2. Teori
2.3. Modeller for medborgerskap
2.3.4. Kosmopolitisk medborgerskap: utover nasjonalstaten
Vimos no capítulo 1 como o Movimento Homossexual Brasileiro transpôs um comportamento de uma comunidade cultural e urbana para uma categoria de identidade e para esta uma política, que buscou se afirmar frente ao Estado e à Sociedade na luta por garantias e direitos. A abertura política no país no final da década de 70 propiciou estas novas configurações de luta, movimento histórico que já delineamos neste capítulo. Nos interessa compreender as políticas de identidade no arcabouço da política lacaniana.
Lançaremos mão dos sentidos de política como estes aparecem em Lacan. Em um dos seus Escritos (1958), o autor fala sobre “A Direção do tratamento e os princípios de seu poder”, onde marca a relação de poder entre analista e analisando, que deve seguir em consonância com o desejo do analista para a cura. Lacan recorre à clássica tripartição pensada pelo general de guerra Clausewitz, que planejava a guerra em formulações dialéticas como política (real e absoluta), tática e estratégia32. No manejo da clínica temos interpretação, transferência e a finalidade da análise. Ou seja, a tática seria o lugar em que o analista se coloca, ou se recusa a aceitar. A estratégia estaria mais próxima do manejo do material trazido pelo analisando em prol de uma Política: confrontar o sujeito com seu desejo, o que é da ética da psicanálise. Como nos explica Lima (2010):
A interpretação revela assim o que o sujeito ignora, ou seja, a imagem que o explica e a sua importância. A técnica, que oscila entre a interpretação e a transferência, diz respeito à criação das condições de possibilidade de uma ‘ação’ inspirada por uma concepção de cura.
32 “As condições da clínica psicanalítica e os princípios do seu poder”. Site: Unicamp. Disponível em:
<http://www.unicamp.br/cemarx/anais_v_coloquio_arquivos/arquivos/comunicacoes/gt1/sessao5/Rodrigo_Passo s.pdf.> Acesso em: 23/01/2010.
Lacan buscou provocar os psicanalistas da Associação Internacional de Psicanálise (IPA), que tinham como concepção de cura a identificação com a figura do analista pelo analisando, em uma tentativa (vã) de suturar o conflito psíquico por uma sugestão, o que Lacan chamou ironicamente de reeducação emocional do paciente. Ao indicar a recusa deste lugar pelo analista, ou seja, de se fazer “argila para molde do analisando”, Lacan atribui uma ordem ética ao uso da transferência. Freud já nos demonstrou com suas histéricas que a cura pelos modelos identificatórios, além de ineficaz, era perversa. O poder do analista, em seu desejo de cura, é o de confrontar o paciente, através do manejo clínico, com as fantasias que sustentam seus sintomas, de esvaziar o gozo que o sustenta (Gurgel, 2009)33.
No entanto, a política do sintoma, sob o imperativo da pulsão de morte, é persistir; ele não se resolve com a sua decifração última, mas por ser impossível de se explicar: “A política lacaniana, ao pensar questões atuais, leva em conta a presença da pulsão de morte e de suas formas mais aterrorizantes”. (Zbrum, 2004:5).
É sustentando pacientemente a tensão, renunciando ao poder da sugestão e declinando todas as tentativas do analisando de manter a parceria com o sintoma que o analista faz da experiência da análise o objetivo último da mesma. Esta é sua política, a de utilizar todas as estratégias para fazer o paciente atravessar suas fantasias. Como nos aponta Gurgel:
Quando o analisante fala, ele quer, para além do sentido daquilo que diz, alcançar no Outro o parceiro de suas expectativas, crenças e desejos. Ele visa o parceiro de sua fantasia. O psicanalista esclarecido pela experiência sobre a natureza de sua própria fantasia leva isso em conta. Ele se abstém de agir em nome dessa fantasia. (Gurgel, 2009:5).
Desta maneira a psicanálise encontrou a possibilidade de não foracluir o sujeito, não o congelando em “idêntico” ao analista e garantindo um real lugar para a singularidade: o que restou de suas tentativas de ser. Não se trata de um ajuste à norma, mas do ajuste do sujeito com ele mesmo. No âmbito social, poderíamos nos questionar se ao adotarmos o paradigma da identidade como sustentação de uma política não estaríamos amparado-o em uma posição imaginária identificada com o Outro (modelo). O segundo problema em se considerar a identidade como sendo uma solução final, é que, sendo as identificações sempre parciais, acreditar no contrário seria apostar no fracasso, com o agravante de, por fim, o modelo ser responsabilizado pela falha. Podemos entender as Políticas de Identidade como uma estratégia possível, todavia com um tempo de vigência, necessariamente sujeita a se rever.
33 GURGEL, Iordan. 2009. “Políticas do Sinthoma e o desejo do analista”. Conforme Xavier Esqué, Una política
del síntoma. XI Jornadas Castellano-Leonesas de Psicoanalisis. Disponível em:< http://cepp- teresina.blogspot.com/2009/03/politicas-do-sinthoma-e-o-desejo-do.html> Acesso:23/01/2010.
É verdade que os LGBTs trazem embutidos nas suas reivindicações importantes questionamentos a todo o saber sobre sexo e gênero no qual a sociedade edificou suas normas e direitos (sobretudo civis), mas é importante pensar que seu Movimento Político, antes de se petrificar em identidades - com critérios de estilo de vida e agenciamento do Estado -, possa servir como estratégia para proporcionar real liberdade e responsabilidade do sujeito pelo que ele deseja. Fazer tal distinção de objetivo último permite ao movimento reivindicar avanços constantes, que abranjam inclusive as diferenças econômicas, sem correr o risco de se prender à armadilha da identificação ao modelo que a setorização governamental e mercadológica exige.