Após a apresentação, em linhas gerais, dos processos de transformação da vida íntima nas sociedades ocidentais, e de um olhar mais específico em relação ao modo como a sociologia passou a abordar a sexualidade, em que se sublinhou a sua multidimensionalidade, a importância de se reconhecer a existência de diversos níveis de análise, de ter em consideração a posição social dos indivíduos e o propósito de se articular a análise da transição para a vida adulta e da sexualidade, vira- se agora para as estratégias de investigação97 que orientaram este trabalho, apresentando em primeiro lugar os objetivos, os pressupostos e as hipóteses de trabalho.
3.1. A questão de partida, a problemática e as hipóteses
O objeto de estudo desta pesquisa é, então, as trajetórias intimas de um conjunto de jovens adultos/as e a sua articulação com transição para a vida adulta, nomeadamente com uma (possível) entrada em conjugalidade e/ou parentalidade. Procura-se então conhecer as trajetórias intimas, de jovens homens e mulheres, até a uma real ou potencial entrada em conjugalidade e/ou parentalidade, tomando em especial atenção as representações, valores e normas que orientam as práticas sexuais e/ou amorosas dos/as jovens. Pretende-se, pois, analisar o modo como o género, a situação socioeconómica, a escolaridade, a idade, a orientação sexual, a posição perante a religião dos indivíduos, os contextos de socialização em que estes/as estão inseridos e as suas redes de sociabilidade, se articulam com as suas práticas e representações das dimensões íntimas (familiares, amicais, sexuais e/ou amorosas, e de entrada em conjugalidade e em parentalidade) das suas vidas. Ou seja, procura-se analisar, a partir das condições objetivas em que os indivíduos estão inseridos, como é que estas práticas e representações se vão configurar em diferentes percursos ou trajetórias relativos à intimidade, à afetividade e à sexualidade. Por fim, pretende-se perceber como é que estas trajetórias íntimas influem numa decisão de saída dos pais, e de entrada em conjugalidade e/ou parentalidade, no sentido da possibilidade da sua antecipação ou adiamento, deseja ou recusa.
É, aliás, deste último ponto que se parte. Pergunta-se assim, em primeiro lugar, como é que as trajetórias íntimas dos/as jovens adultos se articulam com uma possível entrada em conjugalidade e/ou parentalidade?
De acordo com os objetivos da pesquisa, procura-se ter em conta questões como: a importância que a sexualidade e o amor têm (ou não) para a vida dos indivíduos; quais são as representações,
97 Utiliza-se o termo de estratégias metodológicas proposto por Mason (2009 [2002]), como a lógica através da qual se vai responder às questões de pesquisa. Neste contexto, a estratégia de investigação é considerada como um processo ativo, que envolve tomar decisões sobre todos os aspetos da pesquisa, de maneira fundamentada em relação às questões de pesquisa e ao contexto em mudança.
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valores e normas que guiam as práticas sexuais e amorosas dos/as jovens; que tipo de relações existem entre práticas sexuais e sentimentos amorosos/afetivos, entre valores, morais sexuais e género, ou entre estes valores e morais sexuais, e relacionamentos sexuais e/ou amorosos; que tipo de trajetórias juvenis e de transição para a vida adulta estão presentes nas práticas e representações dos/as jovens e de que modo é que estas se articulam ou não com as suas trajetórias intimas, afetivas e sexuais; que tipo de diferenças inter-género e intra-género existem (ou não) entre as trajetórias intimas dos/as jovens e as suas representações e práticas da sexualidade; quais são as etapas amorosas e/ou sexuais que antecedem a entrada em conjugalidade e/ou parentalidade, e quais são os contextos em estas que ocorrem; que tipo de práticas, valores e/ou motivações estão associados à escolha de um(a) parceiro/a e
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entrada em conjugalidade e/ou parentalidade; e quais são as práticas, representações e/ou expectativas face a diversas dimensões da vida íntima, como a família, a amizade, a sexualidade, a saída de casa dos pais e/ou familiares com quem se vive, conjugalidade e parentalidade.Procura ainda perceber-se que tipo de valores, condicionamentos objetivos e subjetivos, e margens de autonomia e estratégias, inter e intra-individuais, estão presentes nas trajetórias intimas dos/as jovens e, num sentido mais geral, nas suas trajetórias juvenis e de transição para a vida adulta; se existem ou não (des)continuidades entre representações e práticas, e quais as suas consequências; que tipo de relações existem entre a possibilidade de vivência (mais liberta/mais condicionada) dos lazeres, das sociabilidades, dos relacionamentos amorosos e/ou sexuais, e o retardamento/antecipação da saída de casa dos pais/familiares, da idade da entrada em conjugalidade e/ou em parentalidade.
