Este capítulo abordará algumas das principais concepções, definições, aspectos histórico-culturais e etapas evolutivas do brincar, utilizados atualmente na educação. Discutirá algumas questões relativas ao processo de aprendizagem da criança com deficiência visual, suas necessidades lúdicas e educacionais especiais.
2.1. O brincar e o brinquedo: aspectos históricos e culturais
A literatura sobre as brincadeiras e brinquedos e sua importância na vida das crianças é bastante extensa e vários autores referiram-se a eles como fundamentais para o desenvolvimento infantil, atribuindo-lhes valores em diferentes aspectos, como o de divertir, educar, ser essencial à saúde e, por vezes, comparando-os ao trabalho do adulto.
A brincadeira traduz valores, costumes e formas de pensar e, sendo uma atividade ligada ao contexto social e cultural, foi encarada de maneira muito variada nas diferentes sociedades em diferentes épocas. É, portanto uma atividade que ocorre em todas as partes do mundo e em todos os tempos. Referências a brincadeiras são encontradas na Antiguidade, na literatura e na arte. Na Antiguidade greco- romana o jogo era visto como recreação, relaxamento e atividade pedagógica que exige esforço físico e intelectual. Era uma atividade comunitária, com forte simbolismo religioso, da qual todos participavam.
Em antigas pinturas gregas do ano 4000 a.C., há ilustrações de crianças brincando e no piso do foro romano existe a gravação de uma “amarelinha”. Filósofos como Platão e Aristóteles e, posteriormente, Quintiliano e Montaigne destacam o papel da brincadeira na educação.
No relato apresentado a seguir, São Tomás de Aquino ilustra com muita felicidade, como, em todos os tempos, as crianças dão vida a seus brinquedos e a suas brincadeiras:
Jesus Cristo, aos cinco anos de idade, se divertia, certo dia, junto com outras crianças, à beira de um riacho, fazendo figurinhas de argila. Alegremente brincava em torno de doze passarinhos que tinham acabado de moldar. Quando um judeu religioso, ao passar por eles, deu-se conta de que estavam cometendo um grande pecado, produzindo brinquedos naquele dia – um sábado – dia considerado sagrado pela religião judaica. Correu assustado para José, o pai, advertindo-o de que Jesus estava violando as leis da religião. José foi até às crianças e, confirmando a cena, dirigiu-se a Jesus: Então você não sabe que é pecado fazer estas coisas no sábado? Jesus, batendo palmas, gritou, então aos passarinhos de barro: Ide! Gorjeando alegremente, os passarinhos puseram-se a voar (ALTMAN, 1992, p. 156).
Na Idade Média, o jogo adquiriu o conceito de atividade não séria, pois foi associado ao jogo de azar, mas no período do Renascimento, ele passou a ter, além do caráter de ludicidade e brincadeira livre, o de elemento favorecedor da aprendizagem e dos conteúdos acadêmicos.
O Romantismo, do final do Séc. XVIII até final do Séc. XIX, vê a brincadeira como uma conduta natural, espontânea e livre da criança.
Sinker et al (1985) apud Brodin (1999, p. 15), destacam a existência de alguns elementos que sempre aparecem nas referências às brincadeiras das crianças:
[...] a brincadeira é um fenômeno universal, estando presente em todas as culturas e civilizações; as brincadeiras de meninos e meninas são diferentes e a idade das crianças também influencia suas brincadeiras; as crianças que não têm brinquedos sempre encontram ao redor objetos com que brincar; em cada cultura existem brincadeiras específicas, amadas por todas as crianças; a brincadeira sofre influência das mudanças na sociedade onde ela se encontra.
No século XIX, a brincadeira recebe forte influência das teorias biológicas, principalmente com os pressupostos científicos das teorias darwinistas da adaptação às novas condições de vida.
Diferentes correntes da Pedagogia e Psicologia acentuaram a importância do brincar para a infância, considerando-o a atividade dominante durante os anos de crescimento, para a construção do conhecimento, a aquisição de regras e a expressão do imaginário. Diversos estudiosos da Educação investigaram a dimensão pedagógica do jogo como Pestalozzi, Drecoly, Montessori, Claparède, John Dewey, Wallon, Piaget, Vygotsky, Freinet, Peter Slade, Bruner e outros. Nos Séculos XVIII e XIX, com as pedagogias advogadas respectivamente por Rousseau e Froebel, encontram-se as bases necessárias para o estabelecimento de práticas educativas.
