Ora, após a realização das primeiras entrevistas exploratórias procedeu-se então à realização de entrevistas em profundidade, semiestruturadas, que permitiram dar conta das trajetórias dos/as jovens adultos nos domínios da intimidade, afetividade e sexualidade, considerando as suas práticas e
105 Bardin (2011 [1977]: 44) define a análise de conteúdo como “um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitem a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/receção (variáveis inferidas) destas mensagens”. Assim, procura-se descrever e analisar a superfície dos textos, assim como deduzir logicamente os fatores que determinam estas características.
106 A análise temática, de acordo com Bardin (2011 [1977]: 131), pressupõe a descoberta de ““núcleos de sentido” que compõem a comunicação e cuja presença, ou frequência de aparição, podem significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido”. Neste contexto, “o tema é a unidade de significado que se liberta naturalmente de um texto analisado segundo certos critérios relativos à teoria que serve de guia de leitura” (Bardin (2011 [1977]: 131).
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A categorização e codificação dos dados são já, como refere Mason (2009 [2002]), posicionadas analiticamente. Ao escolher e elaborar um determinado sistema, está a fazer-se determinadas assunções sobre o tipo de fenómenos que se está a catalogar ou não, assim como sobre o modo de como os utilizar posteriormente, abrindo, deste modo, possibilidades de análise e fechando outras.
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Como refere Kauffman (2007), os resultados obtidos no quadro da metodologia qualitativa devem ser regularmente cruzados e confrontados com os resultados obtidos por outros métodos. A utilização de referências teóricas deve também ser utilizada no sentido de validação, sobretudo, para fazer progredir um argumento.
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representações, assim como as suas expectativas no que diz respeito à saída de casa dos pais, à entrada em conjugalidade e/ou à entrada em parentalidade. As entrevistas permitem-nos ter as subjetividades, as interpretações individuais dos atores, perceber os seus valores, conhecer as suas representações sociais, as suas experiências, as suas práticas e as suas trajetórias (Blanchet, 1987); sendo reveladoras (na medida em que se foi sensível às semelhanças e às diferenças) das várias contradições e da heterogeneidade dos comportamentos dos inquiridos (Lahire, 2005). Tendo em conta que a variedade socioeconómica e cultural apresentada nos valores e comportamentos relativos à sexualidade pode ser apreendida através do conhecimento dos percursos íntimos, sexuais e amorosos, percursos de experiências no âmbito dos afetos e contactos físicos com as pessoas, as entrevistas permitiram evidenciar as trajetórias intimas dos/as jovens e mostrar como estas são produzidas e conduzidas em contextos distintos, pondo, ao mesmo tempo, em evidência determinados eventos, como a iniciação amorosa e/ou sexual, que podem ser mais relevantes para esses acontecimentos, demonstrando como esses mesmos eventos podem ser diferentes para cada pessoa (Heilborn, 1999).
De acordo com Giami (2000) as narrativas sexuais, embora constituam um género bastante diversificado, constituem materiais importantes para a compreensão em profundidade da vida sexual, dos valores e dos modos de vida de um determinado período histórico e de uma determinada cultura, e, ao mesmo tempo, da singularidade de cada experiência. Contudo, é preciso tomar em atenção que as narrativas sexuais são carregadas do peso simbólico da história e, nomeadamente, das relações com as normas sociais, como as biológicas e as religiosas, assim como pelo peso das representações sociais sobre a sexualidade. As narrativas sexuais apresentam ainda várias dificuldades relacionadas tanto com a personalidade e a subjetividade do/a investigador(a) (por exemplo, a possibilidade do entrevistado ir contra o seu sentido de estética ou os seus valores, e/ou de entrar numa relação que pode envolver a sua própria intimidade) como a do entrevistado (quais as suas motivações, as mensagens que pretende transmitir, as representações de si próprio/a), assim como da ligação entre o estudo da subjetividade e das experiencias individuais com a sua trans-individualidade e a sua inserção na cultura e na história (Giami, 2000).