Sendo a questão do género central para a compreensão dos percursos íntimos dos/as jovens, será, então, importante tentar antever quais as possibilidades que homens e mulheres têm de vivenciar as questões relativas aos lazeres e às sociabilidades, aos relacionamentos sexuais e/ou amorosos e às práticas sexuais. Neste sentido é relevante perceber até que ponto continua (ou não) a existir uma moral diferenciada entre indivíduos98 com muitos parceiros/as sexuais e indivíduos com poucos (ou nenhuns) parceiros/as sexuais; e se esta moral sexual diferenciada tem implicações na escolha que os indivíduos fazem dos/as suas/seus parceiras/os, em termos de relacionamentos sexuais e/ou amorosos e de entrada em conjugalidade. Será que existem parceiros/as para curtir, para namorar e para casar, como parecem apontar vários trabalhos relativos a Portugal e ao Brasil (Almeida, 1995; Heilborn e Bozon, 1996; Heilborn et al., 2006a; Pais, 1993, 1998; Torres, 2002; Vasconcelos, 1997)? Ou pelo contrário, esta moral sexual diferenciada já está mais esbatida, como acontece para França e para os países do norte da Europa (Heilborn e Bozon, 1996; Bozon e Kontula, 1997)? E em relação aos jovens homens? Será que existe algum tipo de correspondência entre esta moral sexual diferenciada que atinge as jovens mulheres e alguma outra categorização específica destes?
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Refere-se aqui, sobretudo, às mulheres, mas optou-se pelo termo indivíduos, na medida em que os/as jovens com uma orientação sexual não heterossexual falam deste tema, apontando para o facto de que um indivíduo, homem ou mulher, com “muitos/as” parceiros/as sexuais também é olhado com desconfiança.
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Sendo que se tende a associar relacionamentos amorosos e sexualidade para as jovens mulheres, pareceu pertinente procurar perceber até que ponto esta associação existe (ou não) no caso dos jovens homens, considerando desde já que os resultados de vários estudos mostram que o sentimento amoroso é também um aspeto fundamental, no caso dos jovens homens, para a existência de relações sexuais (Aboim, 2010; Allen, 2003, 2007; Bozon, 1993, 1998, 2008; Bozon e Kontula, 1997; Camolletto, policopiado; Ferreira, 2008, 2010 d); Jamieson, 2005 [1998], Johnson, 2005; Le Gall, 2004; Maxwell, 2007; Vasconcelos, 1997, Wight, 1996…). No entanto, é necessário ter conta que o estereótipo de género relaciona os homens com uma sexualidade, preferencialmente, ativa, mais desligada dos vínculos afetivos e desbanalizada, numa atitude de conquistador e de dominação. Neste âmbito, procura verificar-se, em primeiro lugar, se tais estereótipos são compartilhados pelos/as jovens, e, em segundo lugar, se tais ideias têm correspondência na prática; pergunta-se ainda de que modo estas poderão afetar formas diferenciadas de se viver a masculinidade.
Consequentemente questiona-se se existirão formas diferentes de viver a juventude para os jovens homens, nomeadamente, ao que intimidade diz respeito? Não será que, como acontece quanto à importância atribuída pelo homem à família e à paternidade, que se apresenta bem maior do que se supunha (Torres, 2002; Torres et al., 2008), que os jovens homens também dão valor aos relacionamentos sexuais e amorosos, “sérios” e duradouros e a outros aspetos do domínio da intimidade, como a amizade ou a conjugalidade? Não poderão os estereótipos de género, quanto à vivência da intimidade, da afetividade e da sexualidade condicionar a vivência dos jovens neste domínio? E no sentido oposto, não poderão as jovens mulheres viver uma sexualidade mais desligada do sentimento amoroso e/ou valorizar outros aspetos da vida que não apenas as questões relacionadas com a intimidade.
