Optei pelo trabalho com as Histórias de Vida, pois refleti que seriam mais adequadas ao objetivo de verificar como os formadores vão se formando, durante suas trajetórias de vida, escolarização e profissão, considerando que as experiências de natureza pessoal, desde as primeiras formas de socialização, se mostram intimamente relacionadas aos perfis profissionais, às escolhas e investimentos dos indivíduos na área em que atuam, às suas convicções e ações. Além disso, antes do contato com a obra de Paulo Freire, eu já reconhecia a importância dos percursos e contribuições individuais, ou seja, da subjetividade, para a construção da história coletiva, e acreditava no potencial das fontes vivas para evitar equívocos teóricos (DEMARTINI, 1988).
O relato comunicativo não poderia abranger e evidenciar tantas relações, pois está mais concentrado nas discussões das experiências que se dão no presente. Entretanto, a participação dos sujeitos entrevistados, em todas as etapas da pesquisa, ocorreu de acordo com as orientações e pressupostos da MCC.
Solicitamos aos participantes que nos oferecessem apenas os relatos orais sobre suas histórias de vida e, caso julgassem necessário alterá-lo, poderiam realizar mudanças no texto das transcrições.
A data e o local das entrevistas foram escolhidos pelos participantes, de acordo com a conveniência e o bem estar oferecido a eles. Com Valério, nos encontrávamos em uma sala, dentro da Diretoria de Ensino, seu local de trabalho. Com José, nos reuníamos na sala de jantar de sua casa. Antes de iniciarmos as gravações, estabelecíamos um período de tempo a ser dedicado às narrativas, respeitando as limitações colocadas pelos entrevistados.
Atendendo à conduta ética exigida em uma pesquisa, prevista no termo de consentimento livre e esclarecido, pedimos que os participantes sugerissem nomes fictícios, com os quais se identificassem, a fim de manter seus verdadeiros nomes em sigilo. Inicialmente, revelaram não se incomodar em apresentar seus nomes reais, mas, em acordo com os formadores, estabelecemos nomes relacionados às suas identidades, que não os expunham publicamente.
Para cada encontro, eram levados os textos encaminhados aos participantes, organizados em uma pasta, juntamente com uma caderneta de anotações, a fim de registrarmos o que fosse necessário, e o gravador, devidamente testado, para que evitássemos problemas com as gravações. Apesar de atentarmos para todos os cuidados necessários, a gravação da primeira entrevista com José apresentou alteração no tom das vozes, em conseqüência do desgaste das pilhas do gravador. Felizmente, a alteração do som não prejudicou a audição das narrativas. De qualquer forma, tendo em vista o transtorno vivenciado, providenciamos um estoque de pilhas para cada encontro.
A elaboração do roteiro de entrevista exigiu a compilação e organização de informações de diversas fontes. Os enunciados que o compõem foram pensados e redigidos a partir dos questionamentos que inspiraram a construção desta pesquisa, dos objetivos que a orientam e do conhecimento de outros roteiros42, utilizados em pesquisas com histórias de vida.
Para o primeiro encontro de entrevistas, pensamos que seria interessante apresentar algumas orientações43 sobre como elas seriam encaminhadas, pois algumas preocupações surgiram após o planejamento detalhado das interações. Esse texto de orientações foi lido junto aos entrevistados e entregue a eles na forma impressa, a fim de que
42 Destacamos como de fundamental contribuição o roteiro de entrevista construído por Monteiro (2006). 43 Texto de orientações - Apêndice E.
completasse o material de informações enviado anteriormente. Nossa intenção foi de esclarecimento total sobre todos os encaminhamentos correspondentes à pesquisa.
Os entrevistados foram informados de que as intervenções da entrevistadora seriam mínimas e que poderiam sinalizar uma pausa para a narrativa, quando considerassem necessário. Durante as entrevistas, Valério parecia incansável e muito disposto a compartilhar sua história de vida, sem solicitar pausas para descansar ou beber um pouco de água. Talvez por encontrar-se em sua própria casa, José sentia-se mais descontraído para realizar uma pausa, e servia café, biscoitos e água para saborearmos e descansarmos um pouco. Também se mostrava satisfeito e entusiasmado ao recordar momentos de sua trajetória.