Um outro problema relacionado com o estudo da sexualidade é o facto de, como refere Bozon (1999), as práticas relativas à sexualidade estarem intimamente relacionadas com dois aspetos fundamentais: a invisibilidade da sexualidade física propriamente dita e as dificuldades e as resistências que os sujeitos demonstram no nomear das práticas sexuais. Assim, por um lado, os atos sexuais não são diretamente observáveis, em nenhuma cultura ou época histórica. Para além disso, tal como referido anteriormente, com o “processo civilizacional” (Elias, 1989), a sexualidade vai sendo isolada e remetida para o domínio do privado, de modo que os indivíduos passam a ter uma obrigação de dissimular os seus atos (Bozon, 1999). Não mostrar tornou-se então uma obrigação social. O carácter invisível da sexualidade humana, surgindo como um traço cultural universalmente associado a esta, implica, para os/as investigadores/as, não ter acesso, de forma direta, às práticas sexuais. Deste modo, apenas é possível apreender as práticas sexuais indiretamente, através dos discursos dos
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indivíduos, que falam na primeira pessoa, ou de forma ainda mais indireta através das representações literárias e artísticas.
No entanto, e por outro lado, falar sobre a sexualidade é também uma tarefa difícil. Como refere Bozon (1999: 5): “não observável e pouco objetivável, a sexualidade física é igualmente difícil de contar e de dizer, e bem mais fácil de sugerir metaforicamente”, não existindo, frequentemente, “termos na linguagem comum para nomear os atos físicos da sexualidade”. Para se falar sobre a atividade sexual é comum a utilização de metáforas “no contexto do amor físico, e que permite dizer sem nomear de forma explícita” (Bozon, 1999: 5); por exemplo, existem vários verbos que, não sendo específicos deste domínio, designam os actos sexuais, como: fazer, meter, vir, entrar, sair, comer, dar, o que mostra o “carácter não nomeável das práticas sexuais” (Bozon, 1999: 5)109
. Neste sentido, Deveraux (1980) argumenta que uma entrevista sobre sexualidade, mesmo tratando-se de uma entrevista científica, é ela própria uma forma de interação sexual.
Assim, Bozon (1999) considera que não se nomeiam as práticas sexuais também porque se torna perigoso nomeá-las, de modo que, mesmo com confidentes e próximos, fala-se pouco e pouco explicitamente de sexualidade” (Bidart, 1997, in Bozon, 1999: p. 6). Fazer uma confidência é estar a implicar-se pessoalmente, mesmo a colocar-se em perigo. Existe então, em parte por esta razão, “uma forma de autorrestrição na evocação da vida sexual pessoal, que permite limitar a implicação da relação” (Bozon, 1999: 6). Os silêncios e os não ditos são, por conseguinte, “uma manifestação de resistência relativamente a uma determinada economia da ordem, da contenção, dos filtros normativos que regulam a vida amorosa e sexual” (Pais, 1998: 410).
Estudos como os de Holland et al. (2004 [1998]), de Robinson et al. (2007) ou de Vilar (2000) dão ainda conta da escassez, desconforto e/ou da dificuldade dos/as entrevistados/as em falar sobre sexualidade, especialmente quando estes/as descrevem as suas atividades e experiências sexuais. Neste sentido, como referem Robinson et al. (2007), os/as entrevistados/as podem refrear-se de utilizar termos coloquiais ou de calão, sem a “permissão” (187) do/a entrevistador(a), assim como adaptar/medir a sua linguagem e o seu grau de abertura em relação ao posicionamento social do entrevistador(a) (como a sua idade, género, orientação sexual, nível de escolaridade, classe social, etc.)
Mas como se viu no capítulo anterior, embora a atividade sexual não deva ser vista ou falada pelos indivíduos, esta é “objeto de prescrições, de intervenções e de discursos públicos” (Bozon, 1999: 7). Acresce ainda que, segundo Plummer (1995, 2003), se até recentemente as vidas sexuais dos indivíduos eram remetidas para o silêncio, nas sociedades ocidentais contemporâneas, assiste-se a um aumento massivo das histórias sexuais110, no sentido em há um incentivo a falar-se sobre sexualidade:
109 Sobre as representações dos/as jovens daquilo que é uma relação sexual falar-se-á no capítulo 5.
110 Plummer (1995) define as histórias sexuais como narrativas da vida íntima, especialmente focadas no erótico, no género e no relacional, que fazem parte dos discursos e ideologias mais alargados da sociedade (tendo muito em comum com outras histórias), e que existem em várias formas: histórias de sexo científicas, histórias de sexo históricas, histórias de sexo ficcionais…
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os comportamentos, as identidades, os sonhos, os desejos, os sofrimento, e/ou as fantasias sexuais; sendo que momentos diferentes dão origem a histórias diferentes (p. ex. histórias de puberdade, de casamento, de assumir-se). Nas palavras do autor: “nós tornamo-nos os contadores de histórias sexuais numa sociedade contadora de histórias sexuais” (Plummer, 1995: 5).
