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Skriving på norsk som andrespråk

As transcrições foram realizadas pela própria pesquisadora, que teve a oportunidade de reviver os momentos da entrevista e fazer reflexões sobre os episódios

narrados, associações entre os mesmos e as teorias estudadas, relações com suas próprias experiências, análises preliminares e anotações sobre suas impressões, idéias, opiniões, concepções, questionamentos, enfim, sobre tudo o que as narrativas faziam emergir do conhecimento e da história da pesquisadora.

Pude constatar a relevância desse momento para quem pesquisa, pois promove o diálogo entre duas histórias: a de quem narra e a de quem ouve, fazendo com que o(a) ouvinte se deixe “abraçar” pelo enredo. Portanto, longe de parecer perda de tempo, a transcrição significa o reviver da interação, mesmo que estabelecida no silêncio da pesquisadora, que vivencia uma conversa interior entre as histórias de si e do outro, e as teorias que conhece. Neste caso, a referência a autores(as), lugares, fatos históricos, programas e projetos etc, incitou-me à curiosidade de buscar aprofundamento das informações pela internet, ampliando minha visão de mundo.

Demartini (1988) discute os cuidados e problemas em relação à fase de produção do material escrito, pois este não corresponde totalmente às memórias faladas. Ele se configura em um novo material, que não retrata o clima da entrevista, os gestos, a voz, a entonação, as ênfases do entrevistado.

Minha experiência atestou a riqueza desta ocasião, como um encontro com os processos de aprendizagem das pessoas ouvidas, como um tempo de ampliação de conhecimentos pela inserção que fazemos na história dos outros, como uma conversa na qual nos identificamos pela descoberta de similaridades e divergências. A transcrição demonstrou ser também a oportunidade para percebermos o quanto as falas sobrepostas são desrespeitosas, pois ferem nossos ouvidos no momento da escrita. E não conseguimos observar tal atitude enquanto tentamos nos impor no discurso. Observar esse desrespeito significa um alerta à contenção de nossa ansiedade, enquanto estamos no domínio da interlocução, sabendo aguardar o espaço de fala, de maneira sensata.

Ao finalizar a transcrição dos relatos de vida, enviei o texto da narrativa aos entrevistados, por e-mail e na forma impressa, para que fizessem as alterações, complementações, reduções etc, que percebessem como necessárias. Enquanto isso, verifiquei se os depoimentos contemplavam os enunciados contidos no roteiro. Caso faltassem informações relevantes, estas seriam levantadas por meio de perguntas diretas, específicas sobre o assunto demandado, em um outro encontro. No caso de Valério e José, não houve necessidade de retomarmos os relatos para complementar informações.

As diversas leituras e sínteses escritas que realizamos do material, já revisado pelo entrevistado, inspiraram diferentes formas de apontamentos, que eram dispostos à

margem do texto, sobre as experiências fundamentais da vida como um todo, personagens importantes, comportamentos e situações, sobre períodos e datas relevantes, correspondentes aos eixos temáticos do roteiro (dados do entrevistado, vida anterior à escolarização, escolarização, formação acadêmica, trajetória profissional como educador e atuação na educação contínua de educadores/as), sobre os papéis desempenhados (enquanto criança, filho, estudante, trabalhador, professor, diretor, supervisor). Palavras-chave eram registradas a cada parágrafo, acompanhadas por números, que representavam os papéis desempenhados, a fim de que pudéssemos identificar, quantificar e agrupar informações relacionadas a cada época e a cada atividade, considerando que muitas não se encontravam numa disposição linear quanto ao tempo. Lembranças sobre diferentes períodos eram retomadas, provocando um vaivém, ora do passado para o presente, ora do presente para o passado.

Os apontamentos feitos à margem do texto deram origem a códigos para as unidades de análise (frases, parágrafos, palavras), posteriormente organizadas em um quadro, dentro de categorias - temáticas gerais (DEMARTINI, 1988), referentes aos eixos do roteiro, como subcategorias - subtemas (DEMARTINI, 1988) relevantes que emergem de cada etapa da vida, ou seja, de cada categoria, e como elementos constituintes (fatores de diferentes naturezas - pessoas, concepções, situações, experiências, cursos, desafios, comportamentos, condições de existência e trabalho, relações interpessoais etc – que, de alguma forma, causaram impacto, e que estão relacionados às categorias e subcategorias), os quais influenciaram fortemente a constituição dos entrevistados, enquanto indivíduos e profissionais. Em alguns trechos, uma unidade de análise continha mais de um código, no entanto priorizávamos as contribuições que pudessem oferecer discussões mais aprofundadas sobre a temática pesquisada, de acordo com os objetivos pretendidos.

Realizamos um esforço de fidelidade às expressões dos entrevistados para a exposição de seus elementos constituintes, mantendo o sentido relacionado às palavras deles. Muitas vezes, esses elementos foram diretamente apontados como relevantes pelos próprios entrevistados, durante seus relatos. Outras vezes, eles foram considerados fundamentais na análise da pesquisadora, pela ênfase oferecida a eles na narrativa, pela maneira reincidente com que foram tratados, pelas suas relações com mudanças em âmbitos da vida e da profissão.

