O feedback é um aspecto relevante para a avaliação formativa e, geralmente, há consenso entre autores e autoras que defendem essa concepção de avaliação sobre a importância desse processo como integrante da avaliação e talvez até intrínseco a ela. “[...] são as orientações que o professor dá ao aluno após analisar suas produções, para que haja avanço em suas aprendizagens.” (VILLAS BOAS, 2007, p. 16). Assim, é um mecanismo que serve tanto para o/a professor/a quanto ao/a estudante.
Villas Boas (2008) esclarece que o/a docente o utiliza para tomar decisões programáticas e os/as estudantes para acompanhar seus desempenhos, em relação ao que precisa ser melhorado/modificado ou reforçado no caso de sucessos. E “[...] A qualidade do feedback é ponto essencial de qualquer procedimento de avaliação formativa.” (VILLAS BOAS, 2011, p. 27).
Em princípio o feedback deve conduzir necessariamente a qualquer tipo de ação, ou conjunto de ações, que o aluno desenvolve para poder melhorar sua aprendizagem. Isto é, os alunos têm de aprender a interpretá-lo, a relacioná-lo com as qualidades dos trabalhos que desenvolvem e a utilizá-lo para perceberem como poderão melhorar suas aprendizagens. Nessas condições diremos que estamos perante uma avaliação formativa (FERNANDES, 2009, p. 98, grifo do autor).
Portanto, ainda segundo tal autor, o feedback de nada adianta, se ele não for apropriadamente estruturado e integrado ao processo ensino-aprendizagem, ou se os/as
estudantes não souberem o que fazer com ele. Quando a informação do feedback não leva a nenhuma ação que permita melhorar as aprendizagens, “[...] que elimine a diferença entre o que se pretende alcançar e o que efetivamente se alcançou” (FERNANDES, 2009, p. 61), não se está diante de uma avaliação formativa ou feedback formativo e, sim, em muitos casos, de frente a uma prática orientada a classificação, de natureza somativa ou certificativa.
Destarte, é importante que os/as docentes possam conversar com seus/suas estudantes, de forma a explicitar o que é o feedback, para que serve e quais as intenções para a sua utilização. Do contrário, esse elemento se tornará um instrumento meramente imposto, sem esclarecimentos e reflexões, no qual o/a discente não enxergará significado, de forma a não contribuir para a melhoria das suas aprendizagens, afastando-se de um caráter formativo.
Fernandes (2009), ao falar da natureza do feedback, diz que ele pode assumir variadas formas, conteúdos e processos como: estar mais voltado aos resultados, estar associado à ideia de recompensar o esforço, ou mais orientado aos processos utilizados, na natureza das tarefas de avaliação e na qualidade das repostas. Esse último está associado aos princípios da avaliação formativa alternativa.
Segundo Fernandes (2006), a avaliação formativa alternativa é um processo interativo, dinâmico, que busca fazer com que o/a estudante aprenda melhor, portanto é um avaliação para a aprendizagem, que pressupõe um compartilhamento de responsabilidades, no qual o/a discente não é meramente espectador/a, mas se torna ativo/a do processo. Dessa forma, a informação recolhida com a avalição deve ser entendida pelos/pelas educandos/as de maneira que eles busquem caminhos para aprender e superar as possíveis dificuldades. Portanto
[...] a AFA deve ser tida em conta nas planificações de ensino e nas práticas de sala de aula pois um dos seus principais objectivos é o de obter informação acerca de como os alunos aprendem, ajudando-os deliberada e sistematicamente a compreender o que fazem e a melhorar as suas aprendizagens. (FERNANDES, 2006, p. 32).
Corroborando com Fernandes (2006), Hadji (2001), destaca a avaliação formativa com seu caráter informativo, informa os/as dois/duas principais atores/atrizes do processo, professor/a e discente. O/A primeiro/a que será comunicado sobre os efeitos de seu trabalho e poderá regular suas ações; e o/a segundo/a que poderá conscientizar-se das suas dificuldades, reconhecendo-as e corrigindo seus próprios erros, além de saber por onde anda.
Conforme nos aponta Fernandes (2009, p. 72, grifo do autor) “[...] o feedback é o processo que vai permitir ao aluno ativar, entre outros, os processos cognitivos que lhe vão
permitir vencer as dificuldades.” Desse modo o feedback possui um compromisso substancial com as aprendizagens dos/das estudantes.