Neste sentido, têm vindo a ser realizados vários estudos qualitativos, a nível internacional, no âmbito da sexualidade (ver capítulo 2 e capítulo 5). Também em Portugal, estudos como os de Torres (2002) e de Almeida et al. (2004) prestam atenção a questões como a saúde sexual e reprodutiva, relacionando-os com “práticas e contextos, representações e ideais, falas e saberes” (Almeida et al., 2004: 89), ou o discurso dos/as entrevistados “ sobre a forma como decorreram os relacionamentos afetivos e sexuais, as formas de controlo parental na adolescência, o namoro com o conjugue desde o seu período inicial até ao casamento…” (Torres, 2002: 76). Mais recentemente, como referido no capítulo anterior, foram realizadas algumas pesquisas qualitativas sobre sexualidade e jovens no contexto escolar (Fonseca e Santos, 2011; Pais, 2012) e/ou sobre as experiências, representações e práticas da sexualidade em indivíduos (homens e mulheres) em diferentes fases do ciclo de vida (jovens adultos e adultos) (Vieira, 2009; Policarpo, 2010). Acredita-se então que as pessoas estão um pouco mais predispostas em falar sobre sexualidade111, especialmente, quando associada a um investimento afetivo, em face da existência de uma forte articulação entre sexualidade e sentimento, nas sociedades ocidentais contemporâneas.
Acresce ainda que o estatuto “especial” da situação de entrevista, pode permitir a “confissão” ou o “desabafar” deste tema que pode não ser falado com outros/as. Como referem Almeida et al. (2004: 358-359): “a situação de entrevista não surge como qualquer interação social; pelo contrário, é como se suspendesse o quotidiano e criasse um contexto peculiar para uma interação profissional de comunicação entre alguém que pergunta e outra pessoa que responde, no pressuposto de confidencialidade da sua informação”, de modo que “prescindir de abordagens qualitativas em profundidade, de dar a palavra ao ator, a pretexto de uma suposta dificuldade de acesso a representações ou práticas reprodutivas, deixa portanto de colher como argumento”.
Foram então construídos dois guiões de entrevistas: um que visava os jovens heterossexuais e um segundo para os jovens homo e bissexuais112. Embora os guiões sejam iguais na maior parte da sua estrutura, o guião de entrevista relativo aos jovens homo-bissexuais têm algumas perguntas que foram acrescentadas e que estão relacionadas com a vivência da sua orientação sexual numa sociedade caracterizada, sobretudo, pela heteronormativade (Richardson, 1996; Jackson, 1996). O guião de entrevista desenvolve-se à volta de alguns temas principais, como as representações e práticas relativas ao ser-se jovem/adulto e às condições de transição para a vida adulta, à intimidade, à afetividade e à sexualidade; às redes de socialização e de sociabilidade, como a família, o grupo de
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A pesquisa anterior realizada pela investigadora mostrou uma certa abertura por parte das jovens entrevistadas em falar sobre sexualidade (Marques, 2006).
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pares e a escola, e à comunicação sobre sexualidade existente nesses contextos; às fontes de informação sobre a sexualidade e práticas e representações relativas à contraceção; e às representações, práticas e expectativas relativas à saída de casa dos pais, à entrada em conjugalidade e à entrada em parentalidade.
A reação dos/as jovens às entrevistas foi na maior parte dos casos boa, embora se tenha sentido algumas dificuldades de acesso a determinados grupos de jovens, como se vai referir mais abaixo. Contudo, os/as jovens falaram da intimidade (das suas experiências, representações e expectativas) de forma diferenciada. E se para alguns/algumas não houve qualquer problema, levando as entrevistas cerca de duas horas de duração e mais, outros/as mostraram-se bastante mais sucintos no modo como falaram, sobretudo quando se tratava das suas vivências e expectativas, mais do que das suas representações sobre os temas abordados.
Para alguns/algumas destes/as jovens, tendencialmente com o 12º ano de escolaridade e menos, como se verá, aliás, no capítulo seguinte, falar de sexualidade é algo difícil e/ou sentido como algo de privado que não deve ser exposto. Houve também temas que foram mais difíceis de falar para os/as jovens, mas também para a entrevistadora. Assim se as questões sobre as representações e as normatividades da sexualidade não apresentaram muita dificuldade no diálogo, outras questões sobre práticas específicas, como a relação sexual, a masturbação, o sexo oral e/ou o sexo anal, foram, por vezes, um pouco mais difíceis de perguntar e de responder, como se pode ver no seguinte exemplo:
“Entrevistadora (E.) – Olha e sobre masturbação, é um assunto que te sentes à vontade em falar? Se calhar não.
E. – Mas eu vou perguntar na mesma, é uma coisa que tu fazes? Homem que é homem, né?, por vezes acontece. Eu acho que é normal. […]
E. – Então e tu não te sentes à vontade a falar nisso porque motivo? Nunca tive motivo para falar nisso.”
(António, 23 anos, 9º ano incompleto, pedreiro)
Acresce ainda que, nas entrevistas com os/as jovens com uma orientação sexual não heterossexual, ficou, várias vezes, claro o desconhecimento da entrevistadora sobre as suas práticas sexuais, como se pode ver pelo comentário da Vanessa (29 anos, estudante do ensino superior, operária): “Aposto que tu não fazes a mínima ideia o que é que duas mulheres fazem, não é?”.
Para outros/as jovens, contudo, a situação de entrevista surgiu, como se referiu em cima, como uma oportunidade de falar sobre um tema que se sente não poder ser abordado com todas as pessoas, assim como para pensar em assuntos que, frequentemente, não são postos em causa pelos/as jovens: “Já me fizeste algumas perguntas que eu nunca pensei nelas, e eu respondi aquilo que estava a sentir no momento. […] Há sempre perguntas que nem nós sabemos responder, mesmo sobre nós próprios, e é sempre bom falar disto, porque assim a gente acaba por se conhecer melhor (Jorge, 23 anos, 12º ano, designer gráfico).
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Para além de mais vários/as jovens referiram a importância de se falar cada vez mais sobre sexualidade de modo a que este seja um assunto em que deixem de existir tabus, que pais e filhos/as possam discutir, de que se possa falar à vontade e sem medos; de forma a fazer circular a informação sobre sexualidade e fazê-la chegar às pessoas para que se possam adquirir conhecimentos, tirar dúvidas e/ou prevenir “problemas” (como a gravidez na adolescência ou as doenças sexualmente transmissíveis); e/ou para satisfazer a curiosidade e trocar experiências. Em qualquer dos casos, o que está aqui em causa é a abertura da comunicação sobre a sexualidade, no sentido da sua normalização e da sua integração no quotidiano dos indivíduos: “Acho que é importante para abrir um bocado a mentalidade das pessoas, acho que se devia falar mais e com menos inibição” (Sandra, 26 anos, licenciatura, à procura do primeiro emprego). Esta importância atribuída à comunicação sobre sexualidade, foi, aliás, a justificação dada por alguns/algumas jovens para participar na entrevista, mesmo quando estes/as não gostam de falar sobre o assunto: “Não faz parte de mim […] estar a falar, principalmente com uma pessoa estranha, sobre isto. Mas acredito que estou a contribuir para qualquer coisa, por isso é que vim. Acho um assunto um bocado constrangedor. [...] Custa-me falar disso” (Rodrigo, 23 anos, 12º ano, operário qualificado).
Já em relação ao decorrer da entrevista e ao tipo de questões colocadas, a maior parte dos/as jovens consideraram terem sido interessantes, apesar de terem existido algumas críticas, sobretudo, em face ao tamanho/duração da entrevista, considerado(s)/a(s) como demasiado extenso(s)/a(s), àquilo que alguns/algumas jovens consideraram ser a repetitividade de certas questões, e/ou a dificuldade que alguns/algumas sentiram em responder a determinadas questões. Mas veja-se agora quem são os/as jovens entrevistados/as113.