Além de mais se os homens pretendem ter relações sexuais dissociadas da afetividade e as mulheres pretendem ter relacionamentos sexuais e amorosos, será que à espaço para a existência de outro tipo de relacionamentos sexuais e/ou amorosos nas suas trajetórias íntimas? Será que vários tipo de relacionamentos sexuais e/ou amorosos podem coexistir nas trajetórias de um(a) mesmo/a jovem? Torna-se, assim, importante conhecer os tipos de relacionamentos sexuais e/ou amorosos em que os/as jovens se envolvem: os namoricos, os namoros a “sério”, os/as amigos/as coloridos/as, curtes, as relações sexuais em relacionamentos de uma noite, dando relevo às referências sobre os significados, as temporalidades e os valores associados a cada um deles. Ou seja, procura conhecer-se as etapas amorosas e/ou sexuais dos/das jovens que antecedem uma (possível) entrada em conjugalidade e/ou parentalidade; os contextos em que estas ocorrem; que importância lhes é atribuída; e em que medida são ou não diferenciados em função do género, do nível de escolaridade e da posição perante a religião.
Tendo em conta que padrões de modernidade e de tradição têm influências distintas para os indivíduos, nas suas estratégias individuais e na margem de manobra que têm para as realizar, importa ainda refletir como é que num país como Portugal, um país de origem católica, que faz parte das
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sociedades ocidentais contemporâneas, com toda a complexidade que lhes é geralmente atribuída, mas que tendo sido considerado também como um país de modernidade inacabada (Machado e Costa, 1998)99, é gerida a diversidade de influências que incidem sobre as questões relativas à intimidade; assim como questionar o modo como estas diversas influências afetam os/as jovens e os seus percursos em direção a uma conjugalidade e/ou parentalidade, possível ou real.
Os resultados de várias pesquisas mostram também como o estatuto socioeconómico dos indivíduos está relacionado com diferentes formas de viver a sua intimidade, nomeadamente, ao nível da sexualidade (Bajos e Bozon, 2008, 2008; Barbagli et al., 2010; Bozon, 1993, 2004, 2005 [2002]; Pais, 1993; Bozon e Kontula, 1997; Ferreira e Cabral, 2010; Heilborn et al. 2006; Policarpo, 2011; Torres, 2002; Vasconcelos, 1997), deste modo considera-se fundamental perceber em que medida a posição social dos indivíduos influi nas suas representações, práticas e/ou expectativas da intimidade, da afetividade, da sexualidade, e da entrada em conjugalidade e/ou parentalidade.
Tendo em conta que vários/as autores/as fazem referência às diferenças entre o que se diz para os outros, o que se diz para si próprio e o que se faz (Almeida, 1986; Torres, 2002; Lahire, 2005; Pais, 2010; Holland e Thomson, 2009), de modo que ao nível discursivo se tende a reproduzir aquilo que é considerado adequado, num determinado contexto, enquanto que as práticas tendem a ser condicionadas pelas circunstâncias, levando os indivíduos a agir dentro de um quadro de possíveis (Torres, 2002), procura perceber-se se há (des)continuidades entre aquilo que o indivíduo faz ou pode fazer, gostaria de fazer, ou pensa que deve ser feito/pensado em matéria de intimidade, afetividade, sexualidade, saída de casa dos pais/familiares e entrada em conjugalidade e/ou parentalidade, e de que modo estes possíveis desfazamentos podem (ou não) tornar-se de alguma forma perturbadores para os indivíduos. Por exemplo, ao nível da sexualidade, e para o final da década de 90, do século XX, Torres (2002: 111) argumenta que coexistia ainda um “discurso moderno igualitário em relação às mulheres, regendo-se pelas lógicas intrínsecas em relação ao laço conjugal, com o tradicionalismo patente nas questões do controlo da sexualidade feminina”.
Acresce ainda que, tendo em consideração que o sentimento amoroso é, atualmente, considerado como um aspeto essencial dos relacionamentos sexuais e amorosos, “sérios” e duradouros (Bozon, 1993, 2005 [2002]; Bozon e Kontula, 1997; Heilborn e Bozon, 1996; Jamieson 2005 [1998]; Jonhson,
99 Ao considerar Portugal um país de modernidade inacabada, os autores (Machado e Costa, 1998) estão a situar o país num cruzamento de características entre a identificação com os padrões de modernidade avançada dos países europeus (p. ex. as taxas de natalidade, de fecundidade e de envelhecimento do país, ou peso das classes médias urbanos e valor da taxa de atividade feminina) e o distanciamento desses mesmos padrões (refletido, por exemplo, nos baixos níveis de qualificação escolares e profissionais). Mais recentemente Almeida (2013: 226) refere que, embora se mantenham assimetrias e desigualdades sociais, Portugal foi seguindo as tendências principais dos outros países europeus em termos de valores, com uma “maior complexidade e variedade das opções, individualização traduzida, por exemplo, em reivindicações de autonomia de autonomia e de afirmação pessoal, secularização […], alguma desvitalização de instituições tradicionais”. Contudo, é preciso sublinhar que as autonomias existentes nas sociedades de modernidade tardia, apesar de beneficiarem de margens mais amplas, continuam a estar inscritas em contextos diferenciados, que implicam oportunidades e constrangimentos desiguais. Sobre as desigualdades sociais em Portugal, na Europa e/ou num contexto globalizado e transnacional ver, por exemplo, Almeida (2013) e/ou Costa (2012).
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2005; Le Gall, 2004; Pais, 1993, 1998; Vasconcelos 1997) e na entrada em conjugalidade (Aboim, 2005, 2006; Bozon 2005 [2002]; Torres, 2000, 2002; Vasconcelos, 1997), importa então perceber qual é a importância que os indivíduos lhe atribuem. Ademais, se, como se referiu no capítulo 2, as sociedades ocidentais contemporâneas se caracterizam cada vez mais pela individualização, será que os/as jovens vivem, hoje em dia, em mundos “isolados”, em que eles/as se guiam pelas suas próprias regras e escolhem sozinhos/as os seus próprios caminhos? Ou será que, tal como referido para o amor, a intimidade se torna um aspeto central das suas vidas contra o possível isolamento e a complexidade das relações sociais contemporâneas? Nesta medida, que importância ganham os contextos relacionais para os/as jovens, como a sua família, os/as amigos/as, os relacionamentos/as sexuais e amorosos, “sérios” e duradouros, e a entrada em conjugalidade e em parentalidade, que implicam uma vivência relacional e íntima, ao invés de uma vivência mais isolada e menos partilhada?
Por fim, vai procurar perceber-se em que medida existe (ou não) alguma relação entre uma possibilidade de vivência mais liberta dos lazeres e das sociabilidades, dos relacionamentos sexuais e/ou amorosos e de uma orientação sexual não heterossexual e a (possibilidade de) saída de casa dos pais/familiares, a entrada em conjugalidade e em parentalidade. Ou seja que tipos de articulações existem entre controlo dos lazeres, das sociabilidades e dos namoros, representações e práticas da sexualidade e transição para a vida adulta, ao nível da procura de autonomia residencial e da antecipação ou adiamento de uma entrada em conjugalidade e em parentalidade.
Como hipótese, considera-se então que o estatuto socioeconómico dos/as jovens, o seu contexto/meio de pertença, a sua rede de relações sociais (nomeadamente ao nível da família e dos/as amigos/as), o seu nível de escolaridade, a sua etapa no ciclo de vida, a sua pertença de género, a sua orientação sexual e/ou a sua posição perante a religião vão influenciar os modos como os/as jovens representam e vivem a sua intimidade, sexualidade e (expectativas de) saída de casa dos pais/familiares, e entrada em conjugalidade e em parentalidade. Assim, embora possa existir uma tendência geral para uma vivência mais “liberta” da sexualidade e da entrada em conjugalidade e/ou parentalidade, pensa-se que estes fatores vão influenciar os indivíduos de forma diferenciada, continuando a existir indivíduos para quem a sexualidade é vivida de forma mais restritiva, e a entrada em conjugalidade e/ou parentalidade condicionada.