Procedendo desta forma, atendemos aos componentes de análise da MCC – transcrição, codificação e agrupamento, descrição e interpretação (GÓMEZ et al, 2006) – para a organização dos dados nos quadros, estruturados dentro de um nível de análise básico, que envolve a categorização das informações sob as dimensões exclusoras (chamadas neste

trabalho de limitadoras) e transformadoras. No decorrer da leitura profunda das transcrições, os elementos constituintes eram caracterizados como limitadores ou transformadores e, em algumas situações, poderiam ser incluídos em ambas.

Seguindo as concepções da MCC, situações, idéias e ações mostraram-se limitadoras quando ofereciam problemas à emancipação pessoal e profissional das pessoas, ajudando a ocultar ou impedir formas mais críticas e humanizantes de pensar, olhar e proceder, no contexto da vida e do trabalho. Eram barreiras que provocam obstáculos à transformação social de indivíduos e coletivos, em direção a benefícios. As situações, idéias ou ações eram de natureza transformadora quando representavam meios de avanço profissional, para si mesmo e para as pessoas com as quais se relacionavam. Eram formas de superação das dimensões exclusoras/limitadoras. Pautadas nessas concepções, os elementos relacionados à trajetória de cada sujeito investigado foram classificados como transformadores ou limitadores pela pesquisadora, e validados com os participantes da pesquisa.

Para a elaboração dos quadros, com informações sobre as histórias de vida, decidimos recortar o texto das narrativas, a exemplo da experiência de Demartini (1988), devido à extensão e à variedade dos assuntos abordados, visando organizar os elementos constituintes, referentes a cada subtema, em ordem cronológica, o que não eliminou a referência ao contexto global da entrevista para o entendimento dos relatos.

A caracterização e a organização das informações, contidas no quadro de categorias, subcategorias e elementos constituintes, foram apresentadas e discutidas com os entrevistados, tendo em vista a questão e os objetivos orientadores da pesquisa, a fim de que pudessem ser validadas para a construção dos resultados. Os quadros de análise são apresentados neste trabalho após a exposição da síntese de cada história de vida.

Durante esse processo de “mergulho” nas histórias de vida, percebi que nos faltou prever a associação entre eixos do roteiro pois, muitas vezes, certas atividades ocupavam o mesmo tempo na vida das pessoas, como por exemplo, as atividades de estudo e trabalho, o que pode fazer grande diferença para o entendimento da constituição de cada pessoa. Por isso, decidimos acrescentar esse aspecto da vida, que não estava previsto, ao quadro de análise.

Compartilhar histórias de vida revelou-se a nós como um ato de conhecimento, entre outras razões, por levar-nos a uma auto-reflexão a partir do que é constitutivo do(a) outro(a); é um encontro entre pessoas que desvela aquilo que nos une e nos distancia, pois fazemos parte do mesmo contexto social e histórico, e também manifestamos peculiaridades.

Os relatos de vida são preciosos arquivos históricos não oficiais, prestes a desaparecer com seus protagonistas, que permitem visualizar a forma como os condicionantes culturais, políticos, sociais operam nos indivíduos e são objetos da resistência e transformação humanas, como parte das engrenagens burocráticas que movem as instituições, e como limitações impostas pelo mundo social, cultural e econômico. Fatores responsáveis pela emancipação e pela alienação convivem no mesmo espaço, são os “dois lados da mesma moeda”, mas, frequentemente, não são percebidos em suas relações no âmbito do cotidiano. É preciso que nos distanciemos da realidade para ad-mirá-la, como nos expõe Freire (2001b).

Expliquemo-nos: a posição normal do homem no mundo, como um ser da ação e da reflexão, é a de “ad-mirador” do mundo. Como um ser da atividade que é capaz de refletir sobre si e sobre a própria atividade que dele se desliga, o homem é capaz de “afastar-se” do mundo para ficar nele e com ele. Somente o homem é capaz de realizar esta operação de que resulta sua inserção crítica na realidade. “Ad-mirar” a realidade significa objetivá-la, apreendê-la como campo de sua ação a reflexão. Significa penetrá-la, cada vez mais lucidamente, para descobrir as inter- relações verdadeiras dos fatos percebidos. (FREIRE, 2001b, p. 31)

Neste sentido, o estudo de uma história de vida é denunciador do confronto entre o universo de uma vida e a organização e funcionamento de um sistema. Tais confrontos, assim como formas de resistência e lutas, têm permanecido silenciados, desprezados, inferiorizados, a fim de que continuem no anonimato, como se não constituíssem a História de um povo, de uma nação.

Por isso, quando as histórias de pessoas concretas não estão totalmente ausentes do discurso oficial, a menção a elas se faz com palavras vazias de significado, como ocorre em documentos oficiais. Os Referenciais para a Formação de Professores (2002) exemplifica nossas argumentações.

No próximo tópico, demonstraremos as ações empreendidas para a organização e exposição das informações que foram analisadas. Posteriormente, apresentaremos uma síntese das histórias de cada formador, mantendo fidelidade ao teor dos depoimentos oferecidos por eles, seguidas dos quadros de categorias, subcategorias e elementos constituintes, com as devidas descrições e interpretações dos dados. Ao longo dos textos, destacaremos as reflexões que tecem, ao estabelecer o parentesco entre tempos (FREIRE, 2003a), que redigimos na forma de citações.