Portanto, reportando-nos novamente a Fernandes (2006), observamos que a avaliação formativa é um processo de via dupla, em que o/a educando/a deixa de ser agente passivo, para tornar-se ator/atriz dessa configuração; o poder da avaliação não está mais somente na mão do/da professor/a, o próprio/própria discente tem agora a responsabilidade de regulação da sua aprendizagem, o que lhe confere autonomia e lhe possibilita compreender o seu processo de aprendizagem e identificar o que sabe, e o que não sabe ainda, de forma a trilhar caminhos para superar as dificuldades. No entanto, o/a professor/a, nesse processo, também precisa estar atento ao desenvolvimento das aprendizagens e intervir, de forma a auxiliar os/as estudantes a encontrar esses caminhos para ultrapassarem os obstáculos.
Villas Boas (2011) pontua duas ações que compõem a natureza da avaliação formativa: a primeira é o reconhecimento do/da estudante quanto ao espaço entre a sua aprendizagem e os objetivos que ele quer atingir; e a segunda diz respeito ao que fazer para acabar com esse espaço e alcançar tais objetivos. Dessa maneira, a autoavaliação, ou a ajuda de outra pessoa, como, por exemplo, o/a professor/a, são elementos importantes para gerar as informações quanto à primeira. A autora destaca, ainda, a importância da participação dos/das educandos/as na avaliação, apontando que, com a assistência do/da docente, os/as discentes podem auxiliar na escolha dos critérios e na aplicação da avaliação, permitindo-lhes a compreensão de onde se situam em relação à sua aprendizagem e do que é esperado. Torna-se importante, assim, desde pequenos/as, a inclusão dos/das estudantes nas atividades avaliativas, de forma a permitir a desvinculação da cultura da avaliação como promoção/reprovação.
Ainda, para Villas Boas (2011), o/a professor/a, ao pôr em prática a avaliação formativa, pode ter dois caminhos: um, no qual o próprio/própria educando/a identifica suas dificuldades e busca ele/ela mesmo/a ações para superá-la e outro, no qual o/a professor/a se responsabiliza por direcionar atividades que gerem as aprendizagens. Cabe, então, ao/a docente decidir como será realizado esse processo: pode combinar esses caminhos ou escolher um como direcionamento da sua prática pedagógica
Assim, podemos notar, com base nas características da avaliação formativa, que ela possibilita a formação de um/uma estudante autônomo/a, à medida que ele/a vai-se responsabilizando pela regulação de sua própria aprendizagem, a partir de mecanismos como o feedback e a autoavaliação. Portanto, a avaliação formativa é um elemento do processo de formação de um cidadão/cidadã crítico/a, transformador/a e emancipado/a.
Por fim, compreendemos que a avaliação deve ser um elemento parte do processo ensino-aprendizagem, no qual não deve ser a representação do medo, do “ruim”, da condenação ao erro, da classificação dos/das melhores e piores. Ela deve ser entendida como um processo que ocorra em consonância com a aprendizagem e atue como um mecanismo facilitador desse processo.
No entanto, compreendemos que esta é uma concepção relativamente nova e que está em movimento inicial nas práticas escolares. Por isso, percebemos a necessidade de estudá-la como forma de contribuir para o processo de reflexão e transformação de novas práticas que corroborem com uma avaliação em prol das aprendizagens.
No próximo capítulo, apresentamos discussões acerca da avaliação em Educação Física Escolar a partir de autores e autoras dessa área, dos documentos oficiais e de pesquisas de Mestrado e Doutorado. Em busca de realizar um movimento de diálogo com o nosso objetivo de pesquisa (analisar as concepções e práticas de avaliação das e para as aprendizagens na ação de professoras de Educação Física que participam/participaram do grupo de formação continuada Lecef, tendo como referência de análise os fundamentos da avaliação formativa), nesse seguimento procuramos como um esforço inicial observar as pesquisas (teses e dissertações) à luz também dos fundamentos da avaliação formativa.
3 A AVALIAÇÃO DAS E PARA AS APRENDIZAGENS NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR
Neste capítulo apresentaremos discussões acerca da avaliação em Educação Física Escolar a partir de autores da própria área, dos documentos oficiais e de pesquisas de Mestrado e de Doutorado. No entanto, compreendemos que cabe, neste trabalho, antes de adentrarmos aos apontamentos no campo especificamente da avaliação em Educação Física Escolar, realizarmos algumas ponderações acerca da própria Educação Física e seu percurso histórico, trazendo para este estudo um delineamento do que seja uma perspectiva crítica de Educação Física, à qual fazemos menção nesta pesquisa.