O relato dos dois sujeitos foram gravados em cinco horas, aproximadamente, divididas em dois períodos de dias diferentes, devido aos inúmeros compromissos que apresentavam, e ao cansaço que os relatos acarretam aos narradores.
Alguns ruídos e interrupções eventuais ocorreram durante o desenvolvimento da narrativa de Valério, mas não a prejudicaram, pois ele sinalizava às pessoas que o procuravam que não estava disponível naquele momento. Havia um certo trânsito de pessoas pela sala para uso da copiadora, e o som de crianças que se encontravam numa escola ao lado da Diretoria. Mas a pronúncia clara, bem articulada e, na maioria das vezes, estável quanto à tonalidade, tornava compreensível a voz de Valério, o que não acarretou dificuldades para a realização das transcrições. Antes de iniciarmos as gravações, combinávamos o tempo disponível que tínhamos para a atividade, a fim de que o entrevistado não se sentisse sobrecarregado.
As gravações com José eram feitas em seu apartamento, localizado no décimo andar de um prédio, onde costumava ouvir música clássica, em volume baixo, que não era captado nas gravações. Neste clima agradável, eu ouvia suas narrativas por horas e, às vezes, o vento que fazia tremer as janelas atrapalhava um pouco minha atenção, sem prejudicar a clareza das gravações. No decorrer das entrevistas, de tempos em tempos, eu observava a potência das pilhas, por meio de uma luz no gravador, e propunha uma rápida pausa para testá-lo, garantindo a qualidade técnica do som.
Preferimos não intervir durante a narrativa dos entrevistados, a fim de que ela seguisse as determinações seletivas da memória, considerando que o roteiro já havia colocado
desafios a ela, fazendo com que escavasse o tempo44. Além disso, nesta ocasião, lembramos que em experiências anteriores, com entrevistas deste tipo, pequenas intervenções provocaram
grandes digressões, e desviaram as narrativas de nossos objetivos. Além disso, ponderamos que a liberdade de expressão dos entrevistados seria fundamental, pois faria brotar informações valiosas de temas variados (DEMARTINI, 1988).
No decorrer das entrevistas, contávamos com uma caderneta de anotações para registrar dúvidas em relação a nomes, lugares, situações, épocas, e outras informações que, ao final das gravações, eram elucidadas para auxiliar na interpretação das narrativas. O conteúdo dessas anotações era visível aos entrevistados, que antes de iniciarem suas falas, eram informados a respeito desse procedimento. Após a finalização dos relatos, discutíamos as anotações.
A proximidade proporcionada pelas interações, vivenciadas durante as entrevistas, nos fez sentir a importância deste tipo de encontro para nossa constituição enquanto seres humanos e profissionais: compartilhar experiências de aprender e ensinar é um ato de conhecimento, em que refletimos sobre como vamos nos fazendo a partir dos(as) outros(as), ao nos encontrarmos com eles(as) naquilo que nos une, pois ajudamos a construir o mesmo contexto, e fazemos parte da mesma história social e cultural. Por outro lado, embora não houvesse intervenções por parte da pesquisadora no decorrer destas interações, o quadro teórico, bem como a metodologia, que temos como referenciais, são colocados em discussão para nós (DEMARTINI, 1988), conduzindo-nos a inúmeras relações, entre a História, os sistemas, o trabalho e a vida dos indivíduos.
Adentrar a vida de cada narrador nos reportava à práxis histórica de Paulo Freire, às suas explanações sobre a inconclusão humana, sobre o contínuo movimento de estar sendo dos indivíduos, que explica sua busca constante pelo conhecimento com outras pessoas, mediados por seu mundo, que os condiciona, mas não determina. Por estarem voltados, ontologicamente, à criação, e não à adaptação, os seres humanos são históricos, são seres que constroem suas realidades e são construídos por elas, ao pensarem, elaborarem e implementarem ações junto a outras pessoas, contribuindo para os rumos do trabalho que produzem. Neste sentido, os discursos e as práticas que acreditam e assumem, como membros de um coletivo, no contexto de um sistema de ensino, constituem suas histórias, ajudando a constituir as histórias de outros(as), e a história do próprio sistema.