJ tocava música eletrônica. ‘Coitado, ele está com as grifes certas, mas com as medidas erradas’, aponta um rapaz para um gorducho com calça Seven, camisa Fred Perry e tênis Prada. Silva faz um estilo mais espartano: tatuagens, camisa de manga curta e bermuda cargo. (Sampaio, FSP: 30/05/2005).
O depoimento do rapaz revela muitas questões sobre a homossexualidade em tempos de Parada. Se definindo como um “gay com cabeça de hétero” ele mostra como existe uma fantasia de que há um ideário gay em oposição ao modelo hétero para além da orientação sexual. Nesta montagem, “ser hétero” estaria mais próximo de hábitos como esportes radicais e boxe. Certamente aparenta medo de parecer como “aquelas pessoas”, ou seja, “as pintosas”, os gays efeminados. O rapaz demonstra conhecer grifes nos comentários preconceituosos sobre as vestes do Dj, ainda que ironicamente não seja muito comum à “cabeça de hétero” entender de modas e medidas masculinas, se considerarmos a mesma lógica. O que há de mais revelador na fala do rapaz é que há um critério qualificativo de classe social, apontado em significantes como “champanhe” e quando cita as “grifes certas”.
Ora, podemos considerar os comentários para mais além do particular. Tais observações aparecem em muitas outras matérias nas diversas edições da Parada. O paradoxal é que parece ser uma confusão produzida pelo próprio modelo de luta que o movimento homossexual escolheu pra si, ou seja, a constituição de uma identidade, amarrada a um “estilo
de vida”, de certa maneira polarizou “cabeças” de heterossexuais e gays, e o mais paradoxal ainda é que o modelo apontado como “mais adequado” é sempre aquele que remonta ao padrão heterossexista, machista e consumidor: o “estilo mais espartano” com o carro da moda e o clube que o congrega. Nesta lógica é impossível fugir aos estereótipos que tanto assustam o rapaz. A aceitação e a tolerância que a Parada busca emperra em critérios outros. Na pesquisa do Datafolha realizada durante a Parada (do Rio e São Paulo)27 76% dos entrevistados concordaram, total ou parcialmente, com a idéia de que “alguns homossexuais exageram nos trejeitos, o que alimenta o preconceito contra os gays”. Mostra também que a metade dos homens gays preferem namorados “mais masculinos”. Discrição, bom- comportamento, virilidade. A identidade que busca afirmar-se derrete-se no mais jocoso dos “elogios” comumente feito a este padrão desejável e menos assustador: “Nossa! Você nem parece gay”.