Com Froebel (1782-1852), o criador do jardim-da-infância, o brincar passa a fazer parte do centro do currículo da educação infantil. Pela primeira vez a criança brinca na escola, manipula brinquedos para aprender conceitos e desenvolver habilidades. Jogos, música, arte e atividades externas integram o programa diário composto pelos dons e ocupações froebelianas. Ele foi pioneiro ao reconhecer na brincadeira a atividade pela qual a criança expressa sua visão do mundo, sendo ela a principal fonte do desenvolvimento na primeira infância. Este período é, para ele, o mais importante da vida humana, constituindo-se na fonte de tudo o que caracteriza o indivíduo, toda a sua personalidade. Ele considera o brincar uma atividade séria e importante para quem deseja realmente conhecer a criança, e que a observação de suas atividades espontâneas, como a brincadeira e a fala, será de grande importância para o êxito da atividade educativa. Froebel elege a brincadeira como seu grande instrumento, juntamente com os brinquedos. Em seu livro Pedagogia dos jardins-de-infância (1917 apud ARCE, 2004, p. 93), ressalta ser a brincadeira a chave de nossa comunicação com a criança pequena. Ele entende que os brinquedos e as brincadeiras não podem ser escolhidos ao acaso,
mas devem ser estudados para que possa oferecer à criança a atividade mais adequada ao seu nível de desenvolvimento.
A valorização do brincar e a realização de atividades do cotidiano foram a tônica da proposta pedagógica de Maria Montessori, uma das primeiras educadoras a ressaltar o significado do meio ambiente ao elaborar uma metodologia de ensino para crianças deficientes mentais, com o objetivo de implementar a educação sensorial. Essa metodologia visava estimular a personalidade, de maneira integral, sem enfocar as dificuldades existentes para o desenvolvimento.
Através de olhar, escutar, sentir, degustar e ouvir, a criança desenvolve os sentidos e amplia seu conhecimento sobre o mundo. Existem muitas semelhanças entre as teorias de Montessori e Piaget, pois ambos partiram da observação, das atividades espontâneas da criança e valorizaram a importância do exercício e repetição (MONTESSORI apud BRODIN, 1999a, p. 36).
Brougére (2004) considera ser a brincadeira bastante marcada pela influência da Biologia e Psicologia no Século XX e cita Gross, que a considera como uma necessidade biológica, necessária para o treino das habilidades herdadas; no sentido psicológico é uma ação livre e prazerosa. A valorização do brincar como atividade pedagógica e os estudos a respeito do valor da brincadeira para o processo de desenvolvimento e aprendizagem aumentaram muito e adquiriram significado internacional a partir de princípios da década de oitenta.
Anton Semionovich Mackarenko (1981, p. 48), mestre ucraniano que atuou como educador no início do século XX, na direção da Colônia Gorki, instituição rural que atendia crianças e jovens órfãos, afirmava que:
A importância do jogo na vida da criança é semelhante à da atividade, do trabalho ou do emprego para o adulto. A atuação do homem em suas diferentes atividades reflete bastante a maneira como se comportou nos jogos durante a infância. Daí que a educação do futuro cidadão se desenvolva antes de tudo no jogo. [...] Diz ainda que: “O jogo proporciona alegria à criança, a alegria da criação, do
triunfo, ou do prazer estético, da qualidade. Uma alegria semelhante se consegue também com um bom trabalho. Nisto consiste a semelhança entre o jogo e o trabalho.
2.2. O brincar e o brinquedo: diferentes concepções
As diferentes correntes da Psicologia e Pedagogia consideram o brinquedo e o brincar como elementos essenciais para a vida psíquica, desenvolvimento intelectual e aprendizagem de qualquer criança, independente de seu contexto sociocultural. Neste trabalho serão apresentadas as principais concepções sobre o brinquedo e o brincar, as quais permeiam o cotidiano escolar e fundamentam a prática pedagógica nos centros de educação infantil.
2.2.1. Concepção sócio-histórica de Vygotsky: o brincar como
elemento mediador da aprendizagem e desenvolvimento
Brincar é uma atividade natural, alegre e prazerosa que favorece um aprendizado espontâneo, melhora a auto-estima, a afetividade e a criatividade. É uma forma agradável para a criança socializar-se, conhecer e interagir no ambiente, com as pessoas e os objetos, dominar o espaço e adquirir autoconfiança. É por isso essencial ao desenvolvimento físico, intelectual e emocional da criança.
Brincando, a criança vivencia emoções, sentimentos, frustrações, afastamentos e aproximações, imaginações e fantasias, se apropria da realidade, atribuindo-lhe significado. Tais experiências são fundamentais para a constituição da vida psíquica e social, para a construção e respeito às regras, essenciais para a convivência com as diferenças.
Na primeira metade do Século XX, viveu e atuou na Rússia um dos mais importantes educadores e pesquisadores, Lev Semenovich Vygotsky, criador de uma teoria sobre o desenvolvimento de enfoque histórico-cultural.