A ideia da sexualidade como fenómeno social, em relação com outros fenómenos, experiências e desigualdades sociais (de género, classe, etnia/raça, incorporação, etc...) (Hearn, 2008), é, hoje em dia, largamente aceite e reclamada pelos/as cientistas sociais que se debruçam sobre este domínio. Tomando em conta as várias contribuições, referidas em cima, que advogam a construção social da sexualidade, e de acordo com Jackson (2008) e Jackson e Scott (2010), considera-se também importante teorizar a sexualidade de modo a ter em conta em conta o mundo empírico. Esta posição permite apreender o sentido das vidas sexuais, no modo como estas são vividas, naquilo que têm de mundano, ordinário e rotineiro, mas também naquilo que têm de exótico, arrebatador, arriscado e
93 Tal como foi referido para o trabalho de Jackson e Scott, considera-se que o modo como Holland e al. (2004 [1998]) analisam a heterossexualidade juvenil, pode ser estendida ao estudo de outras identidades sexuais e de outras idades da vida. Interessa aqui sublinhar as múltiplas dimensões de análise da sexualidade e da sua articulação com género.
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coercivo (Jackson e Scott, 2010). Ao reconhecer a sexualidade como social, torna-se importante percebê-la como uma realidade multifacetada e muldimensional. Para tal, parte-se da teoria dos guiões sexuais, que, como se viu, permite ter em conta os níveis cultural, interpessoal e intrapsíquico, complementando-a, com o trabalho de Holland et al. (2004 [1998]), de Richardson (2007), de Jackson (1996, 2006, 2007), e de Jackson e Scott (2007, 2010), que acrescentam, como referido, a questão da estrutura e do corpo. Embora se considere que Gagnon e Simon possam ter tido a questão da estrutura social em atenção, quando desenvolveram a teoria dos guiões sexuais, como fica implícito, aliás, na importância que dão, por exemplo, à família ou à lei, como fatores condicionantes da vivência da sexualidade, ou se pode antever na importância atribuída às relações interpessoais, que são posicionados socialmente, a verdade é que a questão da estrutura social ficou por teorizar. Como refere Jackson (2007: 13), relativamente às análises enquadradas na corrente do interacionismo simbólico, houve uma “desatenção ao que podemos chamar constrangimentos sócio estruturais ou institucionais”.
Considera-se ainda como Taylor (2011a, 2011b), e com base em autores como Skeggs94, a necessidade de perceber a escolha (contra o seu uso descontextualizado) como um recurso diferentemente disponível na vida dos indivíduos; chamando a atenção para a importância de situar os sujeitos sexuais como sujeitos situados em posições de classe, e de interrogar como é que a transmissão e acumulação das (des)vantagens de classe e do sexual atravessam os contextos sexuais. No mesmo sentido o conceito de experiência, usado frequentemente nas páginas que se seguem, deve ser considerado como um meio de compreender o modo como os indivíduos vivem as suas experiências e são construídos por estas, sendo que as categorias que estes experienciam, por exemplo, serem homens ou mulheres heterossexuais, são posicionadas socialmente, e produzidas através de relações de poder e de lutas, transversais a diferentes situações, ocorridas no espaço e no tempo (Skeggs, 1997).
A questão da articulação entre sexualidade e ciclo de vida, nomeadamente da transição para a vida adulta, é um outro aspecto que se procura pôr em relevo neste trabalho. Com a exceção de alguns trabalhos, nomeadamente do projeto “Inventing adulthoods”, realizado por Henderson, Holland, McGrellis e Sharpe (2007), ao longo de um período de 10 anos, ou do trabalho de Arnett (2004), a pesquisa efetuada no âmbito da transição para a vida adulta, têm negligenciado as questões da afectividade e da sexualidade95. A sexualidade é, mesmo considerada como uma transição insignificante, que já não exerce consequências decisivas, e que é desconectada das outras transições (Calvo, 2011). Por seu turno, apesar de, como referido por Plummer (2010: 165), os trabalhos
94 Já em 1997, no seu livro: “Formations of class and gender”, Skeggs (1997) argumenta que os aspetos materiais e institucionais são componentes essenciais na constituição da subjetividade sexual.
95 Em Portugal, uma notável exceção é a da tese de doutoramento de Magda Nico (2011) sobre os projetos e práticas residenciais e de autonomização de jovens adultos. O round de 2006, do European Social Survey, coloca também uma questão sobre a idade apropriada para ter relações sexuais, dado que foi trabalhado por Aboim (2010a).
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realizados no domínio da sociologia da sexualidade tenderem, também, a negligenciar a questão da idade e do ciclo de vida96, isto é, das “gerações sexuais” e das “sexualidades geracionais”, os estudos sobre a constituição do género e da sexualidade e sobre o modo como estes se articulam na juventude, especialmente no contexto escolar (mas não só), abundam (sobre esta questão ver capítulo 4), sobretudo no contexto anglo-saxónico (ver por exemplo, Epstein e Johnson, 1998; Fine, 1988; Fine e McCllelland, 2006; Holland et al., 2004 [1998]; Kehely, 2002; Mac An Ghaill, 1994; Nayak e Kehely, 2008; Pascoe, 2007). Em Portugal, embora existam alguns trabalhos onde a sexualidade juvenil aparece como tema, como os inquéritos que têm como principal objetivo o estudo da juventude (Ferreira, 2003a; Pais, 1996b; Vasconcelos, 1997) ou os valores e atitudes dos portugueses (Pais, 1998), ao longo de diferentes gerações, só recentemente o estudo das sexualidades juvenis, nomeadamente no contexto escolar, se tem vindo a desenvolver (Fonseca et al., 2011; Vieira, 2009; Pais, 2012). Contudo, ao contrário do referido por Plummer (2010), para o contexto anglo-saxónico, o trabalho realizado na sociologia portuguesa, quer através destes inquéritos, quer através de outros estudos mais qualitativos, tem incidido, frequentemente, sobre a questão da mudança social e das gerações no estudo de vários domínios do social, entre os quais a sexualidade (Pais, 1998), mas também, relativamente, aos valores e atitudes dos portugueses (por exemplo, Pais, 1998), à conjugalidade, parentalidade, à articulação entre trabalho e família (Torres, 2002; Torres et al. 2008), ao divórcio (Torres, 1996), ou à intimidade (Aboim et al., 2011). É, então neste contexto, que se vai analisar as práticas e representações da intimidade, de um conjunto de jovens (ex)residentes na região de Leiria. No próximo capítulo, apresentam-se as estratégias de investigação seguidas nesta pesquisa
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Embora, esta tendência esteja a começar a inverter-se, como fica patente, por exemplo, nos projetos de Anne Cronn e Andrew King, sobre a vida dos indivíduos LGBT idosos (http://www.esrc.ac.uk/my- esrc/grants/RES-189-25-